A menos de duas semanas das eleições de 2026, as campanhas entram na reta decisiva num cenário de polarização e disputa por atenção nas redes sociais e por estratégias para conquistar um eleitor cada vez menos interessado nas fórmulas tradicionais da política.

Para o cientista político Guilherme Carvalho, entender esse ambiente exige ir além da fotografia apresentada por uma pesquisa isolada e observar o “filme completo” da disputa.

Em entrevista ao Jornal Opção, Carvalho analisa os movimentos dos principais candidatos ao Governo de Goiás, avalia as dificuldades enfrentadas por Wilder Morais (PL), a estratégia de Marconi Perillo (PSDB) e a aposta de Daniel Vilela (MDB) na continuidade da atual gestão. Também aborda a disputa pelo legado político de Iris Rezende e os caminhos escolhidos por Ana Paula Rezende (PL).

No cenário nacional, o cientista discute as transformações ocorridas nas campanhas nas últimas duas décadas, o peso das redes sociais, a polarização afetiva e o futuro do petismo e do bolsonarismo.

Para ele, o eleitor passou a estabelecer uma relação muito mais emocional com determinados grupos políticos, enquanto as campanhas ainda insistem em fórmulas ultrapassadas. Na reta final da conversa, Guilherme aponta outro tema que, em sua avaliação, deveria receber maior atenção dos presidenciáveis: a situação fiscal do País.

Ton Paulo – Olhando para os quatro nomes que estão na disputa pelo Governo de Goiás — Daniel Vilela (MDB), Wilder Morais (PL), Marconi Perillo (PSDB) e Luis Cesar Bueno (PT) —, quem chega ao dia 4 de outubro com mais força, na sua análise?

Acho que a gente tem que olhar sempre para o agregado. Se pararmos para olhar apenas para a pesquisa do momento, vamos ler somente a foto. Precisamos olhar para o agregado, que é o filme completo. Nada indica que Wilder Morais esteja apontando para um crescimento. Ele aponta para uma estagnação, e percebemos isso no movimento e na própria falta de engajamento nas ruas.

Quando olhamos para o 7 de Setembro, lembro de anos atrás, quando o bolsonarismo estava agitando a data em todas as capitais, inclusive em Goiânia. No 7 de Setembro deste ano, fiquei pensando: “Gente, ninguém me ligou. Não conversei com ninguém no dia”. Pensei: “Será que não tem ninguém em redação? Não tem nada acontecendo?”. Conversei com políticos que participaram, e foi algo muito pacífico. Foi morno.

Acho que isso se explica, em certo sentido, por um movimento nacional de falta de mobilização. A ausência de um personagem carismático central — e o bolsonarismo é um movimento carismático — tem deixado o movimento muito estanque. Isso mostra que a campanha de Wilder Morais não está sendo potencializada nas franjas. Como não está sendo potencializada pela militância, e o candidato também não é exatamente um personagem carismático, você acaba tendo uma situação em que os outros dois estão jogando razoavelmente parados.

O que temos em Wilder Morais é um candidato amorfo, que não faz sinalização para um campo nem para o outro

Marconi Perillo se senta sobre o recall que tem e, ao mesmo tempo, olha para o teto dele e percebe que existe um limite que não consegue ultrapassar. Na minha visão, Marconi tem um plano para o primeiro turno, mas não tem um plano para o segundo turno. Acho que isso é evidente.

Em uma disputa majoritária, vence quem tem uma rejeição menor, e a rejeição dele é muito alta. Marconi não tem estrutura nem palanque. Ele seria o governador entre aqueles que já foram alguma coisa e não arrumaram espaço no governo.

Percebemos que Daniel Vilela (MDB) cresce à medida que os eleitores vão tomando a decisão de votar. Não é uma eleição que empolga. Daniel vai crescendo meio que como consequência de o eleitor tomar consciência de que a eleição está acontecendo: “Quem são os candidatos?”.

IMG_5501
“A ausência de um personagem carismático central — e o bolsonarismo é um movimento carismático — tem deixado o movimento muito estanque” | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Podemos perceber isso no consolidado. Ele vai crescendo pouco, mas tem um potencial muito maior de crescimento porque sua rejeição é menor do que a de todos os outros.

