Conheça as histórias das gigantes gameleiras de Goiânia e o dilema entre a arborização urbana e o risco de acidentes
03 outubro 2026 às 21h00

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As histórias das gameleiras espalhadas por Goiânia se confundem com a própria transformação da capital. Algumas cresceram ao lado de casas, prédios, comércios e praças e, décadas depois, tornaram-se árvores de grande porte, responsáveis por extensas áreas de sombra, abrigo para aves e amenização das temperaturas. Outras, porém, passaram a dividir espaço com calçadas, redes elétricas, estacionamentos, tubulações e edificações, provocando conflitos que hoje colocam em discussão o futuro de alguns desses exemplares. Em diferentes pontos da cidade, moradores e comerciantes ouvidos pelo Jornal Opção relatam histórias distintas: há quem considere a gameleira um patrimônio que precisa ser preservado e há quem defenda a retirada de árvores específicas diante de danos estruturais e do risco provocado pela queda de galhos.
O debate ganhou força nas últimas semanas após a discussão sobre a retirada de algumas gameleiras em Goiânia, entre elas dois exemplares localizados na Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, conhecida popularmente como Praça da Cirrose, no Setor Oeste, e uma árvore situada na Rua José Hermano, no Setor Campinas e outra na Rua C-104, no Jardim América.
Patricia Martins, síndica do Residencial Fátima Dantas, no Jardim América, na Rua C-104, conta que uma gameleira plantada no local há mais de 50 anos está causando danos severos ao prédio, inclusive ao reservatório de água, pois suas raízes invadiram o local. A árvore também estaria causando danos às fiações, aos carros e às motos no estacionamento, além de apresentar potencial para causar uma tragédia.
Patricia conta que a retirada da árvore, após laudos feitos pelo próprio condomínio constatarem a necessidade de remoção, está parada na Justiça.
A Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA) afirma que o levantamento utilizado como referência aponta 43 gameleiras catalogadas na capital, mas ressalta que o número precisa ser atualizado. O inventário geral da arborização urbana também está defasado, e a própria agência trabalha atualmente na atualização dessas informações.
As árvores, entretanto, não são vistas apenas como um problema. Em locais como a Avenida Goiás Norte, no Jardim Balneário Meia Ponte, e no Setor Jaó, moradores descrevem a sombra das gameleiras como essencial para enfrentar o calor de Goiânia. No Setor Universitário e em outras regiões, comerciantes também relatam que a presença das árvores ajuda a tornar o ambiente mais agradável. Há ainda quem destaque a presença de araras, tucanos e outras aves atraídas pelos frutos e pela estrutura das árvores.
Ao mesmo tempo, relatos de queda de galhos, danos a telhados, veículos, calçadas, redes elétricas, tubulações e imóveis levantam uma questão: até que ponto uma árvore de grande porte consegue conviver com a infraestrutura urbana quando foi plantada em um espaço que não comporta seu desenvolvimento?
Para compreender esse conflito, o Jornal Opção percorreu diferentes regiões da capital e conversou com moradores, comerciantes e pessoas que convivem diariamente com algumas das principais gameleiras citadas no debate. A reportagem também ouviu a AMMA, um engenheiro florestal e o Ministério Público de Goiás (MPGO), que acompanha judicialmente alguns dos casos.

Uma árvore que cresceu junto com Goiânia
De acordo com Wanessa Castro, bióloga e assessora técnica da AMMA, as gameleiras foram utilizadas no processo inicial de arborização de Goiânia, quando ainda havia pouca disponibilidade de tecnologia para climatização dos ambientes e se buscavam árvores capazes de oferecer sombra. Segundo ela, naquele período também foram utilizados exemplares de ficus e outras espécies de grande porte, enquanto a escolha de espécies nativas do Cerrado não era uma prioridade como passou a ser posteriormente.
Wanessa explica que a gameleira é uma espécie de crescimento rápido e apresenta sistema radicular considerado agressivo. Em ambiente urbano, segundo ela, isso pode gerar conflitos quando a árvore é plantada em calçadas estreitas ou muito próxima de edificações. A bióloga afirma que a espécie pode avançar sobre estruturas, além de se desenvolver sobre outras árvores. Ela também relata que algumas das gameleiras antigas da cidade foram plantadas por moradores, muitas vezes sem que houvesse conhecimento sobre o porte que a árvore poderia atingir.
A assessora técnica afirma ainda que nem todas as gameleiras representam risco. Segundo ela, exemplares localizados em áreas amplas, como determinadas praças, conseguem desenvolver suas raízes e sua copa sem entrar em conflito com imóveis ou equipamentos urbanos. Já árvores comprimidas entre concreto, asfalto e edificações podem apresentar problemas estruturais. No caso das quatro gameleiras da Praça da Cirrose, a AMMA elaborou parecer recomendando a retirada de duas e a manutenção das outras duas. Wanessa afirma que sete analistas da arborização participaram da avaliação e assinaram o parecer técnico.

