Movido pelo “aperreio”, Marcelino Freire dá um belo “vexame” literário: “Eu escrevo e as palavras me socorrem”

Idealizador do projeto “Quebras”, que percorre 15 capitais brasileiras fora do eixo, veio a Goiânia. A escrita simples, rápida e vingativa do pernambucano socorrem não só a ele, mas a todos que o leem

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Escritor Marcelino Freire, em biblioteca do Grande Hotel, no Centro de Goiânia. Local foi utilizado para oficinas e sarau durante o projeto “Quebras” na capital / Fotos: Fernando Leite

Bendita seja a mãe de Marcelino. Ela, como ele bem mesmo disse, é a responsável pelo êxodo de Sertânia para Recife, e pelo incentivo à leitura. “Estude, estude, estude, estude para virar gente”, dizia depois de saírem da seca de Sertânia para tentar a vida na Bahia. “Mas lá também não deu muito certo, e fomos para o Recife”, contou o escritor Marcelino Freire, sentado em um café no Centro de Goiânia, durante entrevista ao Jornal Opção Online.

Foi lá “no Recife” que ele se tornou conhecido pela primeira vez com o conto “Muribeca”, antes de desbravar São Paulo, aos 24 anos, em busca de um amor. “Me fodi. Mas sabe o que é interessante no amor? Nunca vai dar certo. Mas ele melhora o próximo amor.”

Com a sua escrita direta e seu maravilhoso sotaque nordestino, o pernambucano esteve na capital goiana na última semana com um projeto chamado “Quebras” — um frenesi literário por 15 cidades fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Porto Alegre. Ministrando oficinas nas últimas terça (27) e quarta-feira (28), além de um sarau (com palco aberto e tudo mais), Marcelino conheceu um pedacinho dessa nova onda literária em Goiânia.

“Sempre estou fazendo outras coisas. Não quero me sentir o escritor que chegou lá”, disse com toda a sua simplicidade o autor que ganhou o prêmio Jabuti em 2006 com o livro “Contos Negreiros”. “Há muito tempo não fazia um projeto que me instigasse tanto, que me animasse tanto”, pontuou sobre a viagem.

Aos 47 anos, Marcelino lançou no final de 2013 seu primeiro romance, “Nossos Ossos”, e está desde setembro viajando pelo Brasil. Goiânia ainda é a sexta cidade. Agora, no próximo dia 23 ele estará concedendo à cidade de João Pessoa, na Paraíba, o prazer de sua companhia. “Quero ver como a gente movimenta junto uma cena vigorosa artística e literária.”

E essa escrita vexatória, aperreada, como ele mesmo caracteriza, nos prende em um mundo criado a partir da nossa realidade. O olhar é ele que lança e o texto flui de forma simples, rápida, direta. “Eu escrevo tentando encontrar a pulsação da palavra”, assegura. “Eu escrevo porque não me contenho; escrevo para me vingar. O que meu leitor irá fazer do meu texto; se irá tornar em uma vingança coletiva, aí eu não sei.”

Veja a entrevista completa do pernambucano que, mesmo sem querer, nos aponta para a maravilha de observar mais o mundo a nossa volta.

E para matar a curiosidade do sotaque, um vídeo do escritor recitando o conto “Trabalhadores do Brasil” do livro “Contos Negreiros”, na biblioteca do Grande Hotel:

Como o sr. define a forma como escreve?

Eu costumo dizer que eu escrevo vexames. Eu dou vexame na hora que eu estou escrevendo. Então, quando eu dou aquelas paradinhas, é para deixar as frases um pouco mais tomadas de agonia, de fôlego, e para não ficarem comportadas. Percebo que, em algum momento, eu tenho que parar a frase para não ficar mais gramatical do que artístico. Eu procuro sempre escrever a pulsação artística daquela frase. Por isso, você não vê frases tão longas, com muitas conjunções. É muito difícil eu usar uma conjunção. Raramente uso um advérbio. Eu escrevo tentando encontrar a pulsação da palavra. E muitas vezes, quando eu paro, é porque percebo que a palavra precisa ser tomada por mais agonia. Aperreio, desespero.

