Produtores de soja de Goiás correm contra o tempo e tentam antecipar plantio antes de nova estiagem
12 setembro 2026 às 21h00

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A soja, uma das principais forças do agronegócio de Goiás, entrou em uma corrida contra o calendário e contra o clima. De um lado, produtores tentam aproveitar as chuvas que atingiram parte do Estado nos últimos dias para antecipar o início da semeadura. De outro, há quem defenda cautela diante da possibilidade de novas estiagens e temperaturas elevadas nas próximas semanas. No centro dessa discussão está o pedido para encurtar o período de vazio sanitário da soja, medida que permitiria a alguns produtores começar o plantio antes da data originalmente prevista.
A Agrodefesa avalia a solicitação e sinaliza que uma alteração no calendário é possível. O período oficial de vazio sanitário em Goiás vai até 24 de setembro, com a semeadura autorizada atualmente a partir de 25 de setembro. A medida existe principalmente para reduzir a sobrevivência do fungo causador da ferrugem asiática, uma das principais doenças que atingem a cultura. A eventual mudança, portanto, precisa conciliar a necessidade de dar mais liberdade ao produtor com a manutenção do controle fitossanitário.
O presidente da Agrodefesa, José Ricardo Caixeta Ramos, afirma que a avaliação já vinha sendo feita antes mesmo da formalização do pedido da Aprosoja. Segundo ele, a ideia é permitir uma antecipação controlada, voltada principalmente para propriedades que tenham condições efetivas de iniciar a cultura. “Algumas regiões já têm, sim, umidade suficiente. Então, é uma estratégia boa dos produtores encurtar o vazio sanitário para já começar a semeadura”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção.
A proposta, porém, não significaria que todo o Estado estaria autorizado a plantar imediatamente. Segundo Caixeta, a possibilidade interessa principalmente a produtores que tenham recebido chuva suficiente ou que disponham de irrigação.
“Não são todos os produtores. Aqueles que têm irrigação, por exemplo, ou produtores de alguma região que já teve uma quantidade de chuva suficiente”, explicou.
A preocupação por trás da antecipação é também o calendário da segunda safra. Quanto mais tarde a soja é plantada, mais tarde ela será colhida. Isso pode reduzir a janela disponível para culturas como milho e aumentar a exposição da produção a períodos de estiagem no fim do ciclo.
O secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ademar Leal, é favorável ao encurtamento do vazio sanitário. Para ele, a medida pode representar uma ajuda ao produtor em um momento de pressão sobre as margens da atividade.
“Sou favorável ao encurtamento do período de vazio sanitário da soja, em virtude de um ano desfavorável. Primeiro porque é uma época desfavorável, que os produtores já vêm sofrendo muito com o preço das commodities. Então, tudo o que a gente puder fazer para facilitar a vida deles e sem atrapalhar a sanidade vegetal do Estado, a gente vai fazer”, afirmou ao Jornal Opção.
Uma decisão que pode mexer com a segunda safra
O principal argumento econômico para antecipar a soja é ganhar tempo. Uma lavoura estabelecida mais cedo pode ser colhida antes e abrir espaço para o plantio da segunda cultura dentro de uma janela mais favorável.
Para Ademar Leal, esse ganho de calendário pode ser decisivo. Ele afirma que propriedades com solo bem estruturado têm maior capacidade de enfrentar períodos de veranico, desde que haja umidade suficiente para a implantação da lavoura.
“O impacto econômico é muito alto, porque você consegue fazer um plantio mais cedo, assim podendo fazer uma safra de milho, a segunda safra, cheia”, disse.

A estratégia, entretanto, não serve para todos. O próprio presidente da Agrodefesa ressalta que a antecipação seria uma alternativa para uma parcela dos produtores, e não uma recomendação generalizada.
A diferença entre uma propriedade que recebeu uma chuva significativa e outra que teve apenas precipitações isoladas pode determinar se o plantio antecipado será uma oportunidade ou um risco.
É justamente nesse ponto que aparecem opiniões divergentes entre os produtores ouvidos pela reportagem.
Produtor de Rio Verde prefere esperar
Em Rio Verde, uma das principais regiões produtoras de Goiás, o engenheiro agrônomo e produtor rural Roildes Ribeiro Benevides, que trabalha há cerca de 30 anos com lavoura, prefere manter o calendário tradicional.
Segundo ele, a antecipação pode trazer problemas agronômicos caso a soja seja implantada muito cedo.
