IA na sala de aula: tecnologia redefine a forma de ensinar e aprender
26 setembro 2026 às 21h00

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A Inteligência Artificial já faz parte da rotina de crianças e adolescentes, seja para fazer pesquisas, produzir textos, buscar respostas ou simplesmente experimentar as possibilidades oferecidas pelas novas ferramentas. Diante de uma tecnologia que ultrapassou os limites dos computadores e celulares e chegou às salas de aula, escolas começam a enfrentar um novo desafio: como incorporar a IA ao ensino sem permitir que ela substitua o processo de aprendizagem?
Em Goiás, enquanto ferramentas de Inteligência Artificial avançam em diferentes áreas — com iniciativas como o IA Contra o Crime, do Governo de Goiás, e as pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (CEIA/UFG) —, instituições de ensino também começam a experimentar diferentes maneiras de introduzir a tecnologia no cotidiano dos estudantes.
Há escolas que criaram disciplinas e laboratórios específicos para ensinar Inteligência Artificial, enquanto outras incorporaram as ferramentas às matérias tradicionais, à robótica, à formação dos professores e ao desenvolvimento de projetos interdisciplinares. Em comum, educadores defendem que o avanço da tecnologia exige mais do que simplesmente liberar ou proibir seu uso: é necessário ensinar os estudantes a compreender seus limites, questionar suas respostas e utilizá-la sem abrir mão da autoria e do pensamento crítico.
IA vira disciplina na escola
Um exemplo desse modelo é adotado pelo Colégio Elite Degraus, localizado na Vila União, na Região Sudoeste da Capital. Na unidade de ensino, 190 alunos do 6º ao 9º ano, com idades entre 12 e 16 anos, estrearam o primeiro projeto de IA da escola, com currículo e laboratório próprios para a modalidade e aulas semanais.
Segundo a diretora Poliana Rodrigues, o foco da disciplina é proporcionar uma formação integral em uma fase de descobertas e necessidade de orientação. Ela conta que a proposta buscou canalizar para fins pedagógicos e de desenvolvimento de carreira o uso de uma ferramenta que os alunos já utilizavam fora da escola. “Entendemos que a escola tem um papel fundamental no desenvolvimento de todos os nossos alunos da rede”, afirma.
Então, quando vemos as IAs, que são algo novo e vieram para ficar, entendemos que elas vão fazer parte da carreira e que devemos prepará-los para a sua utilização.”
Na escola, o conteúdo é ministrado por professores de Matemática, como Renato Miranda, que assumiu a frente do projeto. Ele explica que os alunos aprendem que existem diferentes tipos de IA, cada um voltado para determinadas finalidades, e trabalham para identificar qual ferramenta é mais adequada para cada situação.

“Eles aprendem qual a ferramenta é melhor para o determinado tema e como gerar conteúdos com elas, desde produções simples, como histórias, até mapas mentais, resumos e como ela pode ser utilizada como uma ferramenta no aprendizado.”
Aliado a isso, Renato Miranda aponta que existe uma preocupação com a formação ética e técnica dos estudantes, unindo a aquisição de conhecimento a um formato de estudo lúdico e dinâmico. Todo o trabalho é realizado em um laboratório próprio, equipado com Chromebooks, datashow e computador para o professor, em um ambiente virtual controlado e supervisionado.

A ética é tratada de forma aprofundada, indo além de conceitos simples de “certo ou errado” e discutindo as fronteiras de autoria e mérito dos conteúdos gerados com auxílio da tecnologia. “Um exemplo que trabalhamos é o que podemos fazer sem que a IA tire o mérito do autor”, conta.
Quando construo uma obra, por exemplo, a obra é minha ou da IA? Até onde a IA pode interferir no meu trabalho sem roubar o trabalho de mim? O que a IA pode agregar em diversas profissões?”
Até o momento, segundo a direção, o trabalho tem recebido avaliações positivas de pais e alunos pela abordagem dinâmica, baseada em miniprojetos e desafios práticos. “É um ganho que os alunos tiveram e temos feedbacks que evidenciam exatamente isso, da possibilidade de descoberta, inclusive de possibilidades na carreira daqueles alunos que já gostavam”, conta a diretora.
Proibição não é o caminho, aponta especialista
A discussão sobre como utilizar a tecnologia sem comprometer o aprendizado também passa pela compreensão do funcionamento das próprias ferramentas. Para a professora e diretora-executiva do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), Telma Soares, a presença da IA nas escolas pode ser transformada em um projeto educativo voltado ao ensino sobre essas ferramentas para alunos do Ensino Fundamental I e II — com materiais que também podem ser destinados a pais e professores.
O objetivo, segundo ela, é ensinar como a tecnologia funciona “por trás das cortinas” para formar um senso crítico sobre as respostas geradas. “Muitas vezes, as pessoas usam as IAs sem saber como elas funcionam e, por isso, podem não ter o senso crítico daquilo que está sendo entregue pela ferramenta”, aponta.
Quanto mais preliminarmente a gente ensinar esse tipo de abordagem, melhor para o jovem.”

