Traduzido pela polonesa Regina Pryzien e lançado pela Companhia das Letras, os poemas de Wislawa Syzmborska carregam um mundo difícil ignorar e passar em branco depois da leitura. Poemas de quem conversa com as pedras, critica a imensidão das estrelas e descreve um mundo tão dolorido e colorido que é impossível não fissurar-se na leitura por horas a fio.

Poeta polonesa e vencedora do Prêmio Nobel de literatura de 1996, Szymborska viveu a Segundo Guerra Mundial trabalhando e estudando enquanto tentava evitar sua deportação para o território do Terceiro Reich. Escreveu sobre Hitler, sobre quais caminhos percorreria as pernocas da criança que responsável pela dizimação de milhões em sua busca insana pelo poder quando adulto.

Ler Szymborska é descobrir que seus poemas nunca terminam na última linha. A estrela não é apenas uma estrela, assim como a pedra nunca é apenas uma pedra. Existe sempre um deslocamento, uma ironia silenciosa, um detalhe que muda completamente o sentido do texto. Ela transforma objetos aparentemente insignificantes em perguntas sobre a existência, o tempo, a memória e a própria linguagem. O leitor termina um poema convencido de que entendeu tudo; alguns minutos depois percebe que talvez não tenha entendido nada.

Na melhor das hipóteses,

meu poema, você será lido atentamente,

comentado e lembrado.

Na pior das hipóteses

somente lido.

A estrela é grande e longínqua, e de tão longínqua torna-se pequena, descreve ela sobre o astro que não vala sequer uma tese de doutorado. Se ao menos tivéssemos tempo para ela. Sobre o próprio poema, conversando, assim como conversa com pedras, projeta grandezas, temendo desprezo, a insignificância e o poema não escrito.

É descritiva, e dialógica. Curiosa. Investigativa e extremamente engraçada. Antropomorfiza as pedras, enquanto seu eu lírico passa pelos eventos com presença de quem nunca será esquecida e de quem sabe que seus poemas serão sempre comentados e lembrados.

Excesso

Foi descoberta uma nova estrela
o que não significa que ficou mais claro
nem que chegou algo que faltava.

A estrela é grande e longínqua,
tão longínqua que é pequena,
menor até que outras
muito menores do que ela.
A estranheza não teria aqui nada de estranho
Se ao menos tivéssemos tempo para ela.

A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da
estrela,
tudo isso quiçá seja suficiente
para uma tese de doutorado
e uma modesta taça de vinho
nos círculos aproximados do céu:
o astrônomo, sua mulher, os parentes e os colegas,
ambiente informal, traje casual,
predominam na conversa os temas locais
e mastiga-se amendoim.

A estrela é extraordinária,
mas isso não é razão para não beber à saúde das nossas
senhoras
incomparavelmente mais próximas.

A estrela não tem consequência.
Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo,
na mudança de governo, na renda e na crise de valores.

Não tem efeito na propaganda nem na indústria pesada.
Não tem reflexo no verniz da mesa de conferência.
Excedente em face dos dias contados da vida.

Pois o que há para perguntar,
sob quantas estrelas um homem nasce,
e sob quantas logo em seguida morre.

Nova.
— Ao menos me mostre onde ela está.
— Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada
E aquele galhinho de acácia mais à esquerda.
— Ah — exclamo.