Eu escrevo dando vexame. Você percebe que meus personagens falam muito pelos cotovelos. As almas dos meus personagens falam pelos cotovelos.

Eu escrevo agoniado. Escrevo porque não me contenho, não me aguento.

O sr. não pensa para escrever?

Vou pensando conforme as palavras vão me socorrendo. Nunca começo sabendo qual história eu vou contar. As palavras que começam a contar para mim. Por isso, quando eu escrevo, sempre é um mote; uma palavra que eu ouço na rua, ou uma frase que eu gosto e vou escrevendo as outras frases para descobrir que história aquelas palavras estão pedindo.

Sou muito movido por essa sonoridade, musicalidade das frases, cantoria, improviso nordestino. Um escritor não conta uma história, ele compõe. Por isso as pessoas, quando leem, pensam: “Poxa, parece que tem uma sonoridade; quando vejo lendo como se tivesse tomado por aquele ritmo.” Isso é muito próprio da literatura nordestina, do improviso, da cantoria, da ladainha.

Eu não gosto de frases muito comportadas, muito certinhas. Por isso dou um vexame na literatura; sacudo um pouco as estruturas. Escrevo muito aperreado, querendo entender porque aquelas pessoas [personagens] estão gritando; aí eu grito com elas.

 Foto: Fernando Leite

Foto: Fernando Leite

Então, o sr. começa um texto sem saber quem é que está falando… E descobre isso quando?

Tem um conto meu que chama “Belinha”; está no livro “Angu de Sangue”. Nesse conto, descobri que era um velho que estava falando quando eu comecei a primeira frase.

A gente costuma dizer: “Ah, sempre falta uma palavra.” Por mais que a gente goste, que queira dizer algo, que sinta saudade de alguém, sempre falta uma palavra para falar daquela saudade, daquele amor que a gente sente. Eu comecei: “Dizem que sempre falta uma palavra, e é verdade. Nesses anos todos, eu sei que sim, que sempre falta uma palavra, é verdade. Verdade. Pois procurei por Belinha, depois de 50 anos, 50 anos, para dizer para ela essa palavra. Sempre falta uma palavra, verdade verdadeira. E fui para dizer para Belinha essa palavra”.

Descobri que era um velho falando, porque velho fala repetindo. Um velho, muito velho, fala repetindo, porque já está cansado das palavras. Um velho diz assim: eu vou ali à farmácia, eu vou ali à farmácia comprar um remédio; à farmácia comprar um remédio eu vou. [risos]

Ele já está cansado das palavras. Já se falou tudo. Então, quando eu comecei a escrever esse conto, “sempre falta uma palavra e é verdade, nesses anos todos eu sempre soube que falta uma palavra, é verdade, verdade. Pios eu procurei por Belinha depois de 50 anos para dizer para ela essa palavra. Sinto falta, é verdade”, eu digo: É um velho!

Ele vai atrás de uma mulher que amou, mas teve que renunciar esse amor para dizer a ela uma palavra que ficou engasgada durante muitos anos. Eu descubro meus personagens por meio das palavras. Descubro se é um travesti, um padre ou se é um menino de rua, a partir da articulação dessas palavras.

“Às vezes uma frase é tão extremamente dolorida, ou amorosa, que eu vou e escrevo para afunilar, entender, o que aquele sentimento tão amplo tem de particular”

Mas de onde vêm essas palavras? O sr. sabe o que está escrevendo?

Eu procuro saber quando estou escrevendo. Eu não vou muito perdido não. Eu tenho que encontrar por onde é que aquelas palavras estão caminhando. Então eu descubro, por meio das primeiras palavras. Da primeira, segunda, terceira frase. As palavras vão me apontando o caminho do texto, dificilmente eu tenho uma história prévia. Quando eu tenho algo prévio, um enredo, eu preciso da primeira palavra. Eu preciso de uma primeira frase que me encante; que me instigue continuar o texto.

 Foto: Fernando Leite

Foto: Fernando Leite

O sr. tem um conto preferido?

