Uma filhote de girafa-reticulada está chamando a atenção de especialistas do mundo inteiro após sobreviver a uma cesariana de emergência considerada extremamente rara. Batizada de Milani, ela nasceu prematura no Parque de Vida Selvagem de Tanganyika, no estado do Kansas, nos Estados Unidos, e pode se tornar o primeiro caso conhecido de uma girafa que sobreviveu a esse tipo de procedimento.

Apesar da boa notícia, a história teve um desfecho doloroso para a mãe da filhote. A girafa Virtue apresentou falência múltipla de órgãos durante a gestação e precisou ser submetida à eutanásia logo após a cirurgia.

Segundo o parque, a equipe veterinária realizou uma chamada “cesariana terminal”, procedimento adotado quando os médicos sabem que não será possível salvar a mãe, mas ainda existe uma chance de preservar a vida do filhote.

“Todos os especialistas em neonatologia de girafas disseram que nunca tinham visto uma girafa prematura sobreviver a um parto como este. Mesmo assim, Milani nasceu respirando”, informou o parque.

Desde o nascimento, a filhote recebe monitoramento ininterrupto, acompanhado por veterinários e tratadores durante 24 horas por dia.

Apesar do estado ainda ser considerado crítico, Milani já conseguiu atingir marcos importantes para sua recuperação. Ela consegue respirar sem aparelhos, deitar, levantar parcialmente e até evacuar sem ajuda, avanços que surpreenderam a equipe responsável.

Cirurgia foi o último recurso

Os veterinários começaram a perceber que Virtue perdia o apetite e apresentava rápida piora no estado de saúde nas semanas que antecederam o parto.

Exames revelaram níveis elevados de lactato — indicador de falência celular — além de problemas na coagulação sanguínea e comprometimento de diversos órgãos.

Sem possibilidade de recuperação da mãe, seis veterinários e especialistas de nove instituições diferentes decidiram tentar salvar apenas o filhote.

O procedimento foi ainda mais delicado porque cesarianas em girafas quase nunca são realizadas. A anatomia do animal torna tanto a anestesia quanto a cirurgia extremamente arriscadas.

Na natureza, as girafas dão à luz em pé, e o filhote cai de aproximadamente dois metros de altura. O impacto ajuda a romper o cordão umbilical, eliminar líquidos dos pulmões e estimular a primeira respiração — algo que Milani precisou receber artificialmente logo após nascer.

Recuperação exige cuidados intensivos

Com a morte da mãe, Milani também ficou sem acesso ao colostro, primeiro leite responsável por transmitir anticorpos essenciais para a imunidade.

Para compensar essa perda, os veterinários utilizaram plasma armazenado havia mais de seis anos em um banco compartilhado entre zoológicos e administraram um suplemento bovino para substituir o colostro.

Além disso, a filhote passa por alimentação controlada, exames frequentes de sangue, controle de glicemia, hidratação, monitoramento da temperatura e sessões diárias de fisioterapia para fortalecer as pernas.

Mesmo pesando cerca de 45 quilos, Milani ainda não consegue permanecer em pé sozinha.

Caso pode entrar para a história

Os resultados preliminares da necropsia de Virtue apontaram doença cardíaca e renal avançadas, além da presença de um cisto uterino. A causa definitiva da morte ainda será confirmada pelos exames laboratoriais.

Para o diretor do Tanganyika Wildlife Park, Matt Fouts, o caso representa um marco para a conservação da espécie.

“É raro perder um animal e, ao mesmo tempo, conseguir salvar outro. Nossa equipe fez o impossível para dar a Milani a melhor chance de sobreviver.”

A diretora de operações do parque, LynnLee Schmidt, também destacou o esforço dos profissionais envolvidos.

“As pessoas não imaginam o trabalho que existe por trás de cada hora de vida dessa filhote. Há uma equipe inteira dedicada exclusivamente a mantê-la viva.”

Classificadas como vulneráveis à extinção, as girafas-reticuladas sofrem com a perda de habitat, caça ilegal e conflitos com seres humanos. Na natureza, mais da metade dos filhotes não sobrevive aos primeiros meses de vida, o que torna a recuperação de Milani ainda mais extraordinária.

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