“Minha votação me credencia a participar ativamente das eleições para prefeito”, diz Fátima Gavioli sobre 2028
14 outubro 2026 às 19h30

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Após conquistar quase 55 mil votos em sua primeira disputa eleitoral, Fátima Gavioli (PSD) pretende transformar o desempenho nas urnas em participação política nas eleições municipais de 2028. De volta ao comando da Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc), a gestora acredita que o resultado a credencia a atuar nas articulações para as disputas pelas prefeituras goianas, seguindo as orientações do governador Daniel Vilela (MDB).
Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção após as eleições, Gavioli afirmou que a campanha permitiu identificar lideranças regionais e construir uma base eleitoral que poderá ampliar sua influência política nos próximos anos. “Acredito que minha votação me credencia a ser uma pessoa que, daqui a dois anos, vai participar ativamente das eleições de prefeito. Vou ter essa voz, essa participação em Goiás”, declarou.
A secretária também não esconde o desejo de assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados, uma vez que conquistou a primeira suplência. Segundo ela, a oportunidade permitiria demonstrar sua capacidade de atuação parlamentar e fortalecer seu nome na política goiana. Apesar de não ter conseguido se eleger, avalia positivamente o resultado e atribui parte das dificuldades enfrentadas à falta de recursos financeiros e de apoio de prefeitos durante a campanha.
O futuro profissional de Gavioli, no entanto, pode não ficar restrito a Goiás. A secretária revelou ter recebido sondagens de três estados para integrar outras administrações na área da educação. Embora afirme que sua preferência seja permanecer no governo goiano, não descarta uma mudança caso receba uma proposta que represente ascensão profissional. Qualquer decisão, segundo ela, será discutida previamente com Daniel Vilela.
Na entrevista, Gavioli também comentou os bastidores de seu retorno à Seduc, os desafios da educação estadual e o apoio de Daniel Vilela e Ronaldo Caiado (PSD) à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. A gestora ainda fez um balanço dos oito anos de atuação em Goiás, reconheceu que sua postura austera pode ter prejudicado seu desempenho eleitoral e revelou o que faria diferente na relação com Caiado.
João Paulo Alexandre – A senhora recebeu quase 55 mil votos na sua primeira campanha eleitoral, mas não conseguiu conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados e ficou como primeira suplente. Como avalia esse resultado? Foi uma decepção? A senhora considera que conseguiu construir uma base eleitoral?
Eu fiquei muito feliz com o resultado. Confesso que eu queria ganhar, mas fiquei feliz porque tenho oito anos no Estado de Goiás e meu cargo não foi um cargo que utilizei para fazer política. Minha gestão é austera, muito correta. Sou conhecida como uma pessoa que trabalha na linha da lei mesmo, na Secretaria de Educação.
Isso não dá voto. Se você parar para pensar, não existia um discurso ideológico meu. Sou uma pessoa que tem vontade, que deseja ter um mandato, porque me vejo como alguém com capacidade técnica, política e de gestão para honrar esse mandato, trabalhando muito pelo povo de Goiás.
Considero que o resultado foi positivo para quem tem oito anos aqui. Tem muita gente que não conseguiu essa votação e que mora e nasceu no Estado de Goiás. Então, houve uma boa avaliação do meu trabalho.
Mas também posso dizer que a questão financeira pesa muito numa campanha. Eu fui trabalhar com fundo partidário. Quando você tem o fundo partidário para administrar uma campanha de seis meses, mas só recebe esse fundo nos últimos 60 dias, não tem como dizer que está disputando de igual para igual.
Minha chapa era muito pesada. Eu tinha quatro deputados ali na cabeça, que eram Lucas do Vale,[Daniel] Agrobom, Ismael [Alexandrino] e Zeli. Os quatro são deputados. E a Fátima, licenciada da Secretaria de Educação, sem salário, inclusive, nos últimos três meses.
Embora eu seja uma goiana de coração e de compromisso com o povo goiano, faltaram, eu diria, mais ou menos 20 mil votos para fazermos a terceira cadeira. Penso que contribuí com o grupo. Fui até o fim, mesmo encontrando tamanha dificuldade.
