Lula liga para Trump, contesta tarifa de até 37,5% e pede retomada das negociações
21 agosto 2026 às 16h42

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone, nesta sexta-feira, 21, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em meio ao aumento das tensões comerciais entre os dois países. A ligação durou uma hora e 20 minutos e terminou com a sinalização de que as equipes dos dois governos devem retomar as negociações.
Durante a conversa, Lula contestou os argumentos utilizados pelo governo norte-americano para impor novas tarifas aos produtos brasileiros. Segundo o Palácio do Planalto, o petista considerou infundadas as justificativas apresentadas por Washington e afirmou que as medidas provocam prejuízos tanto ao Brasil quanto aos próprios Estados Unidos.
As alegações norte-americanas envolvem questões relacionadas a desmatamento, acordos tarifários preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importação de produtos associados a trabalho forçado.
Lula defendeu a permanência dos dois países na mesa de negociação e ressaltou o interesse brasileiro em preservar os Estados Unidos entre seus principais parceiros comerciais. Trump, conforme o relato do governo brasileiro, concordou com a necessidade de manter os vínculos econômicos e propôs que representantes dos dois países voltem a se reunir o mais rapidamente possível.
Apesar da sinalização para a retomada do diálogo, a conversa terminou sem anúncio de redução ou suspensão das tarifas.
Sobretaxa pode chegar a 37,5%
A nova ofensiva comercial norte-americana contra produtos brasileiros tem origem em medidas anunciadas em julho.
Uma delas estabeleceu uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos após uma investigação específica envolvendo o Brasil. Outra sobretaxa, de 12,5%, foi adotada no contexto de uma apuração relacionada ao trabalho forçado que atingiu cerca de 60 economias.
Nos casos em que as duas medidas são aplicadas simultaneamente, a cobrança adicional sobre o produto brasileiro chega a 37,5%.
Combate às facções entra na conversa
Além das divergências comerciais, Lula e Trump discutiram a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado.
Lula defendeu que as facções criminosas sejam combatidas sem que precisem ser enquadradas como organizações terroristas. O presidente argumentou que esses grupos submetem principalmente as populações mais pobres a um cenário de violência cotidiana, mas sustentou que o Brasil já dispõe de instrumentos legais para enfrentá-los.
O brasileiro apresentou a Trump ações adotadas para atingir financeiramente as organizações criminosas. De acordo com os dados apresentados pelo governo, a estratégia já resultou na apreensão de aproximadamente R$ 17 bilhões.
Lula também mencionou a Lei Antifacção, medidas para facilitar a apreensão de bens e passaportes, a proposta de ampliar a participação do governo federal na segurança pública e os planos para transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima.
Outro ponto citado foi o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, instalado em Manaus e formado por representantes de países da região amazônica.
Trump sinalizou disposição para ampliar a cooperação na área de segurança e, segundo o Planalto, afirmou que integrantes de alto escalão do governo norte-americano serão mobilizados para dar continuidade às tratativas.
Ucrânia e Oriente Médio
A ligação também avançou sobre a agenda internacional. Os dois presidentes discutiram a guerra entre Rússia e Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio.
Lula e Trump concordaram sobre a necessidade de uma saída negociada para a guerra na Ucrânia. O norte-americano também apresentou ao brasileiro sua avaliação sobre as perspectivas envolvendo o conflito com o Irã.
Lula voltou a criticar a atuação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) diante das guerras e sugeriu a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para discutir alternativas diplomáticas.
Segundo o relato divulgado pelo governo brasileiro, Lula afirmou que “os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos”.
Relação teve aproximação e novos atritos
A conversa ocorre depois de meses de oscilações na relação entre Lula e Trump. Em maio, os dois se reuniram na Casa Branca, em Washington, durante uma agenda de aproximadamente três horas.
Na ocasião, Lula chegou a falar em “amor à primeira vista” e em “química” entre os dois. Trump também fez elogios ao brasileiro e classificou o encontro de forma positiva.
O cenário mudou com o avanço das medidas comerciais. Em junho, Lula endureceu o discurso e criticou a postura adotada por Trump diante das novas tarifas.
Apesar das divergências, o brasileiro voltou a se referir ao republicano como “meu amigo” em agosto e afirmou acreditar que Trump não seria diretamente responsável pela deterioração das relações bilaterais.
Agora, a ligação de uma hora e 20 minutos reabre um canal de negociação entre os dois governos. Por enquanto, porém, as tarifas permanecem em vigor e não há acordo anunciado para reduzi-las.
Nota do Governo Federal
“O Presidente Lula telefonou esta manhã, dia 21 de agosto, para o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A conversa, que durou uma hora e vinte minutos, abordou temas do relacionamento bilateral e da agenda global. A ligação transcorreu em tom amistoso e cordial.
Sobre a recente imposição de novas tarifas ao Brasil em decorrência das investigações conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o Presidente Lula enfatizou que as alegações que basearam a medida (desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos com trabalho forçado) são infundadas. Ao observar que as tarifas afetam negativamente tanto o Brasil, quanto os Estados Unidos, afirmou que seguir na mesa de negociação é a melhor opção para os dois países. Reiterou a importância de trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil. O Presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível.
O Presidente Lula reiterou o interesse brasileiro na cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado. Lula argumentou que grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas. Afirmou que o Brasil tem instrumentos para enfrentar essas organizações sem precisar de classificação especial para designá-las. Informou sobre a estratégia do país de asfixiar financeiramente a criminalidade, que já resultou na apreensão de cerca de 17 bilhões de reais, e sobre os planos de transformar 138 presídios em prisões de segurança máxima. Também comentou sobre a aprovação da Lei Antifacção, que facilita a apreensão de bens e passaportes, bem como sobre a proposta de emenda constitucional que amplia o papel do governo federal na área de segurança pública em colaboração com os Estados da federação. Também mencionou o estabelecimento do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, que reúne oficiais de todos os países amazônicos.
O Presidente Trump se dispôs a reforçar a cooperação bilateral e indicou que mobilizaria funcionários de alto escalão para dar seguimento aos entendimentos nessa área.
Os dois Presidentes trocaram impressões sobre os principais conflitos globais, em especial as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Ambos concordaram sobre a urgência de encontrar uma solução negociada para o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já se estende por quase cinco anos. O Presidente Trump teceu considerações sobre as perspectivas de resolução do conflito com o Irã. O Presidente Lula lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e, a exemplo do que sugerira aos Presidentes Xi Jinping e Putin, propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para encontrar saídas diplomáticas para as crises atuais. O Presidente Lula afirmou que os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos.”
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