Na pandemia, setor cultural goiano vive crise por causa da paralisação das atividades

Profissionais apontam dificuldades geradas pelos reflexos da pandemia, como perda de faturamento e desemprego. Muitos tem migrado para outras atividades

Por Mirelle Irene e Fernanda Santos

Festival Goiânia Noise foi um dos eventos paralisados em Goiás Foto: Monstro Discos

Alguns setores da sociedade sofreram com mais força os impactos causados pela pandemia de Covid-19. Entre aqueles que ainda não puderam retomar suas atividades estão as escolas, o turismo e cultura,por serem, naturalmente, seguimentos em que se necessita de formar grupos, aglomerações, aproximar pessoas para se manter.

Em Goiás, o produtor cultural Fabrício Nobre, sócio fundador do Festival Bananada, não vê perspectiva do setor cultural voltar à sua rotina. “Acho muito difícil a retomada dos eventos de aglomeração sem uma vacina real, testada e funcionando, sem se controlar a pandemia. Então, a perspectiva para retomada neste ano é muito pequena ou nenhuma”, avaliou.

Produtor Fabrício Nobre, do Festival Bananada | Foto: Reprodução/Facebook

Ao Jornal Opção, ele conta que o faturamento do ramo foi a zero. “Não existe faturamento. O que existe é alguma ação de manutenção mínima financeira com as lives”, disse. Sobre ajudas do poder público, ele revela que ainda não houve nada de concreto. “O apoio do governo, por enquanto, é nenhum. Brigamos pela Lei Aldir Blanc, que é uma lei emergencial e que está sendo regulamentada agora. Vamos ver em qual ponto conseguiremos chegar”, comentou.

“Foi uma grande vitória do setor ter saído essa lei, mas ela ainda não foi regulamentada, ainda não foi pago nem um real. As pessoas estão há cinco meses sem trabalhar”, relata. “O desemprego no setor é quase que total. A maioria dos técnicos e produtores, pessoal que trabalha com freelancer, editam… completamente sem função. Um ou outro conseguem trabalhar em lives, mas a maioria das pessoas do setor, infelizmente, tiveram de descontinuar suas atividades, então não tiveram como pagar [os trabalhadores da área].”

Migração para outras profissões

Para se manter, Fabrício conta que muitos trabalhadores da cultura tiveram de improvisar ou migrar para outras profissões. “Muita gente tem saído do setor para fazer qualquer coisa, entrega, comida, trabalhar com tecnologia da informação, videogame etc. Muita gente tem apelado para as lives, transformado suas atividades físicas em virtuais”, falou.

O produtor cultural Carlos Brandão conta que ele próprio teve de tomar iniciativa para ajudar outros colegas de seguimento. “Eu e uns amigos estamos realizando a Campanha Amigos da Arte. A gente recolhe cestas básicas e doa 30 cestas por semana para artistas, técnicos e ambulantes de eventos culturais.”

O produtor Carlos Brandão e outros colegas organizaram campanha para apoio de artistas Foto: Ana Aquino

“Eu não migrei para nenhuma outra atividade. Acho que os produtores estão todos em suas atividades. Eu tinha três festivais para realizar este ano. O Festival Serras, o Chorinho para recomeçar… cancelei tudo e retorno ano que vem, assim que tiver possibilidade”, comentou.

O último setor a voltar

Para Leonardo Razuk, produtor cultural e um dos sócios da Monstro Discos, produtora do evento Goiânia Noise, realizado desde de anualmente desde 1995 e pela primeira vez interrompido, a cultura será o setor mais impactado pela crise provocada pelo coronavírus.

Leonardo Razuk, da Monstro Discos Foto: Arquivo pessoal

“O setor de eventos foi o primeiro a parar e será o último a voltar. É com certeza o mais afetado e não há perspectiva de retomada. A indústria da cultura gera muitos empregos e renda e com certeza já sofreu um baque enorme. Muitas empresas irão fechar e eventos acabar”, analisa.

“Para outros setores os decretos deram um prazo. No caso de eventos, a proibição foi imediata, mas a gente apoia o isolamento”, afirma. “No caso da Monstro, 60% do nosso faturamento vem dos shows. Nós praticamente fechamos o escritório, dispensamos funcionários e colaboradores”, conta.

“Estamos mantendo o espaço só mesmo porque precisamos de um lugar para estocar nossos discos. Mas até pensamos em entregar a sala e levar tudo pra casa. Ainda bem que temos a venda de discos. Isso que tem nos segurado porque, como falei, houve aumento na procura por produtos.”

