Vídeos publicados nas redes sociais mostrando carros elétricos tomados por grandes chamas e com alto volume de fumaça chamam a atenção e levantam uma dúvida entre motoristas: afinal, veículos elétricos podem pegar fogo com mais facilidade? E, quando um incêndio atinge a bateria, o combate é diferente daquele realizado em um carro convencional? Com a expansão da frota de veículos eletrificados no Brasil, o assunto passou a fazer parte da rotina de consumidores, especialistas e equipes de emergência.

Em Goiás, o número de veículos eletrificados cresce rapidamente. Ao mesmo tempo, especialistas e profissionais que atuam diretamente no atendimento a ocorrências alertam que, embora incêndios sejam possíveis, é preciso diferenciar a frequência dos casos da complexidade do combate quando a bateria de alta tensão é atingida. O Corpo de Bombeiros e engenheiros ouvidos pela reportagem explicam quais são as principais causas, os cuidados durante a recarga, o que pode acontecer depois de uma colisão e por que um incêndio aparentemente controlado pode voltar a ocorrer.

Os registros dão conta de que o primeiro carro elétrico a pegar fogo no Brasil foi um BYD Dolphin, no Rio Grande do Sul, em outubro do ano passado.

Goiás já tem 29 mil veículos eletrificados, segundo Detran

Com base nos dados mais recentes do Departamento de Trânsito de Goiás (Detran-GO), a frota de veículos eletrificados no Estado chegou a 29.024 unidades em julho de 2026, considerando veículos elétricos e híbridos ativos. Em janeiro do mesmo ano, eram 20.588 veículos, o que representa um crescimento de 40,98% em seis meses. Os dados fazem parte das estatísticas de frota disponibilizadas pelo órgão.

Dentro desse universo, os veículos classificados como elétricos passaram de 233 para 550 unidades entre janeiro e julho, aumento de 136,1%. Já os veículos classificados como elétrico/fonte externa subiram de 4.202 para 6.770 no período, crescimento de 61,1%. Os veículos híbridos também apresentaram alta: passaram de 7.629 para 10.923 unidades, avanço de 43,2%.

O crescimento dos eletrificados ocorreu em ritmo superior ao da frota total de Goiás. Enquanto o número de elétricos e híbridos aumentou 40,98% no primeiro semestre, a frota ativa geral do Estado passou de 3.465.541 para 3.587.607 veículos, alta de 3,52%. Com isso, os eletrificados passaram a representar 0,81% da frota ativa goiana, ante 0,59% em janeiro.

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Carregador que poe ser instalado em casa e apartamento | Foto: Reprodução

EV FireSafe registra 511 incêndios em elétricos desde 2010

Levantamento da EV FireSafe, empresa australiana especializada em segurança e incêndios envolvendo baterias de veículos elétricos, identificou 511 incêndios verificados em baterias de alta tensão de veículos elétricos de passageiros em todo o mundo entre 2010 e 30 de junho de 2024. O levantamento considera veículos elétricos a bateria (BEV) e híbridos plug-in (PHEV) nos quais a bateria de alta tensão esteve envolvida no incêndio. A entidade ressalta, porém, que o banco de dados não é exaustivo e não representa necessariamente todos os casos ocorridos no mundo.

Segundo a EV FireSafe, os registros são coletados e verificados a partir de diferentes fontes, como reportagens, entrevistas, relatos de testemunhas, vídeos, imagens, estudos acadêmicos e informações de órgãos de emergência. Do total de casos registrados até junho de 2024, 489 envolveram ignição da bateria, enquanto 22 foram classificados como explosões de nuvem de vapor. A organização também identificou 80 ocorrências em que o veículo estava conectado a uma fonte de carregamento energizada no momento do incidente e outras 10 em que o carro havia sido desconectado do carregamento até uma hora antes.

A própria entidade recomenda cautela na utilização dos números, justamente porque seu banco de dados não captura todos os incêndios ocorridos globalmente.

Bombeiros: combate ao fogo em elétricos é igual, mas exige mais água

O combate a incêndios em veículos elétricos exige procedimentos específicos e maior volume de água do que em carros convencionais, principalmente quando as chamas atingem a bateria. Segundo o major Claudio Silva da Silveira, chefe do Departamento de Inspeção e Credenciamento do Comando de Atividades Técnicas (CAT) do Corpo de Bombeiros de Goiás, além dos materiais combustíveis comuns, como bancos, estofamentos e painéis, os veículos elétricos possuem baterias capazes de liberar grande quantidade de calor e gases tóxicos.

