Iris não entrega o prometido e caos na Saúde continua após prazo de 60 dias

Prefeito tinha declarado aos vereadores da CEI que investigou a pasta que Goiânia seria referência no país em um prazo de dois meses

Pacientes aguardam na fila para agendar exames no Cais de Campinas. Sistema estava fora do ar | Foto: Larissa Quixabeira / Jornal Opção

“Se a situação da prefeitura fosse boa, como está Deus no céu, eu não teria sido candidato. Fui candidato para consertar e estou consertando. A senhora vai observar […] dentro de 60 a 90 dias, Goiânia será espelho para o Brasil inteiro na área da saúde.”

Há exatos 60 dias, o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), estabeleceu, mais uma vez, um prazo para que a Saúde do município não apenas melhorasse, mas fosse referência para o País. A declaração foi feita durante reunião da Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Saúde, na Câmara Municipal de Goiânia, em resposta a um questionamento da vereadora Dra. Cristina Lopes (PSDB). Com o fim do prazo, porém, grande parte dos problemas levantada à época continuam.

No questionamento feito ao prefeito há dois meses, a vereadora levantou, por exemplo, o problema do que chamou de “via dolorosa da saúde”, ou seja, todo o trajeto que o paciente tem que percorrer para conseguir o atendimento completo com realização do exame e retorno da consulta. “Não podemos ocupar um leito de alta complexidade com um paciente da atenção básica. O problema é que os pacientes da atenção básica estão se complicando dentro da rede municipal porque não conseguem atendimento”, questionou a vereadora.

É a situação da dona Arlete (nome fictício), de 57 anos, que sente fortes dores no pé direito. Nesta terça-feira (26/6), ela estava na fila de espera no Cais do Setor Leste Vila Nova para marcar um exame de Raio-X. “A única resposta que eu tenho é que precisa esperar porque o problema é a falta de vagas. Antigamente, você marcava e fazia o Raio-x muito rápido, agora é o fator sorte. O médico desconfia que seja gota (artrite aguda), mas precisa do exame para ter certeza e começar o tratamento”, lamentou. Nesta terça-feira, o sistema de agendamento de exames estava fora do ar.

Outro argumento recorrente da prefeitura é de que o sistema da capital é saturado, já que muitos cidadãos de cidades do interior buscam atendimento em Goiânia e, muitas vezes, a administração não recebe a contrapartida das cidades menores.

Dona Neli, moradora do residencial Jardins do Cerrado, estava no Cais de Campinas às 10 horas da manhã de terça-feira (26/6), sentindo fraqueza, tontura e enjoo. Apesar do mal estar, ela estava de saída, pois não havia clínico geral atendendo na unidade, apenas pediatras. À reportagem, a senhora faz muitas reclamações e chega a comparar o atendimento com unidades do interior.

“Cheguei por volta de 8 horas, me deram uma senha e pediram para aguardar. Quase duas horas depois, perguntei de novo sobre o atendimento e outra funcionária me orientou a procurar outra unidade, porque o médico não virá hoje. Ela tem uma lista com vários lugares que têm três ou quatro médicos atendendo, mas aqui não tem nenhum? Onde está a organização? Eles têm as brigas internas deles e a gente é que fica prejudicado”, reclamou.

A diarista comparou o atendimento e lamentou a falta de informação. “Na sexta-feira passada [22] estava com muita dor nas costas. Procurei atendimento no Hutrin [Hospital Estadual de Urgências de Trindade Walda Ferreira dos Santos] de Trindade. Fui atendida na hora. Duas horas depois, já tinha feito exame de sangue, de urina Raio-X e estava com o diagnóstico do médico”, destacou.

Os problemas encontrados pelo Jornal Opção em visita às unidades de Saúde foram encaminhados para a Secretaria Municipal de Saúde para os devidos esclarecimentos. Em resposta, a pasta encaminhou nota em que informa que as intercorrências não se relacionam ao software de agendamento de exames, mas sim a rompimento de duas fibras ópticas que alimentam a rede da prefeitura. “Técnicos já solucionaram o problema e o site deve retornar nas próximas horas”, diz.

“Em relação aos médicos, além dos pediatras há um clínico na estabilização e outro na enfermaria do Cais de Campinas. Nenhum paciente grave deixa de ser atendido na unidade”, finaliza a nota.

Pós-CEI

A CEI da Câmara Municipal que apurou diversas irregularidades na Saúde encerrou suas atividades em maio, com a promessa de continuar como comissão temporária até o fim desta legislatura.

Para o relator da comissão, vereador Elias Vaz (PSB), mesmo após o trabalho ostensivo, nada mudou e as reclamações continuam no mesmo nível. “A saúde ainda se encontra em péssimas condições. Todos os prazos que o prefeito já estabeleceu já se esgotaram, mas a secretária [Fátima Mrué] não consegue entregar melhorias. Não reconhecer isso é não ouvir a sociedade. A saúde de Goiânia vai muito mal”, declara.

Integrante do mesmo colegiado, Dra. Cristina cobra um posicionamento da Justiça e de todos os outros órgãos acionados pela comissão. “Houve uma piora. Nós, vereadores da CEI, já chegamos até o limite de nossas investigações e denúncias. O Judiciário precisa se manifestar, assim como todos os órgãos de controle externo. O que tem que acontecer é um freamento dessa gestão em relação à saúde. Alguma coisa precisa ser feita, porque as pessoas estão morrendo”, defende.

Ao longo dos trabalhos da CEI, o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) chegou a entrar com pedido de liminar para afastar imediatamente a secretária de Saúde de Goiânia, Fátima Mrué, após denúncias feitas pelos vereadores. O processo de investigação continua em andamento, mas os pedidos para que a secretária fosse afastada foram negados pela Justiça.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.