Nem a menopausa “desliga” os ovários; estudo revela função inesperada do órgão
02 julho 2026 às 18h03

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Um estudo da Northwestern University, nos Estados Unidos, desafia a ideia de que os ovários se tornam órgãos praticamente inativos após a menopausa. A pesquisa, publicada na revista científica Molecular Human Reproduction, mostrou que, em camundongos, os ovários continuam passando por mudanças biológicas e passam a apresentar características semelhantes às de um órgão do sistema imunológico.
Os pesquisadores observaram que, mesmo após o fim da fase reprodutiva, houve aumento da atividade de genes relacionados à resposta imunológica, além de maior presença de células de defesa, como linfócitos T, macrófagos e células gigantes multinucleadas. Embora os resultados ainda precisem ser confirmados em humanos, a descoberta abre caminho para novas investigações sobre o papel dos ovários no envelhecimento feminino.
Para a ginecologista Polyana Mattedi Carvalho, entretanto, a conclusão reforça um conhecimento que já vem sendo incorporado à prática clínica. “Para nós, isso não é exatamente uma novidade. Já sabemos há algum tempo que o ovário continua funcionando após a menopausa. Ele deixa de produzir hormônios na mesma intensidade da fase reprodutiva, mas continua exercendo funções importantes para a saúde da mulher”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.
Ovários continuam produzindo hormônios
Segundo a especialista, essa atividade residual explica por que os médicos evitam retirar os ovários durante cirurgias ginecológicas quando não há indicação clínica. “Quando a paciente precisa passar por uma cirurgia por outro motivo e o ovário está saudável, a gente procura preservá-lo. Retirar esse órgão pode provocar uma menopausa abrupta, com consequências importantes para a qualidade de vida.”

Ela explica que, mesmo após a menopausa, os ovários continuam produzindo pequenas quantidades de hormônios, contribuindo para um envelhecimento mais equilibrado. “Essa produção hormonal não é igual à da fase fértil, mas facilita o manejo da menopausa e ajuda a manter algumas funções do organismo.”
Papel vai além da reprodução
O novo estudo sugere que, além da função hormonal, os ovários podem exercer um papel imunológico. Para Polyana Mattedi, essa hipótese também dialoga com conhecimentos já existentes sobre o órgão. “O ovário não tem apenas função reprodutiva. Nós já sabemos que ele participa de processos imunológicos, metabólicos e hormonais.”
Segundo ela, o funcionamento ovariano influencia diretamente o metabolismo feminino. “Um exemplo é a síndrome dos ovários policísticos. Sabemos que essas pacientes apresentam maior tendência ao desenvolvimento de diabetes, mostrando que o ovário participa de mecanismos metabólicos importantes.”
Sobre a possível atuação imunológica, a médica afirma que ainda são necessários estudos para compreender melhor os mecanismos envolvidos, mas destaca que o órgão participa de processos de proteção do organismo. “Existe essa participação na resposta imunológica, auxiliando na proteção do organismo e na regulação de alguns processos de defesa.”
Menopausa aumenta risco de doenças
Com a redução natural da produção de estrogênio e progesterona, diversas alterações ocorrem no organismo feminino. De acordo com a ginecologista, isso explica por que algumas doenças se tornam mais frequentes após a menopausa. “Quando ocorre a diminuição hormonal, aumenta a incidência de doenças cardiovasculares e também de doenças intestinais.”
Ela destaca que, antes da menopausa, mulheres apresentam risco menor de problemas cardiovasculares quando comparadas aos homens da mesma idade. Após essa fase, essa diferença praticamente desaparece. “Isso mostra o quanto o estrogênio exerce um papel protetor. Ele também influencia funções cognitivas e diversos outros sistemas do organismo.”
Consultas não devem parar após a menopausa
Apesar do fim da fase reprodutiva, a especialista reforça que o acompanhamento ginecológico deve continuar regularmente. “É extremamente importante manter o acompanhamento justamente porque é nesse período que aumentam os riscos de diversas doenças.”
Segundo Polyana, muitas mulheres utilizam o ginecologista como principal médico de referência ao longo da vida. “Costumo dizer que o ginecologista é o clínico da mulher. Muitas pacientes não passam regularmente por cardiologistas ou clínicos gerais, e acaba sendo o ginecologista quem identifica hipertensão, doença coronariana e até câncer de cólon durante o acompanhamento.”
Embora o estudo tenha sido realizado apenas em camundongos e ainda não permita afirmar que o mesmo mecanismo ocorre em mulheres, os pesquisadores defendem que a descoberta pode ajudar a compreender melhor o envelhecimento feminino e o impacto da menopausa sobre a saúde geral. A próxima etapa será investigar se os ovários humanos também mantêm esse perfil imunológico após o fim da vida reprodutiva.
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