Quer fazer tatuagem ou maquiagem semidefinitiva? Veja riscos e cuidados a se tomar

Observar a higiene do local é essencial. Para mulheres que desejam fazer “sobrancelha fio a fio”, atenção para o fato do procedimento ser considerado tatuagem é o principal

Tatuador Jander Rodrigues, em estúdio de tatuagem Jander Tattoo | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Tatuador Jander Rodrigues, em estúdio de tatuagem Jander Tattoo | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Documentos, estrutura física e procedimentos. São os três pontos que alguém que deseja mudar a aparência, seja com uma tatuagem de ombro a punho, borboletinha no tornozelo ou até fazer uma sobrancelha semidefinitiva para levantar o olhar. E para evitar futuros problemas de saúde, deve-se observar com bastante atenção o local escolhido.

Saber se o estabelecimento possui alvará é o primeiro ponto a ser observado, conforme explicou a chefe da divisão de fiscalização de ambientes de interesse a saúde da Secretaria de Saúde de Goiânia, Francinez Linhares. O alvará deve estar à vista, mas se não estiver, o cliente deve pedir, sem medo. Se o local não tiver, vá embora e procure outro profissional que faça o procedimento que deseja de forma adequada e sem riscos à saúde.

O estúdio de tatuagem deve ter a liberação do corpo de bombeiro e o alvará sanitário, emitido pela vigilância sanitária. Francinez frisa que os profissionais tatuadores são fáceis de lidar: se preocupam, estão sempre atrás das novas leis a fim de se adequarem. “É uma turminha muito boa de trabalhar. Os bons mesmo estão sempre preocupados, e não dão trabalho algum para a vigilância.”

Além do alvará, o profissional deve estar equipado com proteção individual (máscara, luva e jaleco), deve-se observar a limpeza do ambiente (maca ou cadeira devem estar revestidas de material impermeável, não pode ser de pano), deve haver uma pia para a higienização do profissional e o material de perfuração deve ser descartável. O principal, conforme Francinez, é sempre observar a limpeza do local.

A resolução estadual 001, de 2008, mais utilizada pelo órgão fiscalizador, ainda estabelece a obrigatoriedade de o profissional ter um curso de biossegurança — 20 horas de aulas em que se ensinam questões referentes à esterilização de materiais, ambiente e cuidados em geral.

O maior problema observado pela vigilância sanitária, quando se fala de tatuagem, é quanto às tintas utilizadas para as tatuagens. Isso porque todo material deve ter a autorização da Anvisa, e muitos que são importados não possuem essa liberação. Desta forma, antes do tatuador comprar em outro país uma tinta que julga ser melhor, deve olhar na lista de produtos aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Mestre em dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), Rogério Ranulfo, que atua na clínica de remoção de tatuagem “Dermatologia a Laser”, explica que é sempre possível desenvolver alergia a um produto utilizado na tatuagem ou na maquiagem definitiva/semidefinitiva. Conforme o médico, a reação alérgica pode ocorrer tanto no momento de aplicação, ou 10 anos depois.

Além disso, os cuidados com o local são essenciais, como lembrou Rogério. Várias doenças, inclusive Aids e Hepatite, podem passar em um local não higienizado, com material impróprio.

Estar sempre atento

O tatuador Jander Rodrigues reforçou a importância de observar os cuidados com a higiene no estúdio. “Todos os dias vejo uma série de pessoas que têm problemas de infecções graves, pele em estado de decomposição, vermelhidão excessiva e casos de pessoas que chegam a ser internadas. Cansei de ver isso. Exatamente porque os profissionais não seguem à risca o que deve ser feito”, relatou.

É importante, portanto, que o cliente observe se o tatuador lava as mãos frequentemente, usa luvas e de quanto em quanto tempo ele as troca. Quem vai fazer uma tatuagem também deve conferir se os bicos estão lacrados e esterilizados e a limpeza do próprio ambiente: piso, paredes e bancadas.

Jander ressaltou que os procedimentos são monitorados, embora a vigilância não consiga — e o profissional não sabe o porquê — fiscalizar bem. Porém o tatuador afirmou que ainda tem esperança de mudança no cenário atual da tatuagem em Goiânia.

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Jander Rodrigues em sessão de tatuagem | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O que pode explicar o fato percebido por Jander de a vigilância não conseguir fiscalizar bem os estúdios é o aumento do número de tatuadores na capital, enquanto a equipe de fiscalização conta apenas com 32 profissionais. “Hoje em dia tem em cada esquina. A demanda aumentou muito”, explicou  Francinez.

