Médico veterinário formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), produtor rural e atual presidente da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), José Ricardo Caixeta conhece o agronegócio também do outro lado do balcão. Com especializações em Gestão do Agronegócio e Bovinocultura Leiteira, ele atuou no setor privado, no Senar Goiás e no Sindicato Rural de Anápolis antes de ingressar na administração pública.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Caixeta traça um panorama dos avanços e desafios do agro goiano, da defesa sanitária à abertura de mercados internacionais. Segundo ele, Goiás tem hoje quase 150 países como destino de suas exportações. “Ainda temos alguns mercados nos quais podemos avançar”, afirma.

Produtor rural, Caixeta também relata ter vivido, em governos anteriores, na própria pele a insegurança no campo. Segundo ele, sua propriedade e as de vizinhos foram alvo de assaltos e que alguns chegaram a ser sequestrados. “Esse tempo passou. Hoje, os produtores têm mais segurança e confiança para voltar a morar na fazenda”, ressalta.

Na conversa, o presidente da Agrodefesa também aborda o avanço dos bioinsumos, a expansão da fruticultura, o potencial agrícola do Vão do Paranã, os desafios sanitários de novas culturas e a importância da pecuária leiteira para Goiás.

Ton Paulo – O senhor hoje está à frente da Agrodefesa, que é um órgão muito importante em Goiás no que diz respeito à agricultura e ao agronegócio. Uma reportagem que publicamos recentemente mostrou que os produtores de soja estavam muito apreensivos justamente por causa do fenômeno do Super El Niño e que há uma movimentação da Agrodefesa para antecipar em alguns dias o fim do vazio sanitário. Como está essa situação? De que forma a Agrodefesa está orientando os produtores e acolhendo essas preocupações?

Nós recebemos uma demanda do setor produtivo, por meio da Aprosoja Goiás e da Federação da Agricultura do Estado, solicitando uma antecipação do prazo de plantio da soja.

Em Goiás, nós adotamos um vazio sanitário de 90 dias entre as safras. Esse vazio sanitário serve para que possamos controlar as pragas, principalmente a ferrugem asiática.

Ou seja, durante um intervalo de 90 dias, nenhuma planta de soja pode permanecer no campo. Quando começa o vazio sanitário, no final de junho, por volta dos dias 25 ou 26, dependendo do ano, todo produtor precisa, obrigatoriamente, ir às suas áreas e destruir qualquer resíduo de planta.

Nós temos agora, com essa antecipação, uma janela de plantio que vai do dia 20 de setembro até o dia 2 de janeiro. Em seguida, vem a maturação e a colheita.

Mas pode acontecer de ficar algum resíduo de grãos e esse grão germinar. Se isso ocorrer e essa planta permanecer no solo, ela pode servir de reservatório para o fungo ou para outras doenças. Essa destruição, esse vazio, serve para que possamos quebrar o ciclo desses micro-organismos e ter um desafio menor na próxima safra, tornando-a um pouco mais sustentável e produtiva.

Ao longo dos anos, a nossa produtividade tem apresentado um incremento considerável. Esse resultado é importante para o produtor rural, para a sociedade e para o Estado de forma geral, por vários motivos.

Primeiro, porque a nossa produção vem aumentando a cada ano. Segundo, porque uma safra com um desafio menor também necessita de menos defensivos químicos, menos defensivos agrícolas para o controle das pragas. De certa forma, são ferramentas tecnológicas de defesa agropecuária.

Eu considero essas ações de controle fitossanitário uma tecnologia. Nesse sentido, nós consultamos a nossa base técnica antes da tomada de decisão e avaliamos o histórico das últimas safras.

Nós tivemos baixíssimas ocorrências de notificações e consideramos que encurtar o vazio sanitário em cinco dias seria uma decisão segura, que não acarretaria riscos para a safra 2026/2027.

Também consultamos alguns especialistas. Ouvimos a Embrapa e dois professores especialistas, e todos foram favoráveis à medida.