É uma campanha morna. Daniel joga parado e tem a felicidade de que seus adversários são, de um lado, um personagem muito estanque, que não tem um perfil de liderança para disputar o cargo que está disputando, e, do outro, um líder muito rejeitado, fazendo uma campanha de muito rancor.

João Paulo Alexandre – Essa menor mobilização do bolsonarismo é consequência da prisão de Jair Bolsonaro e da ausência de um sucessor com a mesma força ou pode ser uma estratégia da direita para dialogar com um público que não está no espectro do bolsonarismo mais radical?

Acho que o espectro do bolsonarismo raiz é o que dá relevância para o bolsonarismo ser como ele é. Ele precisa disso, ainda mais em um estado onde fica confortável com essa posição. É claro que, quando olhamos para Goiânia, temos uma população urbana com um perfil mais diverso. Mas, no interior, é um perfil muito facilmente agrupável. Você consegue construir grupos com facilidade.

Mas veja: Wilder está perdendo o apoio de gente que é do PL, inclusive de prefeitos importantes do partido. E ele não perde porque está sendo um cara mais ameno. O prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, faz essa mise-en-scène: é um cara mais ameno, mas, ao mesmo tempo, flerta com o bolsonarismo o tempo inteiro. Esse é o arquétipo que Wilder Morais deveria estar seguindo, mas ele enfrenta outro problema: não é nem uma coisa nem outra.

Ouvi algo interessante recentemente: você não consegue falar com Wilder. Ninguém consegue falar com ele e, quando consegue, é um grupo muito pequeno. Está muito sitiado.

Como uma pessoa que não transita no meio das pessoas pode demonstrar um passo ameno ou um passo radical? O que está acontecendo é não ter passo nenhum, não ter discurso para ninguém.

Ton Paulo – Esse muro de comunicação também atrapalha Wilder Morais no jogo político?

Totalmente. Passa um recado para a elite política: “Se eu sentar lá, não vou receber qualquer um, não vou atender à imprensa, não vou atender aliados”. O que ouvi de gente do PL é que nem deputado com mandato está conseguindo ser recebido por ele. Como você vai governar o Estado dessa forma?

Fazendo um paralelo, eu, que trabalho no ramo, posso dizer o seguinte: você pode não conseguir uma agenda com Daniel Vilela a qualquer hora, mas ele pede para o secretário da Casa Civil te atender. O interlocutor vai ouvir o empresário, ouvir a demanda e dar um direcionamento, porque é isso que um governante faz. É assim que você faz uma sinalização para a base.

Era para Wilder Morais ter esse perfil. Acho que vocês vão se lembrar de conversas que tivemos no ano passado e neste ano. Ele não faz sinalização nenhuma para ninguém.

IMG_5458
“tem um perfil mais de PL centrão, algo como Valdemar Costa Neto. Mas nem isso conseguimos ver. O que temos é um candidato amorfo” | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Eu acreditava que ele seria uma pedra no sapato de Daniel porque achava que teria potencial para radicalizar. Algumas pessoas falavam para mim: “Você está doido? É o Wilder”. E eu dizia: “Pois é, mas é o Wilder, é do Bolsonaro”.

Até que parei para pensar: “Eu nunca ouvi Wilder falar. Será que ele tem mesmo esse potencial de radicalizar?”. Não. Ele tem um perfil mais de PL centrão, algo como Valdemar Costa Neto. Mas nem isso conseguimos ver. O que temos é um candidato amorfo, que não faz sinalização para um campo nem para o outro.

João Paulo Alexandre – Muitas pessoas, inclusive, afirmam que Wilder Morais não é um bolsonarista raiz, além de notarmos que ele patina muito nas palavras. Quero introduzir na nossa conversa o tema do marketing político: qual é o peso de trazer profissionais de marketing de fora para cuidar da campanha de alguém que precisa ganhar visibilidade em Goiás? O desconhecimento da realidade local pode dificultar a comunicação com o eleitor?

Demais. O problema é estrutural e também é um vício de campanha. O que acontece com muitos candidatos? Eles falam: “Preciso de um marqueteiro e de um coordenador de campanha”. E, por vezes, chamam o cara para fazer tudo. É o “marqueteiro Bombril”, mil e uma utilidades. Serve para tudo.

Isso reverbera nos próprios planos de governo. Fazer plano de governo, pensar em logística ou organizar cabos eleitorais não devem ser funções de marqueteiro. Campanha funciona como uma empresa provisória. Vai funcionar por um mês e meio, mas com definições de papéis muito bem separadas.

