Durante décadas, produzir feijão foi quase um exercício de sobrevivência. Bastava uma chuva fora de época, uma geada inesperada ou uma sequência de dias excessivamente quentes para comprometer uma safra inteira. Enquanto outras culturas ganharam espaço impulsionadas pelo mercado externo, o feijão permaneceu dependente, sobretudo, do prato do brasileiro. Ainda assim, Goiás conseguiu transformar uma atividade marcada por incertezas em uma das mais tecnificadas do país.

Hoje, o estado figura entre os maiores produtores nacionais e apresenta algumas das maiores produtividades da cultura, resultado de investimentos em irrigação, pesquisa, genética, correção de solo e assistência técnica especializada. Segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2025/2026 deve alcançar 281,2 mil toneladas, produzidas em cerca de 109,2 mil hectares. Mesmo ocupando a quinta posição em volume nacional, Goiás está entre os líderes quando o assunto é eficiência no campo.

Mas essa liderança esconde uma realidade menos evidente. Produzir feijão continua sendo uma das atividades agrícolas mais sensíveis do agronegócio. O produtor convive diariamente com oscilações de preços, doenças, pragas, custos elevados de irrigação, juros altos e um mercado cuja rentabilidade depende muito mais da oferta nacional do que das exportações.

“O feijão é uma cultura extremamente exigente. Para produzir bem, praticamente tudo precisa estar funcionando em conjunto: solo corrigido, fertilidade adequada, irrigação eficiente, clima favorável e manejo correto. Se um desses fatores falha, a produtividade responde imediatamente”, afirma o engenheiro agrônomo Nilton Gomes Jaime, mestre em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e proprietário da Cerrado Consultoria Agronômica.

Há mais de vinte anos prestando consultoria a produtores rurais, Nilton acompanha aproximadamente 12 mil hectares de lavouras em diferentes regiões goianas. O feijão representa uma das especialidades da empresa, justamente por ser uma cultura que exige acompanhamento técnico permanente.

“Os produtores foram demandando uma assistência especializada. O feijão é uma cultura em que poucos profissionais têm conhecimento aprofundado. Eu enxerguei isso como um nicho de mercado, comecei a estudar bastante e hoje somos muito procurados justamente por esse trabalho.”

Segundo ele, Goiás construiu sua posição de destaque apoiado em um conjunto de fatores que dificilmente aparece isolado em outras regiões produtoras.

“O estado reúne produtores altamente profissionalizados, irrigação, mecanização, agricultura de precisão, assistência técnica qualificada e um trabalho muito forte de pesquisa. Isso explica por que Goiás consegue produzir duas, três vezes mais do que a média brasileira em muitas propriedades.”

Enquanto a produtividade média nacional gira em torno de 18 a 20 sacas por hectare, áreas irrigadas em Goiás frequentemente ultrapassam 50 ou 60 sacas, havendo registros superiores a 80 sacas por hectare.

Para Nilton, esse desempenho começa muito antes da semeadura.

“A cultura do feijão é muito exigente em fertilidade. Ela não tolera solos ácidos, encharcados ou compactados. Primeiro é preciso corrigir fisicamente e quimicamente o solo. Depois entram irrigação, adubação, escolha da cultivar, manejo fitossanitário e acompanhamento constante.”

Nilton Gomes Jaime, mestre em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e proprietário da Cerrado Consultoria Agronômica | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Essa preocupação ajuda a explicar por que municípios como Cristalina, Luziânia, Silvânia, Paraúna, Palmeiras de Goiás, Itaberaí, Rio Verde, Morrinhos e Jussara se consolidaram entre os principais polos produtores do estado. Em comum, eles reúnem alto nível tecnológico e sistemas de irrigação capazes de garantir estabilidade produtiva durante a terceira safra, justamente a mais importante para Goiás.

Produzir muito não significa vender melhor

Apesar da elevada produtividade, o desempenho da lavoura nem sempre se traduz em rentabilidade.

Para o analista técnico do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), Vilmar Eurípedes da Silva Júnior, o principal desafio continua sendo o comportamento do mercado.

“O feijão tem essa questão da volatilidade e é muito dependente da qualidade. Se a gente olhar os preços do IFAG, por exemplo, do preço médio de maio para o que estamos observando hoje, houve uma redução de cerca de 25%. Hoje, um feijão nota 8,5 ou superior gira em torno de R$ 290 por saca, e esse é o preço que acreditamos que deve se manter até o fim do mês.”

