Quando o Brasil ainda discutia se as mulheres deveriam votar, uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte já havia tomado sua decisão. Em 1928, apenas um ano depois de o estado se tornar o primeiro do país a reconhecer o voto feminino, os eleitores de Lajes colocaram uma mulher na prefeitura. Seu nome era Alzira Soriano. Entrava para a história como a primeira mulher eleita para governar um município na América Latina.

Quase cem anos depois, a ousadia continua sendo uma característica do Rio Grande do Norte. O estado que abriu espaço para as mulheres antes do restante do país também se transformou no maior produtor de energia eólica do Brasil. Em determinados períodos do ano, gera mais eletricidade do que consome. É um dos protagonistas nacionais da transição energética. E, ao mesmo tempo, lidera o crescimento do turismo internacional brasileiro, registrando aumento de 159% na chegada de estrangeiros apenas no primeiro trimestre de 2026. Foram 26.851 visitantes internacionais em três meses, o maior crescimento proporcional do país.

Mas nenhuma dessas estatísticas, isoladamente, explica o que está acontecendo no território potiguar.

Ao percorrer Natal, Pipa, o litoral norte, as áreas de dunas móveis e os caminhos que avançam para o Seridó, surge a impressão de que o Rio Grande do Norte atravessa um momento raro: o de tentar construir um novo ciclo de desenvolvimento sem romper completamente com a sua identidade.

É justamente essa leitura que aparece nas entrevistas concedidas ao Jornal Opção pela governadora Fátima Bezerra, pela secretária estadual de Turismo, Marina Marinho, e pelo presidente da Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur), Raoni Fernandes.

São vozes diferentes, mas que convergem para uma mesma narrativa: a de um estado que pretende crescer, atrair investimentos, ampliar o turismo internacional e liderar a economia verde sem perder de vista suas raízes culturais, sociais e ambientais.

Onde as mulheres chegaram primeiro

Posse de Alzira Soriano na prefeitura de Lajes, junto com seu secretariado | Foto: Arquivo Pessoal/Rudolfo Lago

Para entender o Rio Grande do Norte contemporâneo, talvez seja necessário voltar quase um século.

Quando fala sobre a tradição feminina na política potiguar, Fátima Bezerra não começa sua resposta citando governos recentes. Ela recua até as pioneiras.

O Rio Grande do Norte tem uma história muito bonita de protagonismo feminino. Foi o primeiro estado do Brasil a garantir o voto feminino, em 1927, muito antes de essa conquista se tornar realidade em todo o país

A governadora associa essa tradição à formação política e cultural do estado.

“Isso revela uma tradição democrática e avançada do povo potiguar, que aprendeu a reconhecer a capacidade, a liderança e a competência das mulheres na vida pública.”

A fala ganha peso quando observada no contexto nacional.

O Rio Grande do Norte é o estado brasileiro que mais elegeu mulheres governadoras. Não se trata de um fato isolado. Existe uma linha histórica que passa por Alzira Soriano, pela educadora e escritora Nísia Floresta — considerada uma das pioneiras do feminismo brasileiro — e chega às lideranças femininas contemporâneas.

“Eu acredito que cada mulher que ocupa espaços de poder hoje carrega também o legado dessas pioneiras que abriram caminhos enfrentando preconceitos e barreiras enormes”, afirma.

Num país em que a participação feminina na política ainda avança lentamente, o Rio Grande do Norte construiu uma trajetória singular.

Mas a capacidade de desafiar padrões não ficou restrita à política.

O vento que move a economia

Poucos estados brasileiros transformaram um recurso natural em vetor econômico com tanta eficiência quanto o Rio Grande do Norte fez com o vento. Ao percorrer as estradas do interior, as torres eólicas surgem no horizonte como parte da paisagem. São centenas delas.

Hoje, o estado responde por mais de 30% de toda a energia eólica produzida no Brasil. São mais de 300 parques em operação e capacidade instalada superior a 11 gigawatts, consolidando a liderança nacional do setor.

Para Fátima Bezerra, o sucesso não é fruto apenas da geografia privilegiada.

“O Rio Grande do Norte virou referência nacional em energia renovável porque reuniu três fatores fundamentais: potencial natural extraordinário, planejamento estratégico e segurança para investimentos.”

