Daura Sabino: a estilista que vestiu Goiânia, brilhou no jornalismo e transformou a sociedade goiana em memória
24 setembro 2026 às 19h46

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Houve um tempo em que a vida de uma cidade podia ser lida pela fresta de uma coluna social. Não se tratava apenas do registro dos gestos e dos jantares. Era uma gramática de prestígio. Quem aparecia existia um pouco mais ou desaparecia sem apelação. Em Goiânia, essa liturgia teve vozes e rostos. Primeiro, Lourival Batista Pereira, o LBP. Depois, Daura Sabino. Mais tarde, outros nomes vieram preencher esse espaço.
Mas houve um tempo em que a coluna tinha autoridade. Dizia-se: estas pessoas estiveram aqui. E isso bastava para que a cidade se reorganizasse simbolicamente. Hoje declaramos repetidas vezes a morte desse mundo. Mas nunca estivemos tão mergulhados nele. A coluna social não desapareceu, se pulverizou.

Cada perfil de rede social tornou-se uma página. Cada sujeito, seu próprio colunista. Só que no lugar do colunista de carne e osso, com suas manias, amizades e desafetos, instalou-se uma engrenagem sem rosto: o algoritmo. Ele não frequenta salões, não conhece famílias, não distingue um vestido excepcional de um traje qualquer, mas decide quem será visto e por quanto tempo.
Daura precisava escolher algumas fotos para uma edição de jornal. O algoritmo escolhe entre bilhões e talvez seja o colunista mais poderoso que já existiu. E é nesse ponto que a sua história se torna poderosa de verdade. Porque, antes que o nome dela surgisse impresso, Daura já era imagem.
O cabelo reconhecível à distância, o Dodge marrom cruzando uma cidade ainda provinciana, a consciência aguda de que aparência também era linguagem. Décadas antes de alguém transformar isso em profissão digital, quando meu pai, o jornalista Herbert Moraes — fundador e diretor-presidente do Jornal Opção— a convidou para o Opção, em 1977, não estava apenas contratando uma colunista; reconhecia nela uma personagem que já existia lhe dando uma página.
E talvez seja isso que faça sentido agora, quando o próprio jornal já abandonou esse gênero porque entendeu que o tempo dele passou. É voltar à Daura não para ressuscitar a coluna social, mas para perguntar: que mulher era essa quando a festa terminava?

Daura por Daura
Imagina a cena. Aquele cabelo, quase um personagem à parte. Enorme, esculpido, entrando nos lugares alguns segundos antes dela. Numa Goiânia em que ainda se reconhecia gente pelo carro, bastava o Dodge marrom despontar na esquina. Era a Daura. Barbeira, dizem, e justamente por isso, deliciosamente humana – finesse, dizia-se. A mulher que dominava os códigos da elegância, mas não necessariamente da baliza. É essa Daura elegante, impecável, mas também viva e barulhenta que se está buscando.

Só que, para encontrar essa Daura, Bolha vai cometer uma pequena irresponsabilidade que consiste em desligar o calendário, desafivelar meio século e ajustar o relógio da máquina do tempo. Destino: Clube Jaó, noite de lançamento de Daura Sabino como colunista social do Opção. Black-tie. Nenhum celular à vista. Nenhum stories, nenhuma ansiedade por engajamento. Só fumaça de conversa, tecido, luz amarelada e aquele leve suspense social. Quem chega com quem? Estamos lá.
E esse “estamos lá” a crônica começa a respirar no presente, como se a gente tivesse mesmo atravessado a porta do salão. Dá pra ouvir o burburinho, o tilintar de copos, o tecido roçando no chão. Alguém comenta o tamanho da festa, outro elogia a ousadia do jornal. No centro, Daura circula como quem conhece cada centímetro daquele teatro, mas sem a solenidade engessada que a memória costuma impor. Ela ri, observa, mede o salão com os olhos, acolhe um, testa outro. Nada agressivo, tudo calibrado. Uma mulher que entende de presença.