João Paulo Alexandre – A senhora percorreu quantos municípios durante a campanha? Quais foram as principais demandas que ouviu dos eleitores?
Passei por 189 municípios durante a campanha. Infelizmente, não consegui fazer todos. Pretendo, até o final do ano, cumprir a visita aos 246 municípios. Tem município que visitei como secretária, tem município que visitei como assessora do governador Daniel Vilela e teve município que visitei como candidata, durante a campanha. Meu desejo é fechar dezembro tendo visitado os 246.
A principal demanda do eleitor hoje é ter um político próximo dele. É interessante isso. A gente pensa que o eleitor está querendo alteração da lei. Não. Eles querem proximidade.
Tanto que, se eu tivesse vencido a eleição e fosse tomar posse em fevereiro, já tinha conversado com meu pequeno time, que era bem pequeno mesmo, que montaríamos um mandato itinerante.
Esse mandato itinerante é a minha cara, porque acredito que tenha sido, durante a gestão do ex-governador Ronaldo Caiado e agora do governador Daniel Vilela, a secretária que mais andou pelo Estado de Goiás. E não foi para tomar café. Não era andar para visitar, era andar para entregar. Andar para inaugurar uma escola, uma quadra, uma ala, derrubar uma escola de placa. Era andar para trabalhar mesmo.
O que senti é que o eleitor de Goiás não tem proximidade com o candidato. A maioria dos que ganham as eleições em Goiás parece mais deputado de Copa do Mundo. Ganha e depois volta no ano da eleição, dizendo que fez isso ou aquilo.
Mas isso se deve ao fato das emendas, principalmente as emendas PIX. Quando o deputado destina esse dinheiro, o prefeito vai trabalhar para ele. E, quando o prefeito tem um deputado, é evidente que esse deputado já sai na frente com uma votação extraordinária.
Eu não. Estava com trabalho prestado nos 246 municípios, mas, infelizmente, não consegui reunir mais do que três prefeitos na minha campanha, porque não tinha as emendas.

João Paulo Alexandre – Qual foi a principal experiência que a senhora tirou dessa campanha? O resultado abre perspectivas para novas disputas eleitorais em 2028 ou 2030?
O que mais quero, de verdade, se for primeiramente da vontade de Deus, é ter a oportunidade de assumir nesses dois últimos anos. Sou primeira suplente, então almejo assumir, espero assumir.
Se der tudo certo, vamos pegar esses dois anos para trabalhar, fazer o nome e mostrar para as pessoas como é possível ter um mandato eficiente e eficaz. É isso que almejo, politicamente falando.
Agora, acredito que minha votação me credencia a ser uma pessoa que, daqui a dois anos, vai participar ativamente das eleições de prefeito. Vou ter essa voz, essa participação em Goiás.
Por exemplo, na última eleição de prefeito, fui pedir votos para prefeitos nas cidades. O Dione Araújo, de Itumbiara, é um exemplo. Estive lá com ele pedindo voto. Fui por simpatia, mas não sabia que tinha votos.
Hoje, não. Se eu for a Itumbiara pedir votos para o próximo prefeito, fica comprovado que existe uma liderança dentro de Itumbiara que acredita em mim. Então, é diferente.
Penso que devo ter uma participação ativa, seguindo as orientações do governador Daniel Vilela, na próxima eleição de prefeito em Goiás.
João Paulo Alexandre – Como aconteceu seu retorno à Secretaria de Educação? Houve um convite do governador Daniel Vilela? Qual foi a principal demanda apresentada por ele?
Minha volta foi acertada no mês de fevereiro. Estive com o governador Daniel Vilela, quando faltavam cerca de 30 dias para ele assumir o governo, e falei: “Governador, o senhor sabe que existe um pedido para eu sair candidata a deputada federal. Vou para o partido em que o governador Caiado estiver. O senhor sabe que vou entrar na campanha, andar pelo Estado, ouvir as pessoas e ver o que elas gostariam que eu pudesse fazer para representá-las, principalmente na educação”.
