Na próxima semana, os espetáculos de circo “Varieté – Corpus Cirkuz” e “Pulso da Carne: o corpo lembra, a carne fala” serão realizados no Teatro Escola Basileu França nos dias 4 e 5 de maio de 2026, com números de equilibrismo, malabarismo e acrobacia. Os ingressos custam apenas R$ 10 por apresentação e já estão disponíveis na plataforma Sympla.

Realizados pela Escola de Circo da Escola do Futuro de Goiás em Artes Basileu França, os dois eventos prometem provocar reflexões sobre o corpo na sociedade contemporânea, ao mesmo tempo em que entregam toda a potência estética e expressiva da arte circense. Para isso, o público poderá conferir trabalhos de jovens artistas, entre eles as dançarinas Raiza Morgana Lima Ribeiro e Michele Brenda Costa Lindoso, que compartilharam em entrevista os bastidores, os desafios e as inspirações por trás de seus números.

“Varieté – Corpus Cirkuz” sobe ao palco na segunda-feira, 4, e, conforme explica a coordenadora da Escola de Circo Basileu França, Fernanda Helena Vaz Siqueira, a montagem propõe uma análise sobre a percepção do corpo na era atual. “Por meio de números diversos, a Varieté apresenta críticas sociais e estéticas, utilizando a força expressiva do circo para provocar e encantar o público. O corpo circense é o canal por onde a poesia se manifesta, despertando emoções como riso, tensão, alívio e diversão”, detalha.

Entrevistada pelo Jornal Opção, a dançarina Raiza Morgana Lima Ribeiro, de 32 anos, revela que sua trajetória no circo começou em 2023 com capacitação em tecido acrobático. “Em 2024, fiz o técnico e agora estou no corpo circense do Basileu”, conta. Para o espetáculo, Raiza preparou um número especial intitulado “Miss Plastificada 2000”.

“Ele é inspirado na vibe crítica e irônica da Rita Lee. Eu trabalho no tecido acrobático trazendo uma reflexão sobre padrões de beleza desde a infância até a vida adulta. O maior desafio é sustentar a energia do começo ao fim, sem deixar o cansaço aparecer”, descreve a artista.

Logo em seguida, Raiza detalha a rotina exaustiva que a leva a atingir o nível técnico exigido. “Minha rotina é bem intensa, treino todos os dias, faço preparação física com foco em força, cardio e flexibilidade, além de treinos específicos no tecido. É um processo constante de construção do corpo e da técnica, tudo bem alinhado para conseguir executar o número com segurança e presença”, afirma.

Apesar de já ter participado de outras montagens, ela ressalta que esse espetáculo ocupa um lugar especial. “Ele foi retrabalhado para essa Varieté, e a Varieté ao todo tá muito linda, muito divertida”, celebra.

Quando perguntada sobre os momentos que antecedem a entrada em cena, Raiza compartilha sua ansiedade de forma bem-humorada. “Ainda tenho que aprender a lidar com o mix de sentimentos, deixo a vergonha de lado, reviso mentalmente a sequência e tento não encarar muito o público logo de cara pra não travar. É um misto de nervosismo com foco.”

A dançarina também reflete sobre como o circo transformou sua relação com o próprio corpo. “O circo mudou tudo. Hoje eu tenho uma relação muito mais consciente e respeitosa com o meu corpo, entendo meus limites, e não exagero para não lesionar, e celebro cada conquista. Em cena, me abriu um lugar de liberdade: consigo transformar vivências em cena, contar histórias com o corpo”, conclui.

Já na terça-feira, 5, a atração fica por conta de “Pulso da Carne: o corpo lembra, a carne fala” , um espetáculo de circo contemporâneo e dança que investiga o corpo como matéria viva, disciplinada e insurgente. “Em cena, um coletivo se move como um único organismo, guiado por forças que moldam gestos e silenciam desejos. Aos poucos, surgem fissuras: os corpos se desviam, exploram o risco e o proibido, revelando as habilidades circenses como ato de resistência e afirmação da individualidade”, detalha a coordenadora Fernanda Helena.

