Bioinsumos avançam em Goiás com crescimento de 40% na área tratada e mercado de R$ 229 milhões
03 outubro 2026 às 21h00

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A utilização de bioinsumos na agricultura goiana deixou de ser uma experiência restrita a propriedades pioneiras e passou a ocupar espaço cada vez maior no planejamento das lavouras. O crescimento da tecnologia acompanha uma transformação na maneira como produtores e especialistas enxergam o manejo agrícola, especialmente diante do aumento dos custos de produção, da dependência de fertilizantes e defensivos importados e da necessidade de desenvolver alternativas para o controle de pragas e doenças. Em Goiás, a área tratada com produtos biológicos passou de aproximadamente 5 milhões para 7 milhões de hectares, crescimento de 40% na comparação com a safra anterior.
Os números da CropLife Brasil mostram que o mercado goiano movimentou R$ 229 milhões no primeiro semestre de 2026, com crescimento de 12,8% nas vendas. No mesmo período, o mercado brasileiro alcançou R$ 1,82 bilhão, alta de 9%, enquanto a área tratada nacionalmente cresceu 18%. Em Goiás, as vendas de bioinseticidas chegaram a R$ 84 milhões, aumento de 40% em relação ao primeiro semestre de 2025.
O avanço coloca Goiás entre os principais mercados brasileiros de produtos biológicos. Entretanto, especialistas ouvidos pelo Jornal Opção fazem uma distinção importante: o pioneirismo estadual está relacionado à criação de políticas públicas de incentivo, pesquisa e produção, e não necessariamente à liderança nacional em volume de mercado ou substituição de defensivos químicos.
Segundo o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Lucas Lopes de Castro, São Paulo e Mato Grosso ainda aparecem à frente do Estado na adoção dessas tecnologias.
O subsecretário da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Pedro Leonardo Rezende, afirmou que aproximadamente 30% dos insumos utilizados em Goiás, principalmente fertilizantes, já são de base biológica. Para ele, a expansão está diretamente relacionada à procura por alternativas que permitam diminuir a dependência internacional e reduzir os custos das propriedades rurais.

“Essa tecnologia tem sido cada vez mais difundida, não só no Brasil de maneira geral, mas especialmente aqui em Goiás. É importante destacar que a estratégia agrícola inclui a utilização associada aos insumos de base química, não necessariamente uma substituição total. Temos observado que todas essas questões geopolíticas têm impactado diretamente nos preços desses insumos de base química. Então, a substituição total ou parcial por bioinsumos tem como objetivo principal a redução desses custos de produção”, afirmou ao Jornal Opção.
O cenário, na avaliação de Rezende, tende a favorecer a expansão dos produtos biológicos, sobretudo porque fertilizantes e outros insumos químicos utilizados no Brasil dependem de fornecedores internacionais. Rússia, Ucrânia e Canadá estão entre os países mencionados por ele como importantes fornecedores de insumos agrícolas. Em períodos de conflitos e dificuldades comerciais, a dependência externa pode provocar oscilações de preços e comprometer o planejamento dos produtores.
Crescimento não significa substituição integral dos defensivos
Embora a ampliação da área tratada demonstre a incorporação dos bioinsumos ao sistema produtivo, os especialistas ressaltam que a substituição dos defensivos químicos acontece de maneira diferente conforme a cultura, o organismo que se pretende controlar e a tecnologia disponível. A estratégia predominante continua sendo o manejo integrado, que combina produtos biológicos e químicos em diferentes momentos do ciclo das lavouras.
Lucas explica que a utilização isolada dos bioinsumos acontece principalmente em determinadas etapas da semeadura, enquanto aplicações destinadas ao controle de pragas e doenças frequentemente são realizadas de maneira consorciada com produtos convencionais. Para ele, não é correto interpretar o crescimento da área tratada como uma substituição equivalente dos defensivos químicos.