Eu queria entender se, quando a campanha terminasse, sairia em definitivo do governo, porque não tenho condição de ficar sem trabalhar, eu tenho que trabalhar, porque ainda tenho alguns projetos que quero realizar na vida.
Ele respondeu: “Quando terminar a campanha, você vai estar tão cansada que acho que não vai querer voltar. Mas, caso queira voltar, não tenho nenhuma objeção”.
Quando terminou a campanha, no domingo [4 de outubro], na segunda-feira o governador decidiu o apoio ao Flávio Bolsonaro (PL). Na terça-feira, ele me ligou e falou: “Tudo bem? Não sei se te chamo de deputada ou de secretária”. Eu disse: “Não, fique à vontade”. Ele perguntou: “Quer voltar a trabalhar quando? Hoje?”.
Respondi que gostaria de voltar depois do feriado. Ele falou: “Não, senhora. Volta agora”. E me nomeou.
Nós não conversamos sobre mais nada. Sou uma pessoa muito pé no chão. Então, o que fica na minha cabeça é a conversa de fevereiro.
O que farei agora? Vou cumprir as metas que nós dois tínhamos combinado. Vou fazer as entregas que tínhamos combinado, eu e o governador Daniel.
Acredito demais nessa gestão que vem aí. Vocês devem ter percebido como Daniel está preparado nos debates. Daniel está muito preparado. Vai deixar o nome dele escrito na história. Fique eu com ele ou não, minha admiração por ele será sempre extremamente considerada.
João Paulo Alexandre – Há informações de que a senhora teria sido sondada para assumir secretarias de Educação em outros estados, inclusive Minas Gerais e Paraná. O que existe de verdade nessas conversas? O que poderia fazê-la deixar Goiás?
Na verdade, tenho sondagens de três estados, sim, para trabalhar hoje. São sondagens mesmo.
Assim como vim para Goiás, hoje, cada vez mais, os estados querem compor seus quadros com pessoas técnicas. Embora eu seja uma pessoa política, pesa mais minha função como técnica.
Tenho um currículo, e ele pesa mais. Sair de Rondônia e estar secretária em Goiás foi um prêmio. Penso que saí pela porta da frente em março, quando deixei a secretaria. Mantive um bom relacionamento com a equipe e com o governador, e isso é importante.
Trabalho meu currículo para conseguir, cada vez mais, ser uma pessoa que tenha um nome no Brasil.
O que pesaria hoje, sem dúvida nenhuma, seria ser convidada para alguma coisa em que eu tivesse uma ascensão na função, no cargo.
Agora, o coração é todo goiano. Nunca vai deixar de ser goiano. Nunca vou deixar de torcer e querer bem à educação, de querer que esse mandato do governador Daniel Vilela seja extraordinário. Nunca vou deixar isso. Eu me dou bem demais com ele.
Mas não tem como evitar que uma pessoa te sonde. Isso acontece muito na rede privada. Você está dirigindo uma empresa e, daqui a pouco, alguém de outra empresa diz: “Vem para cá”.
Se acontecer algo que mereça uma atenção especial, tudo será tratado, no devido tempo, com o governador Daniel Vilela.

Fátima Gavioli – Quais são as principais metas e entregas previstas pela Secretaria de Educação até o final deste ano? O que o governador Daniel Vilela estabeleceu como prioridade?
Até o final do ano, precisamos concluir os processos mais urgentes que estão tramitando aqui, como a garantia de que as crianças receberão uniformes, materiais escolares e a aquisição de Chromebooks para os alunos que estão chegando e ainda não têm.
Daniel não abre mão disso. Ele não quer perder nada do que foi trabalhado na gestão do governador Caiado. Já fez um pedido de que quer garantir e ampliar.
Agora, ele tem alguns projetos muito importantes para os quais precisamos montar um grupo de estudos e começar a trabalhar urgentemente.
Um deles é o Hub Paulo Vargas, que será desenvolvido em parceria entre algumas secretarias, como a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e a Educação. É um hub que precisa sair do papel e acontecer. Essa é uma prioridade.
Ele também quer transformar o Centro de Excelência em uma escola vocacionada de tempo integral para o esporte, destinada aos alunos que têm essa vocação.