Sobre o plantio de árvores por moradores, Wanessa ressalta que a escolha da espécie precisa considerar as características do espaço. “A árvore tem que ocupar, dentro da calçada, a faixa de serviço”, explica. Segundo ela, o cidadão deve observar a localização de postes, lixeiras, redes elétricas, hidrômetros e demais equipamentos antes de escolher uma espécie. A AMMA recomenda que o morador procure orientação técnica e informa que possui um projeto pelo qual a equipe pode avaliar o local, indicar a espécie adequada e realizar o plantio. A legislação municipal também prevê a reposição de árvores quando uma retirada é autorizada.
A bióloga destaca que o objetivo não é impedir a arborização, mas evitar que uma escolha inadequada produza problemas no futuro. “A pessoa não pode plantar qualquer árvore se quiser. Tem que ter orientação para colocar a espécie correta, para ter todo o benefício da árvore sem ter conflitos com o imóvel”, afirma. Segundo Wanessa, uma mangueira, por exemplo, pode ser excelente em uma área ampla, mas inadequada para uma calçada pequena. A mesma lógica, afirma, deve ser aplicada à gameleira: é uma árvore de grande porte que precisa de espaço para desenvolver seu sistema radicular e sua copa.
Gameleiras: beleza, crescimento rápido e conflitos urbanos
O engenheiro florestal Rodrigo Carlos também considera que a gameleira não é uma espécie indicada para a arborização urbana convencional. Segundo ele, a árvore apresenta crescimento acelerado e raízes muito agressivas, o que pode provocar danos quando plantada próxima a tubulações, imóveis e estruturas urbanas. Ele defende, porém, que cada exemplar seja analisado individualmente antes de qualquer decisão. “Não pode sair retirando todas as gameleiras de uma vez. Precisa ser estudado caso a caso”, afirma. Para ele, devem ser avaliadas as condições fitossanitárias, o espaço disponível, a localização e os riscos existentes.
Rodrigo explica que uma gameleira pode alcançar porte significativo em poucos anos e possui grande capacidade de desenvolvimento mesmo em locais considerados inadequados, como fissuras de muros, telhados e estruturas de concreto. Essa capacidade de crescimento também faz com que a espécie apareça espontaneamente em outras árvores, já que sementes podem ser transportadas por aves ou pelo vento. O engenheiro ressalta que, por isso, a simples presença de uma gameleira em determinada área não significa necessariamente que ela tenha sido plantada de maneira intencional.

Apesar dos problemas, o engenheiro destaca os benefícios ambientais proporcionados por exemplares adultos. As gameleiras oferecem abrigo e alimento para aves e interferem diretamente no microclima dos locais onde estão. “A retirada de uma gameleira impacta significativamente o microclima no local”, afirma. Ele cita também o valor simbólico e cultural associado à espécie em Goiás e lembra que árvores desse tipo podem estar relacionadas a manifestações religiosas e a histórias tradicionais. Por isso, defende que a retirada seja considerada apenas quando medidas como poda ou adequações não forem suficientes para eliminar o risco.
Para Rodrigo, a solução passa por planejamento urbano e orientação profissional. Uma poda pode resolver determinado problema, mas não é uma solução universal. “Cada caso precisa ser avaliado individualmente”, reforça. O engenheiro considera que o cidadão deve procurar profissionais habilitados antes de escolher uma espécie para plantar. “A intenção é boa, mas pode gerar um problema futuro se não for bem planejado”, afirma. Para ele, uma árvore bem escolhida e plantada em local adequado consegue cumprir sua função ambiental sem entrar em conflito com a cidade.
A Praça da Cirrose e quatro árvores no centro da discussão
Na Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, conhecida como Praça da Cirrose, no Setor Oeste, quatro grandes gameleiras se tornaram o centro de uma disputa envolvendo moradores, comerciantes, órgãos públicos e o Ministério Público. As árvores estão próximas a estabelecimentos comerciais, prédios residenciais, ao Hospital de Queimaduras e a áreas de circulação de pedestres.
O comerciante Marcos Antônio Matheus, proprietário de uma panificadora, convive com as árvores há décadas. Segundo ele, as gameleiras teriam sido plantadas na década de 1950, embora essa informação seja baseada em relatos de moradores antigos da região. Marcos afirma que algumas pessoas ainda contam que familiares participaram do plantio. Para ele, as árvores são parte da história da praça e ajudam a reduzir o calor, especialmente porque o estabelecimento recebe sol durante boa parte da tarde.