Com essa visão, Telma defende que a simples proibição do uso da ferramenta nas escolas é ineficaz e pode levar ao uso inadequado da tecnologia, inclusive de maneiras que prejudiquem o processo de aprendizagem, como utilizá-la apenas para resolver problemas sem estimular a construção do conhecimento pelo estudante.
Para além do conhecimento sobre o funcionamento da tecnologia, ela aponta que as escolas podem utilizar agentes de IA personalizados para a educação, com sistemas configurados como tutores ou mentores capazes de fazer perguntas e indicar caminhos que estimulem o raciocínio do estudante.
Porém, antes disso, a especialista ressalta a necessidade de uma reformulação dos cursos de licenciatura e de capacitação dos docentes para o uso das IAs nas escolas. A proposta seria preparar melhor os estudantes para a convivência com essas plataformas na vida adulta, aliando os fundamentos da pedagogia às novas ferramentas tecnológicas.
Na rede pública, IA entra nas disciplinas tradicionais
Enquanto algumas instituições apostam em disciplinas próprias, outras incorporam a Inteligência Artificial às matérias já existentes. É o caso do Colégio Estadual em Período Integral Edmundo Pinheiro de Abreu (CEPI Edmundo Pinheiro de Abreu), da rede estadual de Goiás, que integra um projeto estruturado sob a premissa de que a IA deve ser uma ferramenta de apoio, e nunca a finalidade do ensino.
Ao contrário de um currículo próprio para o tema, o coordenador de integração, Thiago Aires, conta que a ferramenta foi implementada em 2024 e passou a ser utilizada transversalmente no núcleo comum — História, Geografia, Português e Matemática — e nas disciplinas diversificadas, como Eletivas, Iniciação Científica, Robótica Avançada e Projeto de Vida.

Todo o processo é desenvolvido a partir de mais de 70 Chromebooks fornecidos pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc), além de duas impressoras 3D que auxiliam no processo criativo.
Entendemos que não poderíamos fugir dessa perspectiva do uso da IA nas escolas, que já era uma realidade na vida dos nossos estudantes. Também percebemos que a escola precisava incorporar isso no nosso currículo”, aponta.
Contudo, o coordenador explica que o diferencial está no método de ensino. “Tivemos reuniões em que decidimos o seguinte: a IA não podia ser finalidade na escola; nossa finalidade é a aprendizagem. Então, nós sempre partimos de que ela serve como ferramenta.”
Da programação à impressão 3D
Um exemplo dessa aplicação ocorre nas aulas de robótica do professor Kenned Pinheiro, nas quais os alunos aprendem a utilizar placas Arduino — pequenas placas com chips usadas para desenvolver projetos de eletrônica e programação. Durante as aulas, os estudantes recorrem à IA para revisar códigos em linguagem C++ e identificar erros de sintaxe na plataforma Tinkercad. “Com a Inteligência Artificial, resolvemos fazer alguns projetos que são mais inovadores e que fogem um pouco ao esperado daquilo que é comum em aula de robótica.”
Um desses projetos foi a criação de uma maquete inspirada em uma minicidade com trânsito e estacionamento, contando com um sensor de proximidade que detecta a aproximação de objetos e aciona um motor para erguer uma barreira.

