Uma pesquisa publicada na revista científica Current Biology aponta que a contaminação por cocaína pode alterar de forma significativa o comportamento de peixes em ambiente natural. O estudo, realizado no Lago Vättern, na Suécia, mostrou que salmões juvenis expostos a resíduos da droga nadam mais, percorrem maiores distâncias e passam a ocupar áreas mais amplas do lago.

De acordo com os pesquisadores, os peixes expostos ao metabólito da cocaína, a benzoylecgonina, chegaram a nadar até 1,9 vez mais por semana do que os não expostos. Além disso, esses animais se dispersaram mais, sendo registrados a até 12,3 quilômetros além do ponto onde foram soltos, enquanto o grupo controle permaneceu concentrado nas proximidades da área inicial.

O acompanhamento foi feito ao longo de oito semanas e revelou que, embora todos os peixes tendam a reduzir a atividade com o tempo, aqueles expostos à substância mantiveram níveis mais elevados de movimentação. Na prática, isso significa que continuaram explorando regiões mais distantes do lago, enquanto os demais apresentaram comportamento mais estável e localizado.

Charu Chandan Blood Drip (7)
Métodos utilizados na pesquisa | Foto: Current Biology

A pesquisa também identificou mudanças no uso do espaço. Nos primeiros dias, todos os peixes permaneceram próximos ao local de soltura, na região sul do lago. Com o passar das semanas, no entanto, os indivíduos expostos à substância migraram gradualmente para áreas mais ao norte, ampliando sua área de circulação. Esse padrão foi mais evidente entre os peixes expostos ao metabólito da droga.

Os cientistas explicam que a benzoylecgonina chega aos ambientes aquáticos por meio do esgoto, já que é eliminada pelo corpo humano após o consumo de cocaína e nem sempre é totalmente removida no tratamento de água. Mesmo em baixas concentrações, a substância pode afetar o sistema nervoso dos animais, alterando comportamentos essenciais como locomoção, alimentação e interação com o ambiente.

Embora os efeitos sobre a sobrevivência dos peixes ainda não sejam conclusivos, os pesquisadores alertam que o aumento da movimentação pode trazer consequências importantes. Peixes mais ativos tendem a gastar mais energia, modificar rotas naturais de migração e se expor a novos predadores e riscos ambientais. Além disso, mudanças no padrão de deslocamento podem afetar a cadeia alimentar e até atividades humanas, como a pesca.

O estudo reforça o alerta sobre a presença crescente de drogas ilícitas em rios e lagos ao redor do mundo. Para os autores, compreender como esses poluentes afetam a fauna em condições reais, e não apenas em laboratório, é fundamental para avaliar os impactos ambientais e pensar em estratégias de mitigação.

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