“Nunca vai existir um político como meu pai”, diz José Gomes Filho

Médico de 31 anos, o filho do ex-prefeito de Itumbiara morto no ano passado reconhece que pode disputar mandato em 2018

Médico José Gomes da Rocha Filho durante entrevista ao Jornal Opção | Foto: Bruna Aidar

Filho de José Gomes da Rocha (PTB), ex-prefeito de Itumbiara morto durante a campanha do ano passado, o médico José Gomes da Rocha Filho concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Opção na última terça-feira (22/8). Aos 31 anos e também filiado ao PTB, o “Rochinha”, como é conhecido na cidade, revelou que está pronto para disputar uma eleição. E não é só ele: duas irmãs também são filiadas e podem carregar o legado da família.

Apesar do desejo de seguir os passos do pai, José Gomes Filho reconhece que se preocupa com a crise política que o Brasil enfrenta e entende que a definição de candidaturas no ano que vem dependerá das decisões partidárias. No entanto, alerta para a falta de identificação da sociedade com os representantes: vê uma mudança no perfil que os eleitores buscam.

E é justamente por defender a mudança que o jovem médico está disposto, caso convocado pelo presidente do partido, o deputado federal Jovair Arantes, a disputar mandato de deputado.

Alexandre Parrode – Qual sua ligação com Itumbiara?

Na verdade, sou apenas um cidadão.

Alexandre Parrode – Não atende lá?

Não. Nunca. Orientação do meu pai. Ele dizia que no dia que eu atendesse lá viraria refém. Quando se é médico em uma cidade que no meu jaleco está escrito “José Gomes da Rocha Filho” e o prefeito é José Gomes da Rocha, você vira refém da situação política. Se eu atendo um paciente e ele se sinta mal atendido ou me peça, por exemplo, um atestado médico de 15 dias e eu não dê — até porque não posso, o máximo é de 14 dias… Eu me tornaria refém dos pacientes pela situação política.

Alexandre Parrode – Teria que ceder à pressão política.

Até porque se eu não cedesse, ele sairia falando “Ah! O filho do Zé Gomes é mau profissional”. Interior tem muito isso, a oposição se aproveitaria da situação, colocando pessoas para ir lá me desacatar, me fazer perder a paciência, filmar, por mais que eu seja correto, criam factóide. Por isso eu pai sempre nos pediu para não atender lá, sabia que não precisávamos. Eu e minha irmã, que é neurologista, nunca precisamos do nosso pai para arranjar emprego.

Bruna Aidar – Quando seu pai foi prefeito, vocês já eram adultos. Vocês vão sempre lá?

Dos cinco filhos, apenas um não é de Itumbiara. Nossa família é toda de lá, tanto do meu pai quanto da minha mãe. Somos itumbiarenses e sempre tivemos uma ligação forte com a cidade. Quando meu pai foi deputado federal, foi constituinte, eu tinha 3 anos de idade e nos mudamos todos para Brasília. Ficamos por 14 anos, que foram os mandatos que ele cumpriu, mas depois voltamos para cá, pois ele sabia que para ser prefeito tinha que estar mais próximo. Eu fui estudar medicina fora, mas participava de todos os eventos importantes da cidade, como o arraiá, que ele criou e hoje é um evento nacional.

Bruna Aidar – Mas a família sempre apareceu pouco, não é?

Sim. Isso era uma coisa dele. Resguardava a família, não gostava de nos expor, nem nos programas eleitorais. Nós sempre andamos em Itumbiara tranquilamente, alguns sabiam quem éramos nós, mas muitos não. Ficaram sabendo depois que ele morreu, que aí aparecemos nos noticiários e tudo mais. Sempre fomos muito independentes. Se for olhar outros políticos, se tem filho médico, ele vai ser secretário de Saúde, vai trabalhar na cidade, vira parte do esquema na verdade. Nem minha mãe teve qualquer cargo. Meu pai falava isso, que as pessoas votavam nele pelo trabalho, competência, não tem que misturar as coisas.