“Não podemos afirmar que os bioinsumos estão simplesmente substituindo os defensivos agrícolas. Cada um tem o seu posicionamento e a sua época ideal de utilização no campo. Essa introdução dos biológicos vem muito em virtude de estar sendo consorciada junto com os defensivos químicos. Na semeadura, por exemplo, é possível utilizar o produto biológico no sulco de plantio, mas, quando falamos de aplicações para controle de pragas e doenças, muitas vezes o produtor trabalha de forma associada”, explica.
A soja é a principal cultura brasileira na utilização de produtos biológicos, representando 47,9% do mercado, com movimentação de aproximadamente R$ 2,088 bilhões. Na sequência aparecem o milho, com 31% e R$ 1,35 bilhão; a cana-de-açúcar, com 11,8% e R$ 522 milhões; o algodão, com 4% e R$ 174 milhões; e o café, com 3% e R$ 130 milhões. Os valores correspondem ao mercado nacional.
Entre os principais alvos dos biodefensivos estão os nematoides, a cigarrinha, as lagartas e a mosca-branca. A utilização também envolve biofungicidas, bioinseticidas, inoculantes e produtos destinados à fertilização e à melhoria das condições do solo.
O coordenador do Programa de Agrotóxicos da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), Rodrigo Baiocchi, observa que a resistência desenvolvida por determinadas pragas aos princípios ativos químicos representa uma oportunidade para a ampliação do controle biológico. Porém, ele não considera que a substituição generalizada seja o caminho mais adequado.
“Não acreditamos muito em uma substituição completa e generalizada do químico. Acreditamos no uso do biológico na hora certa, quando o produtor estudou, recebeu treinamento e conseguiu utilizar aquela ferramenta de maneira adequada. O biológico pode ajudar a reduzir a população de determinada praga, inclusive diminuindo a necessidade de aplicação do químico e, consequentemente, o custo da cultura. Então, os biológicos vêm como um complemento para que a gente consiga um controle com menor impacto ambiental, menor impacto na saúde e, se possível, menor impacto econômico ao produtor”, afirma.

Baiocchi cita a mosca-branca como exemplo de organismo que desenvolveu resistência a diferentes princípios ativos químicos. Na avaliação do coordenador, o desenvolvimento de alternativas biológicas para pragas e doenças resistentes deve receber atenção das instituições de pesquisa. O objetivo é ampliar as ferramentas disponíveis aos agricultores, sem desconsiderar a necessidade de manter determinados produtos convencionais no manejo.
O pesquisador agronômico do Centro Tecnológico Comigo, Diego Tolentino, também afirma que os bioinsumos não devem ser compreendidos apenas como defensivos agrícolas. Existem microrganismos utilizados para estimular o crescimento das plantas, melhorar o desenvolvimento das raízes, favorecer a absorção de nutrientes e contribuir para a fertilidade biológica do solo.
“Quando a gente fala de bioinsumos de forma mais ampla, não estamos falando apenas de bioinseticidas, biofungicidas e produtos para controle de nematoides. Existem microrganismos que atuam no solo, na liberação de nutrientes, na estimulação hormonal das plantas e no crescimento das raízes. Isso faz com que a planta explore uma quantidade maior de solo e consiga aproveitar melhor a água e os nutrientes. A própria fixação biológica de nitrogênio já é um exemplo muito consolidado de sucesso, porque substitui a adubação química nitrogenada na soja”, explica.
Redução de custos é principal motivação dos agricultores
A possibilidade de diminuir as despesas com defensivos e fertilizantes é um dos principais fatores que levam os produtores a procurar os bioinsumos. O diretor executivo do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS), Eduardo Martins, afirma que a popularização dessas tecnologias no Brasil está diretamente relacionada à possibilidade de produção própria nas fazendas, modalidade conhecida como on-farm.
Segundo Martins, quando os produtos biológicos começaram a ganhar espaço, os produtos comerciais apresentavam preços superiores aos de determinadas alternativas químicas. A multiplicação nas propriedades permitiu ampliar o acesso e estabeleceu uma alternativa de fornecimento para os agricultores. Mais recentemente, a redução dos preços dos produtos comerciais também contribuiu para aumentar a competitividade do segmento.
“Essa possibilidade da multiplicação própria foi um dos principais fatores que popularizaram a utilização dos bioinsumos no Brasil. Naquela época, os produtos biológicos de prateleira eram bem mais caros do que as alternativas químicas. Agora, a gente tem observado uma redução dos preços dos produtos comerciais, o que é muito importante porque aumenta o acesso. Mas acreditamos que é fundamental manter a possibilidade da produção própria, inclusive como uma forma de o agricultor ter uma alternativa para estabelecer preços e organizar seu fornecimento”, afirma.