“A grande dificuldade é justamente quando a bateria é atingida. Ela libera muito calor e gases tóxicos, além de exigir uma quantidade maior de água para que seja feito o resfriamento e o combate ao incêndio”, explica.

O major também alerta para os cuidados durante o carregamento dos veículos. Segundo ele, o uso de extensões, adaptadores ou instalações elétricas inadequadas pode provocar superaquecimento da rede e aumentar o risco de incêndios.

“A quantidade de energia utilizada para carregar um veículo é muito grande. Se a instalação não tiver a capacidade necessária, pode ocorrer superaquecimento e, consequentemente, um incêndio”, afirma.

Ele recomenda que o carregamento seja feito em instalação adequada, com equipamentos aprovados e avaliação de profissional responsável. Em caso de acidente, o veículo também deve passar por avaliação em uma rede autorizada antes de voltar a ser utilizado, principalmente para verificar possíveis danos à bateria.

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Carro elétrico colide com caminhão e pega fogo na GO-020 | Foto: Divulgação/CBMGO

Bombeiros orientam isolamento da área

Em caso de incêndio ou princípio de fogo após uma colisão, a orientação é afastar as pessoas, isolar o local e acionar o Corpo de Bombeiros. O uso de extintores pode não ser suficiente quando a bateria é atingida. “Quando a bateria entra em combustão, o combate é diferente. O principal é o resfriamento, e a água é o meio que utilizamos para isso”, afirma Cláudio.

O major cita dois acidentes recentes, um na região da Marginal Botafogo e outro na GO-020. No primeiro, o incêndio foi controlado com cerca de mil litros de água. No segundo, além do fogo, houve a necessidade de retirar uma pessoa presa às ferragens.

Segundo ele, o Corpo de Bombeiros de Goiás já vinha realizando treinamentos específicos para atender ocorrências envolvendo veículos elétricos antes mesmo da chegada em maior número desse tipo de automóvel a Goiânia.

Incêndios em carros elétricos são mais difíceis de extinguir simplesmente por causa do design da bateria. Incêndios em carros a gasolina têm uma única reação, enquanto as baterias de carros elétricos podem ter uma fonte de energia prolongada para alimentar o fogo. Isso torna a extinção de um incêndio em um carro elétrico mais difícil.

A principal diferença é que os veículos elétricos possuem baterias de lítio. Essas baterias contêm grandes quantidades de energia, o que pode tornar um incêndio muito difícil de apagar.

Incêndios em elétricos são raros, diz especialista da ABVE

Incêndios em veículos elétricos são possíveis, mas estão relacionados a situações específicas, como colisões severas, problemas no carregamento e falhas de fabricação. Segundo Márcio Severine, conselheiro e diretor de Infraestrutura da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o principal fenômeno associado ao fogo nas baterias é a chamada fuga térmica (thermal runaway).

“Esse fenômeno ocorre quando a temperatura interna da bateria de íons de lítio sobe sem controle, gerando uma reação química em cadeia que libera gases inflamáveis e oxigênio próprio, tornando o fogo intenso e mais demorado de apagar”, explica.

Ele ressalta que impactos violentos na parte inferior do veículo podem danificar a bateria e provocar curtos-circuitos internos. “Os veículos elétricos modernos são projetados com diversas camadas de proteção estrutural e eletrônica para mitigar esse risco de forma imediata.”

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Márcio Severine chama atenção para instalações elétricas inadequadas | Foto: Acervo pessoal

Carregamento exige atenção

O especialista chama atenção para instalações elétricas inadequadas. “O uso de extensões domésticas comuns, gambiarras ou equipamentos não homologados gera sobrecarga e superaquecimento da fiação externa”, alerta.

Apesar dos riscos, Márcio Severine afirma que os dados disponíveis internacionalmente apontam uma frequência proporcionalmente menor de incêndios entre veículos elétricos.

“Estudos globais de órgãos de segurança viária, por exemplo, dos Estados Unidos e da Suécia, apontam que os carros 100% elétricos são os que menos registram incêndios em termos proporcionais”, diz.

Ainda segundo Márcio Severine, os veículos contam ainda com sistemas capazes de identificar alterações de temperatura e interromper o funcionamento. “As baterias contam com sistemas de gerenciamento térmico extremamente sofisticados que monitoram dados e cortam a alta tensão ao menor sinal de anomalia.”