Existe muita lenda sobre meu pai, mas quem conheceu, quem trabalhou com ele, sabe que a parte ética dele é incrível.

Alexandre Parrode – Único vício dele era o futebol.

Ele era viciado em Itumbiara. Tinha um marketing tão bom que sabia que podia levar o nome da cidade para o mundo inteiro por meio de um time. Ele era apaixonado pelo futebol, lógico, mas ele via o potencial daquilo. Quando o Ronaldo Fenômeno voltou a jogar depois da cirurgia do joelho, sabe onde ele voltou a jogar? Em Itumbiara. Deu nos jornais do mundo inteiro. Ele conseguiu fazer um amistoso do Corinthians em Itumbiara e levou o Ronaldo. A reestreia dele foi lá. Meu pai fazia isso… Era amigo do Eurico [Miranda, presidente do Vasco], os dois foram deputados na mesma época, então ele levava o Vasco para fazer amistosos em Itumbiara. O sonho dele era levar o Itumbiara para a série A para quê? Para que quarta-feira, no horário nobre, as pessoas vissem o nome da cidade. Era uma visão dele.

Alexandre Parrode – É verdade que seu pai gastava dinheiro do próprio bolso para bancar campanhas?

Sim. Pagava tudo. Partido não banca campanha, isso é ilusão.

Bruna Aidar – Qual a relação dos filhos com o José Gomes?

Ele era político 24 horas, né? Não existiam duas pessoas, uma no gabinete e outra em casa. Era muito bom… Levamos um tempo para nos adequar à realidade de ter um pai político. Foi um pai ausente em alguns momentos, mas extremamente presente ao mesmo tempo. Toda quarta-feira assistíamos ao futebol, conversámos, discutíamos sobre política. Depois que saiu da prefeitura, nós ficamos mais próximos ainda.

Alexandre Parrode – O que a família achou quando ele decidiu se candidatar de novo?

Ninguém queria. Nós falamos para ele não fazer isso, para aproveitar a vida, a netinha e ele falava que realmente não precisava, mas tinha um projeto para a cidade. Acho que é bem isso, sabe? A gestão dele já estava pronta. Os projetos, antes mesmo de saber se os problemas judiciais seriam resolvidos, ele já tinha visitado Anápolis para conhecer o hospital municipal. O intuito dele era construir um hospital em Itumbiara, a gestão seria focada na saúde.

“Meu pai era viciado em Itumbiara”, lembra José Gomes Filho | Foto: Bruna Aidar

Bruna Aidar – Muitas pessoas dizem que o José Gomes só foi candidato porque sabia que o Chico Balla (ex-prefeito) estava muito mal avaliado e somente ele conseguiria manter o grupo no poder.

Ponto não era esse. Acho que está mais ligado ao fato de que ele tinha um projeto e sabia que tinha capacidade de tocá-lo. Ninguém nunca viu ele falar que Chico Balla era a causa da volta, sabia muito bem fazer política de agregar. Viu que conseguiria fazer uma gestão e unir o grupo. Por Itumbiara ele fazia muito isso, agregava. Até mesmo secretariado, muitos eleitos demitem todo mundo da gestão do antecessor, meu pai não, aproveitava até secretariado.

Bruna Aidar – Como avalia a gestão do prefeito Zé Antônio (PTB), que assumiu o lugar do seu pai na campanha?

Alexandre Parrode – Só para complementar, a família participou da decisão do substituto?

Não. Foi uma decisão partidária. Foi o PTB que decidiu, família não foi consultada e até entendo pelo momento.

Alexandre Parrode – Mas teriam disposição para isso?

Até teríamos, pois vimos o que meu pai sofreu de forma judicial, mental, com todos os entraves para conseguir liberar a candidatura dele. Não estávamos preparados, óbvio. Foi uma escolha política e eu entendo, claro. Presidente do partido, líder, tem que ter visão racional. Foram 72 horas para trocar o nome. Foi uma campanha extremamente calma… Ele não fez inauguração de comitê, comício. Decidiu fazer aquela carreata por fazer mesmo. Foi a primeira e única.