“No limite, esse coletivo se transforma, instaurando uma revolução sensível em que liberdade e coexistência se tornam possíveis. Pulso da Carne é tensão, ruptura e reinvenção – o corpo que resiste, cai, insiste e cria novas formas de existir junto ao outro”, complementa.

Ao Jornal Opção, Michele Brenda Costa Lindoso, de 33 anos, conta que assume múltiplas funções no espetáculo Pulso da Carne. “Eu sou a roteirista, artista de tecido acrobático (tecidista) e componho o núcleo coletivo dos artistas.”

Questionada há quanto tempo treina circo e como começou, Michele revela um treino de circo que se estende por 8 anos, no qual “iniciou com o tecido acrobático em escolas particulares, que ofereciam a modalidade como atividade física, sem muito envolvimento com processos criativos”.

Ela explica que foi somente quando aprofundou o contato com a arte que passou a participar ativamente, com a criação de números e espetáculos, desenvolvendo performances circenses. “Entrei a primeira vez no Basileu em 2023, na Qualificação Circense, e formei no final de 2024. Passei por uma formação no Circo Laheto e retornei em agosto de 2025 para o Curso Técnico em arte circense também no Basileu”, explica.

Michele revela, ainda, que a construção de “Pulso da Carne” exigiu um longo e coletivo processo de preparação. Ao todo, a artista conta que os ensaios e os ajustes se estenderam por aproximadamente dois semestres, um período intenso em que professores e alunos trabalharam lado a lado.

Ela explica que os docentes “ajudaram a coreografar, a preparar fisicamente os corpos dos artistas, na flexibilidade, força, resistência, e técnica em cada aparelho ou modalidade a ser trabalhada”. Porém, Michele ressalta que o tempo dedicado à parte física não foi o único investimento necessário.

Segundo ela, também houve uma longa fase de criação coletiva, repleta de “ajustes e modificações”. O grande cuidado da equipe, detalha a dançarina, foi “mantendo a essência de cada artista dentro das suas vivências e experiências”. Dessa forma, ela garante que o espetáculo conseguisse fugir do figurativo: “para que tudo sobre o pulsar da carne não fosse apenas figurativo, e conseguisse trazer a nossa carne junto”.

A expectativa para se apresentar no Teatro Escola Basileu França, segundo Michele, é de acolhida e renovação. “Aqui é sempre um lugar de acolhida por ser o primeiro lugar que me apresentei oficialmente, e que me vi acolhida pela equipe envolvida no espetáculo e pelo público presente (…) Fomos provocados nesse processo criativo a conhecer referências de outras artes (como obras da Pina Bausch e da Compañia Dospuntos Circo) e como elas dialogam com o circo contemporâneo”, afirma.

Michele explica ainda que existe uma conexão entre sua própria trajetória pessoal à proposta central do espetáculo. Ela se define como parte da engrenagem do sistema atual, um sistema marcado pelo trabalho excessivo e pela massificação do pensamento. A partir dessa consciência, a dançarina explica que sente em si mesma um corpo ao mesmo tempo disciplinado e insurgente.

“No espetáculo a ideia é trazer à tona o momento em que conseguimos atravessá-lo”. Para Michele, essa travessia acontece na própria cena. Ela revela que tenta se conectar com a proposta justamente a partir das tensões reais que habitam seu corpo,  entre elas, os limites impostos pela sociedade, os padrões assimilados ao longo da vida e o desejo constante de ruptura.

Dentro do universo circense, onde técnica e repetição são essenciais, a artista busca criar fissuras. “O movimento deixa de ser apenas execução e passa a ser escolha, risco e presença (…) É nesse ponto que tornamos o movimento político, quando o corpo começa a resistir, negociar e reinventar suas possibilidades, até que a ruptura seja constante e acolhedora”. 

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