Eu gosto muito de “Belinha”, mas tem um que foi muito sintomático para mim como escritor. Foi um conto que eu escrevi ainda morando no Recife. Eu devia ter uns 19 anos, e eu queria muito escrever um conto que se passasse no lixão da cidade, chamado “Muribeca”.

Muitas narrativas já se passaram em lixão, né? Eu dizia: “Nossa, porque nunca ninguém falou no lixo?”. Fiquei pensando para escrever o texto, e então escrevi esse conto sobre o lixão que fica no bairro da Muribeca, mas que também pode ser o nome da personagem.

E esse texto foi o conto que um crítico literário chamado João Alexandre Barbosa, um importante crítico literário pernambucano, me ouviu lendo e me indicou para essa editora. Eu mesmo publicava meus livros antes da indicação do crítico. Então, esse conto foi também a porta de entrada para uma editora, para publicar um livro, e é um conto que já foi muito adaptado para teatro; está também em muitas gramáticas para questão de estudo do meio ambiente, e também foi interpretado na televisão pela Beatriz Seagal, em um especial da TV Cultura.

Observe só: eu não sabia bem que história eu ia contar nesse lixão, mas é uma mulher, e o conto começa assim: “Lixo. Lixo serve para tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira para pôr uns pregos e ajeitar. Sentar. Lixo para poder ter sofá costurado, cama, colchão, até televisão. É a vida da gente o lixão. E por que agora querem tirar ele da gente? O que eu vou dizer para as crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho, e o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas e sem as caixas? Vai perambular pela rua? Roubar para comer? E o que eu vou cozinhar agora? Com que dinheiro? Vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa.”

Então, a partir dessa articulação, eu entendi que era uma mulher defendendo o lixão; que o lixão ia ser desativado.

E o lixão ia ser mesmo desativado?

Não, eu inventei tudo isso.

Muitos anos depois, vários trabalhos sociais foram feitos nesse lixão da Muribeca, e esse meu conto foi trabalhado com os catadores de lixo. E fiquei muito feliz, porque foi uma ONG lá, apresentou o conto para eles, eles discutiam o conto e tal.

Recentemente, há mais ou menos cinco anos, o lixão ia ser completamente desapropriado. O que aconteceu? Aconteceu o que meu conto falava. As pessoas não queriam de jeito nenhum sair do lixão.

Tem um documentário, Estamira; muita gente que lê meu conto fala desse filme. Mas, na verdade, meu conto veio antes. Foi publicado no ano 2000, vai fazer 15 anos agora. A edição comemorativa vai sair esse ano. E o Estamira foi lançado em 2005. Por sinal, é um ótimo documentário, sobre uma mulher que defende um lixão.

Meu conto não tem relação nenhuma com Estamira. Lixões existem em todo mundo, né? E artistas com um olhar voltado para essas questões existem aí aos montes.

Falando de artistas aos montes que retratam questões sociais, eu lhe pergunto: é por isso que escreve, Marcelino? Para retratar questões sociais?

Olha, eu escrevo para me vingar. Eu escrevo porque sou um covarde. Eu não tenho forças para pegar em armas. Sou péssimo, não sei atirar. Adoraria, em alguns momentos, tocar fogo em meu próprio corpo. Eu entendo uma pessoa que está tão revoltada que taca fogo no próprio corpo e sai correndo na rua. Eu tenho muito medo. Como sou muito covarde, eu escrevo.

Eu escrevo para não me sentir tão bundão. Para me vingar do governo, de algo que não vai bem, para entender os absurdos à minha volta. Não é nem para denunciar. Quem sou eu para denunciar, para apontar dedo para alguém. Eu não escrevo para julgar nada. Eu escrevo como alguém que fotografa uma cena, e deixa que o leitor compactue e veja, tire suas próprias conclusões, impressões, pulsações daquilo.

Escrevo movido por isso. Algo que, mesmo quando eu, por exemplo, perco um amigo querido, como perdi recentemente uma amiga extraordinária, então eu vou escrever para tentar entender a ausência daquela pessoa na minha vida. Aí eu escrevo e as palavras vão lá e me socorrem, começam a me indicar um pouco da compreensão do vazio que aquela pessoa me deixou, ou da injustiça que está acontecendo no Brasil.