“Se tirar as árvores, vai fazer falta”, afirma Marcos. Ele explica, entretanto, que a preocupação com a segurança aumentou com o crescimento dos exemplares. Segundo o comerciante, galhos de grande porte já caíram sobre telhados e veículos e chegaram perto de atingir pessoas. “O risco é muito grande de machucar uma pessoa, ou até mesmo tirar a vida”, diz. Ele afirma que alguns galhos chegam a ter 12 ou 15 metros e apresentam peso elevado.
Marcos defende que a solução não seja a retirada indiscriminada das quatro árvores. Segundo ele, o parecer técnico da AMMA indicou problemas em dois exemplares e, por isso, sua posição é pela retirada dessas duas e pela realização de uma poda adequada nas demais. “A gente não é a favor de tirar as quatro. A gente é a favor de tirar só as duas que foram condenadas mesmo”, afirma. O comerciante relata ainda que uma das árvores já sofreu um incêndio que teria permanecido ativo durante vários dias no interior do tronco.

A preocupação com os galhos também é relatada por Gustavo Antunes Rocha, proprietário de um bar nas proximidades. Para ele, as gameleiras são importantes para o comércio porque criam um ambiente mais fresco e atraem clientes, mas a falta de manutenção aumenta os riscos. “O ideal que fosse feito aqui seria a poda delas e a manutenção, a prefeitura cuidar delas após a poda”, afirma.
Gustavo relata que, nos cerca de três anos e meio em que trabalha no local, já presenciou queda de galhos. Um deles atingiu uma caminhonete, enquanto outro caiu recentemente em frente a uma padaria. Segundo ele, folhas também entopem calhas e provocam infiltrações quando não há limpeza frequente. “É urgente. A Prefeitura tem que tomar uma atitude logo, antes que aconteça uma tragédia”, afirma. Até o momento, segundo ele, os episódios que presenciou provocaram danos materiais, mas não atingiram pessoas.
Veja momento em que galho cai após passagem de cadeirante
“O benefício ainda é maior”, diz comerciante
Apesar dos relatos de problemas, Gustavo afirma que não defende a retirada das árvores. Para ele, a manutenção seria a alternativa capaz de conciliar segurança e preservação. A sombra proporcionada pelas gameleiras é, segundo o comerciante, parte da identidade do espaço e influencia diretamente o movimento do estabelecimento.

A posição dele se aproxima da de outros comerciantes e moradores ouvidos pela reportagem, que não questionam a necessidade de arborização, mas defendem que árvores de grande porte sejam acompanhadas de forma adequada pelos órgãos responsáveis. O problema, na avaliação dessas pessoas, não seria a existência da árvore em si, mas a ausência de manejo capaz de acompanhar o crescimento dos exemplares.
A história da gameleira que abastece uma estação de ônibus com sua sombra
Na Avenida Goiás Norte, no Jardim Balneário Meia Ponte, uma gameleira se transformou em referência para moradores e passageiros do transporte coletivo. A árvore está próxima a uma estação do BRT e, mesmo depois de sofrer um incêndio, continua oferecendo sombra para grande parte do espaço destinado aos passageiros.
Letícia Crespo Ramos, comerciante de 37 anos que mora na região há 22 anos, conta que a árvore sofreu um incêndio que quase a destruiu. Segundo ela, bombeiros e a AMMA realizaram intervenções e a árvore voltou a apresentar sinais de recuperação. “Nossa, essa gameleira quase morre por conta do fogo. A sombra dela é muito importante para nós aqui, pois é como se fosse um ar-condicionado aqui dentro da estação”, afirma.

Letícia considera que a árvore não provoca problemas significativos no local e defende que seja preservada. Para ela, a retirada de árvores durante intervenções urbanas já aumentou a sensação de calor na região. “Quanto mais tiram, mais quente fica”, afirma. A comerciante diz que aceitaria a retirada de um exemplar caso houvesse risco comprovado à vida das pessoas, mas defende que, nos demais casos, a alternativa deve ser a manutenção.
Keila Pinheiro Costa Ribeiro, de 52 anos, também comerciante e moradora da região há 32 anos, afirma que já conhecia a gameleira quando chegou ao local. Para ela, a árvore tem mais de 50 anos e se tornou parte da paisagem do Jardim Balneário Meia Ponte. “Ela é um patrimônio nosso, não só do Jardim Balneário, mas de toda a região Noroeste”, afirma.

Keila lembra que acompanhou o incêndio e diz ter ficado indignada com a ação. Mesmo após o dano, segundo ela, a copa da árvore continua cobrindo praticamente toda a estação. “Além de uma beleza exuberante, traz um bem-estar visual, traz a sombra para a maioria do pessoal que está ali perto”, afirma. Para ela, a prioridade deveria ser cuidar e proteger a árvore, com podas e manutenção adequadas, em vez de retirá-la.