Será aos moldes daquela que já existe, mas muito ampliada, inclusive no número de vagas. Esse é um projeto do qual ele não vai abrir mão.
Também queremos colocar uma escola vocacionada em Trindade, uma em Aparecida, uma em Anápolis e outra no Entorno do Distrito Federal. Seriam escolas, por exemplo, uma para espanhol, outra para inglês. Já temos o francês no Lyceu. Também pensamos em mandarim.
Tudo isso precisa ser alinhado, e nossa equipe tem que trabalhar diuturnamente, porque o governo tem pressa. Também precisamos ampliar os cursos profissionalizantes. Vocês já devem ter percebido que o governador Daniel fala muito em tecnologia.
Tenho uma reunião com o Sistema S ainda nesta semana. Pretendemos ampliar os cursos técnicos muito voltados para a área da tecnologia, que também é um pedido dele.
E o principal: não se iludam, Daniel Vilela vai cobrar resultados muito melhores de proficiência em português e matemática. Vai cobrar isso e exigir isso do time. E está certo.
Hoje comemoramos uma nota 5. Significa que a régua vai até 10. Peguei com 3,9 e estou entregando com 5. Mas é evidente que Daniel quer melhorar isso. O governador Caiado falava em chegar a 7. Temos que melhorar mesmo. As crianças têm que aprender mais.
Já estamos trabalhando nisso. Não adianta ter escola nova, tecnologia à disposição, e o aluno não aprender português e matemática.
É formação de professores, aquisição de equipamentos, tudo o que for preciso para melhorar o ensino dessas disciplinas. Podem ter certeza de que ele vai nos dar condições, mas também vai cobrar as metas e os resultados.
João Paulo Alexandre – Durante a campanha, a senhora teve contato direto com professores, alunos e famílias. O que essa experiência trouxe de novas ideias para a educação de Goiás?
Quando você sai do gabinete e vai para dentro das escolas conversar, descobre algumas coisas. Isso foi demonstrado nas urnas. Daniel Vilela foi eleito no primeiro turno, assim como Ronaldo Caiado também foi. Não tem como negar que a educação do Estado de Goiás foi Caiado e é Daniel.
Isso se deve ao processo de valorização que aconteceu em Goiás, que não foi apenas salarial. Foi uma valorização das condições de trabalho.
Os professores estão satisfeitos com isso e querem muito que perdure, que seja uma política pública.
Hoje, nosso professor recebe um notebook para trabalhar, tem internet na escola. Estamos trabalhando para ter internet 5G e vamos começar um processo de digitalização que vai acabar com esses papéis nas escolas e nas coordenações regionais.
O professor gosta disso. Ele se sente olhado, cuidado. A rede está demonstrando resultados muito importantes. Quando cheguei, Goiás estava em 22º lugar no ranking dos melhores salários do Brasil. Hoje somos o quarto.
O professor toma posse hoje com um salário de R$ 5.180. Tem mais R$ 2 mil de regência, R$ 500 de alimentação e R$ 500 de auxílio. Chega a aproximadamente R$ 8.100.
Se tiver mestrado, recebe mais 40%, chegando a cerca de R$ 10.400 na entrada. Isso é um salário baixo no Brasil hoje? Não é. Ele tem 40 horas, mas dá 30 aulas.
Em 2019, quando cheguei, entrava com R$ 3.980. Se dobrasse a carga horária, pegando mais 20 horas, chegava a R$ 5.800. Ficava com 60 horas e dava 42 aulas. Não tem como não estar satisfeito. Ele trabalhava 12 horas a mais.
Eu quase morri para fazer esse ajuste, porque todo mundo teve que trabalhar. Quem estava à disposição de políticos voltou. Quem estava morando nos Estados Unidos voltou. Foi difícil. Toda reforma é sofrível, mas foi arrumado.
Tudo o que faço aqui, no fundo, quero que beneficie o professor, o administrativo e o aluno. É para o aluno. Tudo é para ele.
Acredito muito que isso continuará acontecendo na gestão do governador Daniel. Nenhum direito será tirado. Ele vai preservar os direitos e as conquistas.