A nossa safra é bastante sustentável. Agora, qual foi a motivação dessa provocação do setor produtivo? É exatamente esse El Niño.

É um El Niño que meteorologistas e climatologistas têm apontado como de alta intensidade e que pode trazer anomalias pluviométricas. Os produtores observam que, como já ocorreu uma antecipação das chuvas agora em setembro, algumas regiões já têm umidade suficiente para o plantio. Por outro lado, há indicadores de que, mais à frente, pode faltar chuva, principalmente em novembro e dezembro.

Com uma antecipação do plantio, a soja estará em uma fase mais avançada, a planta estará mais resistente e mais enraizada. Assim, caso haja esse veranico, essa inconsistência pluviométrica nesse período, o prejuízo poderá ser menor.

Por outro lado, também garantimos uma janela favorável, ideal, para o plantio da segunda safra para os produtores que conseguirem antecipar. Não serão todos. Na verdade, será uma parcela pequena, porque, em parte do Estado, a chuva chegou, mas ainda não se consolidou.

João Paulo Alexandre – Presidente, Goiás sempre é uma referência quando falamos de cuidados com os nossos rebanhos, sejam bovinos, suínos, entre outros. Imagino, porém, que essa vigilância ocorra durante todo o ano. Gostaria de entender se existe algum tipo de doença que tem chamado a atenção da Agrodefesa e qual região do Estado tem sido monitorada de maneira constante.

Todas as cadeias produtivas de Goiás, tanto na área vegetal quanto na área animal, são monitoradas e possuem programas dentro da Agrodefesa, com ações de vigilância e controle sanitário.

Na bovinocultura, por exemplo, temos um caso de sucesso: o programa de erradicação da febre aftosa. Ao longo de décadas, foi realizada a vacinação, sempre com a adesão dos produtores às campanhas, até que, em 2022, Goiás pôde retirar a vacina. Nós tivemos a autorização do Ministério da Agricultura para suspender a vacinação.

No ano passado, veio o reconhecimento internacional pela OMSA [Organização Mundial da Saúde Animal] como zona livre de febre aftosa sem vacinação. Isso eleva o status não apenas de Goiás, mas também do Brasil, em relação à qualidade da carne e à expansão de mercados.

Com isso, ampliamos os nossos mercados. Também enfrentamos alguns problemas comerciais, principalmente agora com a Europa. São duas exigências impostas ao Brasil, nas quais Goiás também está inserido, e estamos trabalhando para reverter essa situação.

Inclusive, os protocolos para avicultura e para abelhas já foram aceitos pela área técnica. No entanto, o Parlamento ainda manteve o veto para essas duas proteínas. Nós já apresentamos também os protocolos para bovinocultura e suinocultura e agora vamos trabalhar essa questão.

Para o frango e o mel, já temos a produção pronta para atender às exigências deles, livre de uma série de antimicrobianos, principalmente os promotores de crescimento. A bovinocultura demanda um tempo maior, porque o ciclo é mais longo, de 24 a 30 meses. Já estamos começando a trabalhar nisso também para que possamos atender às exigências. Em todas as cadeias, nós temos programas sanitários.

Ton Paulo – Existe uma tendência, e até uma certa pressão internacional, para a substituição dos defensivos agrícolas químicos pelos bioinsumos. Em Goiás, existe alguma parceria com a Secretaria do Meio Ambiente para acompanhar, junto aos produtores, o uso desses componentes?

Goiás é pioneiro na legislação, e a nossa legislação, inclusive, pautou a legislação do Ministério da Agricultura. O Ministério da Agricultura lançou agora uma lei para regulamentar a implementação, a produção, a distribuição e a utilização de bioinsumos. Os defensivos agrícolas são necessários, tanto os químicos quanto os biológicos.

Os biológicos são uma tecnologia nova, e o aumento da utilização dos bioinsumos em Goiás é da ordem de 80% ao ano. Enquanto o crescimento dos químicos ocorre em uma escala muito menor, o aumento da utilização e da implementação dos bioinsumos é oito vezes maior. Então, a substituição está sendo gradual.