Segundo ele, diferentemente de outras culturas, o produtor não sabe exatamente quanto receberá quando inicia o plantio.

“O preço do feijão é atribuído por notas. No fim da colheita, o produtor vai descobrir qual classificação conseguiu para o produto. Então ele não tem certeza de que vai plantar 20 ou 30 hectares e vender por um determinado valor. Tudo depende da qualidade que conseguir produzir.”

Além disso, existe outro obstáculo pouco conhecido fora do setor.

“O feijão-carioca, que é o mais consumido no Brasil, escurece muito rapidamente depois da colheita. O produtor não consegue armazenar esse produto esperando um momento melhor de mercado. Ele acaba tendo uma janela muito curta para comercialização.”

Analista técnico do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), Vilmar Eurípedes da Silva Júnior | Foto: Arquivo

Essa característica faz com que o feijão seja uma das poucas culturas em que produtividade e rentabilidade nem sempre caminham juntas. Produzir bem continua sendo essencial, mas vender na hora certa muitas vezes é tão importante quanto colher uma boa safra.

Se a tecnologia fez Goiás crescer, o clima continua dando as cartas

Se a alta produtividade consolidou Goiás entre os principais polos produtores de feijão do país, ela não diminuiu a dependência do clima. Ao contrário. Quanto maior o investimento em tecnologia, maior também é o risco financeiro de uma safra frustrada.

Nilton Gomes Jaime costuma dizer que o produtor consegue controlar praticamente tudo dentro da propriedade — menos o tempo.

“O feijão não tolera extremos. Ele não suporta excesso de chuva, mas também não suporta seca prolongada. Não gosta de temperaturas muito elevadas na floração e também não tolera frio intenso na germinação. É uma cultura extremamente sensível.”

Essa sensibilidade faz com que o calendário agrícola seja seguido quase como uma regra. No Brasil, o feijão é cultivado em três épocas distintas: a safra das águas, a safra da seca e a terceira safra, irrigada. É justamente nesta última que Goiás se destaca nacionalmente.

“O ideal é plantar em abril. Quem planta nesse período consegue uma condição praticamente perfeita: calor na germinação, temperaturas mais amenas durante a floração e tempo seco na colheita. Quando o produtor planta fora dessa janela, ele passa a correr riscos muito maiores.”

Nilton Gomes Jaime, mestre em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Segundo o agrônomo, a busca por preços mais altos pode, muitas vezes, levar produtores a cometer erros.

“Hoje, por exemplo, quando a saca chega perto de R$ 400, muita gente pensa em plantar mais tarde para aproveitar esse mercado. Só que quem planta em julho pode pegar calor intenso durante a floração e chuva na colheita. A possibilidade de perder qualidade aumenta muito.”

O comportamento do clima também ajuda a explicar por que o mercado do feijão apresenta oscilações tão diferentes de culturas como soja e milho.

Enquanto essas commodities acompanham bolsas internacionais e o câmbio, o feijão reage principalmente ao comportamento da produção brasileira.

“O maior produtor do Brasil é o Paraná. Se lá ocorre geada, excesso de chuva ou quebra de safra, automaticamente falta produto no mercado e os preços sobem. Se a produção é boa, acontece exatamente o contrário. O mercado fica abastecido e as cotações caem.”

Foi justamente esse cenário que marcou a atual temporada. Problemas climáticos reduziram a produção da segunda safra paranaense e abriram espaço para uma valorização do feijão produzido em Goiás.

“O mercado do feijão é muito mais influenciado pelas condições climáticas brasileiras do que por fatores internacionais. É diferente da soja, que depende da Bolsa de Chicago. O feijão depende da oferta.”

Mosca-branca, doenças e armazenamento também pesam na conta

Além do clima, os produtores convivem com outro adversário silencioso: a sanidade da lavoura.

Segundo Vilmar Eurípedes, um dos motivos que levaram Goiás a concentrar boa parte da produção na terceira safra é justamente a possibilidade de controlar melhor as condições de cultivo.

“O feijão tem bastante incidência de doenças. Por isso a terceira safra acaba sendo mais interessante. Como ela é irrigada, o produtor consegue controlar a quantidade de água aplicada e normalmente encontra menor pressão de pragas e doenças.”

