Cinco dias antes de latrocínio, pai de Cadu informou que filho apresentava alteração de comportamento

O jovem foi atendido por um psicólogo e um psiquiatra do Caps dois dias depois da ligação do pai. A equipe não constatou alteração 

Quatro anos depois de matar o cartunista Glauco Vilas Boas e do filho dele, Raoni, em São Paulo, Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, é novamente manchetes de jornais. O jovem, agora com 29 anos, voltou a ser preso suspeito de cometer dois crimes em Goiânia: o assassinato de um estudante de 21 anos, e a tentativa de homicídio de um agente prisional, que está em estado grave no Hugo.

Em entrevista ao Jornal Opção Online, o coordenador de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do Município, Sérgio Nunes, informou que o pai do jovem ligou ao Caps (Centro de Atenção Psicossocial) em que Cadu era atendido no dia 26 de agosto informando uma alteração de comportamento no filho. “A consulta foi realizada no dia 28, dois dias depois, mas a equipe não constatou alteração alguma, e o achou lúcido”, disse.

Sérgio sustenta que desde o início do tratamento, em agosto do ano passado, quando Cadu deixou a clínica onde estava por determinação judicial, o jovem não apresentava sintoma psicótico, alteração de comportamento, ou sinais de ideação de violência ou agressão. “Se a equipe percebesse alteração, ele teria uma mudança no calendário de consultas dele”, explicou.

O coordenador de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do Município informou que Cadu tinha acompanhamento semanal com um psicólogo (50 minutos de consulta), e com um psiquiatra a cada dois meses. Os tratamentos ocorriam desde agosto de 2013, quando ele recebeu alta da clínica por determinação judicial. O psicólogo que o acompanhava era o mesmo desde o início do tratamento. Já o acompanhamento psiquiátrico foi realizado por dois médicos diferentes.

Controvérsia

Em entrevista ao Jornal Opção Online, o médico psiquiatra Salomão Filho  disse que o tratamento dado ao jovem não foi apropriado. “Houve falhas. Olha o histórico desse paciente: se ele já havia cometido um ato de violência, o risco de ele cometer de novo era muito maior”, disse. De acordo com ele, o jovem deveria ter tido acompanhamento com o mesmo psiquiatra, uma vez por mês, e semanalmente com um psicólogo — concordando, nesse aspecto, com o tratamento dado ao jovem. O médico disse ainda que Cadu deveria tomar medicamento no próprio Caps. “Isso é para assegurar que ele está sendo medicado”, sustentou.

Sérgio Nunes, em contrapartida, alegou que Cadu tomava todos os medicamentos, e que o Caps sabia disso por meio de relatos dos pais e dos exames toxicológicos. “Ele sempre tomou tudo. Cadu era um paciente muito vinculado ao tratamento, e as chances de recaídas eram vistas como mínimas. Sabíamos que não era nula, mas eram mínimas.”

Questionado sobre a possibilidade do jovem estar usando drogas ilícitas sem o conhecimento do centro de atendimento, Sérgio sustentou que não haviam sinais que apontassem isso. “Tanto o psicólogo quanto os psiquiatras nunca viram sinal de uso de droga dele”, afirmou.

Tratamento diferente em pacientes delituosos

Salomão explicou à reportagem que os cuidados direcionados a um paciente psiquiátrico que cometeu um delito deve ser diferente de outros pacientes. De acordo com ele, o certo é internar um paciente delituoso em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTT), mas o Estado de Goiás não possui tal estrutura. “Está previsto no código penal. Só depois que o paciente estiver bem controlado que ele passa para o ambulatório”, sustentou. O psiquiatra também reiterou que há uma diferença de tratamento entre pacientes delituosos e os que não são, dizendo que a grande maioria dos pacientes esquizofrênicos não se torna violentos.

O psiquiatra disse ainda que nem sempre pode se remeter um delito à doença. “Não podemos saber se os atos praticados por ele estão vinculados com a doença. A coisa é mais complexa. É feita uma avaliação para perceber se o doente estava de fato em crise, para gerar o nexo entre a doença e o delito”, explicou.

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