No Jaó, árvores que viraram proteção contra o calor
No Setor Jaó, um dos bairros mais arborizados da capital, trabalhadores relatam uma relação semelhante com as gameleiras. Maria Auxiliadora de Mendonça, de 71 anos, trabalha na região há cerca de quatro décadas e afirma que a sombra das árvores faz diferença na rotina do bairro. “Muito importante, muito importante, porque traz sombra para nós”, diz.
Maria conta que já utilizou o espaço junto ao tronco de uma das árvores para se proteger da chuva. Segundo ela, a estrutura da gameleira é tão grande que uma pessoa consegue permanecer abrigada junto ao tronco. Para a moradora, retirar árvores desse porte seria um retrocesso em uma cidade que precisa ampliar a arborização. “É tirar árvore, tem que plantar mais árvore”, observa.

Laura Souza, de 48 anos, também trabalha nas proximidades de duas gameleiras no Jaó e diz perceber a diferença térmica provocada pelas árvores. “Deixa o ar mais fresco. Se vai tirar as árvores, com certeza vai esquentar mais”, relata. Segundo ela, moradores próximos conseguem perceber o efeito da sombra dentro das próprias residências.
Laura também destaca a presença de animais na região. Segundo ela, é comum observar aves como araras e tucanos próximas às árvores. Para a moradora, a importância da gameleira não se limita à sombra: a árvore também contribui para a fauna e para a qualidade ambiental do bairro.
Uma árvore que, para moradores, faz parte da história do bairro
No Setor Coimbra, uma moradora que pediu para não ser identificada afirma ter nascido na região e convivido durante toda a vida com uma das grandes gameleiras da área. Aos 61 anos, ela diz que a árvore já existia quando nasceu e estima que tenha mais de 70 anos.
“Uma árvore centenária, maravilhosa, uma sombra bela, nunca deu problema, nunca caiu, nunca nada”, afirma. Segundo ela, a árvore oferece sombra para dezenas de imóveis e serve como ponto de encontro para moradores e frequentadores de estabelecimentos próximos. “Ela só fez melhoria, porque uma sombra daquela dá sombra para lá, dá sombra para cá”, diz.

A moradora considera que a árvore também exerce influência sobre a temperatura da região. Para ela, a retirada faria com que o local ficasse muito mais exposto ao sol e ao calor. “Se tirar a gameleira, vai virar um sol quente, esturricante”, afirma. Por isso, defende que o exemplar permaneça onde está enquanto não houver comprovação de risco.
sombra virou instrumento de trabalho
A relação entre as gameleiras e a população também aparece no Setor Rodoviário, onde Yago Bispo de Araújo, de 33 anos, trabalha lavando carros sob a sombra de uma grande árvore próxima à Praça do Dergo. Ele afirma que começou a trabalhar no local aos 14 anos e, desde então, a gameleira faz parte da paisagem e da rotina.
“A importância para nós é a sombra. É vida. Sem ela aqui, imagina o sol que não seria aqui também”, afirma. Segundo Yago, a árvore concentra a maior área de sombra da praça e ajuda a manter o local suportável durante as tardes quentes. Para ele, sem a proteção da copa, o trabalho se tornaria muito mais difícil.

Yago também destaca a relação da árvore com a fauna. Segundo ele, araras e tucanos costumam aparecer no local e são atraídos pelos frutos da gameleira. “Vem arara, vem tucano. Cada frutinha atrai os pássaros”, afirma. Yago diz que, segundo relatos de pessoas mais antigas, a gameleira deve ter uns 60 anos ou mais.
Quando a árvore chega perto demais da casa
Nem todas as histórias, entretanto, são de convivência tranquila. Na Rua José Hermano, no Setor Campinas, uma gameleira plantada há aproximadamente seis décadas tornou-se motivo de preocupação para o proprietário do imóvel localizado na esquina com a Rua Santa Bárbara.

Mário Soares, proprietário do imóvel, afirma que a árvore teria sido plantada por seu tio, Carlos Antunes, há mais de 40 anos. Segundo ele, o exemplar cresceu ao longo das décadas e passou a avançar sobre a estrutura da residência. O morador relata danos em paredes, hidrômetro e outras partes do imóvel.
“Está derrubando a casa. Está derrubando as paredes, tudinho. Já está prejudicando o hidrômetro de água também. As raízes dela estão entrando por baixo. Está invadindo tudo”, afirma Mário. Segundo ele, uma das paredes já apresenta comprometimento e parte da residência precisou ser desativada.
O proprietário ressalta que não é contrário à arborização. “Eu sou a favor de árvore. Mas é o local dela que está inadequado”, afirma. Ele conta que procurou a AMMA e outros órgãos públicos e que o imóvel passou por avaliações. De acordo com a AMMA, a retirada desse exemplar já foi autorizada em razão dos danos provocados ao imóvel.
Rayanne Galdino Menezes Martins, funcionária e filha do proprietário do Supermercado Goiás, também relata problemas provocados pela árvore. Segundo ela, um dos principais transtornos ocorre durante o período de chuvas, quando os galhos entram em contato com a rede elétrica.