O executivo relata que produtores acompanhados pelo grupo registraram experiências de substituição de até 80% de determinados inseticidas e fungicidas. Ele ressalta, porém, que são resultados empíricos de propriedades específicas, e não uma média que possa ser aplicada indistintamente a todas as lavouras. Martins cita a última safrinha de milho e os gastos estimados em R$ 18 bilhões com insumos como dimensão do potencial econômico que a redução de determinadas aplicações poderia representar.
Na avaliação do diretor do GAAS, a mudança exige uma reorganização do modelo de produção, porque os bioinsumos não apresentam necessariamente a mesma dinâmica de resposta dos defensivos químicos. O agricultor precisa observar o comportamento da lavoura, ajustar as aplicações e compreender que a eficiência depende de um conjunto de práticas.

“Quando você começa a trabalhar uma lógica regenerativa, está lidando com um novo paradigma. Existe uma estrutura muito grande que foi construída em torno da agricultura intensiva em insumos, não apenas na forma de pensar, mas também na pesquisa, na organização dos produtos e até na maneira como o produtor acessa o crédito. Não adianta simplesmente falar que vai utilizar o biológico e continuar fazendo aplicações de produtos que podem matar esses organismos. Existe um processo de ajuste do sistema, de acompanhamento e de observação do que acontece na lavoura”, afirmou ao Jornal Opção.
Ele estima que, em propriedades com assistência técnica e acesso aos produtos necessários, a transição pode levar aproximadamente três anos. O processo, entretanto, costuma começar em áreas menores, nas quais o produtor testa as tecnologias e avalia os resultados econômicos antes de ampliar o modelo para toda a propriedade.
Além disso, Eduardo relaciona a utilização dos bioinsumos à resiliência das lavouras em períodos de estiagem. Para ele, a melhoria da biologia do solo pode contribuir para sistemas mais resistentes à falta de água, mas a substituição dos produtos químicos, isoladamente, não resolve problemas como compactação e baixa cobertura vegetal.
“Melhorar o solo não depende só de trocar o insumo químico pelo biológico. Ele ajuda, mas existe uma série de outras coisas que precisam ser cuidadas. É necessário diversificar a cobertura, manter o solo protegido e resolver problemas como a compactação. Os bioinsumos entram nessa história colaborando com um conjunto de outras práticas para fazer o sistema funcionar”, afirma.
Produtores relatam resultados no campo
Na propriedade de Fernanda de Souza Ferreira, em Urutaí, a utilização de bioinsumos começou entre 2016 e 2017, inicialmente por meio de experimentos. A produtora trabalha com soja, milho, milho para silagem, milho doce, tomate, ervilha e sorgo, além de desenvolver um sistema de integração lavoura-pecuária.

