Cinco histórias de Goiás revelam como educação e crédito podem ultrapassar o benefício inicial e impactar a vida de quem os recebe
12 setembro 2026 às 21h00

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Por trás dos números que mostram a redução da pobreza em Goiás existem histórias que não cabem em uma estatística. São trajetórias de pessoas que, em algum momento, encontraram uma oportunidade capaz de alterar o caminho que parecia estar traçado para elas. Em alguns casos, a mudança começou com uma bolsa de estudos. Em outros, com um financiamento que permitiu plantar, produzir, manter um comércio de portas abertas ou investir na expansão de um negócio.
Mais de 600 mil pessoas superaram a condição de pobreza em Goiás nos últimos sete anos, segundo levantamento divulgado pelo Governo de Goiás. Os números têm como pano de fundo uma redução expressiva dos indicadores de pobreza no Estado: em 2023, 1,3% da população goiana estava abaixo da linha de pobreza e 0,8% em situação de extrema pobreza, conforme dados da PNAD Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisados pelo Instituto Mauro Borges (IMB).
Os números ajudam a dimensionar o alcance dessas políticas. Mas é quando se olha para a vida de quem recebeu uma dessas oportunidades que a mudança ganha outro significado.
Aos 19 anos, Vanessa Rodrigues de Oliveira não imaginava que vender balas no trânsito seria apenas uma parte de sua história. Mãe desde os 18, ela precisava trabalhar e, depois de distribuir currículos sem conseguir uma oportunidade, encontrou no comércio informal uma maneira de colocar dinheiro dentro de casa.
Durante anos, ela vendeu doces nos semáforos de Goiânia. Primeiro em feiras e, depois, no trânsito. Foram quatro anos e meio no sinaleiro da Avenida São Paulo, na região da Arruda, e mais um ano na Avenida Circular, em Aparecida de Goiânia.
Era um trabalho pesado. Havia o contato diário com a fumaça dos carros, o barulho, o risco e situações que ela preferia não lembrar. Ainda assim, era dali que vinha parte do sustento da filha. “Eu distribuí muitos currículos, mas, infelizmente, devido à crise, eu não conseguia emprego. Então eu comecei a vender doces”, contou à reportagem do Jornal Opção.
A rotina mudou quando Vanessa soube do ProBem, programa que oferece bolsas de estudo para estudantes em situação de vulnerabilidade. Ela conseguiu uma bolsa integral para cursar Direito. A faculdade, que antes parecia distante de sua realidade financeira, passou a fazer parte do cotidiano.
Vanessa também encontrou apoio para entrar no mercado de trabalho. Por meio do Banco de Oportunidades, conseguiu uma formação profissional e, depois, um estágio. Em determinado momento, precisou conciliar faculdade, trabalho e os cuidados com a filha. O suporte de uma assistente social também ajudou nesse período.
A mulher que antes passava horas entre os carros oferecendo balas começou a construir outra relação com o trabalho. Vieram os primeiros chefes na área jurídica, Leopoldo e Luciana Carniello, a aprovação na OAB e, aos poucos, a consolidação da carreira. Hoje, Vanessa atua com Direito de Família e Empresarial. O que mudou não foi apenas sua profissão. Mudou também a maneira como ela consegue imaginar o futuro da filha.
A menina estuda no Sesc Cidadania, instituição parceira do ProBem, e já diz que quer seguir os passos da mãe e ser advogada. “Eu acho que se eu estou aqui hoje, é graças a cada pessoa que comprou uma jujuba, cada pessoa que me ajudou naquele momento. Eu carrego muita humanidade comigo”, afirma Vanessa.

A lembrança dos semáforos não desapareceu. Ela se transformou em parte da mulher que Vanessa se tornou. “Foi difícil, mas juntos nós conseguimos”, resume. A trajetória dela mostra que uma oportunidade pode começar muito antes de uma mudança financeira. Pode começar quando alguém passa a enxergar uma possibilidade que, até então, parecia inacessível.
Foi também pela educação que Ana Araújo, de 22 anos, encontrou uma porta para o futuro. Mas, no caso dela, havia uma particularidade: desde criança, ela já sabia que queria estar diante das câmeras. O que não sabia era se conseguiria transformar esse desejo em profissão.
