Imunoterapia amplia sobrevida e pode levar à cura em alguns casos de câncer, mas acesso ainda é restrito
17 abril 2026 às 12h55

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A incorporação da imunoterapia aos protocolos oncológicos tem ampliado as possibilidades de tratamento do câncer, com aumento da sobrevida e registros de remissão completa em parte dos pacientes. A avaliação é do oncologista Raul Chavarria, médico do Hospital Araújo Jorge e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), em entrevista ao Jornal Opção.
Segundo o especialista, a oncologia passou por uma transformação relevante nas últimas décadas. Historicamente, o tratamento do câncer se baseava em três pilares principais: cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Essas abordagens, utilizadas de forma isolada ou combinada, continuam sendo fundamentais, especialmente conforme o estágio da doença.
“Em tumores localizados, a cirurgia e a radioterapia têm papel central. Já nos casos em que a doença está disseminada, a quimioterapia é utilizada para atingir células tumorais em todo o organismo”, explica.
De acordo com Chavarria, essas estratégias evoluíram ao longo do tempo e permitiram elevar as taxas de cura em diversos tipos de câncer. “Hoje, dependendo do tumor, é possível atingir índices de cura que chegam a 80%. Ainda assim, existem neoplasias que não respondem bem aos tratamentos convencionais ou que apresentam alta complexidade terapêutica”, afirma.
Por conta disso, a imunoterapia ganha relevância. O médico explica que, há décadas, a ciência já reconhecia que o sistema imunológico possui células capazes de identificar e destruir tumores. No entanto, muitos cânceres desenvolvem mecanismos que impedem essa resposta.
“O paciente com câncer, em geral, apresenta algum grau de comprometimento do sistema imunológico. Além disso, o próprio tumor cria mecanismos de bloqueio, impedindo que as células de defesa atuem de forma eficaz”, diz.
A partir do avanço da biotecnologia, especialmente com o desenvolvimento dos anticorpos monoclonais, foi possível atuar diretamente nesses mecanismos. “Hoje conhecemos os receptores envolvidos nesse bloqueio e conseguimos desenvolver terapias específicas para liberá-lo. Os anticorpos monoclonais, como os inibidores de PD-1 e PD-L1, atuam justamente nesse ponto”, explica.
Segundo Chavarria, essa abordagem permite reativar a resposta imunológica do próprio organismo contra o câncer. “É uma mudança importante, porque não estamos apenas atacando o tumor diretamente, mas estimulando o corpo a fazer isso”, afirma.
Resultados mais expressivos em alguns tumores
Os efeitos da imunoterapia variam conforme o tipo de câncer. De acordo com o oncologista, os resultados mais consistentes têm sido observados em tumores como o melanoma e o câncer de pulmão. “No melanoma, que historicamente era de difícil controle, a resposta à imunoterapia tem sido muito significativa. O mesmo ocorre em tumores pulmonares, onde também observamos ganhos importantes”, afirma.
Ele afirma que, embora nem todos os pacientes respondam ao tratamento, os casos de resposta podem ser expressivos. “Existem situações em que há regressão completa do tumor. Em pacientes acompanhados por quatro ou cinco anos sem recidiva, já é possível considerar cura em muitos casos”, diz.
No entanto, o médico diz que a resposta à imunoterapia não é universal. “Depende muito do perfil imunológico do paciente. Se há alguma deficiência na resposta celular, a eficácia pode ser menor”, explica.
Diferenças em relação à quimioterapia e radioterapia
A imunoterapia se diferencia das abordagens tradicionais principalmente pelo mecanismo de ação. Enquanto a cirurgia remove o tumor e a radioterapia destrói células tumorais em áreas específicas, a quimioterapia utiliza medicamentos que circulam pelo organismo para atingir células cancerígenas.
“A quimioterapia é sistêmica, mas não é seletiva. Ela pode atingir também células saudáveis, o que explica parte dos efeitos colaterais”, afirma.