A partir de 2019 e 2020, a experiência ganhou maior estrutura com a contratação de consultoria especializada. A decisão de avançar no manejo biológico estava relacionada à intenção de desenvolver uma agricultura regenerativa e diminuir a dependência dos pacotes convencionais de defensivos e fertilizantes.
“É realmente acreditar na agricultura regenerativa, na possibilidade de fazer a regeneração do solo e entender que isso também é possível para um produtor comum. A gente não precisa ficar vinculado ao pacote de defensivos tecnológicos que normalmente é apresentado. Geralmente, o que se vende ao produtor é um pacote todo tabelado, com quatro ou cinco aplicações de fungicidas, quatro aplicações de inseticidas e todos os herbicidas necessários. Nós quisemos encontrar alternativas para construir um manejo de acordo com a realidade da nossa propriedade”, afirma.
Fernanda relata que a mudança proporcionou redução superior a 30% nos custos de produção em uma comparação realizada com propriedades que trabalham com manejo convencional. A economia envolve diferentes etapas, desde o tratamento de sementes até a utilização de produtos biológicos durante o desenvolvimento das culturas.
A produtora também afirma que houve melhora nas condições biológicas do solo, acompanhada por análises realizadas na propriedade. Para ela, a avaliação dos resultados precisa considerar não apenas a produtividade, mas também a qualidade do solo, a redução das despesas e as condições de trabalho dos funcionários.
“Desde o tratamento de sementes, a redução é significativa. A gente fez até uma conta no ano passado e chegou a mais de 30% de economia em relação a um produtor convencional. E isso acontece em diferentes etapas da produção, porque começamos a utilizar os bioinsumos também na parte de adubação. Além da questão econômica, existe uma redução muito significativa do contato dos nossos colaboradores e do meio ambiente com os produtos químicos”, relata.
A propriedade mantém um nucleo de produção de insumos na propriedade e um laboratório para produzir e acompanhar os microrganismos utilizados nas lavouras. Atualmente, são produzidos sete tipos de bactérias. Fernanda explica que a estrutura permite avaliar a qualidade dos materiais entre 24 e 36 horas após a fabricação, mas exige procedimentos rigorosos de esterilização, higienização e controle da água e dos meios de cultura.

A experiência demonstra, segundo a produtora, que a produção própria exige mudanças na rotina da fazenda e capacitação dos trabalhadores. A aplicação dos produtos biológicos precisa respeitar horários e condições ambientais específicas, o que nem sempre coincide com a organização operacional utilizada no manejo convencional.
O CEO da Efense, Marcus Santana, também relata experiências de substituição de defensivos químicos em determinadas situações, principalmente no controle de doenças. Ele cita uma propriedade que alcançou 131 sacas de soja por hectare em um concurso de produtividade, utilizando exclusivamente produtos biológicos para o controle de doenças, sem aplicações de fungicidas químicos.
“Quando entramos na área de controle de doenças, conseguimos, sim, fazer uma substituição completa em determinadas situações. Temos bons exemplos de áreas com uso exclusivamente de controle biológico para doenças e com boa produtividade, sem redução do rendimento. Tivemos uma área que, há duas safras, foi campeã em um concurso de produtividade, alcançando 131 sacas por hectare e sem utilizar nenhuma aplicação de fungicida químico”, afirma.
Marcus explica que a empresa trabalha principalmente com biofungicidas à base de Bacillus amyloliquefaciens, Bacillus velezensis e Bacillus pumilus. Os microrganismos são utilizados conjuntamente para o controle de doenças, enquanto outras soluções são empregadas no combate a insetos, como a mosca-branca.
Apesar dos resultados, o executivo afirma que a substituição depende das características de cada praga ou doença. Há situações em que os produtos biológicos apresentam melhor desempenho, outras em que os químicos continuam sendo necessários e casos em que a combinação das duas tecnologias oferece os resultados esperados.