E é por isso que o órgão conta cada vez mais com denúncia da população. Francinez garante que os goianienses passaram a se preocupar mais com os locais onde vão fazer os procedimentos. Muitas pessoas têm reclamado de falta de higiene, entre outros problemas vistos em estúdios de tatuagem. “As pessoas estão mais em alerta”, pontuou a chefe do departamento da vigilância sanitária. Não há, entretanto, dados concretos dos tipos de problemas apontados por goianienses que chegam à vigilância.

Procedimentos realizados em casa, de acordo com Francinez, são um grande problema. Isso porque, em casas, a vigilância não pode entrar para fiscalizar nem se houver denúncia. “Se houver uma placa indicando que o local faz tatuagem, ou sobrancelha definitiva, podemos entrar. Caso contrário não.”

De acordo com o advogado Ricardo Mendonça, especialista em direito médico, não há nenhuma legislação que proíba realização desses procedimentos em casa, apenas normas técnicas e resoluções, que não têm força de lei. Ainda assim, a vigilância tenta coibir a prática. Francinez disse lembrar-se de três casos que a vigilância conseguiu impedir.

Um outro episódio lembrado pela chefe de fiscalização de ambientes, é de uma jovem que foi tatuada em sua própria casa. “O tatuador foi lá e tatuou a menina na mesa da cozinha. Ela teve um problema sério de infecção, mas como vai atrás dele? Não tem estúdio para irmos fiscalizar”, explicou, apelando para que a população não faça isso.

Maquiagem semidefinitiva é tatuagem sim
Sessão de sobrancelha semidefinitiva, também chamada de "fio a fio", no estúdio "Expressão do Olhar", franquia localizada no Setor Serrinha | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Sessão de sobrancelha semidefinitiva, também chamada de “fio a fio”, no estúdio “Expressão do Olhar”, franquia localizada no Setor Serrinha. No local, o procedimento é realizado em duas sessões, com intervalo de 60 dias de uma para outra | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Existe certa dúvida e imprecisão quanto à maquiagem chamada semidefinitiva — que seria, por exemplo, a sobrancelha fio a fio, ou micropigmentação. Isso porque a pintura sai em pouco tempo — geralmente, em intervalos de seis meses a um ano –, mas há a perfuração da pele com agulha. E os cuidados de um procedimento considerado como tatuagem são tão firmes quanto os de tatuagem.

O curso de biossegurança, por exemplo, é exigido para procedimentos de colocação de piercing e tatuagem. A vigilância sanitária de Goiânia estabelece que o profissional deve ter o certificado com ele e garante que há sim a necessidade e obrigatoriedade de realizar o curso para ser habilitado a fazer procedimento de micropigmentação.

“Eles brigam muito porque falam que não é tatuagem, confundem porque falam que não é definitivo, mas houve perfuração e inoculação de produto, os cuidados e obrigações são os mesmos da tatuagem”, garante a chefe da vigilância sanitária, que sustenta que quem não possui o curso, não tem o alvará de funcionamento.

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Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

A falta de legislação dificulta o impasse. O advogado Ricardo Mendonça explica que a legislação não consegue acompanhar as novidades da medicina e de cosméticos, por isso não há nenhuma lei específica para este procedimento — que perfura com agulha, mas não é definitivo.

Um dos espaços que realiza esse tipo de trabalho em Goiânia, “Expressão do Olhar”, garante que segue todos os cuidados necessários para a segurança do cliente durante o procedimento de sobrancelha fio a fio — equipamentos de plástico, luva, cadeira com material impermeável –, mas os profissionais não possuem o curso. “Não é exigido por lei, por isso não temos”, explicou a área de marketing da empresa.

Ricardo, entretanto, garante que há é uma norma da Anvisa, de 2009, que dispõe sobre o funcionamento de pigmentação artificial permanente. “Não tem nada sobre essa pigmentação que sai com o tempo, mas eu consideraria a legislação subsidiária que fala sobre o permanente, até porque há a utilização de agulha”, explica Ricardo.

De acordo com o advogado, há a necessidade de autorização da vigilância, com ambiente apropriado, material descartável, e os outros cuidados. Ricardo assegura que, como existe perfuração, o estabelecimento deve pedir para o cliente assinar um termo de consentimento informado e esclarecido, já que fere a integridade física da pessoa.

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