O segundo ponto é que os caras não estudam. Não veem o que existe de atualidade. A Alemanha encerrou eleições regionais recentemente. Você vai perguntar quais são os métodos utilizados nas campanhas de lá e, aqui, ninguém sabe falar nada, porque os caras não estudam, não conhecem as experiências comparadas.

Daniel vai tentando imprimir as próprias marcas dentro das marcas de Ronaldo Caiado

Marqueteiro aqui ainda está achando que rede social é novidade. Estamos falando de eleitor sintético. A eleição nos Estados Unidos neste ano, as midterms, vai ser um laboratório para nós que estudamos, para vermos quais práticas novas estão sendo utilizadas.

Graças a Deus, não mexo com campanha, mas fico assustado quando converso com marqueteiro e vejo o cara falando sempre das mesmas receitas. O eleitor começa a falar: “Nossa, essa campanha está parada”. Por quê? Porque recebe, em toda eleição, a mesma receita, as mesmas musiquinhas, a mesma dancinha, a mesma coisa. Tráfego pago era uma novidade em 2018 e é tratado dessa forma ainda hoje.

Então, temos um primeiro problema, que é o “marqueteiro Bombril”. O segundo é uma campanha que não é pensada e é feita a toque de caixa. Isso se desdobra no terceiro problema, que entra justamente no que você está dizendo.

Vou dar um exemplo do Marcelo Vitorino [marqueteiro de Wilder Morais]. Ele já coordenou várias campanhas em Goiás, inclusive aqui na capital, e ainda tem um problema para entender o Estado. E o que eu ouço de pessoas do meio de campanha política é que ele replica a mesma fórmula em todo lugar por onde passa.

Eu acho que o profissional não necessariamente precisa ser daqui. Mas precisa saber estudar. Precisa ter pesquisa qualitativa rodando o tempo inteiro para entender públicos diferentes, fazer segmentação.

IMG_5508
Cientista político Guilherme Carvalho, em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Você tem muito dinheiro para fazer campanha. Em uma campanha como a do PL, a do governo e também a do PT, existe muito dinheiro. Mas os candidatos a deputado não estão recebendo as verbas dos partidos. O pessoal do PL está surtando. Não estão investindo na estrutura da campanha e estão esperando que o eleitor se empolgue.

Não vai se empolgar porque a mensagem ainda é a mesma, enquanto as outras mensagens que as pessoas recebem nas redes sociais são muito mais dinâmicas. É por isso que a política é desinteressante para as pessoas. É por isso que elas vão para a urna desinteressadas, não querem votar ou querem se abster.

Enquanto os candidatos continuarem contratando marqueteiros simplesmente porque “fulano fez a campanha de beltrano em 2000 e não sei quanto”, sem projeto de campanha, sem deixar claro qual é o mote, o que será aplicado, qual será o arquétipo, que tipo de pesquisa será feita e quais tecnologias novas serão utilizadas, vamos continuar tendo as mesmas campanhas medíocres que estamos assistindo agora.

Ton Paulo – Voltando à eleição regional: até que ponto o eleitor vincula o voto regional ao nacional? Lula da Silva (PT) lidera nacionalmente, mas o candidato ligado a ele aparece em quarto lugar em Goiás. Flávio Bolsonaro (PL) está em segundo nacionalmente, enquanto seu candidato em Goiás também não lidera. Até que ponto o eleitor faz essa ligação?

Cada contexto é um contexto. O eleitor não deriva seu voto das mesmas preferências nos diferentes pleitos. Sabemos, por exemplo, que tivemos um alto cruzamento de votos entre Lula da Silva e Ronaldo Caiado na eleição passada.

Quanto mais local é a eleição, mais o eleitor percebe sua vida acontecendo naquela dinâmica. Em uma eleição para Prefeitura e Câmara, ele se sente partícipe. É algo meio paroquial: minha cidade, meu bairro. Ele dá muito valor porque sabe que aquilo mexe diretamente com a vida dele.

Na eleição nacional, a dinâmica é ideológica. Pode ser um pouco paroquial também, dependendo dos benefícios que a pessoa recebe, mas, hoje, os benefícios existentes no Brasil estão sendo incorporados às plataformas de todos. Não é mais aquilo que tínhamos em 2006, por exemplo, quando Geraldo Alckmin falava em acabar com o Bolsa Família. Nenhum candidato falaria isso hoje no Brasil porque isso já está razoavelmente dado.