Hoje, não sei o número exato, mas nós chegamos, na safra 2024/2025, a uma proporção de 3 para 7, três de biológicos para sete de químicos. A tendência, segundo o setor, é chegarmos agora, em 2026/2027, a seis de biológicos para quatro de químicos. Não sei se isso vai se consolidar.

Isso vai depender muito do comportamento climático, porque as pragas também dependem das condições climáticas e de fatores naturais. Nós temos produtos biológicos hoje que têm funcionado e apresentado uma ação tão boa quanto ou até melhor do que a dos químicos. Já temos casos assim, mas não são todos. Depende muito da praga e das condições.

O que temos hoje é um incentivo à utilização. É um setor que cresce muito acima dos químicos, em uma proporção de oito para um.

Goiás é pioneiro na legislação, e a nossa legislação, inclusive, pautou a legislação do Ministério da Agricultura, afirma Caixeta | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – Em relação ao Vale do Araguaia, publicamos uma reportagem falando sobre os desafios da região e também do Vão do Paranã. Queria ouvir do senhor como enxerga essas duas novas fronteiras agrícolas do Estado, até mesmo considerando as diferentes formas de plantio e as culturas que podem ser desenvolvidas nessas regiões.

Eu conheço as duas regiões. O Vale do Araguaia sempre teve uma tradição na bovinocultura, principalmente na bovinocultura extensiva. Já o Nordeste Goiano foi uma região esquecida por décadas. Eu vim para o setor público em 2019, na gestão do governador Caiado, em minha primeira experiência na administração pública.

Eu estava na Secretaria da Agricultura e tínhamos como responsabilidade aquele projeto de irrigação do Vão do Paranã. Na verdade, não havia propriamente um projeto de irrigação. Havia duas barragens subutilizadas e uma área de aproximadamente 10 a 12 hectares destinada somente à produção de arroz.

Então, buscamos explorar melhor essa estrutura, que havia recebido um investimento gigantesco do Estado e estava esquecida, inclusive com risco de rompimento das barragens. Trabalhamos na recuperação dessas barragens, um processo que ainda está em andamento, embora a principal já tenha sido concluída. Na época, também fizemos, em parceria com a Codevasf, dois estudos de viabilidade.

Foi quando se identificou o potencial da região em razão de suas características naturais. É uma região onde chove menos, mais seca e muito propícia, inclusive, para a produção de frutas. Hoje, há um projeto de fruticultura sendo implementado, aproveitando o investimento que já havia sido feito para o acúmulo e a reservação de água.

Agora, está sendo feita a distribuição dessa água para os pequenos produtores. É uma região que, no passado, recebeu muitos assentamentos e que concentra o maior número deles no Estado de Goiás.

Flores de Goiás, por exemplo, tem, se não me engano, 26 ou 27 assentamentos. São aproximadamente 2,5 mil a 2,8 mil famílias assentadas. Quando fui conhecer a região, em 2019, aquelas famílias não tinham estrada, ponte ou energia elétrica. Eram produtores que estavam esquecidos e sem perspectiva produtiva.

A proposta da fruticultura se encaixou no perfil produtivo das pessoas que já estavam assentadas e também nas características climáticas e do solo da região. São solos extremamente férteis, mas é uma região onde chove pouco. Isso pode ser ruim para algumas culturas, mas, para outras, são condições muito favoráveis. Podemos citar como exemplo a fruticultura na região de Petrolina e Juazeiro, que se tornou um fantástico polo exportador de frutas.

Inclusive, fizemos uma missão e levamos alguns produtores para conhecer aquela região, para que pudessem ver que aquilo que é desenvolvido no Nordeste do Brasil também poderia ser feito no Nordeste Goiano. O projeto está em andamento.