Bolha observa, não como quem julga de cima, mas como quem tenta guardar a textura de uma época. Não há nostalgia em afirmar que era diferente, apenas o reconhecimento de que ali se encenava um rito. Um jornal lançando uma colunista, a sociedade projetando sobre ela um olhar atento e no meio disso uma mulher que já havia entendido havia muito tempo que ser vista é também uma forma de escrever. Daqui a pouco a gente encosta mais perto da roda, ouve as primeiras frases trocadas e deixa que a noite conte o resto.
Há um pequeno círculo em torno dela. Não um cerco, um campo magnético. As pessoas não se acotovelam, orbitam. Um comentário sobre o tecido de um vestido, uma lembrança bem dosada, uma risada que não pede licença, mas também não agride. Daura parece dominar a arte de estar em cena sem parecer que está atuando. Há um ofício aí, não necessariamente aprendido em manuais, mas vivido. Quem vê de longe talvez enxergue apenas a superfície. Quem observa com cuidado percebe camadas. E há uma delas que não cabe na fotografia: o tempo.

A paciência de quem construiu relações, repertório e presença muito antes daquela noite. Do canto do salão, dá para notar também os olhares que medem. Não necessariamente hostis, mas atentos. Olhares que perguntam em silêncio de que lado daquela história cada um está. E é curioso, porque meio século depois, o mecanismo é o mesmo, só mudou a ferramenta. Ali era um salão, hoje é uma tela. Ali era uma fotografia no jornal, hoje é um deslizar de dedo. Mas a tensão entre ser visto e desaparecer continua intacta.
Naquela noite, no entanto, ninguém imagina algoritmo, nem antevê redes. O poder ainda tem rostos humanos, vozes, gestos, preferências reconhecíveis. Daura é um desses rostos. Não a personagem congelada na legenda, mas a mulher em movimento.

A que tropeça e acerta. A que dirige mal, mas conduz bem as narrativas. A que veste outras mulheres e também se veste de si mesma. É dessa matéria viva que a memória é feita antes que o tempo a transforme apenas em personagem.

A Bolha está aqui por isso também. Não para fazer necrológio nem para santificar, mas para entender o que uma mulher como Daura viu, viveu, costurou e atravessou. E o que a história oficial, quase sempre escrita por homens, deixou de fora. Não se trata de saudade, trata-se de escuta. De reconhecer que certas trajetórias ajudam a contar uma cidade tanto quanto suas avenidas e seus decretos. E, acima de tudo, trata-se da tentativa, honesta e talvez impossível, de olhar para uma mulher antes que a posteridade decida por ela. De vê-la, aqui em 1977, enquanto ainda não é estátua, enquanto ainda é presença. Então é por isso que a gente veio. Agora, guardamos o celular – seria inútil em 1977, ajustamos o smoking imaginário e vamos voltar ao salão. Não para assistir a um desfile de aparências, afinal viajamos no tempo para ouvir o que não foi publicado. É por isso que essa matéria existe. Porque há silêncios que também merecem assinatura.

A estreia de Daura seria tratada como acontecimento. E foi. A edição seguinte transformou a noite em sucessivas páginas fotográficas. Os títulos hoje parecem pertencer a uma arqueologia do colunismo social: “Uma festa muito ‘privê’…”, “Requinte e Elegância”, “Uma noite inesquecível” e, finalmente, quase rendido ao tamanho da lista de convidados, “Impossível relacionar todos…”. Era a sociedade observando a si mesma. Mas era também o nascimento público de uma jornalista.



Antes da coluna, a moda e a costura
Daura Sabino de Freitas nasceu em Rio Verde, no Sudoeste de Goiás. Era filha de uma família que se transferiu para Goiânia quando a capital ainda estava em processo de construção. Uma reportagem publicada pelo “Diário da Manhã”, em 1996, informa que a família chegou em 1938, apenas cinco anos depois do lançamento da pedra fundamental da nova capital.

Daura, portanto, pertenceu à primeira geração que viu Goiânia deixar de ser projeto para se tornar cidade, cresceram juntas. Sua história pessoal corre paralela à formação de uma sociedade urbana goianiense. Fez o curso primário no Colégio Nossa Senhora das Dores e estudou posteriormente em Belo Horizonte. Entrou na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás e chegou ao terceiro ano. Abandonou o curso. Depois faria Jornalismo. Mas, antes de a imprensa se tornar sua profissão definitiva, Daura encontrou outro território: a moda.