Quando os candidatos colam suas plataformas lá em cima, o eleitor decide com base em preferências ideológicas. No nível mais próximo, ele faz uma avaliação que chamamos de avaliação econômica do voto.

Marconi Perillo fala como uma pessoa rancorosa, como alguém que quer voltar a um momento que não existe mais

É por isso que, nacionalmente, temos a tendência de assistir ao eleitor votando para eliminar aquele de quem gosta menos. É uma refutação ideológica.

Nesse sentido, acredito seguramente que o fato de Ronaldo Caiado estar em quarto ou quinto lugar nacionalmente não abala absolutamente nada a campanha de Daniel Vilela. É a mesma coisa com Lula da Silva e Luiz César Bueno. Não existe uma conexão automática para o eleitor.

Existe, é claro, uma parcela radicalizada que fará uma leitura ideológica do voto nos níveis local, estadual e nacional. Mas é uma franja muito pequena da população. Via de regra, decidimos com base em preferências econômicas na dinâmica regional e ideológicas na dinâmica nacional, como se fossem dois países diferentes.

Ton Paulo – Daniel Vilela trabalha com uma estratégia de continuidade do governo Caiado, enquanto Marconi compara o que fez no passado com o que o atual governo está fazendo. Qual estratégia tem mais chance de convencer o eleitor?

Daniel Vilela está propondo continuar um projeto de governo que teve 88% de avaliação boa ou ótima. Aí vem o outro e diz: “Quero que as coisas voltem a ser como eram antes”. O eleitor vai fazer uma leitura e dizer: “Não vou votar nesse cara de novo”. Por quê? Porque a segurança pública mudou e é o grande carro-chefe.

Daniel Vilela entendeu isso logo no começo. Quando assumiu o governo, um dos primeiros vídeos que fez foi relacionado a um episódio no sistema prisional. Ele apareceu e passou uma mensagem de autoridade.

A grande dificuldade de Daniel era mostrar que dava conta de continuar o legado. Mas, pessoalmente, estando em lugares onde ele esteve e ouvindo-o falar, percebo que assumiu o personagem. Eu tinha dúvida se ele daria conta de ser o personagem do “eu sou o governador de fato”. Ele deu conta. Está falando com muita segurança, não fica terceirizando responsabilidades e fala realmente como líder.

Marconi Perillo fala como uma pessoa rancorosa, como alguém que quer voltar a um momento que não existe mais. Perceba: sempre que ele quer lembrar os tempos áureos, volta para o Tempo Novo, para a década de 1990. Por quê? Porque a memória recente do eleitor sobre o último mandato dele não é boa. O Estado se desestruturou muito do ponto de vista fiscal, da segurança pública e de outras áreas.

Na prática, as pessoas votam por afetos, por amor ou por ódio

A estratégia acertada é a de Daniel Vilela: continuar aquilo que o eleitor acredita que está dando certo. O eleitor não quer voltar para 2016, 2014, nem para o Tempo Novo.

O desafio de Daniel era mostrar como continuar e incrementar. Isso ele tem feito desde o primeiro momento. Inteligência artificial em diversos segmentos, Pequi Bank, pacote de segurança pública. Ele vai tentando imprimir as próprias marcas dentro das marcas de Ronaldo Caiado. Essa é a estratégia mais inteligente.

Tem mais um detalhe sobre o qual eu também era muito cético: é muito difícil fazer com que uma coalizão tão elástica consiga se transformar em uma coligação eleitoral igualmente elástica. Ele conseguiu fazer esse transporte sem deixar mortos e feridos pelo caminho.

Olha o José Mário Schreiner [lembrando o fato de ele ter sido preterido na escolha de vice para Luiz do Carmo e ter assumido a coordenação da campanha de Daniel Vilela]. A habilidade política de puxar rapidamente aquilo que é necessário e não perder uma base importante, como a que José Mário representa, demonstra que Daniel Vilela entendeu o recado e está pronto para assumir aquilo que está se propondo a assumir.

Ton Paulo – Quando você fala em ressentimento na campanha de Marconi Perillo, é possível fazer uma leitura semelhante sobre Ana Paula Rezende (PL), que deixou a base política construída pelo pai e migrou para um grupo ao qual sabemos que Iris Rezende jamais iria aderir em vida?