Eu estou aqui caminhando por Goiânia, aí alguém fala algo que me chama a atenção. Então, eu guardo aquela palavra ou aquela frase. Não sei o que vai acontecer, mas aquilo pode chegar a algum personagem, alguma casa, dar conta de alguma forma de algum abandono que aquela palavra, sem que eu saiba, está gritando.

Quando eu guardo uma frase, às vezes eu a desmembro, e vejo que aquela frase tem um núcleo de dor, núcleo de vexame, de aperreio, que eu só guardei porque aquela frase estava doendo. Dói, eu escrevo.

Às vezes, aquilo me encanta profundamente, e eu escrevo para entender esse sentimento muito amplo como dor e amor. Às vezes, uma frase é tão extremamente dolorida, ou amorosa, que eu vou escrevo para afunilar, entender o que aquele sentimento tão amplo tem de particular.

Essa frase que eu ouço é uma espécie de porta de entrada, porta de percepção do mundo. Eu entro por aquela frase.

 Foto: Fernando Leite

Foto: Fernando Leite

Já que estamos falando de dor e do que te move na hora de escrever esses contos, tem um texto específico que eu acho muito interessante, o “Acompanhante”, que é…

Meu pai. Esse aí foi por causa de meu pai. Meu pai morreu completamente caduco, debilitado. Era um homem muito forte, sertanejo, nunca foi ao hospital; um homem guerreiro. No final da vida, ele estava débil. Ficava nu na sala, tinha uma empregada que tinha que cuidar dele senão ele saía pelado na rua. Ele estava débil.

Eu estava de férias, visitando meu pai — moro em são Paulo há 23 anos —, quando cheguei minha mãe estava entrevistando umas empregadas para poder cuidar dele. Ela falava: “Olhe, ele come isso, ele está doente disso, vai precisar de cuidado, você tem que pegar isso. Veja, olhe como ele era. Era um homem muito bom”, e mostrava fotos dele quando era jovem.

E eu gostei de uma frase. Uma mulher que estava querendo o cargo perguntou: “E ele vai ao banheiro sozinho?”, e ela respondeu: “Olha, ao banheiro sozinho ele não vai, mas você ajeita isso, faz isso aqui.” Então, a partir dessa frase eu construí outra história. Não é mais meu pai, mas a articulação da frase da minha mãe misturada com a decrepitude de meu pai.

Olhe, eu sempre acredito que as coisas podem ser piores do que são. Esse conto é mais ou menos isso. Essa história fica ainda pior. Você acha que não pode ficar pior, mas fica. É por onde caminha esse conto. E por onde caminham outros contos.

“O vestido longo”, no [livro] “Amar é crime”, é um conto que eu ouvi na televisão um documentário sobre umas meninas muito novinhas que se prostituem nas estradas do Brasil. Muito novinhas, com 12, 10 anos. Então, era uma matéria que aparecia o rosto de uma menina fora de foco e o repórter dizia: “Mas por que você faz isso?”, e ela, quase sem roupa nenhuma, dizia mais ou menos assim: “Não sei porque ficam enchendo o saco da gente se eu sempre vivi assim, nuazinha mesmo.”

Então, construí o conto a partir disso.

Existe alguma intenção de dar visibilidade a certas pessoas em seus textos?

Não, não. Existem, inclusive, alguns estudos sobre os meus textos que dizem que eu dou voz àqueles que não têm voz. Não, eles têm voz sim. Meu trabalho é escutar. “Quer ver? Escuta.” Esse versinho pequenininho é de um poeta mineiro que vive em Brasília, Francisco Alvi. Eu escuto, e procuro ver, compactuar. Não posso julgar que eu seja alguém que estou cima, elegendo alguns para dar voz.

Outros dizem que eu escrevo para melhorar, salvar as pessoas. Não, não posso prometer nada disso. Porque quem promete isso é a Igreja. Salvação eterna, melhores dias. Não sou igreja, não posso prometer isso para ninguém. O que eu faço é registrar uma coisa que me inquieta. Se essa minha vingança particular, quando o leitor lê um conto meu, torna ele mais consciente, eu não. Não sei o que ele vai fazer do meu conto. Se ele vai transformar dessa minha vingança particular uma vingança coletiva, não sei, mas está lá.