“A questão é que, principalmente na época de chuva, a energia cai quando um galho encosta na rede elétrica. A última vez, esse ano mesmo, estourou tudo e a gente ficou mais de horas sem energia. Já chegou a ficar quatro horas sem energia. Como que um supermercado fica quatro horas sem energia?”, questiona.
Segundo Rayanne, a interrupção do fornecimento de energia representa prejuízo para o estabelecimento, que precisa manter equipamentos refrigerados em funcionamento. O relato é utilizado por ela para defender uma intervenção na árvore, sobretudo no período em que os galhos entram em conflito com a rede elétrica.
O caso do Residencial Fátima Dantas
No Jardim América, a gameleira localizada na Rua C-104 também é alvo de uma disputa que chegou à Justiça. A árvore está próxima ao Residencial Fátima Dantas e, segundo o condomínio, suas raízes provocaram danos ao reservatório de água, ao muro, à fiação subterrânea e ao estacionamento.

Antônio José dos Santos, de 81 anos, mora no condomínio há sete anos. Ele reconhece a beleza e a sombra proporcionadas pela árvore, mas considera que os problemas provocados por ela justificam sua retirada. “Se ela fosse lá na minha chácara, que eu tenho a chacrinha, nossa, ninguém põe a mão nela. Mas ali, você vê, ela tem a calçada”, afirma.
Segundo Antônio, as raízes já tomaram parte da calçada e dificultam a passagem dos moradores. “Ela prejudica a calçada, ela tomou a calçada de nós”, afirma. Apesar disso, ele reconhece que a árvore ajuda a refrescar o prédio. “Ela é muito bonita. Ajuda muito”, diz.
Para o morador, a decisão envolve uma avaliação entre os benefícios e os prejuízos. “Tem os prós e os contras”, resume. Na avaliação dele, entretanto, os problemas atualmente são maiores porque o condomínio precisa arcar com manutenção e reparos provocados pelas raízes e pela queda de galhos.
Mais de R$ 100 mil em prejuízos, segundo condomínio
Síndica do Residencial Fátima Dantas, Patrícia Martins acompanha o caso desde 2021 e afirma que o condomínio já gastou mais de R$ 100 mil em reparos relacionados aos problemas provocados pela gameleira. Segundo ela, as raízes avançaram para dentro do reservatório de água e exigem limpeza frequente.

“A gente vem tendo prejuízos com raízes no nosso reservatório de água, no nosso muro. E, se a gente for contar da época que eu entrei como síndica até hoje, a gente já gastou mais de 100 mil reais”, afirma Patrícia. Segundo ela, o reservatório precisa ser limpo a cada três meses e as raízes encontradas no interior chegam a medir vários metros. O condomínio também precisa realizar análises para verificar a possibilidade de contaminação da água.
Patrícia afirma ainda que a árvore atingiu estruturas de estacionamento e rede subterrânea. Galhos já teriam caído sobre motocicletas e outras áreas do condomínio. O muro precisou ser reconstruído, com custo estimado por ela em R$ 30 mil. “Já aconteceu de cair galhos e de cair em cima de motos. O muro já ficou praticamente todo comprometido”, relata.
Segundo a síndica, laudos particulares apontaram problemas estruturais e presença de cupins. Ela afirma que o condomínio solicitou podas e outras intervenções, mas que há mais de dois anos não consegue obter uma poda que considere suficiente. “O meu período de chuva é o meu período crítico, porque ela parece que vai sair do lugar. Os galhos estão muito grandes, a árvore cresceu demais”, afirma. O condomínio busca na Justiça a solução para o caso e defende a retirada do exemplar.
Patricia conta que cadeirantes precisam disputar espaço com veículos, porque a árvore toma conta de toda a calçada.
“Não é simplesmente porque suja”
Patrícia ressalta que a posição do condomínio não decorre de rejeição à arborização. “Não é um simples fato de falar assim: a árvore está fazendo sujeira demais, tenho que cortar. Infelizmente, está trazendo prejuízos para o condomínio”, afirma.