Governadora do Rio Grande do Norte (RN), Fátima Bezerra | Foto: Divulgação/Governo RN

O discurso dialoga com uma mudança mais ampla na economia potiguar.

Durante décadas, a imagem do estado esteve associada quase exclusivamente ao turismo de praia. Hoje, energia renovável, hidrogênio verde e inovação tecnológica passaram a integrar o vocabulário do desenvolvimento regional.

“Eu costumo dizer que o vento do Rio Grande do Norte hoje move turbinas, move a economia e move o futuro.”

A frase poderia soar como slogan político. Mas ela traduz uma realidade concreta.

O mesmo vento que atrai praticantes de kitesurf e windsurf para as praias potiguares é também o responsável por uma das maiores revoluções econômicas da história recente do estado.

O turismo que explodiu

Durante muito tempo, o Rio Grande do Norte ocupou um lugar discreto dentro da disputa turística nordestina.

Bahia, Ceará e Pernambuco costumavam concentrar as atenções do mercado internacional.

Esse cenário começa a mudar.

No primeiro trimestre de 2026, o estado registrou crescimento de 159,13% na chegada de turistas estrangeiros, o maior percentual do Brasil. O avanço foi impulsionado pela ampliação das conexões internacionais e pelo fortalecimento da promoção turística em mercados como Argentina, Chile, Portugal e Uruguai.

Para a secretária estadual de Turismo, Marina Marinho, o momento representa uma virada histórica.

“O RN deixou de ser apenas uma promessa e passou a ser uma realidade no cenário turístico mundial.”

A avaliação é respaldada pelos números. Além do aumento de visitantes, houve expansão da conectividade aérea internacional e crescimento expressivo na oferta de assentos para o estado.

Mas Marina insiste em um ponto importante.

O Rio Grande do Norte vai muito além do sol e praia

A frase parece simples. Mas resume uma mudança estratégica. Durante décadas, o marketing turístico do estado esteve concentrado em dunas, praias e passeios de buggy. Agora, a aposta é outra.

“O turista moderno busca autenticidade. Ele quer viver experiências reais, conhecer a cultura local e sentir a essência do destino.”

Essa busca por autenticidade ajuda a explicar a valorização de novos roteiros turísticos, especialmente fora dos destinos tradicionais.

Secretária estadual de Turismo, Marina Marinho | Foto: Divulgação/Governo RN

O Rio Grande do Norte que existe além do cartão-postal

Raoni Fernandes gosta de dizer que o maior diferencial potiguar está na diversidade.

“O Rio Grande do Norte tem a vantagem de resumir em um só estado todos os tipos de experiências que o viajante procura em destinos de praia, a pouca distância um do outro.”

Ele cita praias, falésias, dunas, enseadas, piscinas naturais, esportes de vento, gastronomia e cultura. Mas chama atenção para atrações que começam a ganhar projeção nacional.

Os parrachos de Maracajaú e Rio do Fogo. A Península de Galinhos. O Geoparque Seridó. O Parque Nacional da Furna Feia.

São lugares que ajudam a desmontar a ideia de que o turismo potiguar se resume a Natal e Pipa.

“Há uma grande riqueza de paisagens e destinos diversos que têm potencial de crescimento.”

O Geoparque Seridó talvez seja o melhor exemplo. Localizado no interior do estado, reúne formações geológicas, cânions, sítios arqueológicos e registros rupestres que contam parte da história da ocupação humana no semiárido nordestino.

O Jornal Opção questionou se o aumento de estrangeiros e a valorização imobiliária pode transformar Pipa num destino economicamente forte, mas socialmente excludente.

O Rio Grande do Norte trabalha intensamente para que o turismo beneficie os moradores dos destinos turísticos, promovendo a inclusão produtiva de comunidades indígenas, quilombolas, de pescadores, rendeiras e artesãos, entre outros

“A divulgação turística valoriza a cultura e a gastronomia locais, o que cria oportunidades, gera pertencimento e eleva a auto estima dos moradores dos destinos turísticos. Além disso, estimula o turismo de base comunitária, como forma de criar oportunidades econômicas nas comunidades”, continua Raoni Fernandes.

