Em colaboração com Tiago Vechi

Embora o início do pré-natal seja quase universal no Brasil, com 99,4% das gestantes comparecendo à primeira consulta, a continuidade do acompanhamento ainda é um desafio. Dados do Centro Internacional de Equidade em Saúde, em parceria com a Umane, mostram que 21,9% das mulheres não realizam o mínimo de sete consultas recomendadas para uma gestação segura.

O levantamento evidencia desigualdades profundas. Entre mulheres com maior escolaridade, 86,5% completam o pré-natal, enquanto entre as gestantes sem instrução formal o índice cai para 44,2%. No recorte racial, as indígenas são as mais afetadas, com apenas 51,5% de cobertura completa. Quando se cruzam raça e escolaridade, o cenário se agrava ainda mais, com somente 19% das indígenas sem estudo chegando à sétima consulta.

O estudo analisou mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados no sistema do Ministério da Saúde em 2023 e aponta também uma queda na frequência das consultas conforme o parto se aproxima, um dos pontos que mais preocupam especialistas.

Em entrevista ao Jornal Opção o ginecologista e obstetra Gabriel Miguel, explica que a falsa sensação de segurança pode colocar mãe e bebê em risco. “O pré-natal não é uma lista de tarefas. É o acompanhamento da vida. Ao faltar nas últimas consultas, a gestante pode deixar de identificar problemas que surgem na reta final, como a pré-eclâmpsia”, afirma.

Segundo o especialista, o mínimo de sete consultas deve ser visto como base, e não como ideal. “No último mês, o recomendado é acompanhamento semanal. Uma gestação de baixo risco costuma exigir entre dez e doze consultas para garantir mais segurança”, explica.

As desigualdades também aparecem no recorte regional. Enquanto o Sul registra 85% de cobertura completa, o Norte tem apenas 63,3%. Para o médico, o problema vai além da estrutura de atendimento.

“Há um gargalo social. Não adianta ter o serviço se a gestante não consegue chegar até ele. Falta transporte, acesso e, em muitos casos, busca ativa das equipes de saúde”, diz.

Ele também destaca a importância do envolvimento do parceiro no acompanhamento. “Quando o pai participa, o pré-natal deixa de ser uma responsabilidade individual e passa a ser um compromisso da família. Isso aumenta a adesão e fortalece o cuidado com mãe e bebê”, conclui.

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