Já a imunoterapia atua de forma indireta, estimulando o sistema imunológico. “É uma estratégia que busca potencializar a defesa natural do organismo, em vez de agir diretamente sobre o tumor”, diz. Outra diferença importante está no perfil de efeitos adversos. “De modo geral, a imunoterapia apresenta menos efeitos colaterais e é melhor tolerada quando comparada à quimioterapia e à radioterapia”, afirma.
Tratamentos seguem sendo complementares
Apesar dos avanços, a imunoterapia não substitui completamente as terapias tradicionais. Segundo Chavarria, a escolha do tratamento depende de uma avaliação individualizada. “Se há possibilidade de remoção cirúrgica com margem de segurança, essa continua sendo a melhor opção. A imunoterapia entra como complemento ou alternativa em situações específicas”, explica.
Atualmente, os protocolos oncológicos combinam diferentes abordagens. “Hoje, quando se define o tratamento de um câncer, consideram cirurgia, radioterapia, quimioterapia e imunoterapia, conforme o caso”, afirma.
Alto custo ainda limita acesso
Um dos principais desafios para a ampliação do uso da imunoterapia no Brasil é o custo elevado. Segundo o oncologista, muitos dos medicamentos ainda não estão disponíveis de forma ampla no Sistema Único de Saúde (SUS). “O acesso, em muitos casos, ocorre por meio de judicialização. O paciente precisa recorrer ao Ministério Público para obter o tratamento”, afirma.
Ele explica que, embora tenha havido redução nos preços ao longo dos anos, os valores ainda são considerados altos. “Os primeiros anticorpos monoclonais tinham custos muito elevados. Hoje houve queda, em parte pelo aumento da produção e pelo fim de patentes, mas ainda é um tratamento caro”, diz.
A expectativa, segundo o especialista, é de que o avanço tecnológico contribua para ampliar o acesso. “Com o tempo, a tendência é de redução de custos e maior disponibilidade”, afirma.
Vacina contra o câncer
Paralelamente à imunoterapia, a pesquisa sobre vacinas contra o câncer avança em diferentes frentes, embora ainda não tenha aplicação ampla na prática clínica, conforme foi mostrado em uma matéria recente feita pelo Jornal Opção.
Diferentemente das vacinas tradicionais, essas tecnologias não têm como foco principal prevenir infecções, mas estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais. Algumas das abordagens mais recentes utilizam plataformas como o RNA mensageiro, que permite o desenvolvimento mais rápido de imunizantes.
Entre os projetos em estágio mais avançado estão vacinas para câncer de pulmão, mama, ovário e mieloma múltiplo. Também há pesquisas voltadas a tumores associados ao vírus Epstein-Barr, ligado a centenas de milhares de casos de câncer no mundo.
No Brasil, o Ministério da Saúde tem buscado ampliar a participação em estudos clínicos e fortalecer parcerias internacionais, como com a Universidade de Oxford, para desenvolvimento dessas tecnologias. Apesar do avanço científico, especialistas apontam que a incorporação dessas vacinas ao sistema público ainda depende de uma série de fatores, incluindo comprovação de eficácia, segurança e custo-benefício.
Outro desafio está na própria complexidade biológica do câncer. Como as células tumorais podem ser muito semelhantes às células normais do organismo, o sistema imunológico nem sempre consegue identificá-las como ameaça, o que dificulta o desenvolvimento de vacinas eficazes.
Além disso, muitas das estratégias em estudo envolvem medicina personalizada, com tratamentos desenvolvidos a partir das características genéticas de cada paciente, o que aumenta o custo e a complexidade de implementação.
Em Goiás, o avanço no tratamento oncológico tem ocorrido por meio da ampliação de centros especializados, participação em pesquisas clínicas e incorporação gradual de novas tecnologias, conforme diretrizes nacionais.
A tendência, segundo especialistas, é de que o tratamento do câncer se torne cada vez mais individualizado, combinando diferentes abordagens terapêuticas. O objetivo é ampliar as taxas de cura, prolongar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida dos pacientes, ainda que a consolidação dessas inovações ocorra de forma progressiva.
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