“Eu acho que é uma ação de risco. Essa antecipação agora, porque a gente já sai perdendo por conta do fotoperiodismo, e as fases críticas da soja precoce são mais curtas do que uma soja tardia”, afirmou.
O fotoperiodismo é um dos fatores que interferem no desenvolvimento da soja e ajuda a determinar o ciclo da planta conforme a relação entre período de luz e escuro. Para o produtor, antecipar demais a semeadura pode comprometer o desempenho da lavoura.
Ele também alerta para o risco de um período de calor e falta de chuva depois da implantação.
“Se der um veranico aí, meio prolongado, associado com altas temperaturas, a soja precoce sofre mais do que uma soja tardia”, disse.
A região de Rio Verde recebeu chuvas recentes. Segundo Ribeiro, alguns pontos acumularam volumes próximos de 100 milímetros, o que poderia proporcionar umidade suficiente para a germinação. Ainda assim, ele não considera que isso seja suficiente para justificar uma mudança imediata no calendário.
“Está muito cedo. O clima está muito instável. A gente não tem esse histórico climático de plantar agora no início de setembro”, afirmou.
Na propriedade, a decisão será tomada apenas depois do encerramento do período oficial de vazio sanitário. Mesmo que a antecipação seja autorizada, Ribeiro pretende esperar.
“Para mim, tomar essa decisão, se tiver uma umidade suficiente para eu ter uma boa germinação, a partir do dia 25 de setembro eu solto o plantio. Caso contrário, não”, explicou.
A estratégia dele é trabalhar mais o solo e a escolha das variedades do que alterar o calendário. Entre as medidas citadas estão correção do solo, maior desenvolvimento radicular, escolha de cultivares mais tolerantes ao calor e uma adubação capaz de fortalecer a planta diante de períodos de estresse.
“Eu acho que é a gente atacar por aí. Eu acho que se mexer em um calendário, aí eu não sou muito adepto a essa situação, não. Eu acho que eu sou mais adepto a esses manejos de segurança e a gente preservar o período correto”, afirmou.

Em Chapadão do Céu, produtor também descarta plantio imediato
No sudoeste goiano, a avaliação é semelhante. O produtor Eduardo Peixoto, de Chapadão do Céu, trabalha com cerca de 5 mil hectares de soja, além de cana-de-açúcar e milho safrinha. Para ele, o início do plantio deve continuar concentrado entre o fim de setembro e outubro, conforme a ocorrência de chuvas.
“Antes de setembro eu acho que não deve começar. Mesmo com o El Niño aí, a gente tem uma previsão, mas certeza ninguém tem”, afirmou.
Na propriedade, as últimas chuvas ainda não seriam suficientes para justificar uma antecipação.
“Não, de maneira nenhuma, porque nós estamos no período da seca, e mesmo que houve um pouquinho de chuva, mesmo isso não é suficiente. Você arrisca muito se plantar cedo”, disse.
A expectativa do produtor é começar o plantio no início de outubro.
Apesar da preocupação com o clima, Peixoto não considera que a atual situação seja necessariamente mais severa que anos anteriores. Segundo ele, houve chuva durante o período seco e o solo de sua região ainda apresenta condições relativamente melhores.
“Esse ano choveu nos meses da seca. Houve chuva e não está tão seco, não. O solo não está tão seco”, afirmou.
A região de Chapadão do Céu, segundo ele, apresenta historicamente uma distribuição de chuvas mais favorável, o que ajuda a explicar sua avaliação menos pessimista.
El Niño ainda divide avaliações
O debate sobre o calendário ocorre em meio a previsões climáticas que ainda apresentam incertezas. O produtor Roildes Ribeiro ressalta que não há consenso absoluto sobre a intensidade do fenômeno climático e seus efeitos sobre Goiás.
“Tem pesquisador aí, meteorologista, que ainda não confirmou o El Niño. E tem os que já confirmaram. Então, a gente ainda não tem essa certeza absoluta que ele virá e nem a intensidade que ele vai estar”, afirmou.

Para ele, essa incerteza é mais um motivo para evitar uma decisão precipitada.
O secretário Ademar Leal também chama atenção para as diferenças regionais. Segundo ele, o efeito do El Niño não necessariamente será igual em todo o território goiano.
“O El Niño, na verdade, prejudica muito a região mais ao norte do Estado de Goiás, mais ao norte do Brasil. Então, região sul do Estado, sudoeste, pode ser que se beneficie até desse El Niño”, afirmou.
