Homem que liderou crimes na zona rural de Santa Helena é preso no RS

Segundo a PM, José Valdir Misnerovicz liderava grupo apontado pelas forças policiais como organização criminosa; ele havia fugido de Goiás

A Polícia Civil de Goiás prendeu, na quarta-feira (1º/6), José Valdir Misnerovicz, 45 anos, acusado de liderar, incentivar e cometer diversos crimes na zona rural do município de Santa Helena de Goiás. Havia um mandado de prisão expedido pela Justiça goiana.

Além dele, também foi preso Luís Batista Borges, 46, em abril último. José Valdir fugiu para outro estado – foi preso em Veranópolis, no Rio Grande do Sul, cidade distante 150 quilômetros da capital, Porto Alegre. Os agentes de Goiás contaram com parceria da polícia gaúcha na operação.

A PC goiana informa que, popularmente, o acusado é conhecido como “coordenador” do Movimento dos Trabalhadores Rural Sem Terra (MST). As investigações, comandadas pela 8ª Delegacia Regional de Rio Verde, começaram quando várias pessoas que eram vítimas dos acusados resolveram denunciar os crimes praticados por eles nas áreas da Fazenda Várzea da Ema e Fazenda Mário Moraes, ambas localizadas em Santa Helena de Goiás – distante 220 quilômetros da capital.

De acordo com a Polícia Civil goiana, após sofrerem diversos tipos de agressões, seis pessoas procuraram a polícia para denunciar as ocorrências. As vítimas relataram os fatos e apresentaram provas como fotos e vídeos onde os denunciados apareciam cometendo os crimes.

Após ocuparem as duas fazendas em outubro de 2015, o grupo liderado pelos investigados passou a praticar diversos crimes como, por exemplo, roubo de máquinas agrícolas e de veículos utilizados por funcionários que prestavam serviços às propriedades.

No contexto da prisão de José Valdir Misnerovicz, a Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária (SSPAP) destaca o empenho das forças policiais goianas como reafirma que não haverá condescendência com nenhum tipo de crime cometido em Goiás, “onde os direitos individuais e coletivos precisam ser respeitados na forma da Lei – assim como a manutenção da ordem pública – e onde a polícia atua no enfrentamento ao crime, seja ele contra a vida ou contra o patrimônio público ou privado, entre outros tipos”.

Histórico

Em alguns dos casos denunciados, não foi possível chegar aos responsáveis, uma vez que as pessoas presentes no acampamento não permitem serem identificadas. No entanto, por meio de relatos das vítimas foi possível “individualizar” algumas condutas vinculadas aos líderes do grupo, que direta ou indiretamente participaram da execução dos crimes.

No dia 5 de outubro de 2015, o caseiro Edivânio Moreira Barroso e sua esposa foram até um barracão da Fazenda Várzea das Emas para apanhar ferramentas. Ao chegarem ao local, eles foram surpreendidos e cercados por um grupo de pessoas que os ameaçaram de morte e, depois, foram fechados dentro do barracão por cerca de 40 minutos. Ao registrar queixa na Delegacia de Santa Helena, eles disseram na ocasião que os agressores portavam armas brancas e mandavam que transmitissem ameaças dirigidas ao proprietário da fazenda.

Dois dias depois, o escritório da mulher de Marco Antônio de Oliveira, dono da fazenda, foi invadido por um homem que se apresentou como “oficial federal” e investigava seu marido por ser primo de juiz e, que, por isso, gozava de alguns privilégios. Após tentativa de intimidação da mulher, ele sugeriu “que o melhor era que pegasse sua família e viajasse para longe, que saíssem da cidade, pois seria melhor para eles”.

A partir dos acontecimentos, as ameaças e outras espécies de crimes se intensificaram contra o casal. Os invasores derrubaram árvores em área de preservação ambiental da fazenda para a construção de barracas e retiraram as comportas da represa. Além da morte dos peixes, a destruição do lago trouxe grande prejuízo financeiro à propriedade rural, narra a PC.

No dia 30 de dezembro de 2015, ao prestar serviço de apoio ao pivô de irrigação da fazenda, o caseiro Edivânio Moreira, que estava em uma motocicleta, observou a passagem de um veículo Gol, de cor branca, quando seus ocupantes passaram a atirar em sua direção. Com medo, ele apanhou a esposa em casa e, logo, se refugiaram em uma mata em busca de proteção.

Em outra ação criminosa ocorrida no início deste ano, várias pessoas, lideradas por Luís Batista Borges – que já se encontra preso – impediram o início do plantio da safra e queimaram o adubo que seria utilizado no local. A Polícia Militar foi acionada, mas não pôde intervir já que havia mais de 350 pessoas no local.

