“O mercado todo está em pânico”, diz empresário do Cinema Lumière

Com prejuízo nacional avaliado em R$1,2 bilhão, cinemas goianos que ainda não têm previsão de reabertura pedem socorro financeiro exclusivo ao governo estadual

Prejuízos causados pela pandemia ultrapassam R$1 bilhão no Brasil | Foto: Divulgação

Com o mercado das exibições cinematográficas fechado há seis meses no Brasil, os valores dos prejuízos não são divulgados abertamente pelas empresas, mas é estratosférico. Apenas em 2019, de acordo com dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), o setor arrecadou mais de R$2,7 bilhões e teve um público de 172,2 milhões.

Se compararmos o período em que as salas de cinema passaram fechadas em 2020 com o mesmo período de 2019, as perdas financeiras para os cinemas brasileiros ultrapassam R$1 bilhão. Informações da Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex), o prejuízo estimado para o ano de 2020 é de R$1,2 bilhão.

Em Goiás, a situação não é diferente, já que não há, sequer, uma previsão para a reabertura. De acordo com Gerson Santos, empresário da rede de Cinemas Lumière, a situação é extremamente preocupante.

“O mercado todo está em pânico, principalmente nossa região que ainda não tem caminho para abrir. Vemos que o Nordeste praticamente já está com todas as salas funcionando. Entendo a preocupação do governador e acho que é responsável, mas é importante que por meio desta decisão ele veja uma maneira para que o mercado exibidor também acesse algum crédito de recursos até mais expressivos, tendo em vista que o mercado do cinema é muito caro para se manter funcionando”, afirmou.

“No caminho que anda, corre o risco de se fechar várias salas de cinema, realmente, porque é um custo operacional extremamente alto. Se você tem o público de uma pessoa ou de mil pessoas nas salas, o custo é exatamente o mesmo. Imagine ficar há seis meses sem funcionar e sem perspectiva para abrir”, pontuou Gerson.

“É necessário que os órgãos pensem em uma solução específica para o mercado cinematográfico. Aqui em Goiás temos três exibidores goianos extremamente representados no Brasil no mercado. São três empresários em Goiás que empregam em torno de 500 a 600 pessoas no Brasil. É muito sério. São empresas que empregam muita gente e que realmente precisam de atenção especial”, apontou.

“Vejo que o governo acaba não entendendo, porque o mercado de exibição é muito fechado. Então é fundamental que o Estado veja alternativas exclusivas para o nosso pessoal que está parado, sem funcionar. Senão o risco de fechamento e desemprego é muito grande”, avaliou o empresário.

Alternativas

Com o setor cultural retomando em passos lentos, diversos empresários, produtores e artistas têm tentado encontrar alternativas para continuar produzindo arte e sustentando seus negócios.

“Nós, do Lumière, encontramos alternativas e estamos trabalhando elas. Somos o único grupo que abriu o Drive-in e estamos funcionando a todo vapor. Não é fácil, porque é um mercado totalmente novo, até para Goiânia. Temos isso como uma forma de nos reposicionar para continuar sendo lembrados”, disse Gerson ao Jornal Opção.

De acordo com ele, a empresa já teve um prejuízo estimado em R$4 milhões durante os seis meses de paralisação das salas em Goiás. “Até o momento não demiti ninguém. Todos estão na empresa, mas isso pode acontecer nos próximos meses. Estamos nos momentos finais. É algo que não queremos, porque os funcionários do Lumière são antigos e pessoas queridas, mas é muito preocupante”, ponderou.

O comentarista, consultor, curador e professor de cinema Lisandro Nogueira avalia que as salas devem retomar ainda neste ano em Goiânia. “É provável que, com todas as medidas que irão ocorrer em São Paulo, os cinemas voltem a partir de novembro e dezembro. Uma volta tímida, mas com todas medidas de segurança”, afirma.

“[A retomada] Vai começar por São Paulo. Serão tomadas medidas. Sessões não poderão ser seguidas da outra. Deverá haver um tempo longo para desinfecção das salas. Serão tomadas medidas como aferição de temperatura, salas com cem pessoas só poderão colocar 50. Outro problema é que neste ano não vai haver lançamento de filmes. A ideia é de que os cinemas exibam clássicos ou filmes recentes. Lançamento apenas no ano que vem”, informou.

Arte querida pelo público

Na opinião de Lisandro, é difícil avaliar se muitas salas fecharão definitivamente após a pandemia. No entanto, ele acredita que o cinema é uma arte bastante querida pelo público, que anseia pela retomada das exibições.

“Eu acho que com a vacina, o público volta para valer aos cinemas. Eu acho que, sim, porque as pessoas estão exaustas de ficar em casa, ávidas para encontrar umas às outras. Ir ao cinema também não é só sobre ver um filme. O ato de ir ao cinema é um ato social de se conviver com outras pessoas, namorar, tomar um café, um ritual”, comentou.

“Eu acredito que quando voltar, após a vacina, as salas de cinema retornarão com toda força. É um dos setores mais afetados pela pandemia, apesar que nunca se viu tanto de consumo de filme e séries. Essa pandemia é a época que mais se viu cinema no mundo, com os streamings”, apontou.

“Quando passar [a pandemia] o público retorna. Em qual quantidade, não temos ideias. Não acho que vai afetar muito, porque cinema é uma diversão que as pessoas gostam muito e só não vão mais porque os ingressos não são muito baratos”, disse o professor.

“A pandemia mostrou a força do cinema. Como as pessoas têm visto filmes. No Brasil temos plataformas como a Oldflix, de filmes antigos, a Belas Artes a la carte, de filmes de arte, o Mubi que é europeu e entrou no Brasil toda força. Temos várias plataformas novas e interessantes para se contrapor à Netflix, senão ela domina tudo. Hoje temos dez plataformas para se ver filmes em casa no Brasil, para todos os públicos.”

O Jornal Opção tentou contato também com as redes Cinemark e Kinoplex. A Cinemark respondeu que não irá se posicionar no momento sobre o assunto. A rede tem mantido sigilo sobre a crise enfrentada durante a pandemia. Já a Kinoplex não retornou contato até o fechamento dessa matéria.

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