Na avaliação dele, a confiança dos agricultores ainda é um dos principais obstáculos à ampliação do mercado. Ele afirma que a comprovação dos resultados em campo e o acompanhamento técnico são fundamentais para que os produtores deixem de considerar os bioinsumos uma tecnologia experimental.
O executivo estima que os produtos biológicos ocupem atualmente cerca de 5% do mercado de controle de doenças e pragas, enquanto os defensivos químicos representam aproximadamente 95%. Para os próximos anos, ele projeta uma ampliação expressiva dessa participação.
“Eu enxergo um futuro para os bioinsumos com um uso muito mais intenso do que os químicos. Hoje, estamos falando de um mercado de controle de doenças e pragas em que o biológico ocupa apenas 5%, enquanto 95% ainda são defensivos químicos. Acredito que futuramente podemos ter uma inversão dessa proporção. Isso não significa que os químicos deixarão de existir, porque ainda precisamos dessa ferramenta, mas a participação dos biológicos tende a crescer muito”, afirma.
A experiência do produtor Sudário Júnior também ilustra como a adoção dos bioinsumos pode modificar a rotina de manejo nas propriedades rurais. O primeiro contato dele com essas tecnologias ocorreu em 2018, durante um evento promovido pelo Grupo de Agricultura Sustentável (GAS). A partir dali, começou a conhecer relatos de agricultores que já utilizavam microrganismos na produção e decidiu testar alternativas ao modelo convencional.
A motivação, segundo ele, foi principalmente econômica, embora a redução dos impactos ambientais e da exposição dos trabalhadores aos produtos químicos também tenha pesado na decisão. “Menos agressão ao meio ambiente é lógico, mas o principal é a economia mesmo. Se a situação do produtor já não está muito fácil de um tempo para cá, então tem que alinhar. Trabalhar com menos químico é muito bom. Até os funcionários nossos já perceberam isso e já abraçaram a ideia”, afirmou Sudário ao Jornal Opção.
Na propriedade, uma das mudanças mais expressivas ocorreu no manejo de doenças foliares. Segundo o produtor, o padrão regional era realizar quatro aplicações de fungicidas químicos por safra, mas, com a adoção dos biológicos, a média caiu para uma aplicação.
Já em variedades mais precoces, ele relata que já consegue conduzir a lavoura sem fungicidas químicos; nas de ciclo médio e tardio, eventualmente são necessárias duas aplicações. O tratamento químico de sementes também foi reduzido: a propriedade completou seis safras sem utilizar fungicida químico nessa etapa, recorrendo a produtos biológicos, como bacilos e fungos do gênero Trichoderma.

O produtor ainda destaca resultados no controle de pragas que, segundo ele, apresentavam dificuldades de manejo com os produtos convencionais. Um dos exemplos é o percevejo-castanho, cuja presença na região representa um problema para as lavouras. Sudário diz que o manejo exclusivamente biológico permitiu reduzir a população da praga a um nível em que ela deixou de provocar danos econômicos perceptíveis, embora não tenha sido eliminada. O mesmo ocorreu com os nematoides: após o monitoramento e a utilização de bacilos, a população diminuiu e passou a permanecer em patamares considerados mais controlados.
A redução de custos, no entanto, não significa necessariamente que todo o manejo tenha ficado muito mais barato. Sudário explica que a economia mais evidente está na comparação entre o valor de um fungicida químico foliar e o conjunto de práticas biológicas adotadas na propriedade. “Quando eu pego o valor que eu pagaria num fungicida químico, ele paga o meu manejo biológico completo. Aí, quando eu falo manejo biológico completo, eu já fiz um controle de nematoide no solo, já fiz uma proteção da planta contra seca com bacilos, que vai no sulco ou mesmo na semente”, explicou. Para ele, o ganho está também na sustentabilidade e na capacidade de controlar problemas que nem sempre respondem bem às alternativas químicas.
A transição exigiu mudanças na organização do trabalho. As aplicações biológicas dependem de condições específicas, como temperaturas mais amenas e menor incidência de radiação solar, o que levou a propriedade a alterar os horários das operações. “Às vezes é até mais trabalhoso, tem que aplicar nos horários mais frescos, às vezes tem que fazer à noite”, contou. Em algumas situações, as aplicações passaram a ser realizadas entre o pôr do sol e a meia-noite, exigindo adaptação dos funcionários e maior atenção ao planejamento das atividades.
Sudário também relata que, no início, havia poucos profissionais na região com experiência nesse tipo de manejo. O contato com outros produtores por meio do GAAS e o acompanhamento da consultoria agronômica foram importantes para dar segurança à mudança. Na própria fazenda, ele realizou comparações dentro de um mesmo talhão, mantendo uma parte com o manejo tradicional e outra com produtos biológicos. Os testes ajudaram a avaliar os resultados e a reduzir a insegurança de abandonar práticas já conhecidas.
Por conta disso, o produtor recomenda que outros agricultores façam a transição gradualmente, começando por uma área de teste e comparando os resultados antes de ampliar a adoção. “Eu acho que fazer aos poucos seria o que vai dar mais tranquilidade para qualquer produtor entrar. Um conselho para um produtor fazer o manejo seria: inicie, faça um teste em uma área, conheça, compare”, aconselhou.
Produção própria exige conhecimento e controle de qualidade
A multiplicação de microrganismos dentro das propriedades é uma das características que diferenciam o mercado brasileiro de outros países. A modalidade permite ao agricultor produzir determinados organismos para utilização própria, mas também exige cuidados técnicos que nem sempre estão disponíveis em todas as fazendas.
Eduardo Martins explica que a produção precisa começar pela identificação das necessidades de cada cultura. O produtor deve definir quais microrganismos pretende utilizar, em que quantidade e em qual momento da safra precisará dos produtos. A partir daí, pode escolher entre diferentes estruturas de multiplicação, como sistemas líquidos ou sólidos.
Segundo ele, a multiplicação em meio sólido tem apresentado possibilidades interessantes para pequenos produtores, por exigir uma estrutura menos complexa e reduzir custos. Entretanto, qualquer modelo de produção precisa observar condições de higiene e evitar contaminações.
Já o professor Alexandre Igor, ligado ao Centro de Excelência em Bioinsumos (CEBIO), alerta que a produção própria não garante automaticamente menor custo ou maior eficiência. A qualidade depende da concentração dos microrganismos, da viabilidade dos organismos produzidos e da ausência de contaminantes.