É uma diferença importante para entender a discussão. Goiás não possui um comportamento climático homogêneo. Uma chuva registrada em uma região pode não significar que outra área do Estado tenha condições para plantar. Por isso, tanto a Agrodefesa quanto a Seapa trabalham com a possibilidade de uma antecipação localizada, condicionada às condições de cada propriedade.
Bombeiros veem risco de nova sequência de seca
A preocupação com a possibilidade de um período prolongado sem chuvas também aparece no monitoramento feito pelo Corpo de Bombeiros.
O comandante-geral da corporação em Goiás, coronel BM Washington Luiz, afirma que as previsões acompanhadas pelo órgão apontam para a possibilidade de uma sequência de meses mais secos.
“Estão dizendo que nós não teremos a chuva de outubro e novembro e vai ter uma seca prolongada até dezembro, possivelmente chuva só vem ali próximo do Natal”, afirmou.
O cenário preocupa não apenas pelo impacto sobre as lavouras. O bombeiro também alerta para o risco de incêndios florestais, queda no nível dos mananciais e problemas relacionados ao abastecimento de água.
Segundo o comandante, Goiás chegou a registrar uma situação próxima da seca extrema antes das chuvas recentes. A precipitação dos últimos dias ajudou a reduzir temporariamente a pressão sobre o combate aos incêndios, mas não eliminou a preocupação para os próximos meses.
“Até cinco dias atrás, eu estava aqui já articulando brigada rural, as brigadas florestais, fazendo parceria com os órgãos, porque eu já estava com medo. Eu já estava em seca extrema”, afirmou.
O coronel também chama atenção para o nível dos mananciais. “Nós estamos com os mananciais em baixa. Estão bem abaixo”, disse.
Segundo ele, se a previsão de 60 a 90 dias de pouca chuva se confirmar, o problema poderá ultrapassar a questão dos incêndios. “Se realmente nós tivermos esses 60, 90 dias que não vier a chuva de outubro, nós podemos estar falando aqui não só de incêndios florestais, mas até o final do ano de falta de água”, afirmou.

A fala reforça a dimensão da discussão sobre a soja. A antecipação do plantio não está sendo analisada apenas como uma medida para atender uma demanda do setor produtivo, mas dentro de um cenário climático que pode afetar diferentes áreas da economia e dos serviços públicos.
Chuvas recentes aliviam, mas não resolvem o problema
O episódio de chuva registrado nos últimos dias ajuda a explicar a pressa de parte dos produtores. Depois de um período de tempo seco, algumas regiões receberam volumes capazes de melhorar temporariamente a umidade do solo.
O problema é que chuva isolada não significa necessariamente o início consolidado da estação chuvosa.
Ribeiro classifica as precipitações recentes como “esporádicas e não confiáveis”. Na visão dele, o produtor precisa observar a continuidade das chuvas antes de colocar sementes no solo.
A diferença é fundamental. Para germinar, a soja precisa de umidade suficiente. Mas manter a lavoura em boas condições durante as primeiras fases exige uma sequência de precipitações ou uma reserva de água no perfil do solo capaz de sustentar a planta durante períodos sem chuva.
Por isso, uma chuva de grande volume pode criar uma falsa sensação de segurança se não houver continuidade.
“Eu acho que tem que esperar. Eu acho que tem que esperar o vazio sanitário encerrar aí e a gente plantar com segurança”, afirmou Ribeiro.
Soja movimenta bilhões e tem peso estratégico para Goiás
A cautela é compreensível diante do peso que a cultura tem na economia goiana. A soja ocupa uma posição central no agronegócio do Estado e também na pauta de exportações.
Segundo o mais recente levantamento específico da Seapa, a expectativa para a safra 2025/26 é de 20,1 milhões de toneladas de soja em Goiás, o segundo maior volume da série histórica. A produtividade estimada é de 3,9 toneladas por hectare, acima da média nacional projetada, de 3,7 toneladas por hectare.
A evolução da cultura também mostra como a soja ganhou espaço no Estado. Entre as safras 2016/17 e 2025/26, a produtividade das lavouras goianas avançou 15,6%, enquanto a produção cresceu 81,7%. A área plantada aumentou 57,2% no mesmo período.
O desempenho coloca Goiás entre os principais produtores nacionais. Em março, a Seapa registrava o Estado como o quarto maior produtor e exportador de soja; levantamentos anteriores da própria secretaria apontaram Goiás chegando à terceira posição em determinadas projeções da safra 2025/26.
