Nilson Gomes-Carneiro

Especial para o Jornal Opção

O ano começou no fim de janeiro, quando o Ministério Público de Goiás disse “não” à vontade do ex-governador Marconi Perillo de barrar o Complexo Oncológico de Referência do Estado de Goiás, o Cora, maior obra de Saúde do interior do Brasil. Foi uma tentativa de golpe contra milhares de pacientes que sofrem com câncer, em ação equivocada atribuindo delitos à pessoa mais próxima de um santo que habita este país, Henrique Prata, a Irmã Dulce rediviva, a Madre Tereza de Calcutá deste lado do Atlântico. Caso seja o gestor do Cora, vai honrar Goiás e orgulhar inclusive a memória da menina da Casa Velha da Ponte, a Coralina coragem, Coralina coração.

Quem já viu seu trabalho em 12 Estados sabe que não se trata de exagero.

Quem acompanha suas atividades no Hospital de Amor, em Barretos (SP), diria que é o mínimo a se reconhecer.

Absurdos são tolerados na política e deles Prata tem sido vítima sem interrupção. Como diz nos livros, verdadeiros best-sellers, o poder do lado podre das empresas de doença supera o das autoridades constituídas. No fim de 2023, lançou sua quarta obra, “O Parque dos Lobos”, pela Editora Gente. O nome de Marconi Perillo não aparece ali, mas emerge de cada página a obsessão de figuras iguais a ele por prorrogar a dor dos doentes de câncer e seus familiares. A cada unidade aberta, depois de muito trabalho e enfrentando perseguições de todo tipo, Henrique se depara com armários cheios de Érobos engravatados como o que o acionou em Goiás. O Cora terá 45 mil m² de área construída. Ou seja, será assombração a dar com pau. Vade retro, Madame Satã do mal.

Ronaldo Caiado e Henrique Prata (sem capacete) em visita às obras do Cora | Foto: Secom-Goiás

O que Marconi não sabia é que nada disso é novidade, nem seus gestos, nem suas intenções, nem seus métodos. São o parque e os lobos que Henrique Prata colocou no título de seu magnífico libelo em favor dos vulneráveis. As denúncias de Marconi, que não têm fundamento, são levadas a sério justamente para mostrarem a que vieram, ou seja, o desejo mórbido de atrapalhar. A batalha de Henrique não é contra moinhos de vento e sim contra a tempestade de corrupção. Na matilha estão desde secretários municipais até burocratas de Brasília, de grupelhos em corrutelas ao Ministério da Saúde, não importam partidos, prefeitos, governadores (ou ex), o presidente da República ou seus auxiliares. Como reafirma, há alguém superior a essa turma inteira, o casal Doutor Grana e Medicina do Dinheiro.

Honestidade, a mais letal das armas

Prata ressalva os honestos da saúde privada e detalha os danos que a fatia bandida provoca. Em “O Parque dos Lobos”, esmiúça as tenebrosas transações para impedir o funcionamento do Hospital de Amor em Porto Velho (RO). Beira o inacreditável a narrativa de um exército de mafiosos de cofres escancarados para receber os caraminguás da gente moída à espera de atendimento. Henrique Prata os desafia com a mais letal das armas, a honestidade.

Os marginais lucram horrores com um horror, o câncer. O que para pacientes e familiares é um mal, para as organizações criminosas de branco (e outras) são notas vivas de real, dólar e euro. A indústria é de tal forma superavitária que profissionais da cura se transformam em monstros quando veem risco de a fonte secar. A implantação de um Hospital de Amor, como será o Cora, soa o alarme de que o chafariz de cédulas será desligado.

Hospital de Cora: vital para salvar a vida de pessoas com câncer | Foto: Leoiran/Jornal Opção

Marconi Perillo mirou em Ronaldo Caiado e tentou acertar, por tabela, em Henrique Prata. Mas errou os “tiros”, que atingiram seu pé. Desconhecia o fato de o presidente da rede nº 1 em atendimento oncológico na América Latina andar sempre com inexpugnável colete à prova de balas, o resultado em vidas, saúde e bem-estar de milhões de pessoas. Caso o ex-governador de Goiás protagonize o próximo sucesso de público de Prata, vai ajudar na missão: o que arrecada com a venda de livros é destinado à rede de hospitais. Foram 260 mil exemplares das tiragens em papel de “Acima de tudo o amor”, com o dinheiro revertido inteiramente para a construção na Capital de Rondônia.

Corvos (never more, diria Poe) como os que se aventuram a agourar o Cora voaram aos bandos sobre o projeto em Porto Velho. Assim como Winston Churchill com os aviões nazistas cobrindo Londres, Henrique Prata e seus colaboradores lutaram à sombra. Após derramarem sangue, suor e lágrimas, com ajuda de meia dúzia de empresários, o prédio ficou pronto, foi equipado e… cadê os convênios? A facção conseguiu vedar os repasses ao Hospital de Amor Amazônia nos três entes federativos: “Inauguramos com 21 mil pacientes ontológicos, sem dinheiro de governo municipal estadual ou federal”, relata Henrique Prata. Isso foi em 2017, já atuava desde 2013 e as facadas nas costas não deram sossego.