Acho que ainda vamos entender isso. Algumas coisas vão ficar mais claras daqui a dois anos, porque sabemos muito bem o que ela está querendo. Ela mira a Prefeitura de Goiânia por um motivo muito óbvio. Vamos ver se consegue resgatar a imagem de Iris. Acho que esta já é uma eleição em que a imagem de Iris está em disputa, em certo sentido.

Ana Paula Rezende tenta puxar de um lado e Daniel, de outro. Ele, inclusive, fala mais de Iris do que de Maguito em suas colocações, por uma obviedade. Maguito era uma figura marcante, uma pessoa com um trânsito muito bom em todos os lugares e era um gentleman, mas não tinha o carisma e o posicionamento de Iris Rezende.

João Paulo Alexandre – Ana Paula foi convidada diversas vezes por Daniel Vilela para disputar as eleições municipais de 2024. Hoje, ela afirma que não teve espaço dentro do MDB. É um discurso completamente contraditório. Se ela mira a eleição de 2028, qual é a lógica e a chance de êxito de entrar agora em uma aliança tão diferente daquela construída por Iris Rezende?

Penso que o discurso é: “Esse MDB não é o MDB do meu pai”. Acho que esse é o primeiro lance. Na visão dela, o partido teria sido sequestrado pelo projeto de Daniel Vilela (MDB).

Ainda vamos ter que entender, porque precisa existir uma lógica por trás disso. O que acho que foi a leitura dela? Provavelmente, foi oferecida a possibilidade de sair candidata a deputada. Ela olhou e falou: “Deputada é pouco para mim. Quero ser senadora”.

Mas como você vai ser senadora em uma base que, naquele momento, já tinha pelo menos três candidatos? Ela queria ser uma quarta. Mas o que você tem para trazer em troca? “Eu sou a filha dele.” Não serve. Vamos olhar as cartas que estão na mesa.

IMG_5460
“Vejo que é muito difícil ela [Ana Paula] ser readmitida novamente no grupo do MDB” | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Você tem Zacharias Calil, que tem um mandato bem avaliado. Você tem Vanderlan Cardoso, que tem seus serviços prestados como senador, assim como Gracinha Caiado, que foi muito bem avaliada como primeira-dama na área social. O que você tem para oferecer? Qual é o seu saco de votos? O que traz para além do grupo do seu marido, que também está rachado, com uma parte apoiando o governo?

Wilder Morais não precisa de direita, mas vê com certa utilidade tê-la ao lado dele. Estimo que esse tenha sido o cálculo. Ela ficou sem opção, não tinha o que fazer e agora está forçando a barra. Forçou de um jeito que não tem como voltar.

Ton Paulo – Caso ela não seja eleita, Ana Paula Rezende continuará tendo espaço dentro do grupo bolsonarista de Goiás?

Acho que não. Acho que é uma aliança de momento, mas ela ainda não tem clareza sobre isso.

Ton Paulo – E seria difícil uma readmissão dela no antigo grupo político? Existe, então, o risco de ela ficar politicamente isolada?

Vejo que é muito difícil ela ser readmitida novamente no grupo do MDB. Em política, ninguém te dá nada. Você precisa conquistar. Estou enxergando que ela tentou ganhar alguma coisa no grito, não conseguiu e, com todas as aspas, de uma forma meio “mimada”, fez movimentos errados.

De modo que pode sobrar para ela uma alternativa que talvez a tire da vida pública. Ela pode sair da vida pública antes mesmo de ter entrado, porque existe falta de espaço e de conexão.

Talvez ela não vire nem um Marconi Perillo da vida, porque ele ainda é uma ponte segura para quem deu errado no governo. Ele, pelo menos, consegue alocar pessoas dentro de uma estrutura. No caso dela, acho que são cálculos muito arriscados para alguém que não tem voto nenhum.

João Paulo Alexandre – Voltando a falar sobre campanha eleitoral, quais são as principais diferenças entre a eleição de 2026 e a de 2006, há 20 anos?

Estruturalmente, temos outro marco. Em termos normativos, o jogo mudou totalmente, inclusive na forma como você constrói alianças e estrutura as eleições. Para começar, o fim das coligações proporcionais mudou o jogo. Cada vez mais, vemos crescer uma discussão sobre o fim das coligações majoritárias também, para acabar com essa lógica de juntar partidos por tempo de TV.