Da faculdade à televisão
Ana Araújo sempre foi comunicativa e curiosa. Desde os nove anos, gostava de televisão e do mundo artístico. O jornalismo surgiu no ensino médio, quando precisou decidir que profissão seguir. A sugestão veio da família. “Minha família inteira me falou assim: Ana, você é muito comunicativa, é curiosa, por que você não faz Jornalismo?”
A escolha ainda carregava uma coincidência: a mãe de Ana também sonhava em ser jornalista quando era jovem. Em fevereiro de 2022, aos 17 anos, Ana entrou no curso de Jornalismo da Unifasam, em Goiânia. O irmão mais velho também retomou a faculdade naquele período, cursando Direito. Para uma família que sempre viveu com o básico, manter os dois filhos no ensino superior poderia pesar no orçamento.
A mãe é servidora pública em Senador Canedo e o pai, na época, trabalhava como autônomo. Os dois filhos sempre estudaram em escolas públicas e a família andava de ônibus. “Era aquela coisa mais básica, mas uma vida digna.”
A mensalidade do curso de Jornalismo passava de R$ 2 mil. O irmão conseguiu o ProBem já no primeiro semestre, mas Ana só recebeu a bolsa no segundo, porque não havia participado do primeiro processo seletivo. Enquanto isso, ela começou a trabalhar como jovem aprendiz no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), recebendo cerca de R$590. “Acordava cedo para ir. Até hoje, eu ando de ônibus. Mas naquela época era muito mais.”
A bolsa chegou justamente quando as contas ficaram ainda mais apertadas, depois que o pai perdeu o emprego. “Eu acho que, realmente, se não fosse, não daria certo. Porque foi ficando muito puxado com o passar do tempo.”
Com o ProBem, Ana conseguiu permanecer na faculdade e, paralelamente, foi construindo a própria trajetória profissional. Depois de dois anos como jovem aprendiz no Crer, passou pela OVG, onde teve contato com a assessoria de comunicação e participou de grandes eventos. “Foi o local que eu acho que mais aprendi.”
A experiência também ajudou a abrir outros caminhos. Ana passou pela BandNews e pela PUC TV e se aproximou do jornalismo esportivo, área que ganhou significado especial por causa da relação da família com o futebol. Hoje, trabalha na TBC. Chegar à televisão, porém, representa mais do que uma conquista profissional. Na infância e adolescência, Ana conviveu com o bullying provocado pelo estrabismo e chegou a imaginar que, se trabalhasse com jornalismo, ficaria longe das câmeras. “Eu não estaria hoje na frente das câmeras. Eu estaria trabalhando em uma redação sem aparecer, mas eu estaria sem aparecer por vergonha.”
Ela fez uma cirurgia ainda na adolescência e, embora continue convivendo com a condição, conseguiu enfrentar o medo de aparecer. Hoje, a jovem que um dia teve vergonha das câmeras trabalha diante delas. Na família, virou referência no jornalismo esportivo e acompanha de perto a reação dos parentes quando aparece na televisão. “Eles ficam muito felizes. Toda vez que eles me veem na televisão, eles mandam.”

Assim como Vanessa Rodrigues, Ana encontrou no ProBem a condição para permanecer na faculdade. Mas, nas duas histórias, a bolsa foi apenas o começo: depois dela vieram o estágio, o trabalho, as escolhas e a construção de uma profissão. A oportunidade abriu a porta. Ana precisou atravessá-la. E, se para as duas a educação foi o ponto de partida, outras histórias mostram que a mudança também pode começar de outra forma: pelo crédito. A história de Ana amplia uma característica que aparece na trajetória de Vanessa: a educação não termina quando o estudante recebe o diploma. O que vem depois, o estágio, o primeiro emprego, a construção de uma carreira, também faz parte da transformação.
Mas, nem toda mudança, porém, começa dentro de uma sala de aula. Para quem já produz, trabalha ou mantém um negócio, às vezes a oportunidade necessária para avançar chega de outra forma: como crédito.