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Modelo de uma instalçao correta | Foto: Rprodução

Fogo pode voltar após ser controlado

A ocorrência de um incêndio em uma bateria também exige procedimentos específicos das equipes de emergência. “No caso dos veículos elétricos, o incêndio fica mais concentrado num ponto, porém as chamas são de maior intensidade, demandando um volume maior de água para combatê-lo”, explica Márcio Severine.

De acordo com ele, existe ainda o risco de reignição. “Pode ocorrer a reignição das chamas, por isso o seu combate é um pouco mais demorado.”

Bombeiros e equipes de resgate precisam identificar que se trata de um veículo eletrificado, desativar o sistema de alta tensão e utilizar monitoramento térmico. Para o motorista, a recomendação é se afastar diante de fumaça, faíscas ou estalos e nunca tocar em cabos de alta tensão danificados. “Ao ligar para a emergência, informe imediatamente que se trata de um veículo elétrico ou híbrido para que a equipe envie os equipamentos corretos.”

Incêndio em elétrico é menos frequente, mas combate é mais complexo

Os carros elétricos puros apresentam, segundo levantamentos internacionais citados pelo engenheiro eletrônico Erbis Llobet Biscarri, frequência de incêndios inferior à dos veículos movidos a gasolina ou diesel. Especialista em falhas de equipamentos eletroeletrônicos e automotivos, ele explica que a percepção de que os elétricos seriam mais perigosos está relacionada à novidade da tecnologia e à ampla repercussão de ocorrências envolvendo baterias.

“A maioria dos dados disponíveis no momento mostra o contrário. Os levantamentos internacionais mais amplos indicam que veículos elétricos puros apresentam frequência de incêndios inferior à dos veículos a combustão. Incêndios em veículos a combustão são relativamente comuns e raramente se tornam notícia por não serem percebidos como uma novidade”, destaca.

Erbis Llobet Biscarri ressalta, entretanto, que a frequência dos incêndios e a dificuldade de combatê-los são questões diferentes. “Os dados disponíveis indicam que o incêndio em elétricos é menos frequente, mas, quando ocorre e envolve a bateria de tração, pode exigir procedimentos de combate e monitoramento mais complexos devido à possibilidade de fuga térmica e reignição da bateria.”

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Erbis Llobet Biscarri ressalta, entretanto, que a frequência dos incêndios e a dificuldade de combatê-los são questões diferentes | Foto: arquivo pessoal

Como funciona a fuga térmica?

Mestre em Engenharia pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, especializado em Administração Industrial pela FCAV-USP e engenheiro eletrônico pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Erbis atua há mais de 40 anos com projeto, desenvolvimento e análise de falhas de equipamentos eletroeletrônicos e automotivos.

É autor do livro Fires in Conventional and Electrified Vehicles: Theory, Prevention, and Analysis, publicado pela SAE International em 2024, e instrutor da SAE Brasil na área de incêndios automotivos desde 2021.

Erbis explica que um dos principais fenômenos associados aos incêndios em baterias de íons de lítio é a chamada fuga ou avalanche térmica. “É quando uma célula da bateria gera mais calor do que consegue dissipar, aumentando rapidamente sua temperatura. Geralmente isto é causado por dano mecânico, defeito interno ou curto-circuito”, explica.

“Ao atingir determinada temperatura, materiais internos começam a se decompor e a liberar mais calor e gases inflamáveis. Esse calor pode atingir células vizinhas, que passam pelo mesmo processo, criando uma reação em cadeia.”

Para explicar o fenômeno ao público, o especialista recorre a uma comparação simples: “Uma analogia é uma fileira de dominós: se uma célula entra em colapso térmico, pode derrubar a mais próxima e assim sucessivamente.”

Colisões exigem atenção

Entre as principais causas de incêndios estão colisões severas que deformem ou perfurem a bateria, impactos substanciais sob o assoalho, defeitos de fabricação das células, falhas internas decorrentes do envelhecimento, problemas nos sistemas eletrônicos de gerenciamento e intervenções inadequadas realizadas por oficinas não qualificadas.

“Pode ocorrer, dependendo da deformação que causar na bateria ou nas suas conexões elétricas”, afirma Erbis ao explicar a possibilidade de danos após impactos na parte inferior do veículo.