Também temos ali a produção de arroz. Goiás hoje importa mais da metade do arroz que consome. Se não me engano, importamos quase 70%. A região tem um perfil muito adequado para o cultivo do arroz. Temos de 12 mil a 13 mil hectares de área irrigada, com sistema de alagamento do arroz, utilizando aquela técnica tradicional.

A fruticultura, aproveitando a estrutura fundiária que já estava estabelecida, também é muito adequada para a região. Além disso, a pecuária tem avançado e até mesmo a produção de grãos já vem crescendo em áreas irrigadas.

Fruticultura, aproveitando a estrutura fundiária que já estava estabelecida, também é muito adequada para a região, diz Caixeta sobre novas fronteiras agrícolas | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção

Ton Paulo – No final de março, quando o governador Daniel Vilela escolheu Ademar Leal para a Secretaria da Agricultura, houve muitos elogios ao nome dele. Falou-se na época que Leal poderia intensificar o diálogo do governo com o agro. Isso aconteceu?

O diálogo sempre foi aberto com o setor produtivo. E o Ademar é um representante desse setor. Ele é produtor rural, empresário do ramo do agronegócio e muito conhecido dentro e fora do Estado. Não tenho dúvida de que contribuiu muito para essa união e para melhorar esse relacionamento.

O relacionamento sempre existiu e sempre foi bom, mas, em alguns momentos, é preciso trazer novas perspectivas e renovar. E o Ademar cumpriu esse papel. É uma pessoa que, desde o início, foi muito elogiada, e o trabalho dele também vem recebendo muitos elogios.

Ademar Leal está à frente da Secretaria da Agricultura do Estado | Foto: Samuel Oliveira/Jornal Opção

Os resultados aparecem não apenas na parte de relacionamento, mas também na área técnica, à qual ele tem dado continuidade. O Pedro Leonardo fez um trabalho muito bom no último mandato do governador Caiado e continua na Secretaria como subsecretário.

Pedro Leonardo esteve à frente da Seapa | Foto: divulgação

Os dois têm formado um time que realmente melhorou muito a Secretaria, uma estrutura que cuida de toda a área do agronegócio no governo e à qual estão jurisdicionadas a Emater, a Ceasa e a Agrodefesa. E o Daniel é uma pessoa que olha para o agronegócio com muita expectativa, porque o setor é a locomotiva socioeconômica do nosso Estado. Direta e indiretamente, quase 70% do PIB goiano está ligado ao agronegócio. Diretamente, representa pouco mais de 40%, e, de forma indireta, são outros quase 30%.

Isso mostra a importância do agro para Goiás e também da nossa atuação na defesa agropecuária. Cuidar da parte sanitária e dos protocolos sanitários é fundamental para os acordos comerciais. Sempre que surge uma questão mercadológica, os aspectos sanitários são discutidos e incorporados a esses acordos.

Citamos recentemente a questão dos antimicrobianos. É um novo desafio para nós retirar todas aquelas moléculas que têm relação com a linha humana, principalmente os promotores de crescimento. Mas temos tecnologia suficiente disponível no mercado para qualificar a produção.

A discussão com o Ademar é de muito alto nível porque, além de produtor, ele também é técnico. É um profissional da área de nutrição e conhece muito o assunto, e o foco principal dessa legislação é justamente a parte nutricional. Então, o Ademar se encaixou muito bem na função que desempenha dentro do Governo do Estado.

Ton Paulo – O senhor integra a chapa da Faeg que deve ser referendada em novembro, para a nova gestão. Presidente por vários mandatos da entidade, José Mário Schreiner coordena, hoje, a campanha de Daniel Vilela à reeleição. Qual foi, na sua visão, o papel da Faeg ao longo desses anos para o desenvolvimento do agro em Goiás?

A Federação da Agricultura, ao longo dos governos, sempre teve uma participação muito efetiva na gestão das políticas agrícolas do Estado. As principais discussões sempre passaram pela Faeg. Isso ocorreu nos últimos cinco ou seis mandatos e, neste governo, ainda mais.