O aluno Eric Azevedo, do 9º ano da rede pública, utiliza o simulador Tinkercad para criar circuitos e programar em linguagem C++, com a ajuda em tempo real de uma ferramenta de Inteligência Artificial, o Gemini, para revisar os códigos e apontar erros na programação. A experiência, segundo ele, consegue acelerar projetos que poderiam levar dias, ou até semanas, para serem concluídos.
O programa mostra a montagem da placa conectada na maquete. Aí a IA consegue nos ajudar a descobrir alguns erros no código que estão ali.”
Uma experiência semelhante é vivenciada pelo aluno Enzo dos Santos, do 7º ano, que se especializou em projetos de impressão 3D, exercendo o papel de “fatiador”, responsável por operar os softwares que preparam os arquivos digitais para a impressora. Quando surgem demandas em aulas como Matemática ou nos projetos de robótica, estudantes como Enzo assumem a liderança para modelar, fatiar e imprimir as peças necessárias.

Ele conta que pesquisa modelos e projetos na internet, baixa os arquivos e utiliza o software de fatiamento para editar e ajustar o design antes da impressão física. A Inteligência Artificial entra como ferramenta de apoio para identificar erros técnicos nos arquivos e encontrar formas de aperfeiçoar as peças e os projetos.
Tecnologia também muda planejamento dos professores
Outra experiência ocorre no Externato São José, onde a IA é trabalhada de maneira interdisciplinar e também passou a integrar atividades de formação e planejamento pedagógico.
A diretora Tatiana Santana defende que simplesmente proibir ou permitir a tecnologia não representa um caminho suficiente para o conhecimento. Por isso, a instituição decidiu assumir o papel de orientar crianças e adolescentes sobre o uso consciente da ferramenta no processo de ensino e aprendizagem. “Quando digo do uso da IA no ensino, eu me responsabilizo com o professor, mas, quando falo sobre isso na aprendizagem, a minha responsabilidade é com a criança, com o aluno.”

Ao mesmo tempo, Tatiana Santana defende que a inteligência humana deve sempre se sobrepor à Inteligência Artificial, sendo a tecnologia um instrumento para agregar e agilizar o conhecimento. Contudo, ressalta que o pensamento crítico e a capacidade de fazer escolhas não podem ser paralisados ou substituídos pela ferramenta. “Acredito que, nos próximos anos, em uma atualização que pode vir, a IA virá como parte do nosso currículo. Aquilo que percebíamos que a educação avançava a cada 20 anos, hoje temos uma educação avançando a cada três anos, ou a cada cinco anos, no máximo.”
Ou seja, precisamos reconhecer que os profissionais que passaram por diferentes gerações precisam acompanhar essas novas tecnologias.
A diretora aponta ainda que a própria instituição adotou a plataforma SAS, integrada à formação continuada de professores, ao planejamento de aulas e à elaboração de avaliações. O sistema realiza a análise de microdados do desempenho dos alunos a partir das respostas e atividades desenvolvidas.
Com isso, os professores conseguem identificar em quais habilidades, disciplinas ou conteúdos cada estudante ou turma apresenta maior dificuldade, gerando diagnósticos para personalizar o ensino e enfrentar dificuldades pedagógicas.
Da pesquisa ao protótipo
Dentro dessa proposta, a Inteligência Artificial também ganhou espaço no CONEX: Mostra de Redesign do Conhecimento. Em sua 5ª edição, o projeto mobiliza estudantes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental ao longo de todo o ano letivo para o desenvolvimento e a apresentação de projetos relacionados à tecnologia.
Segundo a professora de Geografia, Amanda Borges, a filosofia do projeto é incentivar os estudantes a desenvolverem soluções criativas para problemas ou questões da sociedade. “O Conex sempre traz um projeto anual escolhido de um tema central. Esse ano, a feira tem como pauta principal a Inteligência Artificial e a automação.”

Os trabalhos começam em março, com a escolha dos temas, pesquisas teóricas, levantamento de problemas e estudo de artigos. Ao longo dos meses, os alunos participam de oficinas e visitas técnicas a empresas, além de desenvolverem protótipos práticos. Os projetos finais são apresentados em uma mostra aberta para toda a comunidade escolar, realizada no mês de setembro.
O aluno do 6º ano Caio Isernhagen, de 11 anos, estreante na feira, conta que sua turma ficou responsável por pesquisar e demonstrar como a tecnologia e a automação estão transformando o setor da saúde e da medicina. “Eu estou na equipe de raio-x e estamos estudando como ele funciona e como isso pode, realmente, mudar totalmente a vida de várias pessoas.”
O trabalho do estudante é focado em uma maquete de raio-X que simula o funcionamento de uma máquina real, fotografando o contorno da mão de uma pessoa. Todo o projeto foi desenvolvido com a assistência de Inteligência Artificial.
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