A professora aposentada Ana Christina Kratz, de 83 anos, carrega na memória a fundação do MDB, a redação do estatuto do partido que desafiou a ditadura militar e a esperança de uma democracia que ela ajudou a construir. Neste domingo de primeiro turno, ao lado do marido, Fernando Luiz, de 86 anos, ela vai até a urna não porque a lei a obrigue (seu voto é facultativo desde os 70), mas porque acredita que a democracia se constrói com participação. “Eu acredito no Brasil. A gente vai acabar superando este impasse”, afirma.

A história de Ana Christina não é isolada. Em Goiás, mais de 1 milhão de eleitores com 60 anos ou mais estão aptos a votar neste domingo, um contingente que supera todo o colégio eleitoral de Goiânia e representa 21,4% dos votantes do estado. Os dados, levantados pelo Jornal Opção junto ao painel do Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), revelam o peso crescente dessa faixa etária no mapa eleitoral goiano. Em dez anos, o número de pessoas com 60 anos ou mais aptas a votar em Goiás passou de 689.090 para 1.104.984, um crescimento de 60,4%, ou 415.894 novos eleitores idosos.

A Constituição Federal estabelece que o voto é obrigatório para pessoas alfabetizadas entre 18 e 70 anos e facultativo para analfabetos, jovens de 16 e 17 anos e pessoas com mais de 70. Mas, para essa geração que atravessou o regime militar, a redemocratização e a polarização contemporânea, comparecer às urnas é mais do que uma obrigação legal: é um gesto de cidadania construído ao longo de décadas. 

A capital goiana concentra 233.038 eleitores com 60 anos ou mais, o equivalente a 22,9% de seu colégio eleitoral. Na prática, quase um em cada quatro eleitores de Goiânia está nessa faixa etária.

Ana Christina viu a política brasileira mudar muitas vezes. Fundadora do MDB, partido que a ditadura permitia como oposição, ela participou da equipe que redigiu o estatuto da legenda e foi membro da Fundação Pedroso Horta, criada por Severo Gomes e Ulysses Guimarães para pensar um modelo de governança que reduzisse as desigualdades sociais. Hoje, a professora aposentada da Universidade Federal de Goiás (UFG) observa com preocupação o que chama de “espetacularização das escolhas políticas”.

Em entrevista ao Jornal Opção, ela afirma que “infelizmente, a população hoje trata política como se fosse time de futebol ou religião. A pessoa é a favor de, independente do que a pessoa fez, do que a pessoa faz, do que a pessoa pensa”.

Ana Christina Kratz e marido, Fernando Luiz | Foto: Arquivo pessoal

Para Ana Christina, o cenário atual exige atenção redobrada. Ela aponta a fragilização do sistema judiciário como o fator mais preocupante, criticando a contaminação do Supremo Tribunal Federal por interesses políticos externos. “O mais preocupante é essa fragilização do sistema judiciário. Não há porquê você ter times dentro do Supremo”, diz. A professora também manifesta temor em relação à infiltração de milícias e do crime organizado na política do Rio de Janeiro, receando que um fanatismo irracional leve ao Palácio do Planalto representantes desses grupos.

A experiência de Ana Christina contrasta com a de Antônio Gonçalves Pinheiro, de 76 anos, que voltará a votar após duas décadas de ausência. Ele transferiu o título eleitoral este ano e, mesmo sem a obrigação legal, decidiu participar. “Eu fiquei 20 anos sem votar. Agora eu vou votar, graças a Deus, tô bem”, conta. 

Antônio Gonçalves Pinheiro | Foto: Arquivo pessoal

O aposentado, que nasceu em Minas Gerais e viveu em São Paulo antes de se mudar para Goiânia, acompanha com apreensão o acirramento político. “É uma coisa que eu nunca tinha visto na minha vida e estou vendo agora. Até os ministros estão desfazendo a opinião do outro, então tá bem complicado”, relata. Ainda assim, mantém a autonomia na escolha: “Posso acertar, posso errar, mas eu vou pela minha cabeça, não vou pela influência dos outros.”

A história de Antônio se junta com a de outros idosos que, mesmo diante de um cenário político turbulento, fazem questão de comparecer às urnas. A senhora Marisete Alves Joaquim, de 69 anos, nascida em Morrinhos e moradora da Vila Lucy, em Goiânia, vê o voto como um instrumento essencial de mudança. “Eu acho muito importante a participação da gente. A gente escolhe os candidatos que têm a melhor proposta, a gente tem esperança de que as coisas vão melhorar”, afirma. 