Como o governador Caiado é uma pessoa ligada ao agro e sempre foi parceiro da Faeg, a entidade foi muito ouvida. A Faeg ajudou nas indicações, nas articulações e nas sugestões, sempre com um viés muito técnico e olhando para aquilo que é importante para o agronegócio. E o Zé Mário é uma liderança indiscutível do agro goiano. Talvez seja hoje a maior liderança do agro dentro do Estado e uma das maiores do Brasil. Ele cumpriu um mandato e teve um papel fundamental dentro da Frente Parlamentar da Agropecuária, além de atuar como vice-presidente da CNA. Hoje, desempenha esse papel de embaixador do agro dentro dessa estrutura de governo.

O nome do Zé Mário sempre foi colocado para diferentes funções no Estado, tanto como líder classista quanto como político. O que posso dizer é que a Faeg tem esse papel de protagonismo. Isso também ocorreu nas discussões na área de infraestrutura, a partir de todo o levantamento realizado no início do governo Caiado.

Zé Mário é uma liderança indiscutível do agro goiano, diz Caixeta | Foto: divulgação

Havia uma situação que exigia recuperação e investimentos na infraestrutura viária. Muitas regiões estavam isoladas. O Nordeste Goiano, por exemplo, era praticamente intransitável durante o período chuvoso.

Havia pessoas que, quando começavam as chuvas, ficavam 30, 40 ou 50 dias isoladas. E nós não tínhamos sequer projetos. A Faeg, junto com o Fundepec, viabilizou muitos projetos técnicos, porque existe um protocolo legal a ser cumprido para a execução dessas obras e a demora para a contratação de um projeto executivo era muito grande.

Então, a Faeg tomou a frente e elaborou esses projetos executivos, com o apoio do Fundepec e de outras entidades, e os entregou ao governo. Muitas dessas obras já estão prontas e outras estão em andamento. Quando veio o Fundeinfra, a Faeg também passou a integrar e coordenar o conselho do fundo.

Os recursos arrecadados por meio da contribuição dos produtores estão sendo executados e revertidos na melhoria das condições de produção dentro do Estado de Goiás. Os resultados já estão chegando, e o produtor tem percebido isso.

Tudo isso pode ser confirmado pelos números da produção e do agronegócio goiano. A cada ano, temos um incremento tanto na produção quanto no Valor Bruto da Produção.

Goiás tem crescido acima da média nacional, e isso é resultado de toda essa estrutura que foi montada.

João Paulo Alexandre – Estamos em ano eleitoral e, como o senhor já adiantou, 70% do PIB goiano, de maneira direta ou indireta, está relacionado ao agronegócio. Portanto, é um segmento que tem muito peso. O senhor conhece o Estado pelas suas andanças e eu gostaria de saber o que tem ouvido dos produtores. Divido a pergunta em duas partes: quais são as principais demandas, considerando que sabemos que ainda há algumas questões a serem solucionadas? E quais candidatos ao governo têm se mostrado mais abertos a esse diálogo?

Nós ouvimos muito os produtores. Estou diariamente e constantemente em contato com eles, porque também sou produtor. Vim desse meio, participo da vida sindical desde criança e sou produtor rural.

Meu pai foi produtor e meu avô também. Então, temos uma relação muito próxima com o setor. As demandas sempre estiveram voltadas para questões de infraestrutura, comunicação e segurança pública. Se voltarmos alguns anos, por exemplo, eu mesmo sofri com assaltos em minha propriedade, em Anápolis.

A maioria dos meus vizinhos também foi assaltada. Alguns, inclusive, foram sequestrados. Esse tempo passou. Hoje, os produtores têm mais segurança e confiança para voltar a morar na fazenda. Na minha região, ninguém morava mais na propriedade. As pessoas iam trabalhar durante o dia e voltavam para a cidade para dormir.

Era o que acontecia comigo, com a minha família e com os meus vizinhos. Então, a melhora na segurança pública ajuda muito, porque agora podemos voltar àquilo que realmente é o nosso foco, que é produzir.

