Isolamento social pode ter aumentado violência infantil, mas sem escolas, Goiânia sofre subnotificação

Para delegada Ana Elisa Gomes, da DPCA, escolas são grandes parceiras na denúncia. Sem a frequência das crianças e adolescentes nos colégios, índice da violência baixou por não estar sendo notificada

Relatório da organização não governamental (ONG) World Vision estima um aumento de 20% a 32% na média anual nas estatísticas de violência física, emocional e sexual contra crianças de 2 e 17 anos, em 2020, por conta do isolamento social. Em Goiânia, ao contrário do estimado, as denúncias caíram durante esse período. No entanto, isso não quer dizer que houve queda nesse tipo de crime.


Em conversa com o Jornal Opção, a delegada Ana Elisa Gomes, da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente (DPCA), o que ocorre é, provavelmente, uma subnotificação. “As crianças não estão frequentando as escolas, que são parceiras no que diz respeito ao fazer a denúncia”, afirmou. “A criança, às vezes, chegava na escola, relatava o fato, ou a mudança de comportamento era percebida na escola, que entrava em contato com o Conselho Tutelar. Como as aulas não estão acontecendo, as crianças estão ficando em casa. Eu penso que a redução se deve a essa situação”, disse.


De acordo com a Ana Elisa, estudos apontam que apenas entre 15% e 20% desses crimes contra crianças são reportados às autoridades. “O resto fica subnotificado. A família se reúne e prefere não contar ou a criança não quer revelar. Então a gente já vive com essa realidade de subnotificação”, falou a delegada.

Grande parte dos casos de violência contra crianças e adolescentes acontecem dentro de casa, entre familiares ou conhecidos. “Também em ambientes que são de frequência da criança, mas que tenha contato. Por exemplo, talvez não aconteça na casa em que ela reside, mas na casa de um familiar, um tio, um parente próximo, um amigo. Geralmente um ambiente onde existe, em tese, uma confiança”, explica.

Agressões

São diversos os tipos de violência infantil. “Todo tipo de violência que possa ferir a criança tanto na sua integridade física, moral, intelectual, emocional. Crimes sexuais, por exemplo, abusos sexuais fraternos de risco, que não são apenas a condução carnal, mas qualquer ato físico com a criança que tenha natureza sexual é considerado um ato libidinoso. Se for uma criança menor de 14 anos, estamos em uma situação de estupro de vulnerável”, diz a delegada.

“Tem também agressões físicas não sexuais, como bater, puxar cabelos, lançar objetos contra a criança, as famosas correções… Também agressões psicológicas, como ameaças…”, pontua. Ela ainda ressalta que a diferença entre uma criança e qualquer outra vítima humana, é a vulnerabilidade.

Ela reforça que adultos devem estar sempre atentos a questões como rendimento escolar, alteração de rotina, dormir em sala de aula, dispersão, agressividade, atitudes sexuais não condizentes com a idade, pois todas essas situações podem indicar comportamentos que escondem uma rotina de agressões.

“Muitas vezes, a criança chega na escola e relata o fato. Isso é comum. A criança conta para a tia, para a professora, para a coordenadora. A escola aciona o Conselho Tutelar, que traz a situação para a delegacia”, falou. De acordo com ela, outras formas também são comuns de denúncias, como as anônimas pelo Disque 100 e 197, da Polícia Civil. Familiares, ao terem ciência da situação, também costumam procurar a delegacia.

Abordagem

“Não adianta pressionar a criança para que ela me conte [da agressão]. Hoje existe uma legislação específica para tratar desses momentos em que a criança vai falar da violência sofrida. Não se pode ficar perguntando, insistindo, instigando a criança para que ela revele o que aconteceu. Se há suspeita de que de fato ocorreu alguma violência com a criança, o mais importante é procurar os órgãos competentes para a apuração”, aconselha Ana Elisa.

Ela ainda reforça sobre a importância dos adultos se posicionarem como protetores da criança e do adolescente. Para ela, a forma mais eficaz de prevenir uma violência infantil é dialogar e ter uma relação de confiança com a criança. Explicar sobre os limites relacionados aos contatos sexuais e saber com quem essa criança ou adolescente tem se relacionado ou o que tem acessado na internet.

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