Marisete Alves Joaquim | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção

Ela acompanha os debates eleitorais pela televisão e prepara sua colinha com atenção. “Precisamos trocar todos. Se não mudar, não tem como avançar”, defende, referindo-se à necessidade de renovação política.

Marisete também expressa preocupação com a segurança pública, elogiando avanços recentes no estado de Goiás, mas reconhece que ainda há muito a melhorar na saúde e na educação. “A saúde está um caos. Hoje mesmo passei a manhã inteira tentando fazer um encaminhamento”, relata. Apesar das dificuldades, mantém a fé de que o Brasil pode avançar. “Eu estou com muita fé que nós vamos mudar. Em 2027 nós vamos fazer os projetos e o Brasil vai avançar.”

A esperança de Marisete encontra caminho na trajetória de Edir Meirelles, escritor e aposentado que hoje vive no Rio de Janeiro, mas mantém fortes laços com Goiás. Nascido em Pires do Rio, Edir foi perseguido pela ditadura militar e precisou deixar o estado às pressas após ter sua prisão decretada. “Eu tive que vir para o Rio de Janeiro porque eu estava sendo procurado pela repressão militar”, recorda. 

Ele estudava na Universidade Federal do Rio de Janeiro quando recebeu a notícia e, com uma carta de recomendação do reitor para o advogado Sobral Pinto, conseguiu permanecer no país em vez de se exilar. Hoje, aos 86 anos, continua acompanhando a política com fervor e não abre mão de votar. “Não vou abrir mão da minha cidadania. Eu vou a toda eleição, vou lá depositar o meu voto mostrando o meu caminho”, afirma.

Edir, que presidiu a União Brasileira dos Escritores por dois mandatos e é presidente de honra da entidade, faz uma análise crítica do momento atual. Ele lembra que o Brasil vive o período mais longo de democracia, mas vê ameaças preocupantes. “Nós estamos vivendo uma crise perigosa. Tivemos um grupo, principalmente o presidente anterior, que queria implantar uma ditadura”, diz. 

Edir Meirelles | Foto: Arquivo pessoal

O escritor também alerta para as pressões externas, mencionando as ameaças do governo dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump em relação ao PIX e às terras raras brasileiras. “O Brasil está sendo ameaçado pela política de Trump”, afirma.

Aos 86 anos, a senhora Luzia Leite da Silva, viúva e moradora do Bairro Nossa Senhora de Fátima, em Goiânia, representa outra faceta dessa geração. Ela admite que não queria votar, mas acata a orientação do filho, que lhe entregou uma lista de candidatos. “Ele disse que é pra mim votar. Então eu obedeço”, conta, com bom humor. Apesar da relutância inicial, reconhece a importância do ato. “Eu ainda me considero sábia. Então, através da minha sabedoria, eu acho que eu posso votar”, justifica. Luzia acompanha as notícias pela televisão e repassa as informações aos filhos, mantendo-se informada sobre o que acontece no país.

Luzia Leite da Silva | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção

Nem todos, porém, compartilham o mesmo entusiasmo. A senhora Irani Inacia de Oliveira, de 84 anos, moradora do Condomínio Morada Nova, em Goiânia, decidiu não votar neste ano. “Eu acho que a política tem tido muita podridão. Isso não me agrada, então eu prefiro não votar”, declara. Ainda assim, reconhece avanços no governo estadual, especialmente na área de segurança pública. “Eu achei muito bom o governo do Caiado e agora o Daniel. Nós hoje temos privacidade de sair nas ruas, diminuir demais os assaltos”, elogia.

Irani, que nasceu em uma fazenda e veio para Goiânia com a família, diz que não se sente representada pela classe política atual, mas mantém a esperança de que o estado continue progredindo.

Irani Inacia de Oliveira | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção

A decisão de Irani contrasta com a determinação de Amélia Jerônimo Mota de Almeida, de 73 anos, moradora do Residencial Vereda dos Buritis. Casada há 52 anos com João de Almeida, de 77, Amélia vota por escolha própria desde que completou 70 anos. “Eu acho que um voto faz muita diferença. Talvez eu tenha um partido que eu escolhi, por causa do meu voto ele pode ser o nosso presidente, o nosso vereador, governador e o senador”, afirma. 

Ela assiste aos debates na televisão e considera que uma única palavra dita por um candidato pode mudar seu voto. “Se você está pensando em votar em alguém e ele fala uma coisa que não te agrada, você tem o direito de escolher outro”, explica.