E é aí que a personagem começa a ficar muito mais interessante. Daura não chegou ao colunismo social como uma desconhecida encarregada de descobrir quem era quem. Ela já sabia. Conhecia aquelas mulheres, suas famílias, hábitos, gostos, casamentos, rivalidades, círculos de amizade. E havia entrado naquele universo pela porta mais íntima possível: o guarda-roupa. Daura foi estilista e proprietária da “Maison Daura”, ligada também à irmã Tereza Sabino Louza. Uma pesquisa acadêmica da Universidade Federal de Goiás (UFG) encontrou, inclusive, registro de 1968 que menciona Daura como proprietária da Maison. Sua atuação, porém, vinha de antes.
Modista da primeira-dama do Estado
A partir dos anos 1950, Daura confeccionou roupas para uma mulher que ocupava posição singular na história da nova capital: Gercina Borges Teixeira, mulher de Pedro Ludovico Teixeira. Uma pesquisa recente, também da UFG, baseada em depoimento de Maria Dulce Loyola Teixeira, registra Daura como modista e amiga de Dona Gercina. A relação teria se tornado tão próxima que Daura foi madrinha do casamento de Maria Dulce com Ubiratan Estivallet Teixeira, neto de Gercina e Pedro.

Perceba a dimensão disso. Muito antes de escrever quem estava numa recepção do Palácio das Esmeraldas, Daura já conhecia os corredores daquele mundo. Antes de descrever vestidos, ela os fazia. Observava elegância e trabalhava materialmente com ela. Antes de escrever sobre poder, convivia com pessoas que estavam no centro dele.
Talvez esteja aí uma das explicações para aquilo que posteriormente se tornaria sua característica mais rara como colunista: Daura não parecia uma intrusa no ambiente que cobria. Ela pertencia àquele lugar e, por isso, enxergava coisas que um repórter que chegasse de fora dificilmente iria perceber. Era uma insider.
Goiânia precisava aprender a ser cidade
É preciso voltar aos anos 1950 e 1960 para compreender a importância disso. Goiânia era jovem. Muito jovem. A cidade possuía avenidas largas, edifícios art déco, o Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia, clubes e uma elite política formada em torno da nova capital, mas ainda estava construindo seus códigos urbanos. A moda participava dessa construção.
O vestido de uma primeira-dama, o baile de um clube, uma recepção oficial, o casamento de uma família tradicional, um desfile no Palácio das Esmeraldas: tudo isso era parte da invenção simbólica daquela Goiânia que queria deixar definitivamente para trás a imagem de cidade improvisada no Cerrado.
Daura compreendeu esse processo antes mesmo de transformá-lo em jornalismo. No governo Mauro Borges, ela participou de grandes acontecimentos de moda e ajudou a trazer para Goiás nomes que estavam no centro da alta-costura brasileira.

Uma reportagem de 1996 recorda os desfiles realizados no Palácio das Esmeraldas nos anos 1960 e menciona dois personagens gigantescos daquele universo: Dener Pamplona de Abreu e Clodovil Hernandes.
Hoje pode parecer frivolidade. Não era. Nunca foi, afinal moda também é modernização, linguagem e comportamento. E estava acontecendo em Goiânia por Daura. Era a afirmação de que a jovem capital de Goiás poderia dialogar com Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Madri. E Daura se tornou uma das mediadoras desse diálogo.
Ela viajava, observava e trazia referências. Frequentava os ambientes que interessavam à moda e à sociedade. Mais tarde seria homenageada em São Paulo e alguns países europeus como Espanha, França, Inglaterra e Alemanha.
Sua vida profissional começava a se confundir com a própria vida social da cidade. Então aconteceu uma mudança decisiva. A mulher que conhecia os bastidores iria começar a escrevê-los.
1977
O Opção resolveu lançar Daura Sabino. Não discretamente. O jornal anunciou o lançamento. Preparou a festa. Chamou a sociedade. E transformou a própria contratação em notícia. O texto anterior à estreia dizia que Daura chegava como “jornalista social deste jornal” e anunciava que um coquetel e uma festa aconteceriam no Clube de Regatas Jaó. Mais reveladora ainda é a justificativa editorial publicada depois.

