Reação de manifestantes em reunião para discutir projeto do governo gerou debates nas redes sociais

Foto: Marcelo Gouveia/Jornal Opção
Secretária foi hostilizada por professores e alunos da Faculdade de Educação da UFG | Foto: Marcelo Gouveia/Jornal Opção

A manifestação de estudantes durante reunião do Conselho Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG), registrada em primeira mão pelo Jornal Opção na última quarta-feira (20/1), tem gerado debates nas redes sociais. O encontro marcado para discutir a implantação das Organizações Sociais (OSs) na Educação goiana acabou se tornando uma manifestação de repúdio contra a secretária Raquel Teixeira, que havia sido convidada a participar do debate e acabou deixando o local aos gritos, praticamente expulsa.

No Facebook, pesquisadores discutiram não apenas a reação dos manifestantes, mas também o processo de implementação das OSs na rede estadual de ensino. O PhD em Geografia Tadeu Arrais saiu contra a proposta de gestão compartilhada, alegando falta de diálogo com a comunidade, além do possível vínculo político dos diretores das organizações, e, ainda, questionando a lucratividade das mesmas.

Em resposta, o sociólogo Fábio Coimbra rebateu os argumentos utilizados por Arrais ao denominar o discurso do geógrafo como “contrário a qualquer mudança nos nichos controlados pelos grupos corporativos”, estes que, segundo Fábio, querem permanecer no controle da Educação, sem se preocupar, de fato, com as melhorias no setor. O pesquisador criticou, ainda, o discurso brando do colega quanto à “agressão” sofrida pela secretária.

A fala de Coimbra foi reforçada pelo também sociólogo Paulino Bittencourt. Em seu comentário, o pesquisador criticou o discurso de Arrais, classificando-o como “decantada ideologia da esquerda”. Por fim, o jornalista Gilberto Marinho também integrou a discussão, e assim como os últimos dois citados, reprovou o posicionamento contrário à implantação das OSs, que, conforme o profissional, é “dominado pela prevalência do discurso ideológico, e pelo corporativismo e sindicalismo”.

Confira a íntegra dos comentários:

Tadeu Arrais
Acho que temos que esclarecer algo. O edital das OS, que muda a matriz pedagógica e a matriz de investimentos públicos, não foi discutido com a comunidade. E não foi mesmo. A própria secretaria admitiu que o tempo foi reduzido. Discutir o que, já que o processo está implementado. Só um dado apenas. O custo médio por aluno, de repasse para as escolas, do Proescola, para manutenção, não ultrapassa R$ 50 reais por aluno. A previsão do edital de chamamento é de R$ 250, no mínimo, e R$ 350, no máximo. Para a menor escola, com 10 salas de aula, será destinado algo que pode chegar a R$ 1,3 milhões  por ano, sem contar os aditivos. Esses dados estão no edital. Estou mapeando os dados e isso é claro. Não estou inventando nada. Não há previsão segura de piso para professores. “A OSs poderá…”, diz o edital. Então, para além da tensão, que não concordo, também temos que observar a retórica do não diálogo antecipado pelo Estado. O Jornal Opção faria um enorme favor a sociedade goiana se discutisse essa matriz de financiamento, citando os prós e os contras. Outra coisa, o professor Rafael Saddi fez um prévio estudo das OSs qualificadas. É assustador o vínculo partidário do diretores. Um bom início de debate seria admitir, e isso o governo não faz, que as OSs terão lucro. Só assim faremos um debate maduro que não tenha como fim a agressão verbal ou mesmo um revólver na cabeça. Obrigado pela atenção.