Ela diz que a árvore é bonita, oferece sombra e tem importância ambiental, mas considera que a situação atual exige uma intervenção. “Infelizmente, não tem como. Nesse momento, os malefícios são maiores que os benefícios”, afirma. Segundo Patrícia, o condomínio tem grande número de moradores idosos, o que aumenta a preocupação com a segurança na calçada e nas áreas próximas.
A síndica também afirma que uma avaliação visual pode não revelar todos os problemas. Segundo ela, os laudos particulares apontaram a existência de cupins e galhos comprometidos. “Se você for analisar ela por dentro, se você entrar por dentro, vai perceber o tanto de cupim que tem, o tanto de galhos que estão soltos nela”, afirma.
O caso também envolve a questão da reposição arbórea. De acordo com a AMMA, quando uma árvore em calçada tem sua retirada autorizada, o proprietário do imóvel é obrigado a realizar novo plantio dentro das regras estabelecidas pelo Plano Diretor de Arborização Urbana. A agência informa que a espécie a ser plantada deve ser adequada ao espaço disponível.

Nem toda gameleira representa o mesmo problema
A diferença entre os locais é um dos principais pontos destacados pela AMMA e pelo engenheiro florestal Rodrigo Carlos. Uma árvore de grande porte plantada em uma praça ampla pode ter espaço suficiente para desenvolver raízes e copa sem atingir edificações. Já uma árvore localizada entre asfalto, concreto, redes elétricas e imóveis tende a enfrentar mais limitações.
Wanessa Castro afirma que esse contraste pode ser observado entre diferentes praças da capital. Segundo ela, exemplares localizados em espaços mais abertos conseguem desenvolver sua anatomia de maneira diferente daqueles comprimidos por estruturas urbanas. “Se você olhar pelo tempo de vida delas, são relativamente jovens”, afirma a bióloga sobre algumas das gameleiras analisadas.

O engenheiro Rodrigo também ressalta que a árvore deve ser analisada de acordo com o contexto em que está inserida. Para ele, a discussão não pode ser reduzida a uma escolha entre “árvore boa” e “árvore ruim”. Uma espécie pode apresentar benefícios ambientais e, simultaneamente, oferecer riscos quando plantada em determinado local.
A questão, portanto, passa pelo planejamento. Uma árvore que encontra espaço para crescer pode contribuir para a sombra, a biodiversidade e o conforto térmico. Quando não há espaço suficiente, o crescimento das raízes e da copa pode produzir conflitos com a infraestrutura.
Outras belas gameleiras podem ser vistas em locais conhecidos da capital, como a Praça Cívica, a Avenida Tocantins, no Setor Aeroporto, e na Praça Boa Ventura, na Vila Nova, além de outros locais da cidade.
Quantas gameleiras existem em Goiânia?
A AMMA informa que o levantamento utilizado atualmente como referência registra 43 gameleiras na capital. A agência, contudo, considera esse número desatualizado e está realizando um novo mapeamento para identificar quantos exemplares permanecem na cidade.

Segundo a agência, o levantamento geral do Plano Diretor de Arborização Urbana utilizado como base foi realizado em 2007 e contemplou 70 bairros. Goiânia, entretanto, passou por forte expansão desde então e atualmente possui cerca de 700 bairros. Por isso, o número atual de árvores de cada espécie não pode ser obtido apenas a partir daquele inventário.
A AMMA informou ainda que algumas gameleiras foram retiradas desde o levantamento anterior. Entre os exemplos citados estão exemplares localizados em áreas internas do Setor Marista e uma árvore retirada na Avenida Araguaia durante a atual gestão. Na gestão anterior, outra foi retirada na Rua 143, também no Setor Marista.
A atualização é importante porque o debate sobre a presença dessas árvores na cidade depende não apenas da quantidade, mas também de onde elas estão, das condições em que se encontram e dos conflitos que apresentam. Para a AMMA, não existe uma decisão geral de retirada de todas as gameleiras.

O que diz o Plano Diretor de Arborização Urbana
A revisão do Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), aprovada em 2024, estabeleceu critérios para o manejo de diferentes espécies. A regulamentação considera características como sistema radicular, porte, suscetibilidade a pragas e doenças, risco de queda e possíveis conflitos com estruturas urbanas.
No caso das gameleiras e de espécies do gênero Ficus, o sistema radicular é apontado como um dos fatores que podem gerar conflitos. A mesma avaliação se aplica a outras espécies de grande porte. A AMMA cita, por exemplo, a Sibipiruna, que pode apresentar vulnerabilidade ao ataque de cupins, e o Flamboyant, conhecido por possuir sistema radicular superficial e agressivo.
O plano também estabelece atenção especial para espécies que apresentam características capazes de provocar outros tipos de risco, como plantas com princípios tóxicos e árvores que produzem frutos de grande porte. A orientação geral é que a escolha da espécie seja feita levando em consideração o espaço disponível, a infraestrutura existente e as características da área.
Para o cidadão que deseja plantar uma árvore em Goiânia, a recomendação da AMMA é procurar orientação antes de fazer o plantio. O objetivo é evitar que uma muda pequena se transforme, anos depois, em uma árvore de grande porte em local incapaz de comportá-la.
Como o cidadão deve plantar uma árvore em Goiânia?
Segundo Wanessa Castro, o primeiro passo é observar a calçada. O plantio deve ser feito na chamada faixa de serviço, espaço destinado a elementos como postes e lixeiras, sem comprometer a área de circulação dos pedestres. A posição da rede elétrica também precisa ser analisada.
“Se ele coloca uma árvore de grande porte embaixo da fiação, essa árvore vai ter um conflito”, explica. Além da rede elétrica, o cidadão deve observar a localização de hidrômetros e outras estruturas que podem ser atingidas pelas raízes. O tamanho da calçada também é determinante para a escolha da espécie.