O Jornal Opção destacou a capilaridade de Daura nos círculos mais elevados da sociedade goiana e apresentou sua contratação como um acerto editorial. Ou seja: o Opção sabia exatamente o que estava comprando. Não apenas uma assinatura. Comprava acesso, confiança, uma rede de relações construída durante décadas e uma personagem que conhecia aquela sociedade por dentro.
A recepção contou com o governador Irapuan Costa Junior e Lúcia Vânia Abrão Costa. O editor do Opção, Marco Antônio da Silva Lemos, fez a apresentação da nova jornalista e explicou as razões de sua escolha. Daura respondeu brevemente. Emocionada. Agradeceu. E o jornal fez algo que hoje seria quase inimaginável: dedicou sucessivas páginas ao acontecimento.

Uma delas recebeu o título: “Uma festa muito ‘privê’…Outra: “Requinte e Elegância”. Depois: “Uma noite inesquecível”. E finalmente: “Impossível relacionar todos…” A sucessão dos títulos revela o espírito da época melhor do que qualquer tratado acadêmico sobre colunismo social.
Uma breve mensagem, mas cheia de significado
Antes mesmo da festa que oficializaria sua chegada ao Opção, Daura deixou aos leitores uma pequena mensagem de agradecimento. A frase poderia ter desaparecido junto com milhares de outras linhas impressas nos jornais daqueles anos.
Não sumiu. Lida hoje, praticamente meio século depois, parece conter uma definição involuntária da própria personagem: “Vocês todos são maravilhosos”. Talvez esteja aí o título desta história: o maravilhoso mundo de Daura Sabino. Não porque aquele mundo fosse necessariamente maravilhoso. Não era. Tinha vaidades, disputas, dinheiro novo, sobrenomes antigos, casamentos convenientes, separações discretamente comentadas, amizades rompidas, ascensões fulminantes e decadências que ninguém anunciava. Era uma sociedade como qualquer outra, apenas revestida pelos códigos de elegância de seu tempo.
O extraordinário era a posição ocupada por Daura dentro dela. Ela conhecia aquele universo antes de transformá-lo em matéria de jornal. Quando chegou ao Opção, portanto, Daura não precisou construir uma agenda de fontes. A agenda já era sua vida. Sabia quem era quem. Conhecia famílias inteiras. Quem havia se casado com quem, quem era filho de quem, quais amizades vinham de décadas, quem frequentava determinada casa, quem havia deixado de frequentá-la. Conhecia os políticos, os empresários, os magistrados, as primeiras-damas. E conhecia especialmente as mulheres. Não apenas socialmente. Daura não precisou entrar na sociedade goianiense para escrever sobre ela. A sociedade goianiense já entrava no ateliê de Daura havia décadas. Quando finalmente chegou ao jornal, levou esse mundo com ela. De alguma maneira, ela era, também, a sociedade.
Mas há um detalhe importante sobre aqueles primeiros tempos que as páginas impressas, sozinhas, não contam. Daura possuía a informação, o olhar e as relações. A transformação daquele material em texto passava também pela redação. Marco Antônio da Silva Lemos, então editor do Opção – mais tarde desembargador em Brasília, participava diretamente desse processo. Daura lhe dizia quem eram as pessoas, contava o que acontecera, fornecia os elementos da coluna; Marco Antônio organizava e trabalhava jornalisticamente aquele material.

Era uma construção curiosa e muito própria daquele colunismo. Daura fornecia aquilo que não se aprende numa redação. Marco Antônio dava forma jornalística àquilo que Daura sabia. Com o tempo, a personagem pública e a assinatura se fundiriam de tal maneira que restaria apenas um nome acima da página: Daura Sabino.
E havia muito mais por trás daquele nome do que aparecia impresso. Porque um grande colunista social nunca foi simplesmente alguém que publicava fotografias de festas. Precisava conhecer a geografia invisível da cidade. Daura sabia tudo, mas sabia também o que não deveria ser publicado.
Décadas depois, ao recordar o desembargador Homero Sabino de Freitas, irmão de Daura, o Jornal Opção registraria uma característica dela que ajuda a compreender a dimensão de seu poder. Daura sabia praticamente tudo o que acontecia nos bastidores da sociedade. Muitas vezes não publicava. Mas conversava sobre aquilo com os jornalistas da redação. Sabia também ser fonte, das mais qualificadas.

