Golpe do falso gerente usa pressão psicológica e dados vazados para enganar vítimas; especialista alerta para sinais de fraude
21 maio 2026 às 11h36

COMPARTILHAR
O golpe do falso gerente tem feito vítimas em todo o país ao unir vazamento de dados, engenharia social e pressão psicológica para convencer clientes bancários a entregarem dinheiro e informações sigilosas aos criminosos. A fraude começa, geralmente, com uma ligação ou mensagem de alguém que se apresenta como funcionário do banco e afirma que há uma movimentação suspeita, tentativa de invasão ou risco de bloqueio da conta da vítima.
A partir daí, os criminosos criam um cenário de urgência para induzir a pessoa a agir rapidamente. Segundo o advogado e presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Clientes e Consumidores de Operações Financeiras e Bancárias (ABRADEB), Dr. Raimundo Donato, os golpistas conseguem acesso a informações pessoais e bancárias das vítimas antes mesmo do contato inicial. “Eles conseguem obter dados sigilosos das pessoas e até dados públicos, como nome, CPF, endereço e, às vezes, até informações bancárias e movimentações financeiras. A partir disso, começam a traçar as vítimas”, explica.
De acordo com o especialista, os criminosos utilizam tecnologias cada vez mais sofisticadas para tornar o golpe convincente. Entre elas, estão recursos de inteligência artificial capazes de manipular vozes e até imagens de funcionários de instituições financeiras. “Eles fazem essa central telefônica falsa e começam a ligar para a pessoa. É nesse momento que começa o golpe”, afirma.
Manipulação psicológica é principal arma dos criminosos
Segundo Raimundo Donato, o crescimento desse tipo de fraude não está mais ligado apenas à falta de conhecimento digital ou à vulnerabilidade de idosos. Hoje, pessoas com alto grau de instrução e experiência financeira também têm sido enganadas. “Basta ter conta em banco para se tornar uma possível vítima”, pontua.
O advogado destaca que o diferencial dos criminosos está justamente na forma como conduzem a conversa. Os golpistas falam de maneira educada, demonstram conhecimento sobre os dados da vítima e criam uma falsa sensação de confiança. “Eles usam muito da manipulação psicológica. A pessoa liga para você de forma muito educada, inteligente, com palavras técnicas, dignas de alguém que realmente representa aquela instituição”, relata.
Depois de conquistar a confiança da vítima, entra a pressão emocional. Os criminosos afirmam que há um problema urgente na conta bancária e que tudo precisa ser resolvido imediatamente. “Eles falam que sua conta será bloqueada, que existe uma tentativa de fraude acontecendo naquele momento e que você precisa agir rápido. A pessoa entra em desespero porque pensa: ‘não posso perder meu dinheiro’”, explica.
Para o especialista, a pressa é um dos principais sinais do golpe. “Golpista nunca fala para você procurar a agência depois ou conversar com calma com seu gerente. Tudo precisa ser resolvido na hora. É essa pressão psicológica que faz muitas vítimas caírem”, diz.
Bancos não ligam pedindo senhas ou recadastramento
Entre os principais alertas, Raimundo Donato reforça que bancos não entram em contato pedindo atualização cadastral, senhas, transferências ou qualquer procedimento de segurança por telefone. “Os bancos não ligam para fazer recadastramento, pedir senha ou orientar transferências. Se alguém ligar dizendo isso, desligue imediatamente”, orienta.
Outro ponto destacado pelo advogado é que criminosos conseguem manter a ligação ativa mesmo após a vítima tentar entrar em contato com a instituição financeira. Por isso, ele recomenda cautela antes de retornar qualquer chamada. “Existe outro golpe em que eles mantêm a linha presa por até uma hora. A pessoa acha que ligou para o banco, mas continua falando com os criminosos”, alerta.
A recomendação é esperar algum tempo antes de entrar em contato com o banco novamente ou utilizar outro telefone para confirmar se houve realmente alguma tentativa de contato da instituição.
O que fazer após cair no golpe
Caso a vítima perceba que foi enganada, a orientação é agir rapidamente para tentar bloquear as transações bancárias e registrar oficialmente a ocorrência. Segundo Raimundo Donato, o primeiro passo é entrar em contato com o banco, preferencialmente por outro telefone, e solicitar o bloqueio imediato da conta e das movimentações suspeitas. “É importante pedir a ativação do mecanismo especial de devolução do Banco Central, além de registrar boletim de ocorrência e reunir todas as provas possíveis”, afirma.
O advogado recomenda ainda salvar prints de mensagens, números de telefone e comprovantes de transações, já que os criminosos costumam apagar conversas para dificultar a identificação. Além disso, ele orienta que a vítima registre reclamação na plataforma consumidor.gov.br e, caso o banco não resolva a situação, procure um advogado especializado em direito bancário.
Consumidor pode recuperar dinheiro na Justiça
Segundo o presidente da ABRADEB, a legislação brasileira prevê responsabilidade das instituições financeiras em casos de falha na segurança bancária. Ele cita as Súmulas 297 e 479 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que reconhecem a responsabilidade objetiva dos bancos em fraudes e delitos praticados por terceiros dentro de operações bancárias. “Mesmo que o dano tenha sido causado por terceiros, o banco tem responsabilidade pela segurança da conta e dos valores do cliente”, explica.
O advogado afirma que muitas vítimas conseguem recuperar judicialmente os valores perdidos e, em alguns casos, também recebem indenização por danos morais. “A maioria dos casos, quando há comprovação de falha de segurança, termina com devolução do dinheiro”, diz.
Apesar disso, ele afirma que muitas pessoas acabam desistindo de procurar seus direitos por vergonha ou descrença na Justiça. “O direito não acolhe quem dorme. Se a pessoa não procurar ajuda e não entrar com ação, ela realmente não vai receber”, afirma.
Para Raimundo Donato, denunciar os golpes é fundamental tanto para responsabilizar os criminosos quanto para pressionar instituições financeiras a reforçarem seus sistemas de segurança.
“É constrangedor cair em golpe, mas ninguém deve se esconder. Quando a vítima denuncia, ajuda outras pessoas a não caírem também”, conclui.

Como evitar o golpe do falso gerente
- Desconfie de ligações com tom de urgência;
- Nunca informe senhas ou códigos recebidos por SMS;
- Não realize transferências orientadas por telefone;
- Nunca vá ao caixa eletrônico seguindo instruções de terceiros;
- Desligue a ligação e procure os canais oficiais do banco;
- Use outro telefone para entrar em contato com a instituição;
- Em caso de golpe, registre boletim de ocorrência imediatamente.
Leia também: Brasil tem 18 influenciadores de política criados por IA; 78% divulgam informações falsas