A bióloga recomenda que o morador procure a AMMA antes do plantio. Segundo ela, a agência possui um projeto que permite ao cidadão solicitar orientação e atendimento no local. A equipe pode indicar a espécie adequada, verificar o espaço disponível e fazer o plantio de maneira compatível com as características da calçada.
A agência também realiza a doação de mudas dentro desse projeto. Segundo Wanessa, o plantio é feito considerando a área permeável necessária e o espaço que a árvore terá para se desenvolver. “A muda, enquanto ela é pequenininha, é muito diferente do que ela vai se tornar”, afirma.
A orientação é especialmente importante para árvores de grande porte. A intenção, segundo Wanessa, é garantir que a arborização continue crescendo sem criar problemas para imóveis, redes elétricas, tubulações e pedestres. Em vez de escolher apenas pela beleza da espécie, o morador deve considerar o porte que ela alcançará quando adulta.
A palavra do Ministério Público
Diante da repercussão sobre a possível retirada das gameleiras da Praça da Cirrose e da situação da árvore localizada no Setor Campinas, o Jornal Opção procurou o Ministério Público de Goiás para esclarecer quais providências foram adotadas e em que estágio estão os procedimentos. O órgão enviou manifestações das Promotorias de Justiça responsáveis pelos dois casos, detalhando as medidas adotadas e esclarecendo que a situação das árvores da Praça da Cirrose está submetida à apreciação do Poder Judiciário, enquanto o caso da gameleira do Setor Campinas teve nova vistoria da AMMA e ratificação da autorização para o corte.
Nota do Ministério Público de Goiás — íntegra
“A 81ª Promotoria de Justiça informa que, em 27 de agosto de 2026, recebeu a Notícia de Fato nº 202600514283, protocolada a partir de representação formulada pelo Grupo Goiânia Verde, representado por seus integrantes Rogério Tércio Ranulfo, Rosângela Roriz Rizzo Lousa, Marcelo Bueno Fernandes e outros. No documento, foi noticiada a intenção de extirpação de duas gameleiras e de realização de poda drástica dos demais exemplares arbóreos existentes no endereço situado entre as Ruas 4 e 5, Setor Oeste, precisamente na Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat.
Considerando a urgência da situação, sobretudo porque, uma vez efetivadas as extirpações, não seria mais possível realizar estudo adequado e aprofundado acerca do diagnóstico das árvores, e diante das conclusões constantes de parecer técnico previamente elaborado pela Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), o Ministério Público, em 28 de agosto de 2026, por suas 15ª e 81ª Promotorias de Justiça, ajuizou Tutela Cautelar em Caráter Antecedente à Ação Civil Pública, com pedido liminar, em face do Município de Goiânia, da Amma e da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), registrada sob o Projudi nº 5818494-96.2026.8.09.0051.
Na referida ação, foram deduzidos, em síntese, os seguintes pedidos:
- o recebimento e processamento da presente tutela cautelar em caráter antecedente à ação civil pública;
- a apreciação imediata da tutela de urgência, excepcionalmente sem a audiência prévia pelo prazo integral de 72 horas prevista no artigo 2º da Lei n. 8.437/1992, considerando que a autorização administrativa para a supressão já foi expedida, não há informação segura sobre o momento de sua execução e a intervenção é, portanto, iminente;
- a concessão integral das medidas especificadas no item 12, especialmente para:
• 3.1. suspender temporariamente a supressão integral e o destocamento das duas gameleiras indicadas para retirada (exemplares n. 1 e n. 3);
• 3.2. determinar o imediato isolamento e sinalização da área potencialmente atingida, inclusive mediante restrição de circulação de pessoas, estacionamento e, se tecnicamente necessário, trânsito de veículos;
• 3.3. suspender temporariamente a poda geral de rebaixamento das duas árvores consideradas pelo próprio parecer como desprovidas de risco imediato de queda, ressalvadas intervenções pontuais necessárias à segurança;
• 3.4. determinar à Amma a apresentação integral do Processo SEI n. 26.30.000016984-7;
• 3.5. determinar a realização de laudo fitossanitário e avaliação biomecânica e de risco individualizados dos quatro exemplares;