Seu poder talvez não estivesse nas centenas de nomes que publicou durante décadas. Estava também nos nomes que deixou de publicar. Nas histórias que conheceu e guardou. Nos casamentos sobre os quais sabia mais do que escreveu. Nas crises políticas que chegavam à sala de jantar antes de chegarem à redação. Nas fortunas que apareciam e desapareciam. Nos amores. Nas traições. Nas brigas familiares. Nos acordos. Nas conversas ouvidas numa recepção e jamais transformadas em nota.
Daura possuía uma coisa que nenhum manual de jornalismo ensina a adquirir: confiança. É isso que torna tão importante aquela noite de maio de 1977 no Clube de Regatas Jaó. O Opção não estava simplesmente contratando uma mulher elegante para escrever sobre gente elegante. Estava levando para dentro da redação uma das pessoas que mais conheciam a anatomia social de Goiânia.
O jornal resolveu lançá-la. Essa palavra é importante. Em maio de 1977, antes de publicar regularmente sua nova colunista, o jornal começou a produzir o acontecimento Daura Sabino. A contratação virou notícia e a estreia expectativa. Os outros colunistas foram ouvidos. A sociedade foi consultada. Os convites foram enviados. E a apresentação da nova jornalista foi quase uma première.

Daura ainda não havia começado efetivamente a ocupar aquele espaço e o jornal já perguntava à cidade o que esperava dela. O colunista Arthur Resende – durante anos, estrela de “O Popular” – respondeu que se tratava da “maior bomba do jornalismo social da última década” e afirmou não existir pessoa mais bem informada para escrever sobre a vida social de Goiânia e de Goiás. Laila Navarrete, outra notável do colunismo, destacou sua inteligência, sensibilidade e argúcia. Neila Valadares falou de sua vivência na sociedade. O expert Luiz Carlos fez uma observação quase profética: Daura, dizia ele, poderia “dar roupagem nova ao colunismo social”
Roupagem. Talvez nenhum deles tenha percebido naquele momento a perfeição involuntária da palavra. Porque era exatamente isso. A mulher que durante anos havia vestido Goiânia estava prestes a vestir também, com palavras, a imagem que Goiânia fazia de si mesma.
E então veio LBP. Lourival Batista Pereira. O homem que ocupava um lugar singular naquela história, porque havia sido o grande colunista social do próprio Opção. Meu tio por casamento, marido de Marisa, irmã de minha mãe. Uma espécie de Ibrahim Sued goiano. Ou Zózimo Barroso do Amaral.
Sua declaração sobre a chegada de Daura não demonstra ressentimento. Ao contrário. É praticamente uma passagem de bastão: “É até desnecessário falar sobre isso. Basta dizer que não existe pessoa mais bem indicada que Daura Sabino para falar sobre sociedade, principalmente a goianiense. Está dito tudo”. Está dito tudo. E realmente estava. O Opção não precisava ensinar Daura a conhecer Goiânia. Precisava apenas transformar em jornal aquilo que Daura já sabia sobre Goiânia.
O bom colunista precisava saber quem entrou ou não. Quem deveria ter sido convidado e não foi. Quem chegou acompanhado e saiu sozinho. Quem se sentou ao lado de quem. Quem estava rompido. Quem estava ascendendo. Quem perdeu poder. Quem possuía dinheiro novo. Quem tinha sobrenome antigo. Quem estava prestes a casar ou separar. E, sobretudo, precisava saber o que não publicar. Daura sabia. Décadas depois, ao escrever sobre Homero Sabino, o Jornal Opção recordaria uma característica reveladora da irmã do magistrado: ela sabia praticamente tudo que acontecia nos bastidores da sociedade. Às vezes não publicava, mas contava aos repórteres e editores.
Essa frase explica Daura melhor do que parece: o poder de um colunista não está somente naquilo que escreve, mas do que sabe e decide guardar.
“Sair na Daura”
A coluna cresceu. Daura cresceu com ela. Nos anos 1970, colunismo social era uma instituição do jornalismo brasileiro. No Rio e em São Paulo, nomes como Ibrahim Sued e Zózimo Barroso do Amaral eram personagens nacionais. Em Goiás, Daura ocupou esse espaço. A expressão passou a fazer sentido por si só: “Sair na Daura”.