Agora, é lógico que também é direito dele querer fazer alguma coisa mais desafiadora na educação, do ponto de vista da inovação.
João Paulo Alexandre – Goiás tem investido em escolas de tempo integral, unidades bilíngues e colégios voltados para o esporte. O que podemos esperar da reestruturação da rede nos próximos anos, além das escolas vocacionadas já anunciadas?
A ampliação das vagas e dos alunos cada vez mais presentes na escola de tempo integral. Quanto mais tempo eu ficar com esse menino dentro da escola e quanto mais me dedicar à jornada de tempo estendido, que também é uma modalidade de integral, menos tempo ele terá na rua, podendo até ter acesso às más companhias.
Os pais têm resistência ao colégio de tempo integral, mas deveriam entender que há tempo para tudo debaixo do céu e em cima da terra. E esse é o tempo do menino estudar.
O governador Caiado tinha uma fala que era assim: “Entrega teu filho para mim e vai trabalhar, que eu vou cuidar dele”. E é verdade. Você oferta ensino profissionalizante, uma segunda língua, entrega um Chromebook e investe nesse jovem. Quando ele sai do ensino médio, sai com dois diplomas: um profissionalizante e outro do ensino médio. Sai falando uma segunda língua.
Olha como isso é importante para os pais. Agora, sim, chegou a hora de ir para o mercado de trabalho. Às vezes, o pai diz: “Meu filho tem que trabalhar”. Trabalhar como? No submundo do emprego? Para ganhar R$ 400 por mês, trabalhando meio período?
Outra coisa que todo mundo precisa entender é o quanto melhorou a alimentação no Estado de Goiás.
Até a semana passada, tivemos uma investigação sobre merenda escolar envolvendo algumas empresas. Posso dizer que aquilo começou porque a Seduc, quando aconteceu a licitação, acionou um processo administrativo para dizer: “Essa licitação está estranha”.
A investigação demorou um tempo e foi deflagrada nesta semana. Não tem espaço para esperteza. Se alguém tentar ser esperto e percebermos, nós mesmos vamos acionar a polícia, vamos chamar atenção para isso.
A alimentação melhorou muito. Hoje, as crianças têm almoço na escola.
E vou chamar atenção para outra coisa: temos a melhor polícia do Brasil. Mas sabemos que a polícia atua no ato e no fato. Quem evita que a indústria do crime receba novos elementos somos nós, da educação.
Quando a escola é de tempo integral, profissionalizante, bilíngue ou vocacionada, esse menino está na escola. Quanto mais tempo ele ficar comigo na escola, menos jovens e adolescentes teremos entrando no mundo do crime. É nesse momento que vamos viver numa sociedade segura. Espero que todas as pessoas pensem assim, porque vão entender que não se faz segurança pública sem o fortalecimento da educação.
Tenho uma parceria muito boa com o secretário de Segurança Pública, Renato Brum. Ele é muito parceiro da educação porque também entende isso.

João Paulo Alexandre – Em nossa entrevista anterior, a senhora comentou sobre a resistência de alguns pais ao ensino integral, principalmente porque os filhos poderiam ajudar nas tarefas de casa ou trabalhar. Essa resistência ainda existe? Como pretende enfrentá-la?
Sou uma defensora e uma ativista da educação integral. Gosto da modalidade de tempo integral. Fico pensando na minha pobreza, na época de escola, e no quanto a educação integral teria me ajudado.
Eu seria uma dessas crianças que, no passado, faria a melhor alimentação do dia na escola, porque vim da pobreza.
A escola integral alimenta, cuida, zela, forma e paga “Bolsa Estudo”, que é uma coisa maravilhosa. Dei uma entrevista à Folha de S.Paulo e me perguntaram por que a Bolsa Estudo é diferente do Pé-de-Meia.
Porque, na Bolsa Estudo, eu sei onde o aluno gasta. Tenho o extrato de onde o aluno compra com a bolsa dele. No final do mês, sei que 72% compraram comida no mercado, 5% compraram na padaria e 8% compraram lanches.
Ou seja, não há possibilidade de ele jogar no Tigrinho. Não tem possibilidade de usar isso para outra coisa, porque ele passou o cartão naquele comércio.