Ele destaca, porém, que os modelos atuais contam com mecanismos de proteção. “Cabe destacar que os projetos recentes de veículos elétricos e híbridos incorporam várias proteções no caso de colisões e capotamentos.”

Após uma colisão significativa, principalmente quando há impacto na parte inferior, o especialista recomenda que o veículo seja tecnicamente avaliado antes de voltar à utilização normal.

“Mesmo sem fumaça, fogo ou deformação aparente, podem existir danos internos às células. O risco não é necessariamente imediato. Existem casos em que o evento térmico ocorre várias horas após o acidente. O veículo deve ser monitorado e avaliado tecnicamente, em concessionária autorizada ou oficina credenciada, antes de voltar à rotina normal de recarga e uso”, afirma.

Colisão frontal entre carro elétrico e caminhão, na GO-020, próximo ao Autódromo

Colisão frontal entre carro elétrico e caminhão, na GO-020, próximo ao Autódromo

Por que o fogo pode voltar?

O combate aos incêndios envolvendo baterias também apresenta características específicas. “Apagar as chamas visíveis externamente não significa necessariamente eliminar a fonte do problema”, afirma.

“Em um carro a combustão, normalmente, o objetivo é interromper a queima do combustível. Em uma bateria de íons de lítio, o desafio principal é reduzir a temperatura do conjunto de células.”

Segundo Erbis, as células normalmente ficam protegidas por chapas metálicas e caixas que, embora ofereçam proteção mecânica, dificultam o acesso da água utilizada no combate. “Enquanto células internas permanecerem superaquecidas, elas podem reiniciar a fuga térmica e causar uma nova ignição”, destaca.

O risco também pode permanecer após o controle das chamas. “Se há curtos-circuitos remanescentes na bateria ou no sistema elétrico do veículo, pode haver novo aumento de temperatura, horas ou dias depois, causando uma reignição. Em certos casos, veículos em que o incêndio aparentemente foi extinto precisam permanecer em observação e monitoramento térmico durante um longo período”.

Erbis esclarece ainda que extintores podem ser úteis para focos iniciais, mas, quando a bateria de tração está envolvida em fuga térmica, “os procedimentos atualmente recomendados pelos serviços de bombeiros priorizam o uso de grandes volumes de água para resfriamento prolongado da bateria”.

Cuidados durante a recarga

Na recarga, o proprietário também precisa adotar medidas preventivas. “Os principais cuidados são utilizar apenas carregadores certificados e compatíveis com o veículo, de fabricantes reconhecidos; não utilizar carregadores genéricos nem adaptações improvisadas nos seus cabos; contratar eletricista qualificado para a instalação do carregador e verificar periodicamente conectores e cabos”, orienta.

O especialista faz ainda uma recomendação específica. “Jamais colocar um carregador portátil sobre um dos bancos e nem mesmo dentro da cabine durante a recarga.”

Segundo ele, tomadas inadequadas, conexões frouxas, condutores subdimensionados e carregadores defeituosos podem provocar aquecimento excessivo e incêndio.

“O proprietário jamais deve ignorar cheiro de queimado, aquecimento anormal de cabos, tomadas escurecidas ou mensagens de falha exibidas pelo veículo.”

Na manutenção, Erbis destaca que o carro elétrico “puro” elimina vários componentes sujeitos a desgaste. “Como o motor a combustão, sistema de escapamento, velas, injetores, embreagem, caixa de câmbio convencional e lubrificantes do motor”, exemplifica.

Os freios também tendem a sofrer menos desgaste porque “parte da frenagem é feita eletronicamente, recuperando parte da energia, que volta para a bateria”.

Em contrapartida, ganham importância a bateria de tração, os sistemas de gerenciamento eletrônico, o sistema de arrefecimento e os componentes de alta tensão.

Calor, enchentes e custos

O calor intenso, segundo Erbis, tende a acelerar o envelhecimento das baterias, mas não significa que os veículos estejam despreparados para as condições brasileiras.

“Os veículos são projetados para operar em temperaturas ambientais elevadas, suportando adequadamente as temperaturas presentes no Brasil.”

As enchentes, entretanto, exigem maior atenção. “Embora as baterias sejam seladas e possuam proteção contra água, a submersão pode danificar conectores, módulos eletrônicos e sistemas de isolamento elétrico.”

O especialista cita registros no exterior de curtos-circuitos e incêndios em veículos cujas baterias e sistemas elétricos ficaram submersos.