O Jornal Opção lembraria décadas depois que ter um registro em sua coluna significava, no imaginário daquela época, receber uma espécie de certificado informal de ingresso no jet set goiano. Mas reduzir Daura a uma distribuidora de prestígio seria injusto. Ela também conseguia ser repórter, e das mais afiadas. Um exemplo extraordinário está em 1978.
Margot Fonteyn chega a Goiânia
Em março daquele ano, o Teatro Goiânia renasceu. Depois de uma grande reforma durante o governo Irapuan Costa Junior, a reinauguração ganhou uma atração que parecia improvável para a Goiânia daquele tempo: Margot Fonteyn, uma das maiores bailarinas do século 20, veio dançar na capital goiana acompanhada de David Wall. Daura estava lá. E escreveu e descreveu tudo que viu e sentiu. Sua reportagem não se limitou a dizer quem compareceu.


Descreveu o teatro, a noite, os bailarinos, o público, a atmosfera. Chamou a ocasião de uma das noites mais fulgurantes vividas por Goiás. Observou Pedro Ludovico, então com 86 anos, sentado no teatro que havia sido construído por ele durante a criação da capital.
Registrou a presença da jovem bailarina Ana Botafogo. Descreveu a apresentação de Romeu e Julieta. E fez uma confissão deliciosa: admitiu não dominar tecnicamente o balé, mas disse, em essência, que não era necessário entendê-lo para ser atingido por sua beleza. É uma pequena lição de reportagem.
Daura podia ter permanecido na zona confortável da coluna social, mas preferiu olhar com olhos de enxergar.
Depois acompanhou a recepção oferecida no Palácio das Esmeraldas. Registrou decoração, flores tropicais. Menu. Roupas. Conversas e presenças. A noite inteira foi preservada. Quase cinquenta anos depois, quando queremos saber como foi a passagem de Margot Fonteyn por Goiânia, tem de voltar ao que contou Daura – uma espécie de “historiadora” do cotidiano.
A coluna social tornou-se fonte histórica. Esse talvez seja o ponto central desta história, porque ao escrever o presente, sem saber, arquivava o futuro. Durante muito tempo, a crônica social foi tratada como gênero menor. Festa, vestidos, casamentos, bebidas, viagens… Parece pouco, até que passam 50 anos. Então descobrimos que aquelas colunas guardaram informações que não aparecem nos documentos oficiais.
A crônica social registra a história no momento em que ela ainda parece apenas cotidiano. Daura fez isso durante décadas.
A jornalista que continuou estilista
Daura jamais abandonou completamente a moda. Em março de 1997, uma de suas colunas registrava Fátima Gomide usando um modelo em cetim marrom e preto assinado por Daura Sabino. Décadas depois do início da Maison Daura, a estilista ainda existia dentro da jornalista. Talvez por isso sua atenção à roupa nunca fosse apenas decorativa. Roupa é vida, é história, é comportamento.
Ela sabia tecido, corte, caimento. E acabamento, o que era apenas caro daquilo que era elegante. Daura não observava moda de fora. Tinha passado a vida dentro dela.
Uma mulher entre os poderosos
A longevidade de Daura também pode ser medida pela variedade dos personagens que passaram por suas páginas no Jornal Opção e depois no “Diário da Manhã”. Presidentes, governadores, prefeitos, empresários que enriqueceram enquanto outros desapareceram, famílias que ascenderam ou perderam influência.
Goiânia cresceu e se tornou uma metrópole. Os clubes perderam a centralidade que possuíam nos anos 1970. Os grandes bailes acabaram. A própria palavra socialite envelheceu. Daura permaneceu. Sua coluna, porém, não era apenas um inventário de milionários. Ela conseguia circular entre ricos, classe média e pobres, poderosos e pessoas comuns com a mesma naturalidade.





