MP-GO diz que Afipe se tornou “uma grande empresa” em Goiás

Segundo promotor, está sendo analisada uma movimentação financeira equivalente a R$ 1,7 bilhão

Durante coletiva no Ministério Público de Goiás, na tarde desta sexta-feira, 21, promotores detalharam a Operação Vendilhões, que apura desvio de recursos da entidade religiosa Associação dos Filhos do Pai Eterno (Afipe). Foram bloqueados judicialmente R$ 60 milhões em bens imóveis e valores em contas bancárias dos envolvidos.

O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) deflagrou a operação após as investigações apontarem para gastos injustificados por parte da associação.”A Afipe se tornou uma grande empresa no estado de Goiás. Com compra de diversos imóveis e até mineração”, definiu o promotor Sebastião Marcos Martins, coordenador da investigação. Ele disse que há uma série de pagamentos não esclarecidos.

Uma das informações confirmadas é que foi pedido o afastamento do Padre Robson, diretor-presidente da entidade, além de fundador mas a Justiça negou. “Pedimos afastamento para facilitar as investigações”, disse o promotor.

Segundo o MP, a investigação analisa crimes de apropriação indébita, lavagem de capitais, organização criminosa, sonegação fiscal e falsidade ideológica praticadas pelos dirigentes das três associações ligadas à Igreja Católica em Trindade, que recebiam doações em dinheiro de fiéis.

De acordo com o promotor Sebastião Marcos Martins está sendo analisada uma movimentação financeira equivalente a R$ 1,7 bilhão. Segundo o promotor, a fraude não atinge o montante na sua íntegra, mas, a partir da documentação apreendida, será possível definir o valor que foi desviado.

Teriam sido beneficiados com o desvio o padre Robson de Oliveira Pereira, que preside a Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe) – CNPJ nº 06.279.215/0001-70 –; Associação Filhos do Pai Eterno e Perpétuo Socorro – CNPJ nº 11.300.117/0001-07 –, e Associação Pai Eterno e Perpétuo Socorro – CNPJ nº 11.430.844/0001-99 –, e uma rede de empresas e pessoas que foi criada para a realização das possíveis fraudes.

A investigação que resultou na Operação Vendilhões teve início em 2019, a partir da condenação de um grupo criminoso que praticou extorsão contra padre Robson. Na ocasião, cinco pessoas exigiram mais de R$ 2 milhões para que não fossem divulgadas imagens e mensagens eletrônicas com informações pessoais, amorosas e profissionais que prejudicassem a imagem do religioso (leia no Saiba Mais). O processo foi enviado ao Gaeco para apurar a origem do dinheiro utilizado para pagamento de parte do valor ao grupo criminoso.

Na análise da movimentação financeira das Afipes, o Gaeco descobriu, segundo Sebastião Marcos Martins, uma grande teia de movimentações financeiras, envolvendo a compra e venda de imóveis – casas, apartamentos e fazendas – em Goiás e outros Estados, além de transferências de valores entre contas bancárias. De acordo com o promotor de Justiça, as três associações recebiam dinheiro separadamente, proveniente de doações de fiéis, e transferiam os valores com a utilização de contas bancárias de terceiros.

Na operação, foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão na sede das associações, empresas e residências em Goiânia e Trindade, expedidos pelo Juízo da Vara de Feitos Relativos a Organizações Criminosas e Lavagem de Capitais, em decisão da juíza Placidina Pires. Foi encontrado dinheiro nos locais das buscas e apreensões, cujo valor ainda está sendo contabilizado. Participaram da operação 20 promotores de Justiça, 52 servidores do MP-GO, 4 delegados, 8 agentes da Polícia Civil e 61 policiais militares.


O procurador-geral da Justiça de Goiás, Aylton Flávio Vechi, afirmou que a investigação buscou apurar o proveito eminentemente econômico da fé e da devoção de milhares de pessoas, respaldado nas doações para a construção da nova Basílica de Trindade e no atendimento aos fiéis. O secretário de Segurança Pública, Rodnei Miranda disse, na entrevista, que o volume de recursos em investigação pressupõe algum tipo de ilegalidade cometida pelos dirigentes das Afipes.

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