Fábio Coimbra
Tadeu Arrais é, possivelmente, apenas mais um esquerdista que é contrário a qualquer mudança nos nichos controlados pelos grupos corporativos. Não quer debater a sério coisa alguma. Se quisesse, teria começado por condenar, com veemência, a agressão sofrida pela secretária da Educação, sra. Raquel Teixeira. Mas não o faz. Sua condenação, se é uma condenação, é suave, quase um perdão aos supostos jovens idealistas. Sabe por quê? Porque quer ficar bem com os estudantes e com os colegas que expulsaram a professora. O sr. Tadeu Arrais é, como típico esquerdista, adepto das discussões intermináveis. Porque as discussões, no fundo, têm um objetivo: impedir qualquer mudança. Na verdade, não quer melhorar a escola pública coisa alguma. Nem quer discutir a sério a questão. Veja que não comenta, nem de passagem, as escolas que são dirigidas por militares. As escolas são o objeto de desejo de todos os municípios goianos — salvo engano, 240. Ou pouco mais. Por que funcionam? Porque há disciplina, há aulas todos os dias, os currículos são cumpridos e não se fica discutindo o sexo dos anjos, como mudanças estruturais, que nunca chegam, nem vão chegar. Não importa, sr. Tadeu, se o custo por aluno vai ficar mais alto. O que importa é concluir, ao final do processo, se o aprendizado do aluno da escola pública melhorou e se equivale ao aprendizado do aluno da escola particular. O sr. Tadeu Arrais não está “inventando” nada. Só não quer, na prática, que a escola pública melhore. Quer mantê-la sob o controle dos feudos corporativos, que a usam para eleger vereadores, prefeitos, deputados etc. Por trás da discussão supostamente técnica, caro sr. Gonçalves Dias, há a discussão ideológica. O sr. Tadeu vive no mundo da lua quando diz que “é assustador o vínculo partidário do (sic) diretores”. No Brasil, país no qual o PT aparelhou quase tudo, privatizando o Estado, é mesmo lícito discutir os supostos vínculos de dirigentes de organizações sociais com organizações partidárias? A lei, por acaso, proíbe que algum dirigente de OS seja filiado a um partido político? Só mesmo os srs. Rafael Saddi e Tadeu Arrais, nefelibatas de primeira hora, para se preocuparem com a questão. Deveriam pesquisar assuntos mais sérios para a sociedade. Quem paga o sr. Tadeu Arrais para ficar deblaterando em redes sociais? O poder público, é lógico. Sr. Tadeu Arrais investigue ONGs e fundações, dessas que certamente estão próximas do sr., e certamente concluirá que estão no mínimo monitoradas pelo PT ou outros partidos de esquerda. Por fim, insisto num ponto: os grupos corporativos não querem melhorar a educação coisa alguma, querem apenas manter o controle das escolas públicas, sacrificando a qualidade do ensino e impondo suas ideologias de esquerda. Sr. Gonçalves Dias, que honra o poeta com o belo nome, fique esperto: a discussão proposta pelo sr. Tadeu Arrais visa exclusivamente travar qualquer mudança na educação. É pura ideologia. É puro esquerdismo camuflado de debate técnico, isento e imparcial. O sr. Tadeu Arrais quer usar os jornais para impor suas ideologias, às vezes espúrias e autoritárias. Lembre-se da União Soviética, da China e, mais recentemente, de Cuba, sr. Gonçalves Dias.

Paulino Bittencourt
Sr. Henrique Gonçalves Dias, concordo, sem tirar nem pôr, com o breve texto escrito pelo Fábio Coimbra, meu hermano. Por trás do discurso supostamente técnico do sr. Tadeu Arrais, como o custo de cada aluno e a possibilidade de lucro, há a velha e decantada ideologia da esquerda. A esquerda não quer as organizações sociais na Educação, em Goiás e em qualquer outro lugar, porque teme perder, como diria o francês Louis Althusser, de triste memória, o controle de “seu” tradicional “aparelho ideológico”. Noutras palavras, a esquerda não quer melhorar a educação coisa alguma. Quer, isto sim, manter o controle das escolas e de seus fundos financeiros. É um controle ideológico que, nas eleições, se transforma em controle político partidário. Os grupos corporativos de esquerda estão desesperados com a possibilidade de perder o controle gestor das escolas. Aí manipulam jovens, com a tese de que é preciso discutir o assunto de maneira mais detida, e chegam a convencer os desavisados. Se for discutir, sem entender o viés do jogo ideológico, o governo não vai melhorar as escolas públicas. Nunca.

Gilberto Marinho
Seria cômico se não fosse trágico. É esse pessoal que reclama contra a violência quando o Chico Buarque e a elite petista são hostilizados nos locais públicos. A universidade pública brasileira, que deveria ser aberta à livre discussão das ideias, é dominada pelo pensamento único, pela prevalência do discurso ideológico, pelo corporativismo e sindicalismo. Está de costas para o País. Essa reação toda às OS tem dois motivos principais: o primeiro, é o medo de o modelo atual ser comparado com o melhor desempenho que as OS, a exemplo das escolas militares, sem dúvida apresentarão; o segundo, é usar essa oportunidade para desviar a atenção da opinião pública dos “escandalosos escândalos” de corrupção nunca antes vistos na história deste País. Por falar nisto, ao dizer que ninguém é mais honesto que ele, o grande líder desse pessoal fez o que a esquerda sabe fazer de melhor: nivelar tudo por baixo. E, com as OS, o governo goiano está querendo nivelar a Educação por alto, com melhor padrão de qualidade.Em uma edição anterior do Opcao, um articulista perguntou por que os políticos não colocam seus filhos na escola pública. O que ninguém perguntou é por que os professores não colocam seus filhos na escola pública?