O pesquisador também chama atenção para a necessidade de avaliar as condições de armazenamento e aplicação. Alguns fungos utilizados como bioinseticidas, por exemplo, precisam de umidade e temperaturas adequadas, além de não poderem permanecer expostos à radiação solar durante períodos prolongados.
Diego Tolentino explica que essas características podem representar um desafio operacional para propriedades que ainda não possuem estrutura adequada. Em determinadas situações, os produtos precisam ser aplicados no final da tarde ou durante a noite, o que exige reorganização das equipes e do maquinário.
“Um produtor que vai utilizar esses bioinsumos precisa ter condições adequadas para armazenar e aplicar os produtos. Se estamos falando de bioinseticidas à base de fungos, por exemplo, eles precisam de umidade e não podem ficar expostos a temperaturas elevadas e à radiação solar. Às vezes, o químico consegue ser aplicado durante boa parte do dia, enquanto o biológico precisa de uma condição operacional diferente. É necessário que a propriedade tenha estrutura e conhecimento para fazer essa aplicação no momento adequado”, afirma Tolentino.
Para os especialistas, a ausência de orientação técnica pode comprometer a eficiência dos produtos e provocar frustração entre os agricultores. A produção própria, portanto, precisa ser acompanhada por análises e procedimentos que assegurem a qualidade dos microrganismos utilizados.
Regulamentação e pesquisa são desafios para o Estado
Goiás foi o primeiro Estado brasileiro a instituir um programa estadual de estímulo aos bioinsumos. A iniciativa permitiu organizar ações de pesquisa, extensão rural, comércio e produção para uso próprio, além de criar uma estrutura de articulação entre instituições públicas e privadas.