Em março último, a Polícia Militar voltou às propriedades, com cerca de 600 policiais, para cumprir a reintegração de posse determinada pela Justiça. Na ocasião, José Valdir Misnerovicz, como representante dos ocupantes da área, assinou o Termo de Compromisso para deixar o local de forma pacífica, com o compromisso de não provocar maiores danos a bens móveis ou imóveis do local. No dia seguinte, sob a liderança dos coordenadores, os integrantes do MST voltaram a cometer uma série de novos crimes na região.

“Apesar de termo de compromisso assinado, novos crimes foram cometidos no dia seguinte à desocupação”

A Polícia Civil revela que um dia após a desocupação, José Barbosa Dantas comandava o serviço de limpeza na fazenda quando percebeu a abordagem de um de seus ajudantes por parte de pessoas estranhas. Ao se aproximar, ele foi recebido com a pergunta: “Com ordem de quem vocês realizam esses serviços?”. Ele respondeu que havia sido contratado pelo proprietário da fazenda. Posteriormente o homem foi identificado como Luís Batista Borges.

Borges, que estava escoltado por cerca de dez homens, passou a ameaçar os funcionários, e exigiu que eles se dirigissem “por bem ou por mal” até o acampamento. Sem alternativa, Dantas obedeceu. Ele foi seguido por várias pessoas que estavam em veículos e motocicletas. Alguns deles invadiram a carroceria da caminhonete da vítima.

No acampamento do MST, Luís tomou a chave do veículo e ameaçou a vítima. Dantas permaneceu sob ameaças e agressões por mais de uma hora. Depois de intensa pressão psicológica, foi liberado, mas sem o veículo. Retornou para a sede da fazenda seguido pelo grupo de sem terras que faziam ameaças de que matariam Márcio, o dono da propriedade. Horas depois, a PM conseguiu recuperar a caminhonete do empreiteiro.

No mesmo dia, o operador de máquinas Jhon Leno Martins Oliveira trabalhava a cinco quilômetros de distância do assentamento, na pulverização da lavoura, quando percebeu grande movimentação de pessoas e veículos em sua direção. Ao optar por retornar à sede da fazenda, foi cercado pelos veículos, retirado à força da máquina agrícola estimada em R$ 300 mil e ameaçado por pessoas armadas de facões.

O homem que agia como líder da ação identificou-se como Natalino e avisou que levaria a máquina para o acampamento com o objetivo de incendiá-la. Promessa cumprida. A máquina foi levada e, de fato, queimada pelos liderados de Natalino.

Mais vítimas
Outra vítima dos integrantes do MST foi Cléber Martins da Cunha. De acordo com as investigações policiais, Luís Batista e um comparsa mandaram avisar Cléber para retirar seus pertences do barracão onde morava, em uma das fazendas, pois iriam invadir o local na noite do dia 15 de março. Por volta das 14 horas, ele foi surpreendido por integrantes do movimento, armados de facões e podões. Cercado, Cleber recebeu ameaças de morte e foi avisado de que o barracão onde morava e a camionete que ele utilizaria para fazer a mudança seriam queimados.

A vítima, conforme consta no inquérito policial, foi obrigada a se dirigir para a sede da fazenda, ao lado de dois funcionários e da esposa de um deles, onde, sob forte pressão psicológica, foram mantidos por cerca de 40 minutos em cárcere privado. Ainda sob ameaças, as vítimas foram obrigadas a seguir para a sede de fazenda vizinha.

Em nova denúncia, o empresário rural Marco Antônio de Oliveira narrou os fatos e acusou os líderes do movimento como os responsáveis pelas atrocidades cometidas. As investigações policiais apontaram para José Valdir Misnerovicz como o coordenador de todas as ações criminosas praticadas pelo grupo. Foi ele que participou, como representante do grupo acampado nas fazendas, de reunião realizada na Capital com o objetivo de evitar conflitos no local. Apesar de ter feito o compromisso de retirar os acampados das terras invadidas, José Valdir não cumpriu a ordem judicial e voltou a ocupar os mesmos locais.

Por fim, o empresário relatou que na madrugada do dia 19 de março vários motociclistas integrantes do MST fizeram manobras e barulhos na porta de sua residência, com a clara intenção de ameaçar e amedrontar a sua família.

“Os fatos criminosos praticados por integrantes dos sem terras não tem nenhuma relação com a questão social envolvendo a redistribuição de terras”, destacou o delegado responsável pelo inquérito policial.

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