Isso altera a lógica das alianças. Você não tem mais aquele negócio de juntar muitos partidos dentro de uma mesma coligação para formar bancada. Isso fez com que as pessoas eleitas sejam pessoas com votos. Não existe mais tanto aquela lógica de gente sem voto sendo eleita. Quem é eleito tem uma legitimidade eleitoral muito bem estruturada.

IMG_5486
Cientista político Guilherme Carvalho, em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

A segunda coisa é que tivemos uma reestruturação da polarização, o que muda um pouco o sentido e o norte do jogo. O bolsonarismo ou o petismo, em algum momento, serão substituídos por outro bloco, porque nosso sistema institucional é de polarização. É um sistema majoritário de dois turnos. Necessariamente, os eleitores sempre terão que escolher entre dois polos no final e, quase sempre, definir de quem gostam menos.

Também temos outro fenômeno: as eleições se tornaram mais constantes. Antes, o calendário orientava a eleição. Hoje, não. A eleição dura quatro anos. Vai acabar 2026 e vamos começar a falar de 2030. Na verdade, vamos começar a falar das eleições municipais de 2028.

O petismo corre sérios riscos de deixar de ser o maior grupo de liderança à esquerda

As redes sociais e as novas formas de comunicação colaboraram muito para que as pessoas conseguissem capturar a atenção em torno dos mesmos temas, que vão sendo reformulados com capas diferentes. Hoje, a atenção sobre o processo político é muito maior.

O eleitor também mudou bastante. A tecnologia está promovendo uma troca geracional natural. Essa turma de 16, 17 e 18 anos está cobrando outra forma de representatividade, o que exige uma mudança no perfil dos políticos. Pessoas como Nikolas Ferreira (PL), por exemplo, tendem a surfar da direita à esquerda, não apenas porque são novas, mas porque conseguem dialogar de acordo com as novas formas de tecnologia. Isso cria um vácuo na Presidência da República, porque você espera um tipo de senioridade para o maior cargo de representação do Brasil.

Outra coisa que mudou substantivamente é o debate sobre políticas públicas. Não conseguimos mais discutir tecnicalidades. Era pouca gente que participava em 2006? Era. Mas conseguíamos parar para discutir Bolsa Família ou Taxa Selic. Hoje, não conseguimos mais discutir dessa forma porque se tornou quase uma tortura assistir a um vídeo de mais de um minuto e meio para falar de uma tecnicalidade.

Ton Paul – Já existe algum movimento capaz de substituir petismo e bolsonarismo?

Na minha visão, neste momento, o petismo corre sérios riscos de deixar de ser o maior grupo de liderança e de imposição de candidaturas à esquerda no Brasil. O desenho vai sendo construído pelo PSB, por exemplo, com outra forma de pensar a política. Veja o PSB crescendo bastante e o PT decaindo. É a ressaca do fim da carreira política de Lula, algo parecido com o que aconteceu com Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que não tinha um sucessor natural.

Em uma eleição tão grande, você precisa ter uma liderança que seja realmente expressiva e tenha capacidade de competir. Acho que uma derrota do petismo em 2030 — nem estou pensando em 2026 — assinalaria uma alteração natural do ciclo de forças.

Não olharia da mesma forma para o bolsonarismo porque ele não mostra sinais de desgaste. Mostra-se resiliente e pode ser reencampado dentro de outro campo, até porque não foi estruturado dentro de um partido. O partido é apenas uma capa institucional para toda a lógica de disputa política deles.

Ton Paulo – Falando sobre corrupção, temos acompanhado diversas operações policiais que têm atingido personagens de vários espectros políticos. Conversando com alguns bolsonaristas, ouvi que operações que trazem o nome de Flávio Bolsonaro não teriam impacto em Goiás ou, de maneira geral, pelo fato de seus apoiadores serem fiéis às suas ideologias. O mesmo ocorre no campo da esquerda. A polarização ideológica mudou a percepção do eleitor sobre a corrupção? Hoje, mesmo diante de denúncias contra um político, seus apoiadores tendem a permanecer com ele?