Quando Graciliano Ramos escreveu “Vidas Secas”, por exemplo, ele não quis resolver o problema da seca. Não é Graciliano que tem que revolver o problema da seca. É o governo, é o dinheiro, é planejamento, é vergonha na cara. Ele apenas registrou aquela família ali — o marido, a mulher, os dois filhos, a cachorra e o papagaio — caminhando. Pode se passar 400 anos, você vai abrir o livro e aquela família vai continuar lá, caminhando naquela seca. Você vai ver uma história de injustiça, de desigualdade social, e em algum momento você vai se lembrar de que no Brasil houve esse absurdo de gente morrendo por falta d’água. Resolveram o problema da seca? Não. É uma pena que uma obra dessa continue tão atual.

Muito modestamente, acho que sou um escritor do meu tempo, não sou alheio ao mundo a minha volta. Vejo algo, vou lá e escrevo para tentar entender. E acabo deixando um testemunho.

O sr. escreve para si mesmo?

Escrevo a partir de mim. Tudo é a partir de mim, porque o escritor inaugura um olhar às coisas. Então, eu escrevo a partir de uma visão de mundo que eu tenho — limitada, muitas vezes, mas a partir de mim. Esse a partir de mim é como uma nascente de um rio. Nasce de mim, com todo o meu sotaque, musicalidade, repertório, oralidade, influência da minha mão, de outros autores que eu li.

No caminho, essa nascente vai derramando coisas pelo caminho, né? Vai sendo influenciado por isso, por aquilo, o rio dobra, pega umas sujeiras ali nas beiradas. Não sou eu, mas esse rio nasce a partir de mim.

As pessoas fazem essa confusão também de achar que tudo que escrevo é retrato de minha vida. Eu escrevi meu primeiro romance, o “Nossos Ossos”, e todo mundo disse: “Nossa, tem muita semelhança com a sua história. Você foi morar em São Paulo também.” Lógico que eu faço esses simulacros, essas confusões intencionais, mas não sou eu. É a partir de mim.

Por que foi para São Paulo?

1991, aos 24 anos. Porque eu me apaixonei. Estava apaixonadíssimo por uma pessoa. E aí eu queria ir para lá. Me fodi. [risos]

Sabe o que é interessante no amor? O amor nunca vai dar certo. Mas ele melhora o próximo amor. Você vive um momento bom, de amor, e, quando não dá mais certo, você vai para o próximo amor melhorado. E assim vai indo — sai enriquecido do amor, e vai enriquecendo os próximos. Não deu certo, mas deu muito certo, porque melhorou os outros (risos). A gente não pode se desesperar.

marcelino_freire (6)Fiz o que foi possível. Mas a vida é feita de amores possíveis, não impossíveis. É o que foi possível.

Os contos, por exemplo, nunca vão ser do jeito que a gente queria. Mas vão ser o que foi possível. É muito difícil, por exemplo, traduzir a dor de uma mãe que perde o filho. Mas eu posso, dentro de um conjunto de palavras, chegar próximo a essa dor. O conto vira um conto possível, não exato.

A mulher de “Muribeca”, por exemplo — as pessoas ficam horrorizadas com algumas coisas que ela diz. Mas o lixão mesmo é muito pior. Eu digo que ela encontrou uma aliança. “Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. Vem parar muito bicho morto. Muito homem, muito criminoso. A gente já tá acostumado. Até o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado.”

As pessoas ficam horrorizadas. Não tem no meu conto, mas no lixão real as pessoas encontram coisas muito piores. Feto, bebês, placentas, lixo hospitalar. Césio — você sabe muito bem disso. A gente faz o possível para entender os absurdos à nossa volta.

Por que resolveu começar a escrever?

Eu não sei fazer mais nada. Nunca tive saúde para fazer outra coisa. Atleta, zero. Adoraria ser jogador de futebol, cantor de rock, dançarino. O máximo que me aproximei de um desejo foi ser ator. Mas descobri que tinha muito pudor. Iria ser um ator limitado. Se o diretor dissesse “Tire a roupa” eu não conseguiria. Aí eu desisti.

