PrEP injetável tem quase 100% de eficácia; médicos celebram avanço, mas alertam para o abandono da camisinha e o aumento de outras ISTs
29 julho 2026 às 12h56

COMPARTILHAR
O lenacapavir injetável, um medicamento aplicado apenas duas vezes ao ano, demonstrou alta aceitação entre os participantes de um estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Dos 668 voluntários elegíveis para a pesquisa, realizada entre 3 de fevereiro e 15 de julho deste ano, 651 (97%) escolheram iniciar a profilaxia com a injeção semestral em vez da PrEP oral diária, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2018.
Nos dados divulgadas nesta terça-feira, 21, e que serão oficialmente apresentados durante a 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro, mostram que os estudos clínicos PURPOSE 1 e PURPOSE 2 comprovaram que a eficácia do novo método se mantém próxima de 100%, com uma taxa de adesão às injeções de cerca de 96%. Entretanto, infectologistas ouvidos pelo Jornal Opção ressaltaram que comodidade da nova tecnologia não pode significar o abandono do preservativo.
Os resultados preliminares fazem parte do ImPrEP LEN-Brasil, primeiro estudo de implementação do lenacapavir na América Latina. O dado mais chamativo mostra que, entre os voluntários que começaram a tomar o lenacapavir, 78,3% nunca haviam utilizado nenhuma modalidade de PrEP anteriormente. Isso indica que a versão injetável está alcançando um público que, por diferentes razões (como dificuldade de manter o uso diário de comprimidos, estigma ou barreiras de acesso), permanecia distante das estratégias tradicionais de prevenção.
Em ambos os estudos, realizados com grupos distintos: o PURPOSE 1 com mulheres cisgênero e o PURPOSE 2 com homens cisgênero, homens trans, mulheres trans e pessoas não binárias, incluindo brasileiros, 95% dos pacientes que decidiram continuar o tratamento não apresentaram nenhuma nova infecção por HIV. Dos 3.004 participantes que receberam a injeção de lenacapavir, apenas quatro apresentaram infecção pelo vírus, sendo que três desses casos já haviam sido registrados anteriormente, evidenciando uma incidência extremamente baixa.
Em entrevista ao Jornal Opção, a médica infectologista Christiane Kobal explicou a novidade daquilo que já existe. “Temos duas PrEP injetáveis. A gente tem uma PrEP a cada dois meses, disponível no Brasil, não no SUS, mas na rede privada, em que a pessoa já toma uma injeçãozinha intramuscular a cada dois meses e, ali temos fora do Brasil, talvez o SUS incorpore para o ano que vem o Lenacapavir, que a cada seis meses”, explicou.

Segundo a especialista, todas as profilaxias disponíveis, incluindo a oral, possuem eficácia próxima a 100%. “Então, as pessoas já fazem PrEP no Brasil, ou seja, com isso a gente está diminuindo muito a incidência dos novos casos de HIV. A PrEP injetável é mais cômoda, mas ela não é superior em eficácia às outras que também têm altos níveis. Mais cômoda, por quê? Porque ela é uma injeção que pode ser feita a cada dois meses, que é o Cabotegravir, ou o Lenacapavir, que a cada seis”, detalhou. “Com isso, nós vamos otimizar a prevenção, ela é mais fácil de ser feita, já que ela não é todos os dias, o paciente não vai esquecer de tomar o comprimido todos os dias, porque ela é injetável”, completou.
Kobal, no entanto, ressaltou que a melhor PrEP continua sendo a camisinha. “Todo mundo esquece isso agora, mas a melhor PrEP é a camisinha, só que as pessoas perderam o hábito de usar camisinha”, lamentou. A infectologista destacou que, com o relaxamento no uso do preservativo, o mundo já presencia um aumento alarmante de sífilis, gonorreia e clamídia. “Infelizmente, o comportamento humano parece que caminha para essa área. ‘Eu vou tomar uma injeção a cada dois meses ou a cada seis meses, eu vou ficar tranquilo com relação ao HIV’, mas o que eu vou fazer com as outras ISTs?”, questionou.
Enquanto a Anvisa aprovou o registro do lenacapavir em janeiro de 2026, o medicamento ainda não está disponível para compra nas farmácias nem é distribuído pelo SUS, aguardando a definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). A definição de quem terá acesso à injeção semestral na rede pública, segundo Kobal, dependerá de Brasília.
“Na minha opinião, como infectologista, eu iniciaria para as pessoas difíceis de tomar comprimidos por dia. Por exemplo, os pacientes que estão privados de liberdade. As pessoas que estão nos presídios do Brasil. Para os pacientes dependentes químicos, por exemplo, que podem esquecer de tomar o remédio”, sugeriu.
Corroborando essa visão, o médico infectologista Marcelo Daher, também ouvido pelo Jornal Opção, enfatizou que a grande vantagem do lenacapavir está na capacidade de alcançar populações marginalizadas. “Vamos pegar um público onde a doença incide mais, e você tem mais dificuldade de acesso a esse público, que são as pessoas, homens trans, mulheres trans, garotas de programa, garotos de programa, que o acesso à saúde é muito difícil para eles”, descreveu Daher. “Se você consegue ligar eles ao sistema de saúde, com medicamento que vai fazer a cada 6 meses, só um injetável, que não vai precisar tomar comprimido todo dia, não precisa voltar com tanta frequência, você garante uma eficácia do produto com maior certeza e uma duração maior”, completou.

Segurança e a revolução na adesão
Tanto Kobal quanto Daher concordam que o lenacapavir é uma medicação segura. “São drogas seguras, são drogas excelentes, tanto a de dois meses, que é o Cabotegravir, quanto o Lenacapavir, que é a cada seis, quase não tem efeito colateral, é uma revolução mundial na prevenção do HIV”, celebrou Kobal. “É uma coisa histórica. É uma coisa maravilhosa, imagina, você pode tomar uma injeção a cada seis meses e ter uma eficácia próxima de 100%. Maravilhoso”, completou a infectologista.
Daher, por sua vez, destacou o impacto positivo que a injeção semestral pode ter na adesão ao tratamento, citando a experiência de países como os Estados Unidos. “Pacientes que tinham muita dificuldade de adesão, quando passam a fazer o injetável, eles começam a ficar indetectáveis e começam a ter uma resposta mais favorável, mostrando que há um benefício muito grande nessas situações”, afirmou.
Segundo ele, a mudança de perspectiva é tão grande que “a partir do momento que o medicamento é injetável a cada dois ou seis meses, o paciente com dificuldade de tomar, de ingerir remédio, ou até de aceitação da doença, muda sua perspectiva”.
Apesar do otimismo, a preocupação com o aumento das ISTs permeia toda a discussão. “Por isso que os infectologistas brasileiros e no mundo inteiro falam sobre isso, nós estamos tendo o Congresso Mundial de AIDS agora no Rio de Janeiro, e vamos falar sobre a gente não pode abandonar o preservativo”, alertou Kobal. “O médico, ele tem que insistir, por mais que o público-alvo não queira usar. Mas é possível sim, porque o preservativo, ele deveria estar no pacote de prevenção”, concluiu.
Leia também:
FGTS libera pagamento de R$ 13 bilhões; saiba quanto você vai receber