E produzir da melhor forma possível. A infraestrutura também tem avançado. Sou produtor de frangos, por exemplo, integrado a uma agroindústria aqui próxima. Mais de uma vez, perdi toda a minha produção por problemas no fornecimento de energia.

Sofríamos muito com isso. A energia acabava e não havia manutenção adequada. Hoje, as interrupções são muito pontuais e, quando acontecem, duram pouco tempo. Portanto, os problemas estruturais estão diminuindo. Ainda não estamos no cenário ideal e precisamos avançar muito.

Também temos as questões relacionadas à tecnologia, à transferência de conhecimento, à capacitação e à mão de obra para o campo.

Esse é um papel do Sistema S, por exemplo. O Senar atende muito bem a essa demanda, em parceria com o Estado. Também temos a Emater, que trabalha com assistência técnica.

Então, o campo tem melhorado. Se analisarmos a evolução do agronegócio nos últimos 20 anos, tudo isso que estou dizendo pode ser medido em números. Não se trata apenas de discurso. São fatos concretos, que também têm sido apontados pelos produtores.

“A maioria dos meus vizinhos também foi assaltada. Alguns, inclusive, foram sequestrados. Esse tempo passou”: Caixeta fala sobre segurança no campo | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção

Ton Paulo – Ainda quando era vice, o hoje governador Daniel Vilela liderou missões internacionais em busca da criação ou fortalecimento de laços comerciais com outros países. No segmento da agropecuária e da agricultura, para além dos países que já mantemos parcerias comerciais fortes, como a China, quais outros estão no radar como potenciais parceiros comerciais?

Nós temos hoje mais de uma centena, quase 150 países como destino das nossas exportações de diversos produtos, desde soja, açúcar e café até proteína animal. Cristalina, por exemplo, é uma referência na produção de café de qualidade.

Ainda temos alguns mercados nos quais podemos avançar. O Japão, por exemplo, ainda não habilitou o Brasil para a exportação de proteína bovina, mas é um importante parceiro comercial para a proteína de frango.

O México já abriu o mercado e nós exportamos muito para o país, principalmente carne bovina, além de, em menor volume, grãos e, se não me engano, açúcar e etanol. Isso ocorre em um momento em que há uma crise no fornecimento de gado terminado nos Estados Unidos.

Os Estados Unidos são um mercado muito importante e possuem hoje o menor rebanho de sua história. Ou seja, estão comprando muita carne bovina.

A política do Trump oscila muito. Em um momento há aumento de tarifas e, em outro, redução. Agora, houve uma redução da nossa taxação por 90 dias e estamos exportando muita proteína.

Isso é positivo para a pecuária porque, no caso da China, estamos atualmente fora do mercado em razão da cota imposta ao Brasil, de 1,16 milhão de toneladas, que já esgotamos neste ano. No próximo ano, devemos ter um incremento, mas temos informações extraoficiais de que a China pode reabrir o mercado ainda neste ano, antecipando a cota de 2027.

João Paulo Alexandre – O senhor falou da questão do café e de algumas outras culturas. Eu fiz até uma matéria em relação a isso e queria saber se, quando falamos em defesa sanitária, há alguma cultura nova que tenha se tornado um desafio para vocês.

A fruticultura. São Paulo sempre teve um papel de destaque. Na verdade, o greening surgiu na Califórnia e depois chegou a São Paulo. São Paulo é um grande player mundial na produção de laranja, de suco de laranja e na exportação desse produto. O Brasil é, até hoje, o maior exportador de suco de laranja, mas o HLB, o greening, atingiu os laranjais. Com isso, a citricultura começou a migrar para Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná.

Agora, a citricultura chegou a Goiás e o greening também. Então, esse é um dos nossos desafios. Também vejo muito potencial na produção de uva. Estamos começando a ter pequenas produções e vinícolas, além de uma atividade muito ligada ao turismo, o enoturismo, que está crescendo bastante.