Esse é um rastreamento que só nós temos. E isso faz com que ele fique na escola, porque a bolsa está vinculada à nota e à frequência.
Daniel Vilela falou na campanha que quer chegar a 120 mil matrículas no Censo Escolar de tempo integral. É uma baita meta, um desafio sem tamanho. Mas podem apostar que, no último ano da gestão dele, vocês vão perguntar: “Governador, o senhor prometeu 120 mil matrículas em tempo integral e chegou. Como foi feito isso?”.
Porque vai chegar. Temos que garantir esses meninos mais tempo na escola. Estava vendo o plano de governo do Flávio Bolsonaro, e ele fala que quer abrir as escolas inclusive nas férias.
Penso que, resolvida a questão da alimentação, pode ser uma possibilidade. Quando chegam as férias, começo a receber mensagens de mães e pais perguntando se não tem como mandar a merenda das férias para eles.
Não tem. A merenda vem apenas para o período letivo. Quando não está em aula, não recebe merenda. Mas provavelmente haverá uma verba extra para garantir essa alimentação também nas férias, nas escolas.
João Paulo Alexandre – Um levantamento do Instituto Semesp aponta risco de escassez de professores no Brasil até 2040, além do envelhecimento dos profissionais em sala de aula. Goiás está preparado para enfrentar esse cenário? Atualmente, existe déficit de professores na rede estadual?
Não, em Goiás, não tem déficit de professores. Fiz um concurso grande aqui na gestão. Primeiro, dei posse a 480 professores aprovados no certame de 2017.
Cheguei em 2019, e o concurso venceria em abril. Assumi em janeiro e tive que correr para dar posse a esses 480 professores em quatro áreas: matemática, química, física e biologia.
Depois, abri um concurso gigante, com 5.050 vagas no Estado de Goiás. É claro que tivemos três candidatos por vaga, mas, quando acontece isso, temos pessoas de Minas Gerais, Maranhão, Tocantins. Elas vêm de outras localidades para fazer a inscrição.
Já dei posse aos 5.050? Ainda não. Faltam uma ou duas chamadas, que devem sair do cadastro de reserva. O concurso vence em fevereiro.
No entanto, o Brasil está sofrendo um desgaste muito grande com a modalidade EAD na educação. O professor faz o curso totalmente a distância e, inclusive, não tem estágio. Passa no concurso, toma posse e agora? Ele tem que dar aula, mas a faculdade não ensinou a dar aula. Ele não teve estágio.
Quando chega à escola, acontecem duas coisas: ou apresenta laudo por questões emocionais, porque o choque é tremendo, ou pede exoneração.
Não faltam candidatos no concurso. Mas, quando chega a prática do dia a dia, esse número vai caindo. Temos um alto índice de pedidos de exoneração.
A pessoa passou, ganhou estabilidade, mas, quando chega à sala de aula, diz: “Não, isso aqui eu não quero”. Então sai.
Se abríssemos hoje um concurso em Goiás para mais 5 mil vagas, pode ter certeza de que teríamos novamente três candidatos por vaga. Não vão faltar inscritos. Vai faltar, depois da posse, quem realmente fique.
O trabalho de professor exige demais. É preciso ter um preparo muito grande, uma formação muito boa para permanecer na sala de aula. Não vejo um apagão de candidatos nos concursos. Vejo um apagão de quem realmente quer ir para a escola dar aula na prática.

João Paulo Alexandre – Além da formação, a violência nas escolas e a perda de autoridade dos professores também podem afastar profissionais da carreira? Como a senhora avalia esse cenário?
A escola repercute todo o movimento que acontece na sociedade. Lá fora está acontecendo uma guerra ideológica tremenda. Temos pessoas de um lado e de outro, e esses lados se ofendem mutuamente. As crianças estão sendo criadas dentro dessa guerra.
Se uma criança vê na família desrespeito em relação às autoridades, se os pais desrespeitam tudo isso dentro de casa e o filho assiste, por que ele vai para a escola respeitar a autoridade do professor?
Hoje em dia, existe uma tentativa de criminalizar o professor. O pai e a mãe vão à escola, acusam o responsável e acusam o professor sem sequer dar a ele o direito de resposta.
