O recente avanço de síndromes respiratórias no Brasil não se trata de uma nova doença, mas sim da chegada antecipada de uma velha conhecida com um novo sobrenome genético. A variante apelidada de “gripe K”, um subclado do vírus Influenza A (H3N2), começou a circular no país ainda em novembro do ano passado, importada diretamente das Ilhas Fiji por uma paciente identificada no Pará.

Diferentemente do padrão sazonal que costuma atingir o pico apenas entre maio e junho no Hemisfério Sul, este subtipo cruzou fronteiras mais cedo porque já estava em plena atividade nos meses frios da Europa, Ásia e América do Norte. A consequência desse descompasso é uma percepção coletiva de que “as gripes de hoje não são mais como antigamente”, alimentada por uma disseminação mais veloz do patógeno e pela cobertura vacinal ainda considerada insuficiente pelas autoridades sanitárias em estados como Goiás. 

Em entrevista ao Jornal Opção, o médico imunologista, otorrinolaringologista e alergista Márcio Niemeyer detalhou os mecanismos por trás dessa sensação de que a gripe está “mais forte”. Segundo o especialista, a nomenclatura que circula na internet não representa uma entidade nova.

Doutor Márcio Niemeyer | Foto: Divulgação

“Não se trata de uma nova doença, mas de uma variação genética de um patógeno já conhecido”, contextualiza. Niemeyer explica que o comportamento da chamada gripe K é ditado por sua alta transmissibilidade. “Essa variante K, ela veio mais cedo porque teve um caso importado. Ela começou em novembro lá no Pará”, esclarece o médico.

Em outras palavras, o calendário viral foi atropelado pela globalização e pelo fluxo de pessoas, antecipando um cenário que, tipicamente, só veríamos com a chegada das frentes frias mais intensas do outono.

Mais transmissão, não mais gravidade

Um dos pontos centrais da entrevista desmistifica a ideia de que a variante K seja intrinsecamente mais agressiva ao organismo humano. O imunologista faz uma distinção entre virulência e capacidade de contágio. “Essa variante, o pessoal tá falando que ela é mais grave, mas não é. Ela é mais transmissível. Então, por ser mais transmissível, ela tem mais casos. E como tem mais casos de influenza, pela quantidade maior de paciente, tem mais casos graves”, afirma o Dr. Márcio Niemeyer.

Consequentemente, o que vemos nos prontos-socorros e noticiários não é uma mutação mais letal, e sim o reflexo de uma curva epidemiológica que sobe de forma mais íngreme, pressionando o sistema de saúde e aumentando a probabilidade de complicações em grupos vulneráveis.

Além disso, o médico chama a atenção para a natureza mutante do vírus Influenza, um velho inimigo que nunca se apresenta da mesma forma duas vezes. “A influenza é uma doença mórbida. O que é isso? Tem complicação. E também tem uma mortalidade. Principalmente em crianças e idosos”, reitera.

Dessa forma, reservar a vacina da Gripe 2026 agora é um ato de cuidado e responsabilidade, uma vez que a cepa utilizada no imunizante é atualizada anualmente justamente para acompanhar essas pequenas, porém significativas, alterações genéticas.

Por que a vacina é a principal arma?

Questionado sobre a eficácia da vacina atual contra esse subtipo específico, o Dr. Márcio Niemeyer foi transparente ao admitir que o imunizante deste ano apresenta uma eficácia reduzida contra a variante K devido a um fenômeno chamado de escape viral. “Mas é muito importante haver uma vacinação, principalmente agora que está sendo precoce. O pessoal vai ter que vacinar antes”, orienta o especialista.

Portanto, mesmo com uma proteção parcial, a vacinação segue como a barreira mais sólida disponível para reduzir a gravidade dos sintomas, evitar hospitalizações e, sobretudo, diminuir a circulação comunitária do vírus. O alerta é ainda mais importante quando se observa a baixa adesão à campanha. “Estamos com uma cobertura vacinal muito pequena”, pontuou.

Em contrapartida, existe uma segunda linha de defesa disponível para aqueles que buscam atendimento médico rapidamente. O médico destaca o papel do antiviral Oseltamivir (comercialmente conhecido como Tamiflu), um medicamento direcionado para tratar Influenza A e B.

“Nas primeiras 48 horas, ele é direto para tratar a crise. Então, ele diminui a gravidade e a transmissibilidade também”, explica Niemeyer. Além do mais, o especialista revela que o fármaco também pode ser utilizado de forma profilática. “Por exemplo, em adulto, a profilaxia para um contactante de uma pessoa que teve uma influência, você pode usar o Oseltamivir com 1 comprimido ao dia por 10 dias”.

Os novos contornos dos sintomas e a importância do diagnóstico rápido

Um dos desafios atuais para médicos e pacientes reside justamente na apresentação clínica da gripe K, que tem confundido até mesmo profissionais experientes. Diferentemente da apresentação clássica de febre alta e prostração extrema, o vírus tem manifestado sintomas gastrointestinais que mimetizam outras arboviroses, como a dengue. 

“Por exemplo, a minha funcionária começou achando que estava com dengue, porque ela começou com gastroenterite, febre e um mal-estar muito grande. E aí, eu fiz o teste rápido. Eu falei: “Eu acho que não é influenza, mas vamos fazer”. Fiz o teste rápido e era influenza”, relatou o imunologista.

Diante desse cenário de atipicidade, o conselho do médico é: o teste rápido deve ser utilizado de forma liberal sempre que houver suspeita. “Aquele paciente que está prostrado, com febre, dor no corpo, sintomas respiratórios que nem sempre estão presentes, vale a pena já fazer o teste rápido, porque ele é barato e que pode evitar problemas mais sérios, uma complicação maior”, recomenda.

O Dr. Márcio Niemeyer faz questão de resgatar uma distinção semântica fundamental para a saúde pública: não existe “gripezinha”. “A gripe é causada pelo vírus da influenza. O resfriado é por uma série de outros vírus”, adverte.

A janela de transmissão também permanece ativa por um período considerável, compreendendo desde “1 dia antes até 7 dias depois dos sintomas ainda tem transmissão”, o que reforça a necessidade de isolamento precoce e higiene respiratória constante.

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