A produção também sustenta uma cadeia que vai muito além da venda do grão. Dados da Seapa apontam que Goiás respondeu, em 2025, por 13,8% da capacidade nacional de processamento de oleaginosas e foi o segundo maior polo de refino de óleos vegetais do País, com 18,3% de participação.
Nas exportações, o Estado também ganhou relevância. De janeiro a setembro de 2025, Goiás exportou 13,5 milhões de toneladas do complexo soja, alta de 11,1% em relação ao mesmo período anterior, mantendo a segunda posição nacional no volume exportado.
É por isso que qualquer alteração relevante no calendário de plantio pode produzir efeitos em toda a cadeia: venda de sementes e fertilizantes, contratação de máquinas e serviços, armazenagem, transporte, esmagamento, exportação e arrecadação.
Produtor enfrenta também pressão de custos
O debate climático ocorre em um momento delicado para quem está no campo. Mesmo com uma produção elevada, a rentabilidade da soja é pressionada pelo comportamento dos preços e pelo custo dos insumos.
A Seapa aponta que o custo de produção da safra 2025/26 em Rio Verde foi estimado pela Conab em R$ 5.602,89 por hectare, segundo maior valor da série histórica para o município. O número é inferior apenas ao observado na safra 2023/24.
O cenário ajuda a explicar a preocupação dos produtores com cada decisão de manejo. Plantar mais cedo pode significar ganhar tempo para uma segunda cultura, mas também pode representar uma exposição maior a uma quebra de produtividade caso a chuva não se confirme.
Ribeiro resume a pressão enfrentada pelo produtor ao falar sobre a escolha entre culturas.
Segundo ele, parte dos agricultores pode optar por culturas de menor custo, como o sorgo, justamente porque o investimento necessário para plantar soja ficou elevado.
“Então, às vezes pode estar acontecendo isso aí. Então, ele chegou no limite financeiro dele. Vai gastar 10 para plantar soja? Vai gastar 5 para plantar sorgo? Ele vai no sorgo”, afirmou.
Peixoto também cita o encarecimento do crédito como um dos problemas do setor. Segundo ele, os juros aumentaram e o financiamento no mercado privado ficou mais pesado.
“Os juros hoje na agricultura estão muito mais altos do que eram. Então, no mercado privado, está muito difícil pegar financiamento, porque a dívida fica enorme”, disse.
A questão sanitária é o outro lado da decisão
A discussão sobre antecipação não pode ser separada da ferrugem asiática. O vazio sanitário existe justamente para interromper o ciclo da doença e reduzir a presença de plantas vivas de soja capazes de manter o fungo durante a entressafra.
A própria Seapa explica que, em Goiás, o vazio sanitário de 2026 foi estabelecido entre 27 de junho e 24 de setembro, com semeadura autorizada originalmente entre 25 de setembro e 2 de janeiro de 2027. A eliminação de plantas vivas, incluindo tigueras, busca reduzir a sobrevivência do fungo e aumentar a eficiência do controle químico.
Por isso, a eventual antecipação precisa ser feita com critérios técnicos.
Para a Agrodefesa, esse é justamente o ponto. Caixeta afirma que o órgão está avaliando a possibilidade de adequação de forma controlada e transparente.
“O vazio sanitário, pelo contrário, favorece que a gente possa preservar esse vazio de forma mais eficaz”, afirmou.

A avaliação é que a mudança de poucos dias não necessariamente comprometeria o controle da doença, desde que sejam mantidas as regras sanitárias e que o plantio antecipado não seja interpretado como autorização para todo produtor sem considerar as condições da propriedade.
Em Chapadão do Céu, Eduardo Peixoto afirma que o controle da doença já exige atenção permanente. Segundo ele, são feitas pelo menos quatro aplicações de fungicidas durante o ciclo.
O temor, portanto, não é apenas perder uma janela de chuva. Há também a necessidade de impedir que uma decisão tomada para reduzir o risco climático acabe aumentando o risco fitossanitário.
Governo vê antecipação como alternativa, não como obrigação
A posição do governo estadual, pelo que indicam as entrevistas, é de flexibilizar o calendário para quem tiver condições, e não transformar a antecipação em uma corrida generalizada para plantar.
Ademar Leal afirma que a irregularidade das chuvas é um dos principais fatores considerados na decisão. Há áreas onde choveu mais e outras que continuam esperando precipitações suficientes.
