Gripe K antecipa temporada e reforça necessidade da vacinação precoce em 2026
20 abril 2026 às 14h27

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O recente avanço de síndromes respiratórias no Brasil não se trata de uma nova doença, mas sim da chegada antecipada de uma velha conhecida com um novo sobrenome genético. A variante apelidada de “gripe K”, um subclado do vírus Influenza A (H3N2), começou a circular no país ainda em novembro do ano passado, importada diretamente das Ilhas Fiji por uma paciente identificada no Pará.
Diferentemente do padrão sazonal que costuma atingir o pico apenas entre maio e junho no Hemisfério Sul, este subtipo cruzou fronteiras mais cedo porque já estava em plena atividade nos meses frios da Europa, Ásia e América do Norte. A consequência desse descompasso é uma percepção coletiva de que “as gripes de hoje não são mais como antigamente”, alimentada por uma disseminação mais veloz do patógeno e pela cobertura vacinal ainda considerada insuficiente pelas autoridades sanitárias em estados como Goiás.
Em entrevista ao Jornal Opção, o médico imunologista, otorrinolaringologista e alergista Márcio Niemeyer detalhou os mecanismos por trás dessa sensação de que a gripe está “mais forte”. Segundo o especialista, a nomenclatura que circula na internet não representa uma entidade nova.

“Não se trata de uma nova doença, mas de uma variação genética de um patógeno já conhecido”, contextualiza. Niemeyer explica que o comportamento da chamada gripe K é ditado por sua alta transmissibilidade. “Essa variante K, ela veio mais cedo porque teve um caso importado. Ela começou em novembro lá no Pará”, esclarece o médico.
Em outras palavras, o calendário viral foi atropelado pela globalização e pelo fluxo de pessoas, antecipando um cenário que, tipicamente, só veríamos com a chegada das frentes frias mais intensas do outono.
Mais transmissão, não mais gravidade
Um dos pontos centrais da entrevista desmistifica a ideia de que a variante K seja intrinsecamente mais agressiva ao organismo humano. O imunologista faz uma distinção entre virulência e capacidade de contágio. “Essa variante, o pessoal tá falando que ela é mais grave, mas não é. Ela é mais transmissível. Então, por ser mais transmissível, ela tem mais casos. E como tem mais casos de influenza, pela quantidade maior de paciente, tem mais casos graves”, afirma o Dr. Márcio Niemeyer.
Consequentemente, o que vemos nos prontos-socorros e noticiários não é uma mutação mais letal, e sim o reflexo de uma curva epidemiológica que sobe de forma mais íngreme, pressionando o sistema de saúde e aumentando a probabilidade de complicações em grupos vulneráveis.
Além disso, o médico chama a atenção para a natureza mutante do vírus Influenza, um velho inimigo que nunca se apresenta da mesma forma duas vezes. “A influenza é uma doença mórbida. O que é isso? Tem complicação. E também tem uma mortalidade. Principalmente em crianças e idosos”, reitera.
Dessa forma, reservar a vacina da Gripe 2026 agora é um ato de cuidado e responsabilidade, uma vez que a cepa utilizada no imunizante é atualizada anualmente justamente para acompanhar essas pequenas, porém significativas, alterações genéticas.
Por que a vacina é a principal arma?
Questionado sobre a eficácia da vacina atual contra esse subtipo específico, o Dr. Márcio Niemeyer foi transparente ao admitir que o imunizante deste ano apresenta uma eficácia reduzida contra a variante K devido a um fenômeno chamado de escape viral. “Mas é muito importante haver uma vacinação, principalmente agora que está sendo precoce. O pessoal vai ter que vacinar antes”, orienta o especialista.
Portanto, mesmo com uma proteção parcial, a vacinação segue como a barreira mais sólida disponível para reduzir a gravidade dos sintomas, evitar hospitalizações e, sobretudo, diminuir a circulação comunitária do vírus. O alerta é ainda mais importante quando se observa a baixa adesão à campanha. “Estamos com uma cobertura vacinal muito pequena”, pontuou.
Em contrapartida, existe uma segunda linha de defesa disponível para aqueles que buscam atendimento médico rapidamente. O médico destaca o papel do antiviral Oseltamivir (comercialmente conhecido como Tamiflu), um medicamento direcionado para tratar Influenza A e B.
“Nas primeiras 48 horas, ele é direto para tratar a crise. Então, ele diminui a gravidade e a transmissibilidade também”, explica Niemeyer. Além do mais, o especialista revela que o fármaco também pode ser utilizado de forma profilática. “Por exemplo, em adulto, a profilaxia para um contactante de uma pessoa que teve uma influência, você pode usar o Oseltamivir com 1 comprimido ao dia por 10 dias”.
Os novos contornos dos sintomas e a importância do diagnóstico rápido
Um dos desafios atuais para médicos e pacientes reside justamente na apresentação clínica da gripe K, que tem confundido até mesmo profissionais experientes. Diferentemente da apresentação clássica de febre alta e prostração extrema, o vírus tem manifestado sintomas gastrointestinais que mimetizam outras arboviroses, como a dengue.
“Por exemplo, a minha funcionária começou achando que estava com dengue, porque ela começou com gastroenterite, febre e um mal-estar muito grande. E aí, eu fiz o teste rápido. Eu falei: “Eu acho que não é influenza, mas vamos fazer”. Fiz o teste rápido e era influenza”, relatou o imunologista.
Diante desse cenário de atipicidade, o conselho do médico é: o teste rápido deve ser utilizado de forma liberal sempre que houver suspeita. “Aquele paciente que está prostrado, com febre, dor no corpo, sintomas respiratórios que nem sempre estão presentes, vale a pena já fazer o teste rápido, porque ele é barato e que pode evitar problemas mais sérios, uma complicação maior”, recomenda.
O Dr. Márcio Niemeyer faz questão de resgatar uma distinção semântica fundamental para a saúde pública: não existe “gripezinha”. “A gripe é causada pelo vírus da influenza. O resfriado é por uma série de outros vírus”, adverte.
A janela de transmissão também permanece ativa por um período considerável, compreendendo desde “1 dia antes até 7 dias depois dos sintomas ainda tem transmissão”, o que reforça a necessidade de isolamento precoce e higiene respiratória constante.
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