Na família Kim, o poder não sai de casa
22 outubro 2026 às 12h13

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Na Coreia do Norte, até a morte precisa aguardar o comunicado oficial. Antes disso, é considerada informação não autorizada. O mundo examina fotografias, conta os dias entre duas aparições do dirigente e procura, na disposição dos convidados de uma cerimônia, algum sinal de que a história mudou de mãos. A internet, menos exigente, costuma publicar o obituário primeiro.
Kim Jong-un é o personagem da vez. Rumores sobre sua morte circularam nas redes, chegaram a veículos internacionais e trouxeram de volta a pergunta que acompanha as ausências do ditador: quem fica com o país?
Convém começar pelo que se sabe. Segundo a agência sul-coreana Yonhap, as alegações foram divulgadas sem provas. Em 20 de outubro, a imprensa estatal norte-coreana publicou imagens de uma visita de Kim a uma exposição de roupas e calçados, realizada, segundo o relato oficial, no dia anterior. Autoridades diplomáticas e de segurança da Coreia do Sul disseram não ter informações que sustentassem os boatos. Não há, portanto, base confiável para anunciar sua morte.
A ressalva não encerra o assunto. Apenas permite começar a examiná-lo sem um cadáver inventado sobre a mesa. A sucessão norte-coreana é uma questão séria demais para depender da imaginação das redes. Estamos falando de um Estado nuclear cujo comando passou do avô para o pai e do pai para o filho. Kim Il-sung, Kim Jong-il, Kim Jong-un. Três gerações e uma notável capacidade de conciliar a retórica revolucionária com os costumes do inventário.
Não existe na Constituição um mecanismo sucessório que torne previsível a substituição do dirigente. As duas transições anteriores foram preparadas politicamente, com a construção da autoridade dos herdeiros e a acomodação da cúpula. Pertencer à família abre a porta. Para permanecer na sala, é preciso que os homens do partido, das armas e da vigilância aceitem a nova distribuição das cadeiras. É nessa sala que Kim Yo-jong tem lugar.
A irmã do ditador reúne experiência política, acesso ao irmão e o sobrenome que constitui o principal título de legitimidade do regime. Sua presença não se resume ao parentesco exibido em fotografias oficiais. Ela ganhou projeção como uma voz de autoridade nas relações com o exterior, sobretudo nos momentos em que Pyongyang considera necessário lembrar aos vizinhos de sua disposição para ameaçá-los.
O mundo a conheceu melhor em 2018, nos Jogos Olímpicos de Inverno da Coreia do Sul. Ali estava uma representante da dinastia sorrindo, cumprimentando autoridades, oferecendo à diplomacia uma imagem de cordialidade. Em 2020, sua voz acompanhou a escalada que terminou na explosão do escritório de ligação intercoreano, em Kaesong. Antes da demolição, ela já havia anunciado medidas contra o prédio, inaugurado como símbolo de cooperação. Poucas relações diplomáticas tiveram uma mudança de endereço tão definitiva.
Daí sua reputação de linha-dura. Transformá-la, porém, numa versão comprovadamente pior do irmão seria atribuir ao futuro uma certeza que o presente não oferece. Kim Yo-jong transmite ameaças, participa da encenação do poder e ocupa espaço relevante no regime. Quanto dessa atuação corresponde à sua iniciativa e quanto executa decisões do comando é uma fronteira que observadores externos não conseguem traçar com segurança. A ferocidade de um comunicado ajuda a conhecer sua função. Não basta para escrever antecipadamente a história de seu governo e tampouco lhe garante a herança.
Há uma filha no retrato.
Kim Ju-ae passou a ocupar posição importante nas avaliações sobre a continuidade da dinastia. Em setembro, a inteligência sul-coreana reafirmou sua análise de que a jovem é a provável herdeira do pai. É uma avaliação de Seul, não um anúncio de Pyongyang. Ainda assim, seu peso impede que a discussão seja resolvida com a simples transferência do comando para a tia.
A diferença fundamental está no tempo disponível. Uma sucessão conduzida durante anos permite preparar uma filha, cercá-la de dirigentes comprometidos com sua ascensão e ensinar ao aparelho de propaganda a apresentar a continuidade familiar como necessidade histórica. Uma ausência repentina exige alguém capaz de operar a máquina no dia seguinte.
Uma análise do centro especializado 38 North distingue esses caminhos: numa emergência, figuras estabelecidas como Kim Yo-jong teriam vantagens; numa transição longa, Kim Jong-un poderia construir as condições para entregar o poder a um de seus filhos. São hipóteses sobre o funcionamento do regime. Não demonstram que exista hoje uma disputa aberta entre tia e sobrinha.
Para a cúpula, a escolha envolveria algo bastante concreto: a sobrevivência de cada um dentro da ordem seguinte. Quem deve posição, proteção e privilégios ao sistema tem razões para trabalhar por sua conservação. O anúncio de um novo dirigente poderia mudar os retratos oficiais sem melhorar a vida de quem precisa reverenciá-los. Fora dali, a questão assume outra dimensão.
A China teme uma crise em sua fronteira, com deslocamentos de população e risco de conflito. A Rússia aprofundou a cooperação militar com Pyongyang, firmou um acordo de parceria estratégica em 2024 e recebeu soldados norte-coreanos empregados contra forças ucranianas em Kursk. Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão acompanham uma potência nuclear que combina isolamento político com capacidade de produzir consequências muito além de seu território.
Uma transição obrigaria essas capitais a procurar respostas urgentes: quem dá as ordens, quem controla as armas, quem consegue ser obedecido? Num ambiente assim, até um gesto destinado a demonstrar autoridade interna poderia ser interpretado, do outro lado da fronteira, como preparação para um ataque. O segredo, tão útil à conservação do poder, pode sair caro quando ninguém sabe exatamente com quem está falando.
Por enquanto, não há morte confirmada, sucessão consumada ou fundamento para anunciar a chegada de Kim Yo-jong ao comando. Há uma irmã influente, uma filha apontada como provável herdeira e uma estrutura construída para perpetuar a autoridade familiar. O mundo quer saber quem virá depois de Kim Jong-un. Em Pyongyang, trabalha-se para que a resposta continue cabendo no mesmo sobrenome.
Rumor não derruba regime, mas ilumina o que a dinastia esconde. Sem confirmação de morte, o que existe é disputa de leitura: de um lado, a irmã influente, testada na retórica dura; do outro, uma filha em ascensão simbólica, apontada por fontes externas como herdeira provável. Minha aposta é menos dramática que o boato: continuidade com ajustes internos e muita encenação calculada. Dinastia não precisa de pressa, mas de tempo e silêncio.
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