Presidente da Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur), Raoni Fernandes | Foto: Divulgação/Governo RN

É um turismo diferente daquele vendido nos folhetos tradicionais.

E talvez seja justamente aí que esteja o futuro do estado.

Goiás entrou no radar potiguar?

Entre os mercados considerados estratégicos pelo turismo do Rio Grande do Norte está o Centro-Oeste brasileiro.

Não por acaso, o estado tem ampliado sua presença em feiras e rodadas de negócios realizadas em Goiânia, cidade que abriga a maior feira de turismo da região. Mais de quatro mil profissionais participam anualmente do evento, transformando Goiás em um polo de influência para o mercado turístico nacional.

Para os gestores potiguares, Goiás reúne características importantes: renda crescente, forte cultura de viagens e localização estratégica.

A ligação aérea entre Goiânia e Natal, embora geralmente realizada com escalas, mantém fluxo constante de passageiros e reforça o interesse comercial do mercado goiano pelos destinos do litoral potiguar.

Talvez por isso o Rio Grande do Norte esteja investindo cada vez mais na aproximação com agentes de viagem e operadores do Centro-Oeste.

O objetivo é claro: transformar a curiosidade em fluxo turístico. E transformar fluxo turístico em desenvolvimento.

Porque, no fim das contas, essa parece ser a grande questão que atravessa o Rio Grande do Norte contemporâneo.

Não apenas crescer.

Mas crescer sem perder a alma.


Um olhar particular

Minha chegada ao estado aconteceu em uma tarde de maio, quando o sol já começava a dourar o horizonte e a brisa quente do litoral potiguar anunciava que os próximos dias seriam diferentes de qualquer rotina. Logo ao desembarcar, conheci Sena, guia turístico que parecia reunir em uma única pessoa toda a hospitalidade do povo nordestino. Foi ele quem me ensinou os primeiros passos de forró, me deu logo um apelido com a naturalidade de quem recebe uma velha amiga e conduziu nosso grupo por algumas das paisagens mais impressionantes do litoral brasileiro.

Ao lado dele estava Ana Paula Cadengue, representante do governo do estado, uma mulher de presença marcante, dessas que entram em um ambiente e imediatamente alteram sua atmosfera. Uma figura de presença marcante, capaz de conduzir conversas e atrair naturalmente a atenção dos grupos por onde passava.

A viagem reunia cinco jornalistas de diferentes estados do Brasil. Cada um carregava seu repertório, seus olhares e suas histórias. Mas havia algo em comum entre nós: a expectativa de descobrir um dos destinos mais desejados do Nordeste.

Pipa: o encontro entre a natureza e o mundo

Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte | Foto: Divulgação

O primeiro contato com Pipa aconteceu no Kanto do Marujo, restaurante instalado em uma charmosa rua de pedras que parece condensar toda a essência da vila. Enquanto o cheiro do mar se misturava ao aroma dos pratos servidos nas mesas, observava a movimentação tranquila dos turistas e moradores.

Pipa tem uma capacidade rara de desacelerar quem chega.

Entre um gole de água gelada e uma conversa com Lidiana — guia que trocou a correria de São Paulo pela serenidade do litoral potiguar — comecei a entender por que tantas pessoas chegam para passar alguns dias e acabam ficando para sempre.

Durante décadas, Pipa foi apenas uma pequena vila de pescadores escondida entre falésias coloridas e praias praticamente intocadas. A partir dos anos 1970, surfistas descobriram suas ondas perfeitas e a notícia se espalhou. Hoje, o destino recebe visitantes do mundo inteiro sem perder o charme de lugar pequeno.

As ruas estreitas são ocupadas por pousadas charmosas, galerias de arte, restaurantes internacionais e lojas de artesanato. Não é raro ouvir espanhol sendo falado com a mesma frequência que o português. Argentinos, uruguaios e europeus transformaram a vila em uma espécie de refúgio multicultural cercado por natureza.

Hospedada no Hotel da Pipa, acordei diante de uma vista privilegiada do Atlântico. Da varanda, o mar parecia ocupar todo o horizonte.

Era impossível não criar expectativa para o nascer do sol.

Mas a natureza tinha outros planos.

O dia em que a chuva mudou o roteiro

Na manhã seguinte, nuvens carregadas cobriram o céu.

