Ronaldo Caiado: a vitória do animal novo na floresta

Inteligente, articulado, surpreendente e carismático, falava de coisas novas e de práticas e conceitos diferentes dos usuais e se mostrava veemente na defesa de suas opiniões e posturas

Ronaldo Caiado não era retórico, timorato ou benevolente. Mostrava-se, ao contrário, muito direto e franco | Foto: Divulgação

Marco Antonio da Silva Lemos*

Conheci Ronaldo Caiado pouco antes de 1985, jovens ambos (sou de 1946, ele de 1948), eu jornalista e ele médico e ruralista, e vi-me, dada minha experiência e para minha grande surpresa, diante de um animal novo na floresta, diferente de tudo que já tinha então visto e imaginado. Nada me preparara para o insólito da ocasião. Inteligente, articulado, surpreendente e carismático, falava de coisas novas e de práticas e conceitos diferentes dos usuais e se mostrava veemente na defesa de suas opiniões e posturas.

O simples fato de pensar, e pensar pela própria cabeça, já o tornava muitíssimo singular. Mas, para mais do que isso, inspirava confiança e se fazia acompanhar de algo bastante escasso nos meios políticos, até hoje, escora no senso comum. Que vem a ser o modo de partilhar da atitude da maioria das pessoas, noções comumente admitidas pelos indivíduos, representando o conhecimento adquirido pelo homem partir de experiências, vivências e observações do mundo.

Ronaldo Caiado não era retórico, timorato ou benevolente. Mostrava-se, ao contrário, muito direto e franco. Não escamoteava nem tergiversava temas nem opiniões, e os enfrentava de forma clara, sem procurar ocultá-los ou dissimulá-los, pouco interessado em despertar simpatias. Não tinha medo de briga. Era aquela figura que sempre se desejava, nas peladas ou confrontos de rua, que jogasse no time da gente. Que defendesse nosso lado e nossas posições, a aceitar o destino comum do grupo, nos bons e maus momentos, nas vitórias e nas derrotas.

Capaz de mandar o braço, ou descer o pé, se preciso, sem largar companheiro na chapada. Esbanjava adrenalina, como se estivesse sempre à procura de um desafio e de demolir antagonistas. E era alguém que amava remar contra a corrente. Alguém, em nosso temperamento equinocial latino, de postura, para se amar ou odiar desabridamente com todas as forças. Não havia como eu evitar ser envolvido pelo fascínio daquela personagem.

Esbanjava adrenalina, como se estivesse sempre à procura de um desafio e de demolir antagonistas

Vivíamos, então, o auge da onda esquerdista que assolava o país, após o advento da anistia política em 1979 e ante os estertores finais do regime militar, O quer que fosse de esquerda e revolucionário, o punho esquerdo erguido e a pressa em criar um projeto do “novo homem” socialista tornava-se o dernier cri do momento, canônico e absolutamente fora de discussão. Já ao contrário, adeptos ou simpatizantes do regime militar agônico e mesmo os de pensamento político conservador eram caçados a porrete nas ruas, vielas e becos como ratazanas prenhas, diria Nelson Rodrigues.

Os não-esquerdistas não eram considerados apenas adversários, mas sim inimigos irredimíveis. Impunha-se na ordem política não sua derrota ou mera neutralização, mas sim sua completa e impiedosa aniquilação. O marxismo, tanto em sua versão socialista ou comunista, estava guindado a reluzir como a última bolacha do pacote: o centrismo, ou “ficar em cima do muro”, se tornava covardia ou alienação, e simpatizar com a direita ou os militares constituía crime capital ou de lesa-pátria. Quem rejeitasse a Teologia da Libertação se transformava em leproso religioso. Ricos e capitalistas converteram-se em párias démodées, a reforma agrária, na “lei ou na marra”, tornou-se imperativa.

O máximo do opróbrio era se ver apontado em público como “direitista” e burguês, ou então “reacionário” ou “fascista”. A suprema heresia era contrariar ou recusar-se à chancela do Zeitgeist esquerdista vigente, totalmente hegemônico nos meios de comunicação, universidades e na elites bem-pensantes. Com a hegemonia cultural, triunfo de Gramsci sobre Lênin, Stálin e Trotsky tornou-se esmagador e irrecusável. A guerra cultural havia vencido e a revolução marxista no Brasil era uma realidade, sem necessidade de se disparar um só tiro ou tomar uma única fortaleza. A praga disseminava-se sem oposição como tiririca ou pulgão em jardim.

Imagine-se aparecer num tal cenário um Ronaldo Caiado. Foi um Deus nos acuda. Combateu na prática e na teoria a ação dos esquerdistas, expondo-lhes a farsa política de suas ações e a metodologia de tomada do poder que ocultava seus objetivos. Criou o conceito de terra produtiva Lembro-me bem quando, numa de suas primeiras entrevistas, como líder dos fazendeiros (não se popularizara ainda o termo “ruralista”), Ronaldo questionou a denominação de “sem-terra” dada aos invasores de propriedades rurais (“por que “sem-terra”? Por que não existem os “sem-banco” ?”) e desmascarou vários “invasores” ao questioná-los sobre coisas corriqueiras para qualquer agricultor ou homem do campo, mas absolutamente estranhas para seres urbanos, indagando-lhes sobre que época seria mais propícia ao plantio de milho ou feijão.

