Uma descoberta arqueológica desafia as fronteiras do tempo e surpreende arqueólogos e egiptólogos, ao revelar um encontro entre a literatura clássica e o rito de morte e vida na Antiguidade: um fragmento de papiro, com trechos do poema épico de Homero, a “Ilíada”, foi encontrado na entranhas de uma múmia, enterrada há mais 1900 anos, na necrópole romana de Al- Bahnasa, antiga cidade de Oxirrinco-Oxyrhyncus, um importante centro urbano do Egito greco-romano, a 200 km do Cairo.

Os fragmentos estavam entre as bandagens da múmia, no abdômen de homem adulto. São versos do Livro II de a “Ilíada”, conhecido como o “Catálogo das Naus”. O trecho descreve o momento em que tropas gregas se reúnem para a guerra de Tróia. Homero faz uma apresentação completa dos guerreiros troianos e aqueus, identificando cidades, filiações e a quantidade de naus atribuídas a cada grupo.

Homero grego
Homero, poeta grego: autor de a “Ilíada” e a “Odisseia” | Foto: Reprodução

Duas passagens da Ilíada

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“Da multidão não vou enunciar ou nomear seus membros. Nem se dez línguas fossem minhas, dez bocas tivesse …os líderes das naus destacarei e a totalidade das naus.” — Homero

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“Aos beócios comandavam Peneleu, Leito, Arcecislau, Prorteonore Clônio: eles ocupavam Híria, a rochosa Áulis, Escoino, Escolo, Eteono rica em encostas, Tespeia, Graia e a espaçosa Micalesso.” — Homero

Jornada para o além

A escolha do texto encontrado no papiro não foi casual. De acordo com os  egiptólogos envolvidos na pesquisa, os versos do poema, “Catálogo das Naus”, simbolizam a jornada heroica para o além, uma metáfora recorrente às crenças funerárias da época.

Múmia egípcia 2
Múmia egípcia: cultura era valorizada | Foto: Reprodução

A arqueóloga chefe da missão, Esther Pons, revelou que o texto está escrito em grego Koiné, língua falada no Mediterrâneo oriental a partir da fundação de Alexandria, no século I d.C. A datação indica que a pessoa enterrada em Oxyrhyncus, com os textos de Homero em seu estômago, viveu num Egito cosmopolita.

As escavações em Al-Bahnasa são conduzidas por uma equipe da Universidade de Barcelona, há um ano. No sítio arqueológico “Tumba 65”,além dos fragmentos de papiro, já foram encontrados o  microcosmo de um período que retrata a fusão cultural vivida pelo Egito há 2000 anos, no período ptolomaico e romano, composta por artefatos como inúmeros sarcófagos, alguns intactos, amuletos e línguas de ouro que eram colocadas dentro da boca da múmia pra que ela pudesse se comunicar com os deuses para chegar ao “outro mundo” (prática religiosa tradicional repetida durante milênios), todos os  sarcófagos trazem cenas mitológicas gregas e egípcias pintadas nas tampas dos ataúdes, além de máscaras funerárias que mesclam traços faraônicos e helenísticos.

A Ilídia de Homero 1
Papiro com a “Ilíada”: encontrado por cientistas | Foto: Reprodução

Embora outros papiros já tenham sido encontrados junto a outras múmias ou até dentro dos sarcófagos, como o “Livro dos Mortos”, a descoberta é excepcional pelo contexto, já que esta é a primeira vez que um texto da literatura clássica grega foi identificado como parte de um ritual funerário egípcio. Trata-se do testemunho da riqueza cultural do Egito antigo, que retrata o período greco-romano, do qual a rainha Cleópatra fez parte. Um tempo remoto, quando a terra dos faraós passou a ser governada por dinastias estrangeiras, de origem grega e, posteriormente, romana.

A “Ilíada”, obra-prima (ao lado da “Odisseia”) de Homero, era não somente prestigiada entre as elites locais, mas compartilhada como símbolo de identidade entre gregos e egípcios.

Múmias e Homero
Homero e a descoberta no Egito: conexões culturais e existenciais | Fotos: Reproduções

Os pesquisadores acreditam que a múmia seja de um funcionário administrativo ou de um comerciante, dada à sofisticação dos artefatos encontrados no sarcófago.

O texto de Homero, em seu abdômen, joga luz a um antigo debate que muitos egiptólogos e arqueólogos vêm afirmando há tempos: que, além de Alexandria, no período greco-romano egípcio,  Oxirrinco também foi frequentada por intelectuais e funcionava como centro de aprendizagem e fonte do saber, assim como Heródoto e Estrabão mencionaram em seus textos. Oxirrinco guardava uma das principais bibliotecas do mundo antigo e foi um polo importante produção de papiros na antiguidade. 

Ilíada de Homero

A “Ilíada”, num contexto de ritual fúnebre, é uma prova de que os  textos helênicos não eram somente  lidos, mas intimamente revividos (até na morte) como catalizador de jornada épica, e que também  era parte do processo híbrido-religioso que fez o deus grego Aquiles se transformar no deus egípcio Osíris e vice-versa.

Para gregos, romanos e egípcios, a transmutação dos deuses não alterava o que eles representavam no mundo metafísico, já que ambos renasciam junto à alma da pessoa falecida após a “viagem” para este “outro mundo”. E, lá, ressurgiam em forma de luz.