Mesmo assim, alguns problemas permanecem recorrentes.

“A gente tem a chamada ponte verde. Em algumas regiões, termina a soja, entra o feijão-caupi e, depois, vem o feijão da terceira safra. Isso favorece uma pressão maior de mosca-branca, que transmite o mosaico, hoje uma das doenças mais importantes para a cultura.”

Foi justamente para reduzir esse ciclo que foi implantado o vazio sanitário em setembro.

“O objetivo é quebrar o ciclo da mosca-branca e diminuir a incidência tanto no feijão quanto na safra seguinte de soja.”

Mas as dificuldades não param por aí.

Outra particularidade da cultura é a dificuldade de armazenamento.

“O feijão-carioca escurece muito rapidamente depois da colheita. O produtor não consegue esperar meses por um preço melhor, como acontece em outras culturas. Muitas vezes ele precisa vender em um período muito curto.”

Essa característica ajuda a explicar por que tantos produtores afirmam que o feijão exige decisões rápidas.

“O mercado é muito instável”

Na prática, quem vive essa realidade diariamente é o produtor rural Marlos Luiz de Queiroz, de Trindade.

Há cerca de quinze anos cultivando feijão, ele alterna a cultura com soja e milho em um sistema que busca aproveitar ao máximo a estrutura da propriedade.

“O mercado do feijão é muito instável. Hoje está bom, amanhã ninguém sabe. Quem está vendendo agora está conseguindo um preço muito bom, mas eu já penso que, quando chegar a minha vez de vender, talvez já não esteja mais assim.”

Mesmo diante dessa incerteza, ele continua apostando na cultura.

“O feijão não dá prejuízo. Ele dá uma recapitalizada. É uma boa opção para quem já trabalha com irrigação.”

Segundo Marlos, os desafios começam ainda na lavoura.

“Tem muita doença, muita praga. Tem cigarrinha, tem outras doenças que aparecem. É uma cultura que exige muito acompanhamento.”

A falta de mão de obra especializada também preocupa.

“Cada ano está ficando mais difícil encontrar gente qualificada. A lavoura hoje é muito mecanizada, mas mesmo assim precisa de pessoas preparadas para operar os equipamentos.”

Apesar disso, ele pretende ampliar novamente a área cultivada na próxima safra.

“Eu estou otimista. Acho que este ano vai compensar mais do que o anterior. Se conseguir vender a saca por R$ 300, já está muito bom.”

Irrigação virou requisito para competir

Se antes a irrigação era vista como diferencial tecnológico, hoje ela se tornou praticamente uma condição para produzir feijão com estabilidade em Goiás.

Mas ela também trouxe novos custos.

Segundo Nilton Gomes Jaime, energia elétrica e disponibilidade hídrica passaram a fazer parte da conta do produtor.

“O pivô funciona com energia. Qualquer aumento no custo da eletricidade impacta diretamente a produção. Já houve produtor que deixou de plantar porque simplesmente não fechava a conta.”

O problema não se resume ao preço.

A própria disponibilidade de água passou a ser acompanhada com mais rigor pelos órgãos ambientais.

“Hoje praticamente não existe mais autorização para instalar pivôs sem reservatórios. Tudo é dimensionado em função da capacidade do manancial. Isso é importante para preservar os recursos hídricos, mas mostra como produzir feijão depende cada vez mais de planejamento.”

Para o agrônomo, o investimento em irrigação só faz sentido porque permite diversificar culturas.

“Ninguém monta um pivô pensando apenas no feijão. Ele serve também para tomate, milho-doce, ervilha e outras culturas. É esse conjunto que torna o investimento economicamente viável.”

Incentivo tributário dá fôlego, mas não resolve sozinho os desafios do setor

Em um cenário de custos elevados e margens apertadas, uma das principais reivindicações dos produtores goianos finalmente saiu do papel. Em junho deste ano, o Governo de Goiás anunciou a redução da carga tributária incidente sobre o feijão in natura comercializado para outros estados. A alíquota interestadual caiu de 6,06% para 2,4%, redução de 60,4% que, segundo o Executivo estadual, representa uma renúncia fiscal estimada em R$ 12 milhões por ano a partir de 2027.