Acho que essa característica de polarização que temos é uma polarização de afetos. É um pouco diferente do que tínhamos. O PT sempre teve isso. Sempre foi um pouco uma marca: o afeto que existe em torno do partido. O PSDB não tinha. Então, não percebíamos isso tão claramente na disputa. O PSDB acabava sendo apenas o antipetismo representado nas urnas.

O bolsonarismo consegue capturar o afeto, o que faz com que o discurso se torne: “Ele não está cometendo corrupção. Está apenas pedindo dinheiro para combater os verdadeiros corruptos”. Esse é o discurso. A pessoa sabe que está sendo hipócrita, entende isso, mas prefere o bandido de estimação dela.

Não é uma relação em que você simplesmente deposita confiança no agente político e pode alterá-la depois. É uma pessoa que entrou dentro da sua casa. Vou dar um exemplo. Fui para São Paulo recentemente, para um congresso de relações governamentais. Havia lobistas do Brasil inteiro, deputados, senadores e candidatos à Presidência da República.

“Não olharia da mesma forma para o bolsonarismo porque ele não mostra sinais de desgaste. Mostra-se resiliente e pode ser reencampado dentro de outro campo” | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Na volta, sentei ao lado de uma moça no avião. Do momento em que o voo saiu de São Paulo até pousar em Goiânia, ela ficou assistindo a vídeos offline do Nikolas Ferreira. Ela havia baixado os vídeos para assistir durante o voo inteiro. É uma característica desse tipo de política.

A Quaest trouxe um dado interessante: cerca de 40% dos brasileiros dizem que não vão votar em proposta, que não estão preocupados com isso. Na prática, as pessoas votam por afetos, por amor ou por ódio, nesse tipo de eleição que estamos assistindo.

Quando acontece um escândalo, você vê, inicialmente, uma queda entre o eleitor não polarizado, aquele que estava escolhendo um candidato porque estava mais próximo. Depois, quando percebe que determinado nome pode ser o único capaz de derrotar o adversário, volta para ele. É por isso que vemos recuperação mesmo diante de denúncias.

Ton Paulo – A disputa pelo Senado em Goiás continua muito aberta. Gracinha Caiado lidera, mas há vários nomes disputando a segunda vaga. Ao que você atribui essa indefinição?

Acho que é porque todos são bons candidatos. Todos têm potencial e vantagens. Gracinha Caiado tem serviços entregues, tem o recall do marido e o recall do próprio trabalho. É uma candidata que lidera as pesquisas com méritos próprios. Logo atrás existe uma folga, mas, para o segundo voto, os trackings são muito inconstantes.

Zacharias Calil tem um recall muito grande. Foi secretário, é médico das siamesas e talvez seja uma das vozes mais respeitadas na saúde no Brasil. É um cara que transcende as fronteiras de Goiás e tem entregas comprovadamente feitas no Estado. Tem um trabalho e ainda possui um flerte ideológico que o ajuda.

O voto para o Senado é tradicionalmente o último voto a ser definido pelo eleitor. O segundo voto, então, é ainda mais periférico. Zacharias ganha muito com esse perfil porque o eleitor vai olhar para quem conhece e para quem não parece político. Ele é muito assimilado ao perfil de médico, não ao de político profissional.

Vanderlan Cardoso tem um trabalho muito bem feito de entrega de emendas e estrutura no interior. É muito municipalista. Sabe fazer o jogo como precisa ser feito para se manter no poder. Se ele não tivesse se aventurado tanto em eleições majoritárias para Prefeitura e governo, hoje poderia estar em outro patamar. Foi juntando rejeição ao disputar eleições que não eram para ele.

No Senado, está em um lugar confortável porque sabe fazer a mise-en-scène necessária. Tem muita estrutura e apoio empresarial. Tem apoio de praticamente todos os prefeitos da Região Metropolitana, inclusive Sandro Mabel (União), com quem competiu nas eleições passadas.

Gustavo Gayer tem um perfil muito de nicho. O desafio é sair da bolha dele e alcançar outras bolhas

O problema é que não é conhecido por entrega de emendas ou serviços. É ideológico, é barulho. Precisa tentar fazer essa transição. Mas os votos e o recall que tem não são inexpressivos. Muito pelo contrário.

Para mim, é um político maior fora de Goiás do que dentro de Goiás. Não digo conhecido no sentido de saber quem é, mas de ser uma opção para o eleitor. Hoje, se tivesse que fechar, diria que a segunda vaga seria dele.

