“Uma cidade sem instituição financeira vai definhando”: cooperativas são única opção em 44 municípios de Goiás
28 agosto 2026 às 18h06

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As cooperativas de crédito já estão presentes em quase sete de cada dez municípios de Goiás. Ao todo, o Estado possui 485 unidades de atendimento espalhadas por 170 das 246 cidades goianas. Em 44 municípios, as cooperativas são, atualmente, a única instituição financeira disponível para a população.
A expansão ocorre em um momento de crescimento da procura pelo modelo cooperativista. Somente nos três primeiros meses de 2026, 18,2 mil pessoas ingressaram em cooperativas de crédito no Estado. Para o presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, a presença no interior é uma das principais características que diferenciam o segmento dos bancos tradicionais.
“As cooperativas garantem o atendimento pessoal e personalizado, facilitam o acesso das pessoas e propiciam que os recursos produzidos naquela cidade girem na própria região”, afirmou.
Segundo Luís Alberto, a lógica de funcionamento das cooperativas permite que elas permaneçam em municípios menores mesmo quando a operação não apresenta a mesma rentabilidade buscada por instituições financeiras convencionais. Para ele, a presença de uma agência ou unidade de atendimento pode ter reflexos que vão além do acesso a serviços bancários.
“Uma cidade que não tem uma instituição financeira vai definhando, porque as pessoas começam a receber salário, receber pagamentos e fazer transações nas cidades vizinhas. E, quando fazem isso lá, deixam uma grande parcela da receita naquela cidade também”, explica.
O presidente da OCB/GO cita como exemplo trabalhadores e aposentados que precisam se deslocar para outros municípios para receber seus rendimentos. Ao concentrar essas operações fora da cidade onde vivem, segundo ele, parte do dinheiro também acaba sendo gasto fora do comércio local.
Dinheiro permanece na própria comunidade
Uma das principais características apontadas por representantes do setor é a circulação dos recursos dentro da própria região. Diferentemente do sistema bancário tradicional, o cooperativismo de crédito tem como princípio a participação dos associados tanto na gestão quanto nos resultados da instituição.
Luís Alberto afirma que esse mecanismo contribui para distribuir os efeitos econômicos da atividade financeira entre os próprios cooperados e a comunidade. “O cooperativismo cresce à medida que a população vai tomando consciência desse modelo. É um modelo inclusivo, em que as pessoas têm participação na gestão e também nos resultados”, disse ao Jornal Opção.
De acordo com o presidente da OCB/GO, estudos do setor apontam que municípios onde existe uma cooperativa apresentam indicadores de desenvolvimento superiores aos de localidades sem esse tipo de instituição. “Nós temos um estudo em que os municípios onde há uma cooperativa têm o IDH cerca de 5% maior”, afirma. Segundo ele, essas cidades também apresentam maior escolarização e menor dependência de programas sociais.
A avaliação é de que a cooperativa funciona como um agente de desenvolvimento local porque os resultados gerados pela instituição permanecem na região.
Crédito para pequenos negócios
A presença das cooperativas também ganhou espaço entre empresas de menor porte. Dados apresentados pelo presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), Luiz Lesse, mostram que a carteira de crédito das cooperativas para pessoas jurídicas em Goiás chegou a R$ 11,12 bilhões em 2025.
Desse total, R$ 3,99 bilhões foram destinados a micro e pequenas empresas.
Para Lesse, a expansão do cooperativismo financeiro no Estado está relacionada à combinação entre aumento do número de cooperados, crescimento da oferta de crédito e ampliação da presença física das instituições.
“É uma expansão sustentada por um modelo que procura manter proximidade com o cooperado e conhecer as características econômicas de cada comunidade”, afirma.
O dirigente destaca ainda o peso do agronegócio na economia goiana. Segundo ele, pequenos e médios produtores podem encontrar nas cooperativas não apenas acesso a financiamento, mas também orientação para estruturar suas operações e administrar riscos.
Outro fator apontado como responsável pela expansão do cooperativismo de crédito é a possibilidade de o associado participar diretamente dos resultados da instituição.
Raimundo Nonato, presidente da central de cooperativas de crédito Sicoob Uni, afirma que a relação mais próxima com o cliente é um dos diferenciais do modelo. Entre os atrativos estão taxas e tarifas que podem ser mais competitivas e a distribuição das chamadas sobras. “No cooperativismo de crédito, o lucro é a sobra e é passado para o cooperado. Tudo isso é um diferencial importantíssimo, que faz cada vez mais pessoas aderirem ao cooperativismo financeiro”, afirma.
Na prática, o associado não é tratado apenas como cliente da instituição. Ele também participa da estrutura cooperativa e pode ter acesso aos resultados obtidos pela entidade, conforme as regras de cada cooperativa.
Jovens são próximo desafio
Apesar do avanço no número de associados, o setor ainda busca ampliar sua presença entre os jovens. Para Luís Alberto, esse público representa uma oportunidade estratégica para o futuro do cooperativismo. “O cooperativismo tem propósito, tem princípios, e isso casa muito bem com o jovem. Acho que nós precisamos melhorar nossa comunicação e aprender a chegar até ele”, afirma.
O presidente da OCB/GO cita uma iniciativa realizada paralelamente ao Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito, em Goiânia, que reuniu cerca de 3 mil estudantes do ensino médio para apresentar a filosofia cooperativista.
A intenção, segundo ele, é formar uma nova geração que possa participar das cooperativas não apenas como associada, mas também como profissional ou dirigente.
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