Nenhum passava na prova, e todos acabavam por confessar que sua verdadeira atividade era na área urbana e que o pano de fundo de sua ação era intimidar o setor produtivo rural. Rasgou a máscara dos líderes do MST, ao mostrá-los como parasitas do próprio movimento, ao contrário das massas que ocupavam as fazendas em casebres de lona preta, numa guerra gramsciana pela tomada do poder, subsidiados com recursos públicos ou de ONGs. Foi um dos líderes conservadores da Constituinte de 1988, impedindo que a nova Constituinte tivesse o viés desejado pela esquerda.

Combateu na prática e na teoria a ação dos esquerdistas, expondo-lhes a farsa política de suas ações e a metodologia de tomada do poder que ocultava seus objetivos | Foto: Júnior Guimarães

Desferiu um golpe mortal na indústria de invasões do PT e MST, ao demonstrar sua pífia produtividade, que a bandeira da reforma agrária tal como proposta era ilusória e que essa mobilização apresentava exclusivo intuito de manipulação ideológica no campo, a serviço de um projeto político. Mais do que tudo, Ronaldo Caiado jogava aberto, e logrou, nessa sua ação, com tenacidade e sobretudo com coerência, mobilizar e unir os setores ligados ao campo e à produção, conferindo-lhes sobretudo legitimidade e ânimo. A esquerda, obviamente, reagiu com fúria e contundência.

Assestou contra Caiado as táticas e marquetagens que usualmente davam certo com líderes comuns, mas logo se desarvorou. Ligá-lo ao defunto regime militar era impossível, pois em 1964 ele contava somente 16 anos de idade. Conectá-lo desfavoravelmente com a história política de sua família, nas décadas de 10 e 20, época em que os Caiado mandavam em Goiás, não teve sucesso. Não havia também como classificá-lo de grileiro, já que suas propriedades rurais eram legítimas e produtivas.

Vinculá-lo a mortes no campo e conflitos entre invasores e proprietários rurais foi expediente que também não funcionou. A última carta jogada pelos desafetos foram tentativas de acusá-lo de corrupção. Durante mais de vinte anos, Ronaldo Caiado teve sua vida política, profissional e pessoal pacientemente escarafunchada e submetida a pente fino pelos adversários, à esquerda e à direita, sem sucesso; a iniciativa só serviu para consolidar sua imagem de correção e honestidade.

Nunca duvidei de que a trajetória de Ronaldo Caiado estava predestinada a voos maiores, galgando posições de destaque e importância. Não teve êxito em sua candidatura presidencial, em 1989, de resto ambiciosa, prematura e de resultado previsível, para o que, por sinal, tive a lealdade de adverti-lo. Sua carreira foi retomada, tornando-se parlamentar de sucesso, no que jamais houve qualquer surpresa. Desde sempre mantive a expectativa de vê-lo num cargo executivo, função para a qual sempre me pareceu especialmente talhado, e em que pudesse dar vazão plena a seu talento, criatividade, coragem, capacidade de trabalho e determinação, mas nunca houve um governante que se atrevesse a cometer tal ousadia.

Nunca duvidei de que a trajetória de Ronaldo Caiado estava predestinada a voos maiores, galgando posições de destaque e importância | Foto: Divulgação

Aliás, é recorrente na política de Goiás que nenhum líder político jamais permitiu que alguma outra liderança crescesse à sua sombra. O exemplo de Pedro Ludovico é bastante ilustrativo, Após governar quinze anos na ditadura Vargas, entre 1930 e 1945, Pedro filiou-se ao PSD e lançou à sua sucessão a candidatura de seu primo e secretário pessoal Juca Ludovico. As bases pessedistas não concordaram, abriram dissidência e lançaram, pela oposição, a candidatura de Jerônimo Coimbra Bueno, que venceu o pleito.

Em 1950, o próprio Pedro Ludovico foi o candidato do PSD, elegendo-se sem objeções. Em 1955, Pedro Ludovico outra vez desafiou as bases do PSD, e impôs o mesmo Juca Ludovico de oito anos atrás. O pessedista preterido, Galeno Paranhos, compôs-se com a oposição, e, em eleições tumultuadas, que só viriam a ser decididas pelo TRE anos depois, venceu o pleito, mas não levou. Quem governou foi Juca, sub judice. Em 1958, a oposição tentou articular uma candidatura única, mas a idéia naufragou, torpedeada por Pedro, que elegeu José Feliciano Ferreira. Em 1960, o candidato pessedista era o filho do próprio Pedro Ludovico, eleito sem atropelos.