O dinheiro que vira produção
Aos 72 anos, o engenheiro agrônomo e produtor rural Joaquim Florentino conhece bem o peso de colocar um projeto no papel e transformá-lo em realidade. Há cerca de 35 anos, ele mantém a propriedade da família em Bela Vista de Goiás, a aproximadamente 53 quilômetros de Goiânia. Foi ali que começou a produzir frutas e, posteriormente, a estruturar a produção que daria origem aos sucos da marca Honest. O limão foi o ponto de partida. “Eu comecei o projeto com fomento. Eu não teria nem plantado”, revelou ao Jornal Opção.
A frase de Joaquim resume o que o financiamento representou naquele momento. O crédito obtido por meio da GoiásFomento não serviu apenas para melhorar algo que já existia. Foi o recurso que permitiu que uma ideia produtiva pudesse ser implantada. Na propriedade, são cerca de 4 mil pés de limão e aproximadamente 900 pés de amora. A escolha pela fruta vermelha veio depois que Joaquim percebeu que precisava diversificar a produção para aumentar o volume e a variedade utilizados na fabricação dos sucos.
O trabalho, no entanto, continua sendo essencialmente rural. A colheita da amora é manual. As plantas precisam ser podadas duas vezes por ano. E, quando chega a época da colheita, aparece outro desafio: encontrar mão de obra. A produção, portanto, não termina na lavoura. O fruto cultivado na propriedade chega ao consumidor transformado em produto. É uma lógica parecida com a que aparece na história de Adriana Carvalho Rodrigues, embora em outro setor.

Crescer sem perder a própria identidade
Adriana tem 52 anos e trabalha como empreendedora e produtora rural. Sua relação com o vinho começou muito antes de o negócio ganhar a dimensão que tem hoje. Por volta de 2003, ela e o então marido, apaixonados pela bebida, começaram a alimentar o desejo de plantar uvas e produzir o próprio vinho. Dois anos depois, o projeto começou a ganhar forma. O pai de Adriana havia comprado uma propriedade rural e permitiu que ela utilizasse parte da área para cultivar as primeiras videiras.
O terreno, antes usado para criação de gado, precisou ser preparado. Foi necessário construir reservatórios para aproveitar a água da chuva, instalar irrigação para enfrentar o período seco e adquirir as mudas de uva. O projeto cresceu aos poucos.
Adriana passou a trabalhar com a Pireneus Vinhos e Vinhedos e, posteriormente, estruturou também a Caliandra Vinhos e Vinhedos, projeto que reúne produção e experiências de enoturismo e gastronomia em uma propriedade rural. A GoiásFomento entrou nessa história em diferentes momentos. Primeiro, para ajudar na implantação dos vinhedos e da estrutura da vinícola. Depois, para viabilizar um restaurante em Pirenópolis. Mais tarde, novamente, para investimentos em energia fotovoltaica, atendendo às necessidades da propriedade rural e do empreendimento na cidade.

Adriana admite que, no início, tinha resistência à ideia de buscar financiamento. Com o tempo, porém, percebeu que alguns projetos não avançariam apenas com os recursos que o próprio negócio gerava. O resultado aparece nos números da produção. O que começou com cerca de 3,5 mil garrafas chegou a 5 mil, depois 8 mil e, atualmente, ultrapassa 18 mil garrafas. O crescimento, no entanto, não aconteceu de uma vez. “É um crescimento progressivo porque, por mais que a gente use parte em financiamento, a gente não faz nada muito grande, muito fora da nossa realidade.”
A relação com o crédito também mudou. “Hoje eu vejo essa questão dos empréstimos, dos financiamentos, de forma mais tranquila, mais segura”, afirma. O financiamento, para Adriana, deixou de representar um risco desconhecido e passou a ser uma ferramenta de planejamento. “Eu já tenho uma segurança em buscar um financiamento.”
A história dela acrescenta outra dimensão à de Joaquim. Se o crédito foi fundamental para que ele pudesse colocar uma nova produção no campo, para Adriana ele foi sendo utilizado em diferentes momentos, acompanhando o amadurecimento do negócio. Em comum, os dois tinham algo que nenhum financiamento poderia criar sozinho: um projeto no qual acreditavam.