Isso talvez explique sua sobrevivência profissional. Prestígio abre portas. Afeto mantém portas abertas… eternamente, por assim dizer.
A família Sabino
Há ainda uma dimensão importante. Daura pertencia a uma família intelectualmente muito interessante. Seu irmão Homero Sabino de Freitas tornou-se desembargador, presidente do Tribunal de Justiça e presidente da Associação dos Magistrados do Estado de Goiás. Oscar Sabino foi jornalista, escritor e crítico literário. O Jornal Opção registrou que esteve entre os primeiros intelectuais goianos a escrever de maneira consistente sobre o romance “Ulysses”, do irlandês James Joyce. Outro irmão, Lenine, era professor de inglês e tradutor.
Portanto, por trás da personagem frequentemente associada a festas, vestidos e sociedade, havia um ambiente familiar de direito, literatura, idiomas e jornalismo. Daura não era apenas uma mulher socialmente bem relacionada que caiu por acaso numa redação. Havia formação, muita leitura, repertório e um percepção aguda de pessoas.
A Rua 20
Durante muitos anos, sua casa ficava na Rua 20, no Centro. A casa acabaria adquirindo uma estranha condição simbólica, porque era uma residência antiga, ligada à paisagem histórica da área central de Goiânia. Daura viveu ali. Depois de sua morte, permaneceu vazia. E então desapareceu. Em maio de 2013, foi demolida.


Houve reação de moradores e discussão sobre eventual proteção patrimonial, mas o imóvel não possuía proteção que impedisse sua derrubada. Há uma ironia dolorosa nisso. A mulher que passou décadas registrando quem entrava e quem saía da história de Goiânia teve sua própria casa retirada da paisagem da cidade. Hoje há fotografias. Há lembranças.
A primeira-dama do colunismo goiano
Em 2002, outra grande homenagem foi organizada. A festa teve rosas vermelhas, champanhe, tango e algumas das figuras mais importantes de Goiás. Daura apareceu num vestido vermelho. Discursos recordaram sua trajetória como estilista e jornalista.
Naquela noite foi chamada de algo que resume o lugar que conquistara: “primeira-dama do colunismo goiano”. Daura comemorava com uma grande festa 25 anos desde que fora lançada pelo Jornal Opção como colunista naquela noite de maio de 1977. Em 2002, pôde mostrar que Daura permanecia mesmo depois de tanto tempo registrando uma sociedade em transformação e chegava ao século 21 ainda reconhecida pela cidade. Poucos jornalistas conseguem atravessar tantos ciclos sem desaparecer em algum deles.
Daura era a mulher que sabia demais?
Nunca saberemos de tudo o que sabia. E talvez seja melhor assim – o mistério deixa a vida mais imaginativa, gesta toda uma mitologia. Daura conhecia segredos. A própria tradição da redação do Opção guardou essa lembrança. Ela sabia o que estava acontecendo. Sabia antes e mais. E nem tudo virava nota. Isso diferencia o verdadeiro colunismo social da fofoca. O grande colunista pode não publicar justamente porque possui informação demais. Daura compreendia essa diferença. Sua moeda não era apenas notícia. Era confiança.

Às vezes, perdia um furo para, adiante, publicar um furo mais relevante. Sim, o grande colunista é, acima de tudo, repórter. Então chegou a doença. Daura enfrentou um câncer de mama. Na noite de 10 de outubro de 2011, morreu em Goiânia em decorrência de complicações da doença.
Daura morreu solteira e não deixou descendentes nem ascendentes; sua sucessão coube aos parentes colaterais. Terminava ali uma trajetória que havia atravessado boa parte da história social da capital. Mas há algo curioso sobre jornalistas. Eles morrem, mas o arquivo continua falando. Portanto, seguem “vivos”.
Maio de 1977, outra vez
Voltemos então às fotografias. Porque talvez a melhor maneira de terminar esta história seja regressar ao lugar em que começamos. Clube de Regatas Jaó. Maio de 1977. Festa black tie. Vestidos longos. A alta sociedade goiana presente. Amigos e Daura. O Opção havia feito uma promessa pública: a mulher conhecida pela moda e pela sociedade passaria a ser jornalista.
Naquele momento ninguém podia saber exatamente o que viria, que a coluna atravessaria mudanças de jornais e de governos. Ninguém sabia que, décadas depois, pesquisadores recorreriam àquelas páginas para reconstruir a história dos costumes de Goiânia ou que uma reportagem escrita por Daura sobre Margot Fonteyn permitiria, quase meio século mais tarde, reconstruir uma das noites culturais mais extraordinárias vividas pelo Teatro Goiânia. Ninguém sabia que sua velha casa da Rua 20 desapareceria assim como a cidade dos clubes, dos grandes bailes, dos vestidos longos e dos homens obrigatoriamente de smoking. O “mundo maravilhoso” de Daura já não existe mais.
Mas a história, dado seu registro, ficou. Naquela noite, Daura provavelmente também não sabia. Nas fotografias daquele dia ela apenas sorri. Mas o jornal parecia saber alguma coisa. Por isso gastou páginas, fotografou dezenas de pessoas, chamou aquela recepção de “uma noite inesquecível” e, ante da quantidade de convidados, escreveu: “Impossível relacionar todos…”.
Os homens e as mulheres que estavam ali envelheceram. Muitos morreram. Governos acabaram. Empresas mudaram de mãos. O Clube Jaó não representa mais o que já foi um dia. O Centro perdeu parte de sua antiga centralidade. A casa da Rua 20 caiu. O smoking desapareceu das noites goianienses. Até o colunismo social, como Daura o praticou, praticamente deixou de existir. Só ficaram as páginas. E talvez seja essa a grande ironia de sua vida. Durante décadas, Daura Sabino escreveu sobre pessoas que queriam desesperadamente não ser esquecidas. No final, foi ela quem permaneceu.