A chuva adiou a visita ao Chapadão, um dos mirantes mais famosos da região, e alterou a programação. Em compensação, trouxe outra perspectiva sobre Pipa.

Seguimos para o Santuário Ecológico, uma reserva que preserva parte importante da Mata Atlântica local. Entre trilhas cercadas por vegetação nativa, o som dos pássaros substituía qualquer ruído urbano. O cheiro de terra molhada criava uma atmosfera quase cinematográfica.

Santuário Ecológico | Foto: Divulgação

Ali também conhecemos o trabalho do Projeto Tamar, referência nacional na proteção das tartarugas marinhas. Guiados pela bióloga Samantha Barbosa, ouvimos histórias de conservação ambiental e da relação delicada entre o homem e o oceano.

Assim como tantas outras pessoas que conhecemos ao longo da viagem, Samantha também havia sido conquistada por Pipa. O vilarejo parece ter esse efeito.

Mais tarde, chegamos à Ponta do Pirambu. Diante de nós, uma das paisagens mais impressionantes do litoral potiguar.

Do alto das falésias, o mar exibia diferentes tons de azul, enquanto a vegetação encontrava o oceano em um contraste quase impossível de reproduzir em fotografia. Lá embaixo, as ondas quebravam suavemente sobre a areia dourada.

Quando finalmente coloquei os pés na água pela primeira vez, entendi uma característica frequentemente mencionada pelos moradores: o mar do Rio Grande do Norte é surpreendentemente quente. Era como entrar em uma piscina natural.

Antes de seguir viagem, fizemos uma parada no Hotel Pipa Lagoa. O almoço foi daqueles que resumem bem a generosidade da culinária potiguar: pirão preparado na hora, camarões frescos e lagosta servida com simplicidade e sabor. Entre uma conversa e outra, aproveitamos para conhecer a estrutura do hotel, cercado pela tranquilidade da natureza e pelas águas que ajudam a compor uma das paisagens mais bonitas da região. Mais tarde, seguimos para a Lagoa de Guaraíras, onde o encontro entre rio, manguezais e céu cria um cenário que muda de cor a cada instante, acompanhando a luz do dia.

O pôr do sol que parecia pintura

Mas nada me preparou para a Lagoa de Guaraíras.

Ao embarcarmos para o passeio conduzido por Reginaldo, o ritmo da viagem mudou novamente. O motor da embarcação cortava lentamente as águas calmas enquanto o céu começava a mudar de cor.

A lagoa funciona como um enorme berçário natural conectado ao mar por canais e manguezais. Suas margens são cercadas por vegetação preservada e abrigam diversas espécies de aves e animais marinhos.

À medida que o sol descia, o cenário ganhava tons dourados, alaranjados e rosados.

O reflexo da luz na superfície da água criava a sensação de navegar dentro de uma pintura impressionista.

Quando os golfinhos apareceram próximos ao flutuante de Reginaldo, o silêncio tomou conta do grupo. Durante alguns minutos, apenas observamos.

Poucas vezes a natureza se mostra tão generosa.

Ali, olhando os animais surgirem e desaparecerem entre as águas calmas da lagoa, pensei que poderia passar horas — talvez dias — sem sentir necessidade de estar em qualquer outro lugar.

De Pipa a São Miguel do Gostoso

No terceiro dia, deixamos Pipa para trás. O caminho até São Miguel do Gostoso revelou outro lado do Rio Grande do Norte.

Ao longo da estrada, dunas, coqueirais e pequenas comunidades surgiam entre o azul do céu e o verde da vegetação litorânea. Sena e Ana Paula transformavam cada quilômetro em uma aula de história, cultura e curiosidades locais.

Em Natal, embarcamos em um dos passeios mais tradicionais da região: o buggy pelas dunas.

As montanhas de areia pareciam se mover com o vento.

Subir e descer aquelas formações naturais em alta velocidade provoca uma mistura de adrenalina e encantamento difícil de explicar. Em alguns pontos, as dunas encontram lagoas de água doce que surgem como verdadeiros oásis em meio à paisagem árida.

Depois de mergulhos, risadas e muita areia, seguimos para Porto Mirim.

O almoço aconteceu praticamente sobre a praia.

Ali, o tempo parecia obedecer às marés.