Quando o crédito significa continuar de portas abertas
Há ainda quem não procure financiamento para começar um projeto ou para dar um passo maior. Às vezes, o crédito chega justamente quando o empreendedor está tentando evitar que tudo o que construiu desapareça. É o caso da Tupinambás Artesanato.
O comércio nasceu há 39 anos, pelas mãos da mãe do marido de Vanessa Santos Araújo Palhares, inicialmente voltado para peças indígenas, cestarias e artigos rústicos. O próprio nome da loja carrega essa origem. Com o passar dos anos, a empresa mudou. Sem abandonar o artesanato e o caráter rústico que marcaram sua história, passou a incorporar produtos de Páscoa, Festa Junina e Natal. Hoje, esses segmentos representam uma parcela importante das vendas.
Mas houve um momento em que não havia espaço para pensar em expansão. As vendas estavam baixas e o negócio atravessava uma fase financeira difícil. Foi nesse cenário que o financiamento da GoiásFomento apareceu. “Então, foi ali um momento que, se a gente não tivesse recebido esse empréstimo, muito provavelmente a gente teria fechado as portas”, contou Vanessa ao Jornal Opção.

O dinheiro trouxe fôlego para o negócio. Com a situação mais equilibrada, veio também algo que não aparece necessariamente em um balanço financeiro: confiança. A empresa conseguiu manter suas atividades, preservar postos de trabalho e continuar buscando novas possibilidades. Atualmente, são 11 colaboradores entre empregos diretos e indiretos.
A mudança de estratégia também fez parte da recuperação. A loja ampliou sua atuação e passou a acompanhar melhor a demanda de diferentes épocas do ano, sem abandonar a identidade que carregava desde a fundação. “A gente direcionou um pouco a nossa demanda, tentando manter sempre a nossa essência, que era o artesanal, o rústico.”
Agora, os planos voltam a apontar para o futuro. Vanessa fala em reformar e ampliar a loja e até abrir uma nova unidade.
A história da Tupinambás mostra um outro lado do crédito. Nem sempre ele chega para financiar um sonho que está começando. Às vezes, ele é o que permite que uma história construída ao longo de décadas continue existindo.
Cinco caminhos para a mesma palavra
As histórias são diferentes porque as necessidades também são.
Vanessa Rodrigues precisava de uma oportunidade para estudar quando a realidade financeira a empurrava para os semáforos. Ana Araújo encontrou na educação um caminho para transformar a formação em profissão. Joaquim precisava de recursos para colocar uma nova produção no campo. Adriana utilizou o financiamento para fazer um negócio crescer aos poucos, sem perder sua identidade. E a Tupinambás precisou de fôlego para atravessar uma crise e continuar de portas abertas. Nenhuma dessas trajetórias aconteceu de um dia para o outro.
Em todas elas, existe um intervalo entre receber uma oportunidade e conseguir transformar essa oportunidade em resultado. Há estudo, trabalho, planejamento, insistência, erros, dificuldades e decisões que continuam sendo tomadas depois que o recurso chega. É justamente por isso que autonomia não significa a mesma coisa para todos.
Para Vanessa, foi poder trocar o semáforo pelo escritório de advocacia e oferecer à filha uma realidade diferente daquela que ela própria viveu. Para Ana, é transformar o diploma em profissão. Para Joaquim, é plantar e produzir. Para Adriana, é conseguir olhar para um novo investimento com mais segurança. Para a família da Tupinambás, é manter as portas abertas e poder voltar a pensar em expansão.
O ponto de encontro entre as histórias não está no tipo de benefício recebido, mas no que cada um conseguiu fazer depois dele. Uma bolsa virou profissão. Um financiamento virou plantação. Outro virou uma vinícola maior. Outro impediu que um comércio fechasse.No fim, talvez seja essa a parte mais difícil de medir quando se fala em políticas de inclusão: o momento em que uma ajuda deixa de ser apenas um recurso recebido e passa a fazer parte de uma trajetória construída pela própria pessoa.
É quando a oportunidade deixa de ser apenas uma porta aberta e começa, de fato, a mudar o rumo de uma vida.