Por fim, tem Gustavo Mendanha (PRD), que está assustando muita gente porque está chegando com tudo. Ele tem uma vantagem. Um amigo meu disse uma vez: “Nada é mais poderoso do que ser uma vítima”. E é bem verdade. Aquilo que aconteceu na convenção, deixando as verdades de lado, para o eleitor ficou parecendo que ele era o coitado: “Tadinho, foi tirado dali”. Isso vem sendo explorado de forma orgânica.

IMG_5495
Cientista político Guilherme Carvalho, em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

A disputa pela segunda vaga faz com que essa eleição pareça uma eleição de renovação de um terço. Temos uma impressão razoável de que Gracinha Caiado está confortável na primeira vaga. Na segunda, pode acontecer qualquer coisa e provavelmente será definida nos milésimos.

João Paulo Alexandre – Quais pautas estão ganhando e perdendo mais espaço na eleição estadual?

Pelo menos no que estou acompanhando, infraestrutura. Acho que muito por causa do governo. O governo está apresentando muita coisa e Marconi Perillo tenta correr para fazer um contraponto.

O plano de governo de Wilder Morais é uma fábula. Tem um monte de coisa inconstitucional. Por exemplo, fala em acelerar o processo de licenciamento ambiental em questões que são atribuição federal. Fala em acelerar a liberação de construções, que é atribuição municipal. A proposta central dele é continuar o que foi feito. Ele nem critica o que foi feito.

O único que tem uma proposta de governo estruturada é Daniel, porque é quem tem os dados na mão e gente trabalhando para subsidiá-lo.

João Paulo Alexandre – E, no cenário nacional, qual pauta deveria ocupar maior espaço?

É difícil, porque o que mais precisaria estar sendo discutido é a elevação das contas públicas. Tenho falado muito sobre isso. Encontrei um empresário do interior que me disse ter perdido um negócio de R$ 20 milhões no agronegócio, na região de Goianésia, por medo. Medo de quê? Contas públicas, taxa Selic e flutuação do dólar. Existem projeções muito pessimistas para os juros nos próximos anos. Mas o governo não está falando de contas públicas, e isso deveria estar sendo debatido.

É difícil falar de pauta nacional porque não está havendo debate público franco. As eleições estão muito tangenciadas. A eleição está personalizada em Lula e Flávio e, na verdade, acho que nem em Lula e Flávio. Está personalizada no Judiciário. A eleição no Brasil está tão louca que estamos falando de Judiciário no período eleitoral.

Ton Paulo – O STF parece ter assumido um papel importante na eleição e na própria escolha do eleitor. Como você avalia isso?

Sem dúvida. Sempre tivemos, invariavelmente, algumas alianças entre Poderes porque o desenho constitucional favorece isso.

O STF já foi aliado do Legislativo enquanto o Executivo era acossado. Em outro momento, temos uma aliança entre Executivo e Judiciário e o Legislativo sendo acossado. Essa dança existe. O que não é normal é aquilo a que estamos assistindo.

Temos uma sanha por fazer uma reforma do Supremo, mas estamos querendo fazer do jeito errado, falando em eleições e outras coisas. Acho que isso politizaria ainda mais o Supremo.

Uma reforma poderia, por exemplo, eliminar o foro por prerrogativa. Você já reduziria a politização de um juiz ter que julgar uma pessoa que possui mandato. Manda todo mundo para a primeira instância e deixa os outros níveis da Justiça resolverem.

Mas essa é a maior preocupação? Acho que não. A maior preocupação é fiscal. O governo está ficando sem margem para gastos discricionários. O nível de endividamento das contas públicas está tão alto que o próximo presidente será eleito sem a mesma “caneta” para governar.

Primeiro, porque não tem controle da pauta do Legislativo. A ferramenta que existia por meio das emendas mudou, porque as emendas se tornaram impositivas. Segundo, porque existe cada vez menos espaço discricionário. Uma parte foi ocupada pelo Legislativo e outra é consumida pela dívida pública. Você precisa buscar dinheiro no mercado e pagar juros para financiar políticas públicas e manter o Estado funcionando. Esse sistema venceu.

Precisamos falar urgentemente de reforma administrativa. O Brasil vai ter que sanear a Previdência. E isso não entrou na pauta de ninguém. Parece que estamos vivendo uma fábula.