Um dos resultados foi o investimento de aproximadamente R$ 13 milhões realizado pela Secretaria de Agricultura em 2025 para implantação de biofábricas em escala científica. As unidades estão instaladas em instituições de pesquisa, universidades e institutos federais, com o objetivo de desenvolver microrganismos e avaliar a eficiência dos produtos destinados à agricultura goiana.
Para Pedro Leonardo Rezende, o desenvolvimento de tecnologias adaptadas às condições do Cerrado é um dos pontos fundamentais para ampliar a utilização dos bioinsumos. O subsecretário afirma que a pesquisa precisa disponibilizar cepas capazes de apresentar resultados consistentes nos sistemas produtivos do Estado.
“Ainda temos desafios tecnológicos importantes. É necessário que a Embrapa, as universidades e as instituições de pesquisa desenvolvam estudos para disponibilizar cepas que realmente sejam efetivas no sistema produtivo do Cerrado goiano. Não basta simplesmente ter o produto biológico disponível. Precisamos desenvolver tecnologias e microrganismos que proporcionem os resultados que a agricultura precisa”, afirma.
A regulamentação também aparece entre os principais obstáculos. A Lei Federal nº 15.070, aprovada em dezembro de 2024, estabeleceu o marco legal dos bioinsumos, mas a aplicação das novas regras depende de regulamentações complementares. A discussão envolve procedimentos de registro, fiscalização, produção própria, comercialização e controle de qualidade.
Rodrigo Baiocchi explica que Goiás trabalha na elaboração de uma legislação específica para organizar a fiscalização estadual. A proposta considera as diferenças entre os produtos biológicos e os agrotóxicos convencionais, especialmente em relação à produção para uso próprio e aos mecanismos de controle.
O coordenador defende que a fiscalização seja orientada inicialmente pela educação e pela correção de eventuais irregularidades, sem eliminar a responsabilização dos produtores que descumprirem as normas. “Goiás está construindo essa legislação com base no autocontrole. O produtor vai autodeclarar quando realizar a produção para uso próprio, e as ferramentas de fiscalização serão utilizadas muito mais em termos de orientação, ajuste de conduta e solução dos problemas. Isso não significa que não haverá autos de infração, mas a ideia é trabalhar primeiro com estímulo, educação e correção antes da autuação”, explica.
Baiocchi também chama atenção para a necessidade de uma política estadual mais ampla de incentivo econômico. Para ele, o desenvolvimento do mercado não pode ficar restrito à fiscalização, sendo necessário criar condições para instalação de fábricas, aquisição de produtos pelos agricultores e organização de estruturas coletivas de produção.

“Eu gostaria muito que Goiás desenvolvesse uma política séria de estímulo aos bioinsumos, seja por meio de incentivo fiscal às fábricas, seja com incentivos aos produtores para que possam adquirir os produtos a preços menores ou com estímulo à produção em cooperativas. Precisamos mostrar que a agricultura regenerativa também pode representar uma vantagem nas negociações comerciais, porque mercados como Europa e China estão cada vez mais rigorosos em relação às exigências ambientais”, afirma.
Assistência técnica e crédito podem definir ritmo da expansão
Eduardo Martins avalia que a expansão dos bioinsumos depende também de mudanças na estrutura de financiamento da agricultura. Segundo ele, embora determinadas tecnologias já possam ser contempladas por linhas de crédito, ainda existem dificuldades para que os operadores financeiros compreendam suas características e consigam incluí-las adequadamente nos projetos apresentados pelos produtores.
A capacitação dos profissionais de assistência técnica é outro ponto considerado estratégico. Martins afirma que é necessário formar técnicos capazes de orientar tanto a produção quanto a aplicação dos microrganismos, além de desenvolver pesquisas descentralizadas que considerem a biodiversidade de cada região.
O diretor do GAAS defende que Goiás avance da adoção individual nas propriedades para projetos de transição regenerativa em regiões agrícolas inteiras. A proposta é selecionar áreas estratégicas e oferecer condições para que produtores, instituições de pesquisa e assistência técnica trabalhem conjuntamente.
“Goiás tem tudo para avançar, porque já existe uma quantidade significativa de agricultores que adotam essa agricultura com sucesso e há uma iniciativa positiva do governo estadual. Mas precisamos dar continuidade. Uma das coisas mais importantes seria selecionar regiões em que o Estado estimule a transição regenerativa, com base na ampliação e na adoção dos bioinsumos. Precisamos sair do estágio em que temos propriedades adotando essas tecnologias e avançar para regiões inteiras, com identidade e estratégias próprias”, afirma.
A perspectiva de expansão também é relacionada às exigências ambientais dos mercados internacionais. Pedro Leonardo considera que a adoção de tecnologias sustentáveis pode contribuir para a manutenção da competitividade das commodities goianas, especialmente diante dos protocolos ambientais estabelecidos por compradores estrangeiros.
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