Mesmo com o número de atendidos dobrando a cada ano, autoridades estaduais em Rondônia chegaram ao cúmulo de dispensar recursos federais que Henrique havia conseguido. Ainda assim, o benfeitor manteve o propósito, iniciado quando percorria o Caminho de Santiago de Compostela pela primeira vez. O celular tocou na mochila. Avisavam-lhe de que havia sido considerado “Campeão Mundial de Avanço na Área Médica do Combate ao Câncer de Mama”. Mundial, hein! O prêmio era de 1 milhão de dólares ofertado pela Avon. Teve a ideia de passar o inesperado valor para o lugar Campeão Nacional em Enviar Pacientes para Barretos, a Região Norte. Especificamente, Porto Velho.

(Aliás, a Amazônia não é para amadores. Autoridades atingiram o Monte Roraima da malvadeza dificultando o tráfego das carretas de prevenção ao câncer, que participavam de campanhas por rodovias, balsas e onde mais houvesse mulheres a ser conscientizadas. O start, meio século atrás, foi em bicicleta. A máfia prefere apertar o delete.)

O cenário ali é tão escabroso que servidores da Saúde boicotam o envio de pacientes para o Hospital de Amor local. Os doentes são encaminhados para clínicas semelhantes a ferros-velhos de tão sucateados seus instrumentos, aparelhos e práticas médicas. Em vez de curarem, matam. “O Parque dos Lobos” foi lançado ao se completar uma década de abutres nazistas preenchendo os céus de Rondônia e a turma do bem combatendo à sombra com as sobras.

Espancam-no em vão, pois Henrique não desiste. É a tradição da família Prata, que vale Ouro, desde o século XIX. Na primeira década do XX, sua bisavó “acolhia os pacientes em sua própria residência” e “construiu uma Santa Casa em Lagarto (SE) em 1919”. Seu pai, Paulo Prata, e seu avô, Ranulpho Prata, ambos médicos, mantiveram o propósito de cuidar dos desamparados. Doutor Paulo bancou os primórdios do Hospital do Câncer de Barretos em 1962. Segurou o leme ao lado de doadores até a exaustão financeira. Abaixou as portas. Era 1989 quando Henrique, “fazendeiro que nunca cursou medicina, ao viver uma experiência de fé, resolveu abraçar a obra de seu pai e servir a Deus desse modo”, diz na quarta capa de “Acima de tudo o amor”.

O Senhor deve estar satisfeito, igual a Henrique, que O louva em praticamente todos os parágrafos dos livros. Gratidão é algo vindo dos céus, não o dos abutres e corvos, e essa chuva irriga os caminhos do Santíssimo Henrique da Saúde. É de tal forma grato que um radialista de Goiânia, Kadmous Alassal, espalhou vídeos em que comenta seus livros e Henrique, quando veio visitar o Cora ao lado do governador Ronaldo Caiado, o convidou para subir ao palco. Não esquece quem auxilia a luta contra o câncer, milhões de voluntários que colocam a mão na consciência e, claro, no bolso.

Dedica os exemplares literários a bons cristãos como José Luiz Cutrale (o Rei da Laranja, que, quando menino, foi carregador num mercado e morreu bilionário em 2022), padres (três italianos, Mucciolo, Bortolameotti e Lancelotti), o presidente Lula da Silva e seu vice Geraldo Alckmin (num livro de 2012), José Serra (ex-ministro da Saúde e ex-governador de São Paulo) e artistas como Ivete Sangalo, Xuxa, Gugu Liberato, Chitãozinho & Xororó, Sérgio Reis e os goianos Leandro e Leonardo. Agradece a alguns representando a multidão de almas caridosas. Conheça um fato com uma delas, Eunice Diniz.

A gente em Goiás vai a pé a Trindade, Muquém, Guarinos e Panamá pagar promessas. A romaria de Henrique é em Compostela, na Espanha. Além de idealizar o Barretinho, a filial de Porto Velho, numa das peregrinações, de 22 de setembro a 13 de outubro de 2011, gravou o que viraria “Acima de tudo o amor”. Todos teríamos de virar caminhantes em tributo a humanos como Henrique e Eunice. Ele estava fazendo o Hospital de Amor Jales (SP) quando o dinheiro acabou, governo sumiu, político miou. Metade do prédio pronta. O desespero assomou. E agora, Henrique?

Lembra quem é o grande parceiro dele? Deus. Depois de tirar insistentemente o chapelão para coçar a cabeça, surgiu uma luz. Deus. Tocou novamente o telefone. Deus havia tocado alguém. Era Eunice Diniz, doadora de milhões de dólares em projetos anteriores. Havia vendido uma fazenda:

“Fiz um voto de que parte do dinheiro iria para um projeto que se dedicasse a salvar vidas.”

Era 2010. Orçamento para concluir o hospital: R$ 15 milhões. Ela bancou.

Num mundo em que há Henriques e Eunices, Coras prosperam ainda que marconis — “m” minúsculo — tentem o contrário.

Nilson Gomes-Carneiro é advogado.