Como escritor eu não tenho pudor nenhum. Posso ser tudo o que quiser.

Quando começou a escrever?

As primeiras poesias que fiz foi aos 10 anos, imitando Manoel Bandeiras. Foi o primeiro poeta que li na minha vida. Enquanto meus irmãos andavam de bicicleta, eu estava imitando o Manoel Bandeira, movido pela sua melancolia. Eu queria muito ser tuberculoso como ele. Ficava querendo as doenças para mim. Eu não tinha saúde para dar para ninguém. Não sabia jogar bola.

Mas aí eu descobri que era muito importante na minha casa. Eu escrevia as cartas. Gostava muito de ler, então lia a Bíblia para minha mãe, as bulas de remédio. Eu tinha uma utilidade na minha casa, e era muito respeitado por isso. O primeiro lugar que fui respeitado como escritor foi em casa.

E o sr. se interessou por leitura por si só ou teve algum incentivo?

Minha mãe dizia, quando a gente saiu de Sertânia, “estude, estude, estude para ser gente”. E a gente começou querendo estudar tudo. A gente estudava bastante. Eu e os três mais novos, fomos os que conseguiram estudar. Os mais velhos não terminaram o primário nem nada.

Minha mãe saiu com os nove filhos para Paulo Afonso, na Bahia. Saiu por causa da seca. As coisas não estavam muito boas lá também, aí fomos para Recife. Cheguei no Recife com oito anos. Depois, sai de lá com 24 anos para São Paulo.

Era difícil a vida?

Muito difícil, não tinha muitas facilidades não. Imagine, cuidar de nove filhos. Dar de comer, roupa para vestir. Não foi fácil. Mas a gente começou a trabalhar, estudar, íamos ajudando.

E essa insistência de que eu estudasse deu à minha mãe um final feliz. No final da vida, quem cuidou dela foram dois amigos meus escritores que são médicos. Wilson Freire, médico e escritor, Ronaldo Correa de Brito, escritor e médico. Eles cuidaram da minha mãe, e eu os conheci — mesmo o Wilson sendo meu primo — por causa da literatura. E eu só escrevi meus livros porque a minha mãe foi a primeira que fez esse êxodo, essa saída rumo à mudança.

Ela teve um final de vida tranquilo, bem tratada em um hospital. E quem deu isso à ela foi a literatura. E quem deu a mim a literatura foi a minha mãe.

Quando o sr. fala dela, parece que era uma mulher muito forte.

E era, muito forte. Todas as falas dos meus personagens são calcadas na fala dela. E também esse trajeto teimoso que ela fez, para sair com os filhos de lá, de Sertânia.

Existe uma voz feminina muito presente nos seus textos. Por quê? Vem de sua mãe?

Vem… Acho que a presença da mulher nordestina também. Já falaram uma vez que a fala é o falo da mulher. Meu pai era silêncio, minha mãe era aperreio, vexame. Muito dessa presença feminina vem disso — da fala, do gesto, do grito, dessa figura sertaneja.

Já no meu primeiro romance, nossos ossos, eu me aproximei do silêncio do meu pai, porque eu já havia gritado muito nos meus contos. Aí eu lembrei do silêncio do meu pai e me dediquei a ele. Porque para escrever um romance eu tive que acalmar um pouco o tom.

Para finalizar, uma pergunta: escrever é um dom ou aprendizado?

É uma vontade. E essa vontade precisa de treino. Tem vontade de correr? Treine. Tem vontade de cantar? Treine. Esse desejo é a faísca inicial. Para manter o fogo aceso tem que estudar, treinar, ler. Existe escritor que quer escrever, mas não quer ler. Existe escritor que quer publicar, mas não quer escrever. Então, acho que tem vontade, vá à luta. Tudo é aprendizado, tudo é trabalho para manter essa faísca e transformá-la em fogo constante.

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Déborah Gouthier

Salve Jornal Opção Online, por mais essa alegria de trabalho! Parabéns pela entrevista linda. Abraços.