As empresas brasileiras renegociam atualmente cerca de R$ 670 bilhões em dívidas com credores, segundo levantamento da consultoria Virtus BR, encomendado pelo Valor. O valor representa aproximadamente 10% de todo o estoque de crédito corporativo do país e mostra os impactos do longo período de juros elevados sobre a atividade econômica nacional.

O montante é mais que o dobro do registrado no início de 2024, quando as renegociações giravam em torno de R$ 260 bilhões. Entre as empresas em processo de reestruturação estão grandes grupos como Raízen, Braskem, GPA, Ambipar, Agrogalaxy e Oncoclínicas. O avanço dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial também atinge empresas de capital fechado, especialmente nos setores de varejo, construção civil, indústria e agronegócio.

Para o economista Márcio Dourado, o cenário atual é consequência direta da manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado por um período maior do que o esperado pelo mercado. “A gente está vivendo um período bastante complicado, de juros muito altos durante muito tempo. Isso faz com que as dívidas das empresas se multipliquem muito rápido e virem verdadeiras bolas de neve”, afirmou ao Jornal Opção.

Segundo ele, o impacto vai além apenas do valor das dívidas. “Quando a empresa perde capacidade de gerar caixa suficiente para pagar os juros, ela começa a se afundar em um processo de inadimplência que ganha caráter exponencial”, explica.

De acordo com Dourado, embora o mercado já esperasse juros elevados, a permanência prolongada da Selic em níveis altos acabou deteriorando gradualmente a saúde financeira das empresas. “Não foi exatamente uma surpresa, mas esse prolongamento vai cozinhando o mercado aos poucos. A empresa perde fôlego porque não consegue acessar capital mais barato”, afirma.

O economista diz que o custo elevado do crédito se soma a outros fatores que já pressionam o setor produtivo, como carga tributária elevada, aumento da concorrência e dificuldade de fluxo de caixa.

Segundo pesquisa da RK Partners citada no levantamento da Virtus BR, cerca de 24% das empresas brasileiras já não conseguem gerar caixa suficiente para pagar sequer os juros das próprias dívidas. Além disso, 45% das companhias apresentam alavancagem considerada elevada, acima de três vezes o Ebitda.

Para Dourado, o cenário pode trazer reflexos mais amplos para a economia caso os juros permaneçam altos por muito tempo. “Empresas muito endividadas investem menos. E, investindo menos, a economia cresce menos e gera menos emprego e renda no médio e longo prazo”, avalia.

Além do impacto econômico, especialistas também observam uma mudança de comportamento entre empresários, que passaram a buscar renegociações antes de ingressar formalmente em processos de recuperação judicial.

O advogado especialista em recuperação judicial Hanna Mtanios afirma que muitos empresários têm evitado entrar diretamente com pedidos judiciais por causa do alto custo envolvido nesses processos. “A lei de recuperação judicial trouxe muitos requisitos. O empresário precisa contratar advogado, consultor financeiro, elaborar plano de recuperação e ainda arcar com administrador judicial nomeado pelo juiz. Muitas vezes, isso inviabiliza o processo”, explica.

Segundo ele, diante desse cenário, empresas têm procurado negociar diretamente com bancos e credores para alongar dívidas e evitar uma recuperação judicial formal. “Isso é positivo porque resolve o problema de forma consensual e mantém a economia girando. Mas é preciso cuidado com os termos dessas renegociações”, alerta.

Advogado Hanna Mtanios, especialista em Direito Civil e atuante na área de RJ | Foto: Divulgação

Hanna afirma que muitos empresários acabam assumindo compromissos difíceis de cumprir sem a devida orientação técnica. “Às vezes a renegociação traz confissões de dívida e obrigações muito pesadas. Se o empresário não conseguir cumprir depois, isso pode gerar uma situação ainda pior”, afirma.

O especialista também vê um efeito dominó no avanço das dificuldades financeiras das empresas. “O A não paga o B, o B não consegue pagar o C e assim por diante. A economia inteira acaba sentindo esse impacto em cascata”, explica.