“Após uma exposição significativa a um alagamento, que ultrapasse o fundo do veículo, o automóvel deve ser inspecionado em concessionária autorizada antes de voltar a circular ou ser conectado a um carregador.”

Na prática, Erbis afirma que os problemas mais comuns também não estão necessariamente na bateria. “Embora não haja estatísticas consolidadas, entre os principais problemas e desgastes observados na prática estão falhas em sensores, módulos eletrônicos, carregadores e seus cabos e conectores, componentes do sistema térmico, suspensão e pneus.”

Os custos variam conforme marca e modelo. “Um sensor pode custar centenas de reais; um módulo eletrônico, alguns milhares; já reparos em baterias, embora raros, podem variar de alguns milhares até dezenas de milhares de reais.”

Ele acrescenta que fabricantes vêm adotando reparos modulares, substituindo partes da bateria em vez do conjunto completo.

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É fácil encontrar carros elétricos pelas ruas de Goiânia | Foto: Marco Tulio/Jornal Opçao

SAE Brasil e a segurança dos veículos

A SAE Brasil, entidade que Erbis representa, é uma associação sem fins lucrativos voltada à criação e disseminação de conhecimento, tecnologia e inovação no setor de mobilidade. Fundada em 1991, reúne cerca de 6 mil associados e nove seções regionais, integrando indústria, academia, terceiro setor e órgãos governamentais.

Filiada à SAE International, a entidade possui atuação nos setores automotivo, aeroespacial e de mobilidade.

Erbis é instrutor da SAE Brasil desde 2021 na área de incêndios automotivos, além de atuar como perito judicial e assistente técnico desde 2017. Com mais de quatro décadas de experiência, ele reforça a necessidade de profissionais preparados para lidar com a tecnologia de alta tensão.

“A manutenção de componentes de alta tensão deve ser realizada apenas por profissionais capacitados e devidamente treinados para trabalhar com veículos eletrificados.”

Por isso, recomenda que, enquanto a tecnologia ainda se expande no Brasil, os proprietários procurem “preferencialmente concessionárias autorizadas ou oficinas credenciadas com treinamento específico para veículos eletrificados”.

Sobre a evolução da segurança, Erbis afirma que “as montadoras de automóveis elétricos e as fabricantes de baterias estão continuamente melhorando a qualidade de seus produtos e reduzindo os riscos de falhas e de incêndios.”

Segundo ele, “há regulamentações de vários países evoluindo também, o que reforça o aumento na segurança”. Além disso, ele reafirma que uma colisão não significa automaticamente um incêndio. “Mesmo em colisões severas, a maioria dos veículos elétricos atuais não pega fogo”, assevera.

Incêndio em híbrido: especialista explica causas

O técnico e instrutor de mecânica automotiva do Senai Paulo Vargas, Daniel Custódio, analisou o incêndio envolvendo um veículo híbrido na GO-020 e afirmou que não é possível determinar a origem das chamas apenas por imagens.

“É uma situação totalmente atípica. Os testes de colisão seguem determinados padrões e não conseguem reproduzir todos os acontecimentos que podem ocorrer em um acidente em condições adversas”, explica.

Segundo ele, uma perícia no veículo seria necessária para apontar a causa.

Sistema de alta tensão é projetado para desligar em colisões

“Esse é um veículo híbrido, que possui sistema de alta tensão, mas também tem motor a combustão. A colisão foi frontal, justamente na região do motor a combustão”, afirma.

Para Daniel Custódio, os sistemas de proteção dos veículos híbridos são projetados para interromper a alta tensão em caso de acidente.

“Quando o veículo entra em uma situação de colisão, a primeira coisa que ele faz é desligar o sistema de alta tensão. É um sistema que trabalha praticamente junto com o airbag e, em algumas situações, pode ser até mais sensível”, explica.

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Para Custódio, os sistemas de proteção dos veículos híbridos são projetados para interromper a alta tensão em caso de acidente | Foto: Acervo pessoal

Bateria possui proteção reforçada

O especialista afirma ainda que as baterias são protegidas por estruturas resistentes e diversos dispositivos de segurança. “O que as pessoas veem embaixo do veículo não é a bateria exposta, mas uma espécie de caixa de proteção extremamente resistente. Para danificar a bateria, seria necessário um impacto muito destrutivo”, diz.