Voltando a questão do Zé Antônio, nós nos sentamos com ele para apresentar o que meu pai tinha projetado, nos colocamos a disposição para apoiá-lo, contando que tocasse o projeto dele. O hospital estava encaminhado, era o sonho dele.

Alexandre Parrode – E o Zé Antônio está seguindo o projeto? Ele é seu primo, não é?

Sim, o pai dele é primo primeiro do meu pai. Agora, é difícil dizer se ele está seguindo o projeto, até porque a expectativa, não minha, mas da população, é que ele fizesse como meu pai faria. Só que você pega uma pessoa que não tem os mesmos contatos, influência, experiência de gestão. A experiência dele é no Legislativo, são duas coisas completamente diferentes. Pela juventude política dele, é mais novo que eu, tem 28 anos, tenho 31. Não dá para esperarmos que ele consiga ao mesmo tempo e à mesma maneira que meu pai. Não dá para cobrar tanto.

Alexandre Parrode – A sociedade entende?

Muito difícil. É a visão de cada um, ele está fazendo muita coisa, com auxílio do governo de Goiás, que está ajudando todos os municípios, mas o projeto principal do hospital não está no caminho que esperávamos.

Bruna Aidar – Ele busca vocês? Pede sugestões?

Não. Estamos abertos a contribuir, mas não sei que tipo de ajuda ele iria querer da gente. Tudo que precisou nós nos sentamos e o ajudamos.

Vice Gugu Nader e prefeito José Antônio: o primeiro deve ser apoiado pelo segundo a deputado no ano que vem

Alexandre Parrode – E o secretariado? É dele ou tem alguns que seu pai teria escolhido?

Sim. Completamente dele. Inclusive porque meu pai já tinha o secretariado quase todo desenhado. Ele era muito de anotar, sentava à mesa e escrevia o tempo todo. Temos mil coisas, anotações, discursos, tudo. Entregamos para ele o desenho do secretariado, mas não aproveitou nenhum. Eu até entendo porque ele quer seguir o caminho dele. Uma vez, estávamos conversando e eu lhe disse que tinha o privilégio de pegar uma prefeitura sem ter feito acordo com ninguém, prometido nem se comprometido com um grupo político sequer. Podia fazer a gestão do sonho de qualquer pessoa. Todos os acordos que meu pai fez, ele não precisava cumprir, podia ter feito um choque de gestão. Teve isso em mãos, quis usar.

Bruna Aidar – Mas está funcionando?

É complexo dizer. Meu pai colocou o Sul de Goiás nas articulações políticas. Ficou um vácuo…

Alexandre Parrode – Zé Antônio assumiu esse espaço ou há potencial de alguém da própria família surgir politicamente?

O Sul goiano perdeu o protagonismo político, é um fato. Não tão cedo vai ter alguém que vai suprir isso, vemos nas últimas articulações do próprio PTB com o PSDB. Vocês veem nossa região participando disso?

Bruna Aidar – O PTB migrou para Anápolis.

Exatamente. Só se vê Anápolis participando de todas as negociações. Se vê o prefeito de Anápolis trabalhando pela aliança.

Bruna Aidar – Acha que falta uma liderança municipalista como seu pai?

Não vai ter um político como Zé Gomes. Não vai ter, nunca. Os repórteres perguntavam a ele o porquê de as cidades estarem passando por dificuldades, do porquê de não se falar em investimentos, e ele respondia: “Porque as outras cidades não tem Zé Gomes”. Itumbiara conseguia porque tinha ele. Meu pai sabia o caminho das pedras, tinha um know-how de Brasília que poucos têm. Diz que não era bonito, não era poderoso, era bom de serviço. Ele era bom de serviço.

Alexandre Parrode – Você tem o mesmo nome de seu pai, politicamente isso tem significado. Teria disposição de assumir, disputar algum cargo?