- diante da urgência, que a decisão seja imediatamente comunicada, pelos meios mais céleres disponíveis: a) ao prefeito de Goiânia, Sandro Mabel; b) ao procurador-geral do Município, Wandir Allan de Oliveira; c) à presidente da Agência Municipal do Meio Ambiente, Zilmar Percussor Campos Peixoto; e d) ao diretor-presidente da Companhia de Urbanização de Goiânia, Cleber Aparecido Santos. Essa comunicação deverá ser feita sem prejuízo das intimações processuais ordinárias, certificando-se o efetivo recebimento da ordem;
- a citação dos requeridos para, querendo, contestarem o pedido no prazo legal;
- a produção de todos os meios de prova admitidos em direito, especialmente prova documental, pericial e inspeção judicial;
- efetivada a tutela cautelar, seja assegurado ao Ministério Público o prazo previsto no artigo 308 do Código de Processo Civil para formulação e especificação do pedido principal, nos termos já indicados nesta inicial.
Posteriormente, em 31 de agosto de 2026, foi registrada a Notícia de Fato nº 202600522813, de iniciativa da vereadora Kátia Maria dos Santos, presidente da Comissão do Meio Ambiente da Câmara Municipal de Goiânia, cujo conteúdo reproduzia, em essência, os fatos já apresentados na primeira Notícia de Fato.
Como a primeira notícia já havia sido judicializada, o sistema de distribuição do Ministério Público não detectou a prevenção da 81ª Promotoria de Justiça para o enfrentamento da segunda demanda, o que resultou em sua distribuição à 7ª Promotoria de Justiça. Sem conhecimento da existência da ação judicial anteriormente proposta e da consequente prevenção da 81ª Promotoria de Justiça, a 7ª PJ acabou por expedir a Recomendação nº 2026009749766.
Após a divulgação da referida recomendação pela imprensa, a 7ª Promotoria de Justiça foi informada acerca da existência prévia da ação judicial, razão pela qual promoveu o arquivamento do procedimento preparatório instaurado a partir da segunda notícia de fato.
Assim, seja em razão do arquivamento do procedimento instaurado pela 7ª Promotoria de Justiça, seja em razão do prévio ajuizamento da Tutela Cautelar Antecedente pela 81ª Promotoria de Justiça, a recomendação deixou de produzir efeitos, encontrando-se a questão integralmente submetida à apreciação do Poder Judiciário desde 28 de agosto de 2026.
Embora se trate de tutela cautelar antecedente com pedido liminar, até então, não houve pronunciamento judicial acerca da medida.
Importante esclarecer, ainda, que as providências e medidas emergenciais relacionadas a eventual situação de risco não foram proibidas ou vetadas. Tais providências, além de se inserirem naturalmente no âmbito do poder de polícia e autoexecução dos órgãos da administração pública, especialmente da Amma e da Comurg, foram expressamente ressalvadas desde o início na própria ação proposta pelo Ministério Público. Além do que, conforme já registrado NÃO houve, até então, nenhum pronunciamento judicial que as impedisse.
Por fim, esclarece-se que encontra em curso, perante a Coordenação de Apoio Técnico-Pericial (Catep) do Ministério Público, estudo técnico onde se objetiva maior aprofundamento da questão e possibilite juízo de valor conclusivo no sentido de serem recomendáveis, ou não, as extirpações pretendidas. Que, conforme a conclusão desse laudo, poderá ser proposta ação civil pública com objeto mais preciso (ação principal), contestando-as, ou não, podendo elas até mesmo serem referendadas. Isto se não houver extirpação até a apreciação judicial da tutela de urgência deduzida, haja vista inexistir, até o momento, pronunciamento do Poder Judiciário a respeito.
Sendo estes os esclarecimentos a serem prestados, segue anexa, em complementação e para melhor compreensão dos fatos, cópia da exordial do pedido de Tutela Cautelar em Caráter Antecedente”.
Veja o parecer técnico e a tutela cautelar
Com relação à gameleira do Setor Campinas, segue resposta da 8ª Promotoria de Justiça de Goiânia sobre o caso:
“Sobre a situação da gameleira localizada na esquina da Avenida José Hermano com a Rua Santa Bárbara, no Setor Campinas, o caso teve origem em notícia de fato recebida pela 8ª Promotoria de Justiça de Goiânia e, posteriormente, foi instaurado inquérito civil para apuração da situação.
No presente caso, acompanhado pela 8ª Promotoria de Justiça, foi realizada nova vistoria pela Amma, que confirmou as circunstâncias anteriormente apontadas e ratificou a autorização para o corte.
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