Meirelles começa campanha “batendo” nos tucanos

Críticas do ministro da Fazenda ao PSDB dificultam ainda mais a aprovação da reforma da Previdência na Câmara

Se passar a reforma previdenciária na Câmara dos Deputados já estava difícil, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), tratou de complicar ainda mais. Em entrevista à “Folha”, Meirelles fez críticas aos tucanos e disse entre outras coisas, que o governo terá candidato à Presidência, e não será o governador Geraldo Alckmin (PSDB), e que os tucanos seguem a direção de não apoiar a gestão de Michel Temer.

As críticas do ministro acirraram a crise entre tucanos e o governo num momento delicadíssimo, às vésperas das últimas tentativas para votar a reforma da Previdência na Câmara, e em meio à discussão sobre o desembarque dos tucanos da base do governo e a poucos dias da convenção da legenda a ser realizada no sábado (9/12), em Brasília.

A avaliação no partido e até de aliados do Planalto é de que faltou habilidade por parte de Henrique Meirelles. O líder do PSDB na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), disse que a crítica de Meirelles é porque o goiano é candidato e quer, agora, começar a campanha eleitoral. “Começou muito mal. Não é por aí que ele vai conseguir convencer a população brasileira de que o PSDB não tem ajudado o governo.”

“Como temos um candidato [a presidente] à altura, a tendência deles [governo] agora é diminuir o impacto da importância do PSDB”, afirmou Tripoli.

Meirelles ainda não se lançou pré-candidato, mas já admite a possibilidade. O problema são seus baixos índices nas pesquisas de intenções de votos — entre 1% e 2%, segundo o Datafolha. Pelo jeito, o ministro quer provocar factóides para ser lembrado pela população. Mas há quem diga que as críticas foram orientadas pelo presidente Michel Temer, como um recado de que o governo continua vivo sem o PSDB.

Secretário-geral do PSDB, o deputado Sílvio Torres (SP) reforça a inabilidade do ministro goiano: “Para quem quer compor uma maioria, essa entrevista não foi uma boa ideia. Pode não tirar voto, mas não ajuda a ganhar.”

Reportagem da “Folha” traz avaliações também de integrantes da base governista. “Não que chegue a prejudicar, mas não ajuda em nada. Não podemos fazer nenhuma marola para prejudicar a reforma”, disse o deputado Beto Mansur (PRB-SP).

E auxiliares mais diretos de Temer também avaliaram que as declarações de Henrique Meirelles não ajudam o governo em um momento de negociação política. E, sintomaticamente, não houve, publicamente, defesa do ministro da Fazenda por parlamentares.

Nem mesmo correligionários Meirelles defenderam o ministro. É o caso do deputado Rogério Rosso (PSD-DF): “Em momento de ajuste fiscal, ministro da Fazenda fala de economia e não de eleição.”

O líder tucano não tem dúvida de que se trata de uma “jogada” do governo, que quer colocar na conta do PSDB uma eventual derrota da reforma previdenciária. “É um desrespeito dele com a ban
cada federal, que ajudou tanto o governo até agora. Demos mais votos na reforma trabalhista que o partido dele [PSD] e que o partido do presidente Michel Temer, o PMDB. Acho uma ingratidão.”

“Manda ele convencer o partido dele. Não é com esse tipo de pressão que ele vai aprovar a reforma”, disse o deputado Daniel Coelho (PE), uma das lideranças da ala jovem do PSDB, os chamados “cabeças pretas”.

A crise entre o PSDB e o governo foi agudizada na semana passada, quando o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) disse que os tucanos não faziam mais parte da base aliada do governo Temer. O ministro tucano Aluysio Nunes Ferreira (Itamaraty) respondeu que não era bem assim.

Ministros de Temer avaliam, reservadamente, que, eleitoralmente, a fala de Meirelles pode até ter tido efeito positivo para quem se coloca como opção de centro-direita no país, mas dizem que isso deveria ter sido feito com mais habilidade.

A bancada tucana na Câmara tem 46 deputados, importantes para fazer avançar a reforma previdenciária na Casa.

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