“Alguns lugares com chuvas já mais fortes, outras ainda nem choveu”, afirmou.
A expectativa da Seapa é que as propriedades com histórico de plantio mais cedo possam aproveitar uma eventual janela favorável.
A Agrodefesa segue a mesma lógica. Para José Ricardo Caixeta Ramos, a antecipação seria destinada a quem efetivamente tenha umidade adequada ou estrutura de irrigação.
O objetivo é evitar que uma decisão administrativa seja confundida com uma recomendação agronômica.
Na prática, mesmo que a autorização seja concedida, o produtor continuará tendo de avaliar o solo, a previsão climática, a cultivar utilizada, o sistema de produção e a capacidade de enfrentar períodos de estiagem.
Entre a chuva de agora e a seca que pode vir
É justamente essa contradição que torna a decisão tão difícil.
A chuva chegou em algumas regiões de Goiás em um momento em que os produtores já olhavam para o calendário de plantio. Ao mesmo tempo, as previsões indicam que o período seguinte pode ser marcado por irregularidade e estiagem.
Plantar agora pode significar aproveitar uma oportunidade. Esperar pode significar perder parte da janela de umidade. Mas plantar cedo demais pode deixar a lavoura exposta a um veranico justamente durante fases importantes do desenvolvimento.
Para o produtor de Rio Verde, a escolha é pela cautela.
“Eu acho que se a gente fizer de forma tradicional, com bastante cautela, com bastante cuidado, o risco será menor”, afirmou Ribeiro.
Em Chapadão do Céu, Eduardo Peixoto também prefere aguardar.
“Mesmo com o El Niño aí, a gente tem uma previsão, mas certeza ninguém tem”, disse.
Na visão do secretário de Agricultura, por outro lado, a flexibilização pode ser importante para que o produtor não perca uma oportunidade caso as condições estejam adequadas.
O ponto de convergência entre as diferentes avaliações é que não existe uma única estratégia para todo o Estado.
A soja de uma propriedade irrigada não enfrenta exatamente o mesmo risco de uma lavoura de sequeiro. Uma fazenda no sudoeste goiano pode receber chuva enquanto outra região permanece seca. Um solo com boa capacidade de retenção de água pode sustentar uma planta por mais tempo que outro.
A decisão, portanto, tende a ser cada vez mais localizada.
Uma aposta que vai além da soja
O debate também revela uma preocupação maior: o calendário agrícola de Goiás está cada vez mais condicionado à necessidade de encaixar diferentes culturas dentro de uma janela climática que pode ficar mais curta e irregular.
A soja abre o calendário para outras culturas. Se for plantada e colhida dentro de uma janela adequada, o produtor consegue colocar milho ou outra cultura na sequência. Se a primeira safra atrasar, toda a programação seguinte pode ser afetada.
É por isso que Ademar Leal considera o impacto econômico potencial da decisão elevado.
Para o produtor, porém, a conta não é feita apenas em dias. Ela envolve hectares, sementes, fertilizantes, fungicidas, crédito, máquinas, mão de obra, produtividade e preço de venda.
Uma antecipação de poucos dias pode representar uma oportunidade para uma propriedade e um risco desnecessário para outra.
No campo, a decisão final continuará sendo tomada diante de uma pergunta que não tem resposta simples: a chuva que caiu agora é o começo de uma estação chuvosa ou apenas uma janela passageira antes de uma nova sequência de calor e seca?
Enquanto a Agrodefesa avalia os critérios para eventual mudança no calendário, os produtores observam o céu e o solo. O Estado, por sua vez, acompanha o cenário por diferentes frentes, que envolvem agricultura, defesa sanitária, meio ambiente, recursos hídricos e prevenção de incêndios.
A soja goiana entra, assim, em mais uma safra recorde em potencial, mas também em um momento em que cada decisão de calendário pode definir o resultado de milhões de toneladas.
A estratégia de antecipar o plantio pode ajudar parte dos produtores a ganhar tempo e preservar a segunda safra. Para outros, como Roildes Ribeiro e Eduardo Peixoto, o melhor caminho é esperar a janela tradicional e reduzir a exposição a um clima ainda incerto.
No fim, a corrida não é apenas para plantar mais cedo. É para encontrar o momento em que a umidade do solo, a previsão de chuva, a sanidade da lavoura e a viabilidade econômica estejam ao mesmo tempo a favor do produtor.
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