Depois de Daura
Daura morreu há 15 anos. Mas existe uma diferença entre morrer e desaparecer. Personagens como ela correm um risco particular. Durante décadas parecem onipresentes. Estão nos jornais, nas fotografias, nos casamentos, nos desfiles, nos jantares, nas conversas. Todo mundo sabe quem são.
Depois, a cidade muda. As pessoas envelhecem. Os jornais amarelam. As casas são demolidas. Os vestidos desaparecem dentro de armários ou são descartados por famílias que já não sabem quem os desenhou. E uma mulher que parecia impossível de esquecer começa lentamente a desaparecer.
Foi isso que me impressionou ao abrir aquelas edições antigas do Jornal Opção. Daura estava novamente ali. Não como lembrança, mas fisicamente. Página após página. Daura ao lado do governador. Daura entre colunistas. Daura com empresários. Daura com mulheres que vestira. Daura sendo apresentada. Daura sorrindo. Daura olhando. Daura no centro de uma Goiânia que já não existe. E, numa das fotografias, meu pai e minha mãe. Então percebi que contar sua história não era apenas reconstruir a biografia de uma colunista social. Era abrir uma janela. Porque ao redor de Daura aparecem a moda, o poder, os jornais, os clubes, os casamentos, as primeiras-damas, os estilistas, os políticos, os novos ricos, as famílias tradicionais, as mulheres que começavam a ocupar outros espaços e uma cidade inteira tentando decidir que espécie de metrópole desejava ser.
Daura foi uma testemunha privilegiada dessa transformação. Mais do que isso. Participou dela. Vestiu algumas das mulheres que construíram a imagem pública da nova capital. Tornou-as mais bonitas e elegantes. Conviveu com o poder quando Goiânia ainda consolidava seus rituais.
Aproximou a cidade da moda brasileira. Atualizou a sociedade. Tornou-se personagem de sua própria sociedade. Depois atravessou a porta da redação e passou a registrar aquele universo no jornal. É por isso que reduzir Daura Sabino a “colunista social” é contar apenas o último pedaço da história. Ela foi modista antes de jornalista, personagem antes de cronista, fonte antes de autora, memória antes de arquivo. E foi, durante muito tempo, uma espécie de “lugar” onde Goiânia guardava seus segredos.
Talvez não soubesse nada disso quando ela aparecia lá em casa e eu ainda criança a chamava de “Daura Sabida”. Para mim, era simplesmente aquela mulher diferente, elegante, dona de um nome que permitia uma brincadeira irresistível. Daura Sabino – Daura Sabida.
Décadas depois, diante das páginas amareladas dos arquivos do jornal fundado pelo meu pai, finalmente entendo que a criança talvez tivesse acertado. Daura sabia. E uma parte da história de Goiânia estava justamente naquilo que ela sabia.
De alguma maneira, Daura vive. Afinal, como sabia o escritor americano William Faulkner, “o passado nunca está morto. Ele nem sequer é passado”.