Cabe ao professor se defender de uma acusação. Às vezes, até que o processo aconteça, a condenação dele é muito mais pesada do que aquela que virá no próprio processo.
A mãe chega e diz: “Minha filha sofreu bullying. É sua responsabilidade ter percebido”.
Como assim? Sou professora de 500 meninos. Não estava presente. Esses dias, uma menina sofreu bullying dentro da escola e abriram um processo tão pesado contra a diretora que, quando li, chorei.
Perguntei à diretora onde ela estava quando o bullying aconteceu. Ela respondeu que provavelmente estava correndo pela escola, cuidando da merenda, de briga de menino, atendendo mãe, telefone, prestação de contas, demandas da Seduc.
Porque o diretor não para. Ele anda o dia todo dentro da escola. Acontece um bullying no sétimo ano e perguntam por que a diretora não viu. Aí fica fácil.
Está muito difícil trabalhar na escola. Mas aqui em Goiás temos ofertado assistência psicológica. Na nossa gestão, criamos atendimento terapêutico para os servidores e atendimento para os estudantes.
Nossa equipe é muito atuante. Temos hoje um número alto de psicólogos e assistentes sociais trabalhando na rede. Isso nos ajudou muito, assim como a atuação da Secretaria de Segurança Pública. Temos uma parceria com o Batalhão Escolar, que faz um serviço extraordinário. Pagamos horas extras para policiais que estão fora do horário de trabalho fazerem plantão nas escolas e também no entorno das unidades onde existem manchas de violência. Isso tem sido um sucesso, graças a Deus.
João Paulo Alexandre – Como está atualmente a proporção de professores efetivos e temporários na rede estadual?
Em 2019, quando cheguei, era o contrário: 30% eram efetivos e o restante era contratado. Hoje, a rede tem 69% de efetivos, dentro de um universo de aproximadamente 25 mil profissionais.
Grande parte deles entrou agora, por meio do concurso. Estamos dentro da margem prevista no Plano Nacional, de ter aproximadamente 30% de contratos.
João Paulo Alexandre – O governador Ronaldo Caiado e o governador Daniel Vilela declararam apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial. Como a senhora avalia essa decisão? Considerando que já leu o plano de governo do candidato, quais propostas educacionais poderiam beneficiar Goiás?
Quando um candidato se lança a um cargo executivo, pode ter certeza de que a primeira coisa que vou ler é o plano de governo dele na educação. Não tem nem lógica ser diferente.
Li os planos dos dois candidatos. Acho que, em relação ao Partido dos Trabalhadores, não tem muita novidade. É o estilo deles de trabalhar.
Fui ler o plano do Flávio Bolsonaro porque me preocupa muito, de verdade, a forma como ele, na sua juventude, está pensando a educação.
Vi que eles querem trabalhar o método fônico na alfabetização, e concordo com o método fônico. Concordo mesmo. Vejo que ele pode ser uma das respostas para o baixo índice de crianças alfabetizadas hoje.
Já existe um programa nacional, o Criança Alfabetizada, que em Goiás é o AlfaMais Goiás, que é um sucesso. Mas talvez a junção dos dois possa resultar em algo melhor ainda.
Também me preocupo muito porque, na gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL), houve uma troca de ministros que considero até meio desnecessária. Porque os ministros eram escolhidos muito de forma improvisada. Tivemos ministro que assumia, ficava uma semana e depois vinha outro.
O segredo do sucesso na educação a gente ainda não sabe, mas o do fracasso já sabemos: é a descontinuidade. Toda vez que você está num processo e o descontinua, corre o risco de fracassar. Parece-me que tivemos cinco ministros em quatro anos. Ou seja, não conseguimos fazer nada.
É lógico que quero ler o plano da educação. É uma eleição, o eleitor vai decidir agora, no segundo turno de outubro. Supondo que seja Flávio Bolsonaro, o que ele está prevendo para a educação?
Li sobre o método fônico, a questão de abrir as escolas nas férias e a preocupação com a formação de professores. Espero, caso seja eleito, que cuide bem da educação deste país, colocando pessoas com menos capacidade ideológica e mais capacidade técnica para unir a educação em torno daquele que realmente merece, que é o estudante.
