Iris Rezende errou, mais uma vez, ao escolher o vice-prefeito?

Major Araújo, do PRP, anunciou à imprensa que pode não assumir mandato em 2017. Seria o prefeito eleito vítima? A resposta é não

Major Araújo discursa durante ato do "volta, Iris" | Foto: Alexandre Parrode/Jornal Opção

Major Araújo discursa durante ato do “volta, Iris”, em julho de 2016 | Foto: Alexandre Parrode/Jornal Opção

Durante toda a campanha de 2016, o prefeito eleito de Goiânia, Iris Rezende (PMDB), criticou seu ex-aliado, vice-prefeito e afilhado político, o atual gestor da cidade, Paulo Garcia (PT). Chegou a dizer, reiteradas vezes, que cometeu um “erro” na escolha e também de apoiar a reeleição do petista em 2012.

Nem começou sua quarta gestão à frente da capital e, mais uma vez, o mesmo “equívoco” se repete. Major Araújo (PRP), o controverso vice-prefeito eleito, anunciou na imprensa que pode não assumir o mandato. As chances são de “50 a 50”, disse.

Oficialmente, o motivo é a pressão que as bases políticas e eleitores estariam fazendo no deputado estadual para que ele continue na Assembleia. Nos bastidores, comenta-se de tudo, inclusive que Iris teria “se arrependido” da escolha e estaria excluindo o militar da formatação do secretariado.

Teria, então, Iris Rezende errado, mais uma vez, ao escolher seu vice-prefeito? Uma boa pergunta.

Major Araújo, do PRP, é um polêmico deputado estadual, famoso pelo vídeo no qual propõe a criação da “Bolsa Arma”: um subsídio que o governo estadual pagaria para cidadãos adquirirem armas de fogo. O absurdo, que chegou a ser apreciado e rejeitado, virou, claro, chacota nacional. Não obstante, em um momento de descontrole, ele arremessou um tablet contra um colega deputado em pleno plenário da Assembleia.

Foi escolhido para ser vice na chapa “Experiência e Confiança”, apresentada nos últimos dias de julho, após a “desaposentadoria” do decano do PMDB, que disputou a prefeitura de Goiânia pela quarta vez. Foram dois motivos principais para sua indicação: um, nome forte do PRP de Jorcelino Braga (ex-secretário da Fazenda do governo Alcides Rodrigues e inimigo do governador Marconi Perillo) e dois, conhecedor da área da segurança pública.

Muitos torceram o nariz justamente pelo tom agressivo e instável do vice-prefeitável — questionado durante a campanha pelos então adversários. Há quem diga que o militar foi escondido pelos marqueteiros da campanha peemedebista e vetado de participar de alguns eventos, como debates. De qualquer forma, prometia ser um vice “atuante e participativo”.

Porém, faltando pouco mais de um mês para a posse, Iris Rezende  pode começar o mandato desfalcado, sem um vice — função que, na ausência do prefeito, deve ser exercida pelos dois próximos presidentes da Câmara Municipal (dos biênios de 2017-2018 e 2019-2020). Importante lembrar que o eleitor não votou, por exemplo, no vereador Clécio Alves (PMDB) — um dos favoritos para comandar o Legislativo goianiense –, mas possivelmente o terá comandando a cidade em algum momento.

Mais grave ainda: se renunciar ao cargo de prefeito para disputar a eleição de 2018 — alguns setores do próprio PMDB já admitem tal possibilidade –, os goianienses terão que voltar às urnas para eleger um novo gestor da cidade. Ou seja, no próximo pleito eleitores terão que votar para deputado estadual, deputado federal, dois senadores, governador, presidente e prefeito. Um verdadeiro caos.

E piora: caso Iris Rezende se afaste do cargo após 2018 por algum outro motivo, haverá uma eleição indireta e os 35 vereadores escolherão, entre eles, o novo prefeito da cidade para concluir o mandato até 2020.

Mesmo que Major Araújo volte atrás e assuma o mandato de vice-prefeito, só o simples fato do eleito ir à imprensa dizer que “não decidiu ainda” se será vice sugere que a chapa foi montada de qualquer jeito, quase que para amarrar uma aliança e garantir votos.

Antes do início da campanha, diversos cientistas políticos apostavam que o principal debate seria o da segurança pública. Resultado: quase todas as chapas contaram com um candidato ligado à área. A de Iris não foi diferente: com a “experiência” do deputado do PRP, o então prefeitável prometeu diversas ações para melhorar a segurança na capital. Será que tais projetos serão tocados com a saída do companheiro?

Sem contar que há, sim, muitos eleitores que digitaram o 15 no último dia 30 de outubro acreditando que Major Araújo seria vice e advogaria, na prefeitura, pela causa. Destaco, aqui, os policiais (militares, bombeiros e civis) que também fizeram campanha por Iris Rezende… E agora? Verdade que seus interesses continuarão a ser representados na Assembleia, mas e o debate que foi promovido no âmbito municipal? E quem votou em Iris só por causa do vice? Acontece, evidentemente.

O PMDB deve tirar o corpo fora e se colocar como “vítima” da situação. Mas de vítima não tem nada. Se utilizou do militar para angariar os votos de cidadãos preocupados com insegurança que aflige não só Goiânia e Goiás, mas todo o país.

Ao contrário de 2010, quando o decano peemedebista abandonou a prefeitura de Goiânia para disputar (e perder) o governo de Goiás, deixando Paulo Garcia (PT) no comando da capital, começaremos 2017 possivelmente sem sequer um vice-prefeito. Caso Iris não termine o mandato, quem será que estará na prefeitura até 2020? Deveras, uma boa pergunta.

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