Segundo ele, setores ligados ao agronegócio têm apresentado aumento expressivo na busca por consultorias voltadas à recuperação financeira. “Tenho hoje mais de duas dezenas de casos relacionados ao agronegócio sendo analisados junto com consultores financeiros para avaliar recuperação judicial ou extrajudicial”, diz.

Hanna avalia que 2026 ainda deve ser um ano de forte pressão financeira para produtores rurais e empresas ligadas ao setor em Goiás. “O dinheiro está caro e isso afeta diretamente o fluxo de caixa dessas empresas”, afirma.

Varejo e indústria pesada sentem mais os efeitos

Entre os segmentos mais pressionados pelo crédito caro estão setores com margens de lucro menores e alta concorrência, especialmente o varejo. “Esses setores sofrem dos dois lados. Sofrem para tomar crédito e também para vender, porque o consumidor final também está pagando juros altos”, explica o economista.

Ao mesmo tempo, setores que dependem de investimentos intensivos em capital, como indústria pesada e produção em larga escala, também enfrentam maior dificuldade para manter operações e expansão. “São setores que precisam constantemente captar recursos para investir. Quando o custo desse capital sobe muito, a operação fica mais difícil”, afirma.

O impacto tende a ser ainda mais severo sobre pequenas e médias empresas, que possuem menos alternativas de financiamento e dependem principalmente do sistema bancário tradicional.

“As grandes empresas conseguem acessar o mercado financeiro de formas mais sofisticadas, emitindo títulos de dívida ou captando recursos diretamente com investidores. As pequenas e médias normalmente só conseguem recorrer aos bancos”, explica Dourado.

Segundo ele, isso faz com que essas empresas paguem juros ainda mais altos e tenham menos capacidade de renegociação. “Elas sofrem mais porque possuem menos acesso a crédito estruturado e menos margem financeira para suportar longos períodos de juros elevados”, afirma.

Apesar da percepção de restrição no mercado, Dourado avalia que o sistema financeiro brasileiro continua sólido e com capacidade de emprestar. O problema, segundo ele, está no custo do dinheiro. “O banco nunca foi amigo de ninguém. Sempre houve critérios rigorosos para concessão de crédito”, afirma.

Ele explica que os juros bancários acompanham a remuneração paga pelo governo na taxa básica. “Hoje os bancos têm recursos para emprestar. O que falta é uma política de juros mais competitiva”, diz.

Economista Márcio Dourado | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Especialistas do setor financeiro também apontam que os bancos têm exigido mais garantias das empresas para alongar prazos de dívidas, especialmente após o aumento de grandes recuperações judiciais nos últimos meses.

A expectativa do mercado financeiro no início do ano era de uma desaceleração mais rápida da inflação e consequente redução da Selic para patamares próximos de 12% ao final de 2026. No entanto, os conflitos internacionais recentes, especialmente no Oriente Médio, passaram a pressionar preços globais e reduzir a perspectiva de cortes mais agressivos nos juros.

“Os conflitos internacionais elevaram a inflação, e a taxa de juros é o remédio para controlar isso. Então a tendência é que os juros caiam menos do que se imaginava no começo do ano”, afirma Dourado.

Segundo ele, enquanto houver pressão inflacionária global, o Banco Central deve manter cautela na redução dos juros, prolongando um cenário de crédito caro e maior dificuldade financeira para empresas brasileiras.

Para Hanna Mtanios, a recuperação judicial deve ser vista apenas como último recurso. “A falência é a pior solução possível. O empresário perde o negócio, perde renda, deixa de gerar empregos e o credor muitas vezes também não recebe”, afirma.

Ele defende que empresas procurem ajuda especializada logo nos primeiros sinais de desequilíbrio financeiro. “Quando o empresário começa a deixar de pagar impostos ou encargos trabalhistas, já é sinal de alerta. É preciso buscar orientação imediatamente”, conclui.

O resultado já aparece no aumento recorde de renegociações, reestruturações e recuperações judiciais em diferentes setores da economia. Especialistas avaliam que o cenário deve continuar pressionado nos próximos meses, especialmente para empresas mais alavancadas e dependentes de capital de giro.

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