Partos após os 40 crescem 83% no Brasil; gravidez de Maju Coutinho aos 48 reacende debate
28 agosto 2026 às 19h21

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A gravidez da jornalista Maju Coutinho, anunciada aos 48 anos, chama atenção para uma mudança no perfil da maternidade no Brasil: cada vez mais mulheres têm filhos depois dos 40. O movimento ocorre justamente em uma fase da vida em que muitas começam a apresentar alterações menstruais relacionadas à transição para a menopausa.
Estudo realizado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, Faculdade de Medicina do ABC, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade de Pavia, publicado na revista Climacteric, aponta que a idade média de entrada na menopausa entre as brasileiras analisadas foi de 48 anos.
A pesquisa ouviu 1,5 mil mulheres de 45 a 65 anos e identificou o início da irregularidade menstrual, em média, aos 46 anos. A referência internacional adotada pela International Menopause Society e pela The Menopause Society é de 51 anos. Isso significa que uma mulher que engravida aos 46, 47 ou 48 anos pode estar vivenciando simultaneamente uma gestação e a chamada transição menopausal. São processos diferentes, mas que podem ocorrer na mesma fase da vida.
“A mulher que engravida aos 45, 46, 48 anos não está fora da menopausa. Ela está dentro da transição menopausal, gestando”, afirma a médica Fabiane Berta. Segundo ela, o cenário exige uma abordagem que considere não apenas a gestação, mas também aspectos metabólicos e cardiovasculares relacionados à idade.
Partos depois dos 40 aumentam
Dados das Estatísticas do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de partos entre mulheres com 40 anos ou mais passou de 57.983, em 2003, para 106.263, em 2022. O aumento foi de 83%. A faixa etária foi a que apresentou o maior crescimento no período.
Enquanto o número de nascimentos recuou entre outras faixas de idade, os partos entre mulheres com 40 anos ou mais seguiram trajetória de alta. O adiamento da maternidade pode estar relacionado a diferentes fatores, como maior tempo dedicado à formação profissional, carreira, condições financeiras, escolha de parceiro e planejamento reprodutivo.
Técnicas de preservação da fertilidade também passaram a fazer parte das possibilidades consideradas por algumas mulheres. Maju Coutinho já relatou anteriormente ter congelado óvulos aos 37 anos. A técnica, entretanto, não elimina os efeitos do avanço da idade sobre a gestação. A idade em que os óvulos foram congelados é um dos fatores relevantes para o potencial reprodutivo.

A possibilidade de engravidar depois dos 40 não significa, por si só, que a gestação terá complicações. A avaliação, porém, precisa considerar que determinados riscos aumentam com a idade materna. Segundo dados citados no consenso do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), tomando como referência mulheres de 35 a 39 anos, o risco de pré-eclâmpsia é 32% maior entre aquelas de 40 a 44 anos e mais que dobra a partir dos 45.
Também há maior ocorrência de diabetes gestacional, parto prematuro, cesariana e alterações cromossômicas do feto. A reserva ovariana diminui progressivamente com a idade, o que pode reduzir as chances de concepção espontânea e aumentar a procura por tratamentos de reprodução assistida.
“Risco não é sentença, é informação para decidir melhor”, afirma Fabiane Berta. Para ela, mulheres que desejam engravidar em idade mais avançada devem passar por uma avaliação antes da concepção que considere, entre outros aspectos, as condições cardiovascular, metabólica e tireoidiana e a reserva ovariana.
Gravidez pode revelar riscos cardiovasculares
Outro aspecto destacado por especialistas é a relação entre algumas complicações da gravidez e a saúde cardiovascular da mulher no futuro. Documento científico da American Heart Association, publicado na revista Circulation, relaciona condições como hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e parto prematuro a um risco maior de doenças cardiovasculares posteriormente.
A relação ganha importância quando a gravidez acontece próxima dos 50 anos, período que também se aproxima da menopausa e da fase posterior a ela, quando o risco cardiovascular das mulheres tende a aumentar. “Se ela desenvolveu pré-eclâmpsia aos 46, essa informação precisa estar na primeira linha do prontuário dela aos 55”, afirma Berta.
O adiamento da maternidade ocorre ainda em um contexto de desafios profissionais para as mulheres. Pesquisa da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que 48% das trabalhadoras estavam fora de seus postos de trabalho 12 meses após o início da licença-maternidade. Segundo o levantamento, o percentual permanecia semelhante nos dois anos seguintes.
Quando a gravidez acontece na segunda metade dos 40 anos, a licença e os primeiros anos da maternidade podem coincidir com o período de transição menopausal. Para Fabiane Berta, a sobreposição de gravidez, maternidade, alterações hormonais e atividade profissional deveria ser considerada tanto no acompanhamento médico quanto nas discussões sobre trabalho.
O cenário reforça, segundo a médica, a necessidade de integração entre o acompanhamento obstétrico e os cuidados relacionados à menopausa. A gravidez após os 40, contudo, não deve ser tratada apenas pela idade cronológica: condições individuais, histórico médico e características da gestação também determinam os riscos e as condutas adotadas.
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