Sobre o caso da GO-020, ele ressalta que, pelas imagens analisadas, não identificou sinais de chamas na região da bateria. “A sensação que temos, olhando principalmente as fotos, é de que o sistema de combustão pode ter iniciado o incêndio, e não o sistema de alta tensão”, avalia, destacando que essa é uma análise preliminar e que a confirmação depende de perícia.

Frota de 1 milhão

Apesar da preocupação com as baterias, Márcio Severine avalia que os mecanismos de proteção dos elétricos oferecem elevado nível de segurança. “Na realidade, os níveis de segurança dos veículos elétricos são superiores aos dos veículos a combustão”, afirma.

Márcio Severine comunica que o Brasil alcançou, na última quinta-feira, 24, a marca de 1 milhão de veículos eletrificados emplacados, sem considerar os micro-híbridos.

Sobre incêndios, entretanto, a ABVE não dispõe de números consolidados que permitam apontar quantas ocorrências foram registradas no país ou quantas tiveram a bateria como origem comprovada.

“Não temos conhecimento desses dados, mas, de forma geral, a maioria dos incêndios nos veículos eletrificados foi causada por instalações fora da norma e por ‘gambiarras’”, afirma.

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Frota aumenta rapidamente | Foto: Reprodução

ABVE

A ABVE informou que, de janeiro a agosto de 2026, foram emplacados 328.477 veículos leves eletrificados no Brasil. Esse número inclui BEV (100% elétricos), híbridos plug-in e híbridos convencionais, portanto não corresponde apenas aos carros totalmente elétricos. No mesmo período de 2025, foram 126.071 eletrificados.

Em 2025, os BEV 100% elétricos somaram, especificamente, 80.178 unidades, enquanto os híbridos plug-in chegaram a 101.364.

Proprietários aprovam segurança dos carros elétricos

Empresário de Goiânia, Antônio Fernando Lobo utiliza carro elétrico há cerca de um ano e afirma estar plenamente satisfeito com a experiência. Segundo ele, a concessionária passou orientações principalmente sobre os procedimentos de recarga, mas não houve recomendações específicas sobre incêndios.

“Segurança total. Eu considero esses carros muito seguros e vieram para ficar. Não tem mais volta. Eu mesmo estou trocando meus carros por esses elétricos”, diz.

Sobre os casos de incêndio registrados, Antônio Fernando diz que ainda não tinha preocupação com o tema, mas considera que acidentes graves podem aumentar o risco de fogo.

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Sobre os casos de incêndio registrados, Antônio Fernando diz que ainda não tinha preocupação com o tema | Foto: Marco Tulio/Jornal Opção

Empresário vê elétricos como evolução inevitável

Aos 56 anos, o empresário Valfredo Alves Sintra está prestes a começar a utilizar um carro elétrico e considera a mudança uma tendência irreversível no mercado automotivo. Para ele, os modelos atuais oferecem mais tecnologia, conforto e acabamento, além de preços que considera mais justos. “A evolução chega e chega para todos. Quem demorar, quanto mais demorar, mais vai perder”, considera.

Sobre a segurança, Valfredo Alves reconhece que existe risco em qualquer máquina e defende a contratação de seguro. “Eu acho que isso também é um problema inicial. Daqui a uns dias, vai estar contornado, porque os próprios sistemas de bateria estão evoluindo muito rápido”, avalia.

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Sobre a segurança, Valfredo reconhece que existe risco em qualquer máquina e defende a contratação de seguro | Foto: Marco Tulio/Jornal Opção

Advogada destaca economia e conforto dos veículos

A advogada e corretora de imóveis Gabriela Alessandra Monteiro, de 56 anos, utiliza carro elétrico e híbrido há cerca de seis meses e afirma estar satisfeita com os veículos. “São bem econômicos, confortáveis, não vejo nenhum problema”, relata.

Ela recebeu da concessionária orientações detalhadas sobre a instalação do carregador em casa, incluindo a recomendação de contratar um eletricista credenciado, mas diz que não foi orientada especificamente sobre como agir em caso de incêndio.

Apesar das notícias sobre veículos elétricos que pegaram fogo, Gabriela Alessandra considera os episódios uma fatalidade. “Qualquer carro hoje em dia, dependendo da situação, também pode pegar fogo. Eu não tenho conhecimento do caso específico para saber qual foi o problema”, conta.

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Apesar das notícias sobre veículos elétricos que pegaram fogo, Gabriela considera os episódios uma fatalidade | Foto: Marco Tulio/Jornal Opção

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