O segredo mais bonito do litoral

São Miguel do Gostoso ainda preserva uma característica cada vez mais rara nos destinos turísticos brasileiros: a sensação de descoberta.

Apesar da crescente popularidade, o município mantém um ritmo próprio.

As ruas de areia, as jangadas coloridas e o horizonte aberto criam uma atmosfera tranquila que conquista quem chega.

Na pousada Mi Secreto, fomos recebidos por um dos pores do sol mais bonitos de toda a viagem.

Pousada Mi Secreto | Foto: Divulgação/Mi Secreto

O céu parecia incendiar lentamente.

Laranja, vermelho, dourado e lilás se misturavam sobre o mar enquanto o vento constante — marca registrada da região — atravessava a praia.

O nome da pousada nunca fez tanto sentido.

Havia algo de secreto naquele momento.

Algo que não cabia completamente em palavras.

Mais tarde, caminhamos pela Rua da Xêpa, principal ponto de encontro da cidade. Restaurantes, bares e música ao vivo transformam o local em um grande espaço de convivência onde turistas e moradores compartilham a mesma calçada.

Rua da Xêpa em São Miguel do Gostoso | Foto: Divulgação

O paraíso escondido de Perobas

A despedida do litoral norte aconteceu nos Parrachos de Perobas.

Após navegar cerca de sete quilômetros mar adentro, chegamos a um dos cenários mais impressionantes da costa brasileira.

As piscinas naturais surgem sobre formações de corais e revelam águas incrivelmente transparentes.

Do barco era possível enxergar o fundo.

Peixes coloridos nadavam entre os recifes enquanto a luz do sol atravessava a água cristalina.

Mergulhar ali era como entrar em um aquário natural.

A sensação de flutuar sobre aquele ecossistema preservado permanece entre as lembranças mais marcantes da viagem.

As histórias que ficam

Viajar também é encontrar pessoas.

E foi durante o almoço em Perobas que uma dessas histórias atravessou o roteiro.

Um vendedor de doces se aproximou da mesa.

No olhar carregava uma tristeza impossível de ignorar.

Foi então que contou sobre Filipinho, seu filho.

Conhecido na praia pela simpatia com que vendia cocadas para ajudar a família, o menino teve sua vida transformada quando um vídeo mostrando seu trabalho viralizou nas redes sociais. Milhares de pessoas passaram a conhecer sua história.

Mas o destino interrompeu tudo cedo demais.

Em setembro de 2023, Filipinho e a irmã perderam a vida em um acidente de trânsito na cidade vizinha de Touros.

A comoção mobilizou toda a região.

Enquanto o pai narrava os acontecimentos, o silêncio tomou conta da mesa.

Porque toda viagem também é feita dessas camadas invisíveis.

Não apenas das paisagens que fotografamos, mas das histórias humanas que carregamos de volta.

A noite reservava uma surpresa especial na Vila Cavalo Marinho. O forró já embalava o ambiente quando a chuva começou a cair, mas ninguém parecia disposto a interromper a festa. Pelo contrário: a água trouxe ainda mais encanto ao momento. Entre risadas e passos ainda desajeitados, aprendi com Sena os primeiros movimentos do forró e me deixei conduzir pelo ritmo nordestino. O clima estava tão agradável que parecia pedir uma continuação. De volta à pousada, abrimos uma garrafa de vinho e seguimos para a praia.

Ali, entre o som das ondas e a voz inconfundível de Sinéad O’Connor ao fundo, a viagem chegava ao fim da melhor maneira possível: sem pressa, de frente para o mar.

O Rio Grande do Norte que permanece

Ao embarcar para casa, dias depois, percebi que o Rio Grande do Norte havia me apresentado muito mais do que praias paradisíacas.

Mostrou um estado onde falésias encontram o oceano, onde golfinhos acompanham o pôr do sol, onde dunas parecem não ter fim e onde comunidades inteiras preservam sua identidade mesmo diante do crescimento do turismo.

Mas, sobretudo, revelou um povo que recebe visitantes como quem abre as portas de casa.

Talvez seja por isso que tantos chegam apenas para conhecer.

E tantos outros acabam ficando.

A jornalista viajou a convite do Governo do RN/Emprotur e LATAM.