A medida atende uma demanda antiga do setor produtivo e busca reduzir a desvantagem competitiva em relação a estados como Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso e Distrito Federal, que já praticavam tributação menor.

Para o analista técnico do IFAG, Vilmar Eurípedes da Silva Júnior, a mudança é positiva, mas é preciso compreender exatamente onde ela produz efeitos.

“Do primeiro ponto que levantaram sobre a questão do tributo, de toda forma, a gente pode ver como positivo. É um incentivo que vai possibilitar que a gente consiga atender de forma mais competitiva os mercados de outros estados, uma vez que quase 70% do feijão produzido em Goiás vai para fora. Então, isso beneficia, sim, essa comercialização.”

Vilmar ressalta, porém, que o benefício não alcança toda a cadeia.

“Vale ressaltar que isso se aplica ao feijão in natura. É o feijão que sai direto da lavoura para outro estado. Não significa que vai aumentar a atividade das empacotadoras aqui dentro de Goiás. O benefício é para o produtor que comercializa diretamente para outros mercados.”

Na avaliação dele, a medida oferece um importante ganho de competitividade até 2031, prazo previsto para a manutenção do incentivo, mas o crescimento da cultura continuará dependendo de outros fatores.

“Essa questão da tributação está assegurada até 2031. Ela dá um fôlego para o planejamento do produtor e melhora a competitividade. Mas, para que a área plantada cresça, o mercado precisa oferecer mais segurança.”

Segundo o analista, a decisão de plantar feijão continua sendo uma das mais difíceis para quem possui áreas irrigadas.

“Quando chega próximo ao plantio da terceira safra, o produtor vai decidir se coloca feijão, milho, tomate ou outra cultura no pivô. Ele faz essa escolha olhando o mercado, o clima e o risco que cada atividade oferece.”

O futuro passa por tecnologia e sustentabilidade

Se há consenso entre todas as fontes ouvidas pela reportagem, é que a tecnologia continuará sendo o principal caminho para manter Goiás entre os líderes nacionais.

Boa parte dessa transformação acontece abaixo da superfície.

Ao contrário da imagem tradicional da agricultura baseada apenas em fertilizantes químicos, cresce rapidamente o uso de bioinsumos, microrganismos capazes de melhorar o desenvolvimento das plantas, aumentar a eficiência nutricional e reduzir a necessidade de alguns produtos químicos.

Nilton Gomes Jaime acompanha essa mudança de perto.

“Hoje temos microrganismos que conseguem disponibilizar fósforo preso no solo, aumentar o crescimento das raízes, melhorar a resistência ao estresse hídrico e reduzir impactos ambientais. É uma tecnologia extremamente sustentável.”

Segundo ele, o avanço foi tão rápido que até empresas tradicionalmente conhecidas pela fabricação de defensivos passaram a investir pesadamente em produtos biológicos.

“A maioria das empresas já criou linhas específicas de bioinsumos. Elas perceberam que esse mercado está crescendo e veio para ficar.”

Vilmar observa que a adoção dessas práticas também melhora a conservação do solo e reduz riscos em anos de clima irregular.

“Todas essas técnicas voltadas para a saúde do solo, como plantio direto, manutenção de palhada e conservação, permitem ao produtor reduzir riscos. Se houver um veranico, por exemplo, a palhada ajuda a conservar umidade. No caso do feijão, além de melhorar a produtividade, reduz a presença de terra próxima às vagens durante a colheita e melhora a qualidade do produto.”

Ele lembra que o Sistema Faeg/Senar oferece treinamentos justamente para acelerar essa transformação.

“O Senar tem cursos voltados para plantio direto, agricultura de precisão, aplicação em taxa variável e bioinsumos. São capacitações que ajudam o produtor a reduzir custos e melhorar a eficiência.”

O desafio agora é tornar o mercado mais previsível

Embora o Brasil esteja entre os maiores produtores mundiais de feijão, a cultura continua fortemente dependente do mercado interno. Cerca de 70% da produção nacional corresponde ao feijão-carioca, variedade praticamente consumida apenas pelos brasileiros.

Para o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), Marcelo Lüders, essa dependência começa a diminuir com a abertura de novos mercados para feijões especiais, como mungo, caupi e rajado, principalmente na Ásia, Oriente Médio e África. Ainda assim, o carioca continuará sendo, por muitos anos, o principal produto da cadeia.

Presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), Marcelo Lüders | Foto: Arquivo

Marcelo avalia que a medida corrige uma distorção histórica, mas não resolve, sozinha, os gargalos da cadeia produtiva. “A medida melhora a competitividade do feijão produzido em Goiás, especialmente nas vendas para outros estados. Na prática, isso reduz uma distorção que há muitos anos prejudica o comércio formal de feijão entre os estados. A medida facilita a venda direta, amplia o número de compradores que podem acessar a produção goiana e diminui a necessidade de operações intermediárias motivadas apenas por diferenças tributárias”, afirma.

Para Lüders, Goiás reúne praticamente todos os fatores necessários para ampliar sua participação no mercado nacional, mas o incentivo tributário precisa ser acompanhado por outras medidas estruturantes. “Goiás já reúne produtores tecnificados, agricultura irrigada, importantes empresas de sementes e a presença da Embrapa Arroz e Feijão. Portanto, tem todas as condições para ampliar seu protagonismo no abastecimento nacional. Entretanto, o incentivo fiscal, sozinho, não resolve tudo. Para que o benefício chegue efetivamente ao produtor, precisa ser acompanhado por classificação, armazenagem, padronização da qualidade, informação de mercado e melhor organização comercial.”

Na avaliação do presidente do Ibrafe, o maior problema enfrentado hoje pelos produtores brasileiros não é exatamente o custo de produção ou a tributação, mas a falta de previsibilidade. “Todos esses problemas estão relacionados, mas, se eu tivesse que apontar o principal, diria que é a falta de previsibilidade. Os custos de sementes, fertilizantes, defensivos, energia, irrigação, crédito, máquinas e mão de obra aumentaram. A tributação ainda cria distorções entre os estados e a comercialização é fragmentada. Mas é a falta de previsibilidade que amplia todos esses riscos. Muitas vezes, o produtor decide o plantio olhando o preço de ontem, sem saber quanto será colhido em outras regiões, qual será a demanda futura ou qual volume poderá ser exportado. Não basta produzir bem. É necessário saber para quem produzir, com qual padrão, a que custo e em qual momento vender.”

Para Hélio Dal Bello, conselheiro sênior da Associação Brasileira de Consultores de Feijão (ABC Feijão), o setor também precisa estimular o consumo interno.

“O feijão é um alimento extremamente saudável. Rico em proteína, ferro e fibras. Precisamos incentivar o consumo, principalmente entre os mais jovens.”

Vilmar também acredita que o crescimento da área plantada dependerá muito mais da previsibilidade do mercado do que da capacidade técnica dos produtores.

“Para a gente pensar em aumento de área de feijão, sem dúvida precisaríamos de um mercado mais fixo, que desse ao produtor maior segurança sobre o preço que ele vai conseguir na comercialização.”

Hélio Dal Bello, conselheiro sênior da Associação Brasileira de Consultores de Feijão (ABC Feijão) | Foto: Arquivo

Uma potência construída sobre conhecimento

Ao longo das últimas décadas, Goiás transformou uma cultura tradicional em uma das mais tecnificadas do agronegócio brasileiro. Irrigação, pesquisa, genética, mecanização, agricultura de precisão e assistência técnica fizeram o estado alcançar produtividades que superam, em muitos casos, o dobro da média nacional.

Mas, apesar da tecnologia, produzir feijão continua sendo um exercício diário de tomada de decisões.

O produtor precisa acompanhar o clima, calcular o custo da energia, observar a incidência de pragas, escolher a cultivar correta, monitorar a qualidade do solo, analisar o mercado e definir o momento certo para vender um produto que não pode permanecer armazenado por muito tempo.

É justamente esse conjunto de fatores que explica por que Goiás se tornou uma potência na produção de feijão — e por que, ao mesmo tempo, a cultura continua sendo uma das mais desafiadoras da agricultura brasileira.

Como resume Nilton Gomes Jaime, não existe espaço para improviso.

“Produzir feijão é administrar riscos todos os dias. Quando solo, clima, irrigação, manejo e mercado caminham juntos, o resultado aparece. Mas é uma cultura que exige conhecimento, planejamento e muito respeito.”

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O solo como sistema vivo e o aumento da produtividade do feijão irrigado em Goiás