Tenho disposição, já foi conversado até mesmo dentro do partido, sou filiado ao PTB, a pedido do meu pai. Minha irmã mais velha é filiada ao PTB também e a do meio e minha mãe ao PMDB. Já tive a oportunidade de me encontrar com Jovair [Arantes, deputado federal e presidente do diretório estadual do PTB em Goiás], falei que a família estava aberta, meu nome e o de minha irmã também estão à disposição. Então, assim, existe a possibilidade de disputar eleição? Sim. Mas temos que nos colocar na situação política atual, essa loucura que ninguém sabe o que vai ser no ano que vem. Os próprios partidos estão muito parados em respeito a isso, não é aquela política de anos atrás, que nessa época, um ano antes da eleição, já havia os nomes.

Alexandre Parrode – Hoje existe um congestionamento em Itumbiara.

Não só em Itumbiara, lá talvez mais pelo “vácuo” que ficou do meu pai. As pessoas têm impressão de que vácuos precisam ser preenchidos, ou seja, com a falta de Zé Gomes, seria preciso “pegar aqueles votos”. Só que não funciona assim.

Bruna Aidar – Mas há o vice-prefeito, Gugu Nader (PSB), que no último encontro regional do PTB anunciou que se filiará ao partido para disputar mandato de deputado estadual.

Ele se coloca candidato desde o primeiro dia que assumiu.

Bruna Aidar – Seu projeto também é ser deputado estadual? Há espaço para dois do PTB em Itumbiara?

Não tenho projeto, na verdade. A política é baseada em evidências, assim como a medicina. Partido não vai lidar com vontades, egos e desejos. Não é porque eu sonho em ser deputado que o partido vai me lançar. Tenho que mostrar trabalho, que tenho voto e tenho capacidade. Não adianta eu chegar aqui hoje e dizer que sou deputado, não funciona assim.

José Gomes Filho abriu uma página no Facebook e tem visitado Itumbiara com mais frequência | Foto: Bruna Aidar

Bruna Aidar – Está tentando viabilizar seu projeto?

A forma de fazer isso é mostrando minhas ideias, projetos. Não vejo a política como um curral, colocar os votos do meu pai em um saquinho e dizer que os tenho. A política não funciona assim. Acho absurdo, retrógrado e arcaico. Infelizmente em muitos partidos as coisas continuam assim. Às vezes políticos se esquecem de que quem vota é o povo.

Alexandre Parrode – As pessoas te procuram para se candidatar? Elas veem o seu pai em você?

Veem sim. Inicialmente pelo nome, pela aparência, mas depois que comecei a dar opiniões políticas nas redes sociais acho que viram que pensamos de maneira parecida. Fiz minha página e decidi colocar minhas ideias para amigos e seguidores. É o futuro da política. Não adianta apenas prometer, dizer o que quer ou vai fazer sem ter como executá-las. É o mínimo que se espera. Não serei deputado, aliás, nada se eu não tiver ideias, metodologia. E digo mais, minhas ideias nem sempre batem com as do meu pai, tínhamos divergências, mas o que quero mostrar é que tenho propostas e sei como executá-las. Aprendi com ele a não ver a política como profissão, eu sou médico, não dependo de política.

Alexandre Parrode – Seu pai sempre foi extrovertido, expansivo, todo mundo sabia quando ele chegava em algum lugar. Você é exatamente o contrário, mais introvertido, fala baixo. Isso não é uma dificuldade na política?

Sim, algumas pessoas falam alto, batem na mesa, mas e o projeto? O que mais se vê na TV Câmara é gente gritando. Existem pessoas que não atendem a esse esteriótipo que valem a pena, com boas ideias. Eu não seria um político populista, tenho que mostrar o que penso, se a população entender que minhas ideias valem a pena, é assim que serei eleito. Não mudarei meu jeito para agradar. Quero mostrar que tenho projetos e que sei como realizá-los. Muito melhor que sair por aí se anunciando candidato sem nada para apresentar à sociedade.

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