Consumo de cultura

“Na Monstro nós estamos muito focados no selo, no lançamento de discos, músicas, bandas. Os shows são nossa principal fonte de receita, mas sem shows estamos trabalhando bem a questão dos discos. Com o isolamento, logo no começo, as pessoas trancadas em casa passaram a consumir mais cultura. Com isso as nossas vendas de discos aumentaram e também o consumo da música digital, através das plataformas como Spotify, Deezer e Apple”, apontou Leonardo.

“Algo que tenho ressaltado muito é que esse período de isolamento serviu para mostrar pra muita gente a importância da cultura em nossas vidas. Cultura não é supérfluo como muitos acham. Cultura não é bem de pouca necessidade. Basta pensar no que seria esse período de isolamento sem bons filmes, séries, livros, música…”, observa o produtor.

“As pessoas que não davam atenção agora veem que a cultura tem um valor imenso na formação de uma população. A cultura é o que está trazendo um pouco de alento, terapia, diversão e um pouco de paz para as pessoas que estão em casa, vendo filmes, séries e até espetáculos. Paralisou uma cadeia imensa de produção dos grandes filmes que iriam estrear; imagine quantos cinemas fechados e uma cadeia de trabalhadores por trás? O trabalhador não é só o artista”, concordou Rafa Blat, produtor, diretor artístico, ator e professor de Produção Cênica no Instituto Basileu França.

Rafa Blat é produtor, ator e professor Foto: Arquivo pessoal

Reinvenção

Rafa ainda lembra que, em alguns estados, já existe uma tentativa de retomada cultural, como reabertura de cinemas e teatros com público em menor capacidade. “Goiás ainda não tem essa previsão. Não é possível fazer isso no momento. Existem alguns projetos por aí, como shows em formato drive-in, nos carros, com shows de humor, de música… mas também não resolve o problema”, lembra.

“Dá a impressão de que você está próximo do artista, de que as coisas estão voltando ao normal. Mas acho que ainda vai demorar muito para normalizar. Este semestre está perdido. Está sendo um semestre cultural sabático para repensarmos a vida, refazer projetos”, analisa.

“Artista se reinventa, busca alternativas, mas claro que é para um mercado informal, pois a maioria tem só a qualificação artística, o que não é pouca coisa, mas não serve para muitos outros mercados”, diz Cássio Neves, ator e jornalista.

“No meu caso, o teatro é uma segunda fonte de renda. Além de ator, sou jornalista, mas há uma semana estou buscando recolocação no mercado também. Está complicado. O período é de instabilidades, mas sinto que unidos, com mais consciência e empatia, será possível passarmos por essa. Sigo tentando caminhar com positividade”, diz.

O ator e jornalista Cássio Neves em cena Foto: Arquivo pessoal

Assim como os outros, Cássio também não está otimista em relação a um retorno rápido da cultura. ” Ao meu ver, apenas com a chegada definitiva da cura da doença, como a chegada de uma vacina, por exemplo. Antes disso, acho complicado. Temos o período de produção, que envolve a criação, ensaios e muitas outras coisas. Impossível ensaiar por agora. Quando se fala em artista, lembra-se muito do famoso e daqueles que ganham muito dinheiro, mas esta parcela de artistas é pequena”, ressalta.

“A maioria depende de transporte público, o que inviabiliza até mesmo um deslocamento seguro para o trabalho, sem falar no contato com o público no momento da entrega da nossa arte. E isto acaba envolvendo uma cadeia de profissionais: músicos, atores, produtores, maquiadores, figurinistas, aderecistas, equipe técnica, equipe administrativa e outros”, destaca Cássio.

A bailarina e coreógrafa Luciana Caetano Foto: Arquivo Pessoal

Luciana Caetano, coreógrafa e preparadora corporal é mais uma que corrobora o discurso que não há previsão para retomada. Ela é do Grupo Solo de dança, cujo trabalho parou, por enquanto, por conta da pandemia. A bailarina, que dançou também na Quasar Cia de dança, avalia que a retomada levará tempo. “Eu não vejo perspectiva de volta, de retorno das atividades artísticas e concordo que nem deve haver neste momento. Está morrendo muita gente e as pessoas não estão entendendo. Se as pessoas entendessem sobre usar máscaras, distanciamento, contato com objetos e coisas facilitaria. Mas a população não quer entender”, diz.

“O que passamos a entender é que as coisas, a partir de agora, são nesse processo virtual mesmo. Eu nunca fui da tecnologia, mas estou aprendendo milhões de coisas e vou aderir a espetáculos, performances online. Vamos ver como as pessoas entendem comprar ingresso nesse modelo.”

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