Amélia Jerônimo Mota de Almeida | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção

Amélia também expressa temores em relação ao futuro. Ela se preocupa com a possível liberação das “bets” novamente, após terem sido proibidas recentemente. “Eu tenho medo porque pode piorar muito. Estava todo mundo perdendo dinheiro. Isso aí eu tenho medo que seja liberado novamente”, alerta. Para ela, a saúde e a educação devem ser as prioridades de qualquer governo. “A saúde tem que estar em primeiro lugar. E a educação é uma coisa que desde criança a gente tem que levantar”, defende.

A diversidade de opiniões entre os idosos goianos reflete a complexidade do eleitorado dessa faixa etária, que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) compilados pelo Jornal Opção, tem um peso demográfico crescente. O Censo Demográfico de 2022 revelou que Goiás possuia 964.417 pessoas com 60 anos ou mais, o que representa 13,7% da população total do estado, um número que segundo o TRE, já aumentou.

Segundo o IBGE, o índice de envelhecimento em Goiás é de 45,33, enquanto em Goiânia chega a 57,01, quanto maior o índice, mais envelhecida é a população. A idade mediana no estado é de 34 anos, e na capital, 35.

Comparando os dados do Censo de 2010 com os de 2022, o crescimento da população idosa em Goiás é evidente. Em 2010, o estado tinha 185.837 pessoas na faixa de 60 a 64 anos; em 2022, esse número subiu para 315.544, um aumento de 69,7%. Na faixa de 65 a 69 anos, o crescimento foi de 73,5%, passando de 138.430 para 240.152. Entre os que têm 70 a 74 anos, o salto foi de 67%, de 103.852 para 173.459. Os dados do IBGE confirmam que o envelhecimento populacional não é apenas uma tendência nacional, mas uma realidade consolidada em Goiás, com impactos diretos no processo eleitoral.

Para Ana Christina, essa experiência acumulada é um ativo valioso para o debate público. Ela acredita que a geração que viveu a ditadura e a redemocratização tem muito a ensinar, mas também a aprender com os mais jovens. “É preciso que a gente restabeleça as relações humanas, a convivência, a solidariedade e o respeito ao pensamento diverso”, afirma. 

A professora aposentada defende uma reforma política radical que restabeleça a importância dos partidos e de seus programas. “A importância da carta programática de cada partido político para que a gente possa acreditar na construção e reconstrução da democracia”, diz.

Ana Christina também critica o que chama de “escola doutrinária de educação moral e cívica” que, segundo ela, formou uma geração com pouco conhecimento histórico. “Essa geração sabe muito pouco de história, sabe muito pouco das consequências e consegue trabalhar com refrões. Por exemplo, o comunismo entrou em colapso com a queda do Muro de Berlim, e as pessoas estão usando o comunismo como ameaça”, observa. 

Para ela, é fundamental que as novas gerações aprendam a ver criticamente a nova forma de organização do sistema produtivo e das relações sociais.

O escritor Edir Meirelles compartilha dessa preocupação com a falta de conhecimento histórico. Ele lembra que a juventude atual não passou pelo desastre da ditadura, que durou mais de 20 anos. “Houve um período em que eles fecharam o Congresso, depois reabriram, mas só podiam ter dois partidos. Nós estamos vivendo um outro momento. Agora, depois de um longo período, estamos vivendo uma crise perigosa”, avalia. 

Edir, que testemunhou a renúncia de Jânio Quadros e as dificuldades para evitar que os militares tomassem posse, vê com preocupação a tentativa frustrada de uma ditadura no Brasil recente. “Ficou provada a tentativa frustrada de implantar uma ditadura. Mas, de qualquer maneira, continua tendo muitos seguidores, aqueles que não sabem da história”, lamenta.

Apesar das apreensões, há espaço para o otimismo. A senhora Amélia Jerônimo Mota de Almeida, que votará com o marido e a família, incluindo quatro filhos, quatro noras e seis netos, mantém a fé de que o Brasil vai melhorar. “Quem sabe a gente consegue construir um país melhor para todos”, diz. Luzia Leite da Silva também expressa esperança. “Vai acontecer tudo de bom pra nós, porque nós merecemos”, afirma, antes de completar: “Vamos à luta. E vamos ganhar.”

Para Ana Christina, a participação é a chave para superar os desafios. Aos 83 anos, ela continua brigando por seus ideais e não pretende parar. “Eu estou com 83 anos, estou brigando até hoje e vou continuar brigando enquanto estiver lúcida. Eu acredito que a participação é extremamente importante e eu acredito no Brasil”, conclui. Neste domingo, ao lado do marido, ela irá às urnas não por obrigação, mas por convicção. E, com seu voto, ajudará a escrever mais um capítulo da história democrática de Goiás e do Brasil.

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