Já sob governo militar, com os novos partidos Arena e MDB, em 1965 Pedro tornou a recusar qualquer coalizão com a oposição, negou-se a optar por algum dos favoritos do MDB (Sebastião Arantes e Castro Costa) e impôs Peixoto da Silveira, o que provocou uma ruptura no partido. Os rebeldes se uniram â Arena e venceram a disputa eleitoral de então com Otávio Lage. Caso tivessem ocorrido as eleições diretas em 1970, o favorito absoluto era Iris Rezende, pelo MDB, que não contava com a simpatia e o beneplácito de Pedro Ludovico, o chefe do partido.

Esses dois, Iris e Pedro, desentenderam-se caprichosamente em outubro de 1969, briga que culminou com a cassação de ambos pelo governo militar e eleições indiretas para o governo no ano seguinte. Entre 1970 e 1982, nenhum governador indireto logrou fazer seu próprio sucessor. Com a volta das eleições diretas para o governo do Estado, a partir de 1982 o PMDB foi vitorioso com seus candidatos naturais, Iris Rezende (1982 e 1994), Henrique Santillo (1986) e Maguito Vilela (1990), Em 1998, a história mudaria significativamente. Iris tentaria a reeleição, pelo PMDB, e um outsider, (Marconi Perillo), ex-PMDB, se lançaria a governador pelo PSDB, em aliança com o PFL. Iris foi surpreendentemente derrotado, e essa nova composição de forças triunfaria.

Ronaldo Caiado chega, assim, ao seu destino manifesto e irreprimível, o governo do Estado, coroando as previsões e expectativas que sempre mantive a seu respeito | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Marconi aprimorou o processo de eliminar ameaças á sua liderança e hegemonia, impedindo o surgimento de rivais internos e mesmo externos, especializando-se em desidratar ambos os lados da balança do poder. De um lado, controlava com mão de ferro o PSDB, enquanto de outro esvaziava o PMDB, atraindo seus quadros, e impedia o ex-aliado PFL (depois DEM) de crescer e se estabilizar, promovendo uma sistemática razzia sobre seus deputados, prefeitos, vereadores e lideranças do interior, além de apoiar uma de suas facções, a que fazia oposição a Ronaldo Caiado. Essa blitzkrieg vigorou de 1999 a 2014, o que lhe assegurou o controle do processo de poder local entre 2002 e 2014.

Com os peemedistas, adotou-se o sistema do chicote e da rapadura: a cada lambada, uma lambida. Já com o DEM a conversa era diferente: seus quadros eram prontamente canibalizados por Marconi, com adesões em massa, em troca de facilidades e vantagens prometidas e escrupulosamente atendidas, sangrando o partido, disseminando a cizânia nas hostes de oposição a cada nova eleição. Em suma, Marconi tinha plena convicção de que o adversário a ser batido era apenas Ronaldo Caiado.

As últimas eleições demonstraram isso, uma vez que Caiado elegeu-se governador em primeiro turno, batendo PSDB, PMDB e PT, e o próprio Marconi, desgastado politicamente e enroscado em denúncias de corrupção, tentou e perdeu a eleição para o Senado (para a qual era indisputado favorito) em circunstâncias vexatórias, e ainda sem o consolo de um foro privilegiado que poderia salvá-lo de problemas com a Justiça. Foi vítima de sua húbris e de sua filáucia.

Ronaldo Caiado chega, assim, ao seu destino manifesto e irreprimível, o governo do Estado, coroando as previsões e expectativas que sempre mantive a seu respeito. E, com certeza, inaugurando uma nova era em Goiás. Meus votos são que confirme plenamente, na administração do Estado, tudo aquilo que já demonstrou ser capaz, inspirado pela força e fé dos que atenderam à sua convocação.

*Marco Antonio da Silva Lemos é desembargador do Distrito Federal

3 respostas para “Ronaldo Caiado: a vitória do animal novo na floresta”

  1. Oscar Gomes disse:

    Difetente mesmo. É um caloteiro.

  2. Fabio Saboya disse:

    Estimado Marco Antonio, não nos vemos há mais de 30 anos. Ao ler esse seu testemunho histórico, confesso-lhe que a minha admiração só fez aumentar; a sua verve, estilo, fidelidade e o poder de encantamento das letras sem que se desviem do contexto são qualidades que não perderam a essência e só aprimoraram-se como o bom vinho. Parabéns, Amigo ! Muito obrigado pela aula e por tão bem ilustrar a política do Goiás; e, em especial, os passos do nosso bom Ronaldo Caiado, Líder do Goiás, Líder do Brasil ! Feliz 2019, grande abraço ! Fabio Saboya

  3. Ricardo disse:

    Quanto será que ganha um puxa-saco de político? Será que recebe em dia? Provavelmente não tem filhos passando fome e sem remédios necessários a sua vida. Caiado caloteiro.

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