Pesquisa aponta que 1 em cada 4 pessoas culpa mulher por estupro

Levantamento dos Institutos Avon e Locomotiva mostrou que apesar de ser criticado, machismo continua sendo tolerado no cotidiano

Pesquisa constatou que 27% dos entrevistados acreditam que mulheres podem ser culpadas em caso de violência sexual | Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Pesquisa constatou que 27% dos entrevistados acreditam que mulheres podem ser culpadas em caso de violência sexual | Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Uma pesquisa realizada pelos Institutos Avon e Locomotiva apresentada nesta quarta-feira (7/12) durante o 4º Fórum Fale Sem Medo, em São Paulo, mostrou dados sobre o machismo no país. Segundo o levantamento, intitulado “O papel do homem na desconstrução do machismo”, 27% dos entrevistados — cerca de 1 a cada 4 — acreditam que as mulheres podem ter culpa caso sejam estupradas.

Foram ouvidas 1800 pessoas, de 70 cidades e o levantamento indicou que apesar das críticas ao machismo, as atitudes na prática mostram tolerância a comportamentos machistas. Enquanto 85% dos homens concordaram que todos os pais devem educar os filhos para ser menos machistas, 43% deles dizem “pegar mal” reclamar de um amigo que compartilha fotos de mulheres nuas em grupos privados de homens e 61% consideram que a mulher que se deixou fotografar também tem culpa quando um homem compartilha suas imagens íntimas sem autorização nas redes sociais.

Para 78% dos entrevistados,  as mulheres devem conhecer seus direitos e ser incentivadas a lutar por eles; 59% concordam que todas devem ser respeitadas, não importando sua aparência, nem seu comportamento; e 67% dizem que homens e mulheres devem ser igualmente responsáveis pelos cuidados com a casa e com os filhos.

Mas quando são mostradas situações cotidianas, a situação é alterada. Quase metade dos homens (48%) acreditam que é desagradável ou humilhante o homem cuidar da casa enquanto a mulher trabalha fora e apenas 35% acham que cabe ao homem ajudar a mulher. Em relação a brigas de casal, 78% dizem não interferir ou interferir apenas em casos de violência extrema.

O machismo, de acordo com o levantamento, é considerado negativo por 79% das pessoas. Mas enquanto 87% dos homens acreditam que a sociedade é machista, apenas 24% se consideram assim. A pesquisa também mostra que 24% dos homens não têm coragem de defender as mulheres no meio de outros homens e que 31% não gostariam de ser machistas, mas não sabem como agir.

Percepção do feminismo

Em relação a como o feminismo é visto,  20% dos homens e 55% das mulheres se consideram feministas, mas 55% das pessoas dizem que o feminismo é contrário ao machismo e 32% acham que o feminismo está ultrapassado. Outros 44% afirmaram que chamá-los de machistas não os motiva a se engajar no enfrentamento à violência contra a mulher e 54% disseram ter tido uma conversa pessoal antes de mudar as atitudes.

Para o presidente do Instituto Locomotiva, o fato de um quarto da população admitir ser machista mostra que o tema ainda precisa avançar muito. “Sabemos que o conhecimento da maioria das pessoas sobre o tema ainda é muito superficial. O tamanho da oportunidade que se abre é a de que seis em cada dez homens – ou seja, 46 milhões de brasileiros adultos – acreditam que poderiam lidar com as questões femininas de forma diferente e melhor “, defendeu.

A coordenadora de Projetos de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do Instituto Avon, Mafoani Odara Poli Santos, disse que a pesquisa é um disparador de processos importantes de reflexão e transformação. “Trazemos nessa pesquisa de percepção dados superpositivos, mas ainda existe muita tolerância em processos e violências contra a mulher com um quarto dos homens acreditando que as mulheres têm culpa de serem estupradas. Esses dados contrapõem o que é percepção e o que é prática. Nas coisas mais básicas do processo de educação, as pessoas não conseguem mudar.”

Já a jornalista Jacira Melo, fundadora e diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, ressaltou que este é o momento oportuno para debater o assunto com os homens, se for analisado que há 36 anos mulheres do país inteiro protestaram, escrevendo nos muros a frase “quem ama, não mata”, em um momento no qual a violência contra as mulheres não era reconhecida como problema social grave. (Com informações da Agência Brasil)

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.