Sobre os governadores Caiado e Daniel declararem apoio, para mim, que estou trabalhando com eles há algum tempo, não imaginava outra situação. Os dois têm um perfil. O governador Caiado é extremamente ligado à direita, historicamente ligado à direita. Então, como o governador Caiado não vai apoiar a direita?
E o governador Daniel, acho que se preocupou muito com a questão do desenvolvimento econômico do país, da crise, da situação que está aí e de não continuar da forma como está. Vejo isso com naturalidade. É como se eu dissesse que, para mim, o rio correu para onde tinha que correr mesmo. Os dois têm um perfil mais de direita.
Depois de oito anos à frente da Secretaria de Educação, a senhora acredita que conseguiu deixar um legado em Goiás? Como gostaria que sua gestão fosse lembrada?
Acredito que tenha deixado um legado em Goiás, sim. Visitei algumas pessoas durante a campanha que são da iniciativa privada e ouvi uma frase de um empresário que me marcou muito. Ele disse assim: “Quando a senhora entrou, em 2019, a Seduc era uma bicicleta e nossa empresa era um Fusca. Hoje, nós somos um Fusca, não evoluímos, e vocês viraram uma Ferrari”.
A gestão da Secretaria de Educação, essa equipe que tenho hoje, evoluiu demais. Evoluiu tecnicamente, tecnologicamente e administrativamente. Achei tão bom escutar isso, porque não é todo mundo que reconhece quando o serviço público evolui. Acho que esse legado eu deixei mesmo.
Agora, lógico que isso me custou a eleição. Se eu tivesse sido uma secretária do tipo “ah, tudo bem, faça isso, transfere, muda”, teria tido 80 mil votos. Mas minha gestão, como eu disse, foi muito austera.
Fico conhecida como uma secretária que organizou a casa, organizou mesmo, administrativamente. E uma secretária que entrega, entrega.
João Paulo Alexandre – Olhando para sua trajetória pessoal e profissional, existe alguma coisa que a senhora faria diferente?
Tem uma coisa que eu faria diferente. Eu era a secretária que menos despachava com o governador Ronaldo Caiado. Era a que menos despachava. Chegava a fazer quatro audiências por ano. Eu deveria ter convivido mais com ele, despachado mais, ouvido mais. Teria aprendido mais também.
Poxa vida, trabalhei com Ronaldo Caiado e praticamente não despachava com ele. Resolvia muita coisa por telefone.
Fico sempre achando que não posso incomodar, que não sei o quê, e vou resolvendo as coisas por aqui. E ele me deu autonomia para isso também.
A senhora acredita que essa autonomia concedida pelo governador Caiado contribuiu para os resultados da sua gestão?
Ajudou, ajudou. Mas, hoje, se tivesse que trabalhar novamente com ele, com certeza criaria uma rotina de estar lá de vez em quando. Eu só pisava lá se ele me chamasse. Isso foi errado, porque acho que deveria ter ficado mais perto, ouvido mais.
Ele tem uma capacidade de tomar decisões salomônicas, sabe? Às vezes, você está querendo ir para o lado A ou para o lado B. A gente chegava até ele, apresentava a situação, e ele dava a solução.
Mas, se tem uma coisa que eu faria diferente nesses oito anos de gestão da Seduc, sem dúvida nenhuma, seria ter despachado mais com o governador Caiado.
A senhora construiu sua trajetória como professora, gestora da educação e, mais recentemente, candidata a deputada federal. Como essas experiências se complementam? Qual é o principal aprendizado que leva de cada uma delas?
Todos eles se juntam. Não tem como ser secretária e apresentar bons resultados sem ter pisado no chão da escola, sem ter sido diretora, sem ter sido coordenadora regional de Educação.
E não tem como ser um bom político, representando a educação, se você não conhecer tudo isso que acabei de falar.
Você precisa ter passado pela escola para entender a dor da escola, a dor do funcionário, o que os pais esperam de nós, para poder ter um mandato muito eficiente.