Nós temos hoje vinhos reconhecidos internacionalmente. Temos duas vinícolas no Vale do São Patrício com vinhos premiados em importantes eventos e competições na Europa. Também temos vinícolas de referência na região da Serra dos Pireneus, em Pirenópolis, Corumbá e Cocalzinho.

Recentemente, tivemos no Distrito Federal um caso de cancro da videira. Estamos trabalhando em conjunto com o Distrito Federal, com o qual temos uma parceria muito forte e um acordo de cooperação. Estamos atuando para erradicar e conter esse foco, evitando que se espalhe para as áreas de Goiás e também para outras regiões do próprio Distrito Federal, que já possui algumas áreas de produção de vinho.

A banana também tem um grande potencial de crescimento em Goiás. É a fruta mais consumida no mundo e também no Brasil. Goiás ainda ocupa uma posição aquém de seu potencial. Somos o oitavo ou o nono maior produtor do país e podemos avançar muito. São atividades bastante adequadas ao perfil dos pequenos e médios produtores e da agricultura familiar.

É um potencial que Goiás ainda pode explorar e que pode agregar muito econômica e socialmente. Quando se leva oportunidade ao produtor, ele consegue se desenvolver e se consolidar no campo, assim como sua família. Com isso, também reduzimos a pressão demográfica sobre os grandes centros.

Temos o caso do Vão do Paranã, com grande potencial para a produção de frutas. Naturalmente, à medida que a atividade começa a crescer e ganhar volume, as pragas também começam a aparecer. Nossas equipes estão muito atentas aos riscos inerentes ao desenvolvimento dessas atividades. Assim que aparecem os primeiros sinais de alguma praga nova, iniciamos o acompanhamento.

Também temos a vassoura-de-bruxa da mandioca, que citei anteriormente. Nosso desafio é mantê-la restrita à região Norte. Mas esse não é um desafio apenas da Agrodefesa. Trata-se de uma força-tarefa nacional porque, além de atingir a mandioca, existe o risco de a praga migrar para outras culturas.

Eu gostaria, por fim, de citar a importância da pecuária leiteira para o Estado. É uma atividade que emprega muito e movimenta muitas pessoas ao longo da cadeia. Apesar de não sermos exportadores, temos uma produção significativa, que abastece o mercado interno e desempenha um papel social muito importante.

Temos alguns desafios, principalmente relacionados ao controle da brucelose e da tuberculose. Goiás tem trabalhado para reforçar esse programa, e nós melhoramos muito os nossos resultados.

Nos últimos três anos, avançamos bastante. Existe um mapa do Ministério da Agricultura e, em 2022, estávamos em uma posição muito ruim. Hoje, já estamos em uma situação bastante favorável e caminhando para alcançar 90% de vacinação. Estávamos na faixa dos 60%, o que era um resultado preocupante.

Com as mudanças no programa e o reforço das ações, principalmente na área de educação sanitária, conseguimos reverter esse resultado e estamos caminhando para que a brucelose seja, de fato, controlada em Goiás.

Também gostaria de destacar a parte tecnológica da Agrodefesa. A agência é referência em tecnologia. Desenvolvemos um sistema há mais de dez anos, criado dentro da própria Agrodefesa pelos técnicos da instituição, que é o Sidago. Esse sistema já foi exportado para mais de 17 estados.

Hoje, 100% da defesa agropecuária do Estado de Goiás passa pelo sistema. E não apenas a defesa agropecuária. Talvez o Sidago seja atualmente o maior banco de dados da agropecuária goiana, porque todo o rebanho está cadastrado nele, assim como as principais culturas.

Para o produtor realizar uma movimentação, por exemplo, seja de animais, seja de alguma carga vegetal ou de mudas, tudo precisa ser acompanhado pela Agrodefesa mediante documentação. Até os atestados sanitários são emitidos pelo Sidago.

Presidente da Agrodefesa em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Rosi Campos/Jornal Opção