Goiânia Drag City: a incrível moda dos meninos que se vestem de meninas

Com ares pop e conquistando cada vez mais adeptos, o mundo das drag queens invade festas da capital, questionando preconceitos dentro da própria comunidade gay

Jane Jungle e Carlah Yuvallac: drag queens que fizeram da diversão, profissão | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Jane Jungle e Carlah Yuvallac: drag queens que fizeram da diversão, profissão | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

São 21h30 e