Goiás aparece acima de estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina no número de manifestações ligadas principalmente à terra, povos indígenas, meio ambiente e água. É o que revela a 40ª edição do relatório “Conflitos no Campo Brasil”, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

O estado goiano contabilizou 40 ocorrências de conflitos por terra ao longo de 2025, afetando diretamente 2.973 famílias em 26 municípios. Além disso, a CPT registrou 13 manifestações de luta no território goiano, com participação de 1.820 pessoas, além de 7 conflitos por água, 2 ocupações de terra com cerca de 900 famílias e pelo menos 4 ameaças de morte contra lideranças e comunidades rurais.

Cavalcante concentra maior número de conflitos por terra em Goiás

Os dados da CPT apontam que o município de Cavalcante, na região nordeste de Goiás, lidera as ocorrências de conflitos fundiários. De acordo com o levantamento, a cidade registrou nove eventos desse tipo, envolvendo diretamente 387 famílias. Entre os casos está o Território Quilombola Kalunga – Comunidade Vão de Almas, onde 215 famílias sofreram violações, com dois episódios distintos de violência contra a posse. 

Ainda em Cavalcante, a Comunidade Engenho II/Quilombo Kalunga aparece com três registros de violência, afetando 125 famílias.

Logo em seguida, o município de Formosa também se destaca negativamente. Conforme o relatório, o Acampamento Dom Tomás Balduino/Áreas I/Áreas II/Áreas II concentrou 280 famílias em situação de conflito, com seis ocorrências de violência contra a ocupação e a posse. Além disso, a cidade registrou um conflito por água envolvendo o mesmo acampamento.

Violências variam entre ameaças, despejos e destruição de roçados

Ao analisar os tipos de violência praticados contra as famílias goianas, a CPT identificou um grande leque de agressões. Por exemplo, em Santo Antônio do Descoberto, na Fazenda Antinha de Baixo, quatro ocorrências envolveram 400 famílias, incluindo uma ameaça de morte contra funcionários públicos e quilombolas. No mesmo imóvel, grileiros e fazendeiros promoveram grilagem, invasão e destruição de pertences.

Enquanto isso, no município de Niquelândia, o Assentamento Acaba Vida registrou duas ameaças de morte contra assentados, além de casos de pistolagem e incêndios. A cidade também aparece com 177 famílias afetadas por violências como ameaça de expulsão, invasão e destruição de pertences.

Outros tipos de violência documentados em Goiás incluem: contaminação por agrotóxicos (em Santa Helena de Goiás, com 180 famílias), despejo judicial (em Jaupaci, afetando 60 famílias), invasão (em Aruanã, contra 50 indígenas do povo Inã/ Karajá – Aldeia Buridina) e desmatamento ilegal e incêndios (em Cavalcante, contra quilombolas e pequenos proprietários). 

Conflitos por água e ocupações também marcam o ano

Paralelamente aos conflitos por terra, Goiás registrou sete ocorrências ligadas à água em 2025. O dado chama a atenção porque, embora o número seja menor que o de anos anteriores, ele demonstra a pressão sobre os recursos hídricos do estado. Baliza lidera esse tipo de conflito, com 529 famílias afetadas no Assentamento Oziel Alves Pereira.

Em seguida, Minaçu aparece com três registros: dois envolvendo córregos (Areia e Tabocão) e um relacionado às Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa e Cana Brava, impactando 200 famílias.

No que diz respeito às ocupações de terra, o relatório contabilizou dois movimentos em Goiás durante 2025. Em Água Fria de Goiás, a Fazenda São Paulo recebeu 500 famílias sem terra em uma ocupação realizada em 7 de abril. Já em Ipameri, a Fazendo Ouro Verde/Acampamento José Belmiro/Olga Benário foi ocupada em 30 de setembro por 400 famílias.

Manifestações de luta e trabalho escravo completam o panorama

Além dos conflitos diretos, a CPT registrou 13 manifestações de luta em solo goiano. A capital, Goiânia, recebeu a maioria delas, com nove casos. Destacam-se as ocupações do prédio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), realizadas em fevereiro, março, abril, junho e julho de 2025, reunindo de 50 a 600 pessoas.

As reivindicações principais incluíram reforma agrária, assentamento de famílias e políticas públicas para o campo. Anápolis e Posse também realizaram ocupações da Caixa Econômica Federal, com 250 e 150 participantes, respectivamente, contra agrotóxicos e em defesa da soberania alimentar.

Por fim, o relatório revela que Goiás resgatou 220 trabalhadores em condições análogas à escravidão no campo em 2025. Esse número coloca o estado como o terceiro maior resgatador do país, atrás apenas de Mato Grosso (606) e Minas Gerais (303). As atividades econômicas envolvidas incluem lavouras, cana-de-açúcar e pecuária, setores que historicamente concentram as piores violações trabalhistas.

A CPT reforçou que, embora o número total de conflitos no campo tenha caído 29% no Brasil em relação a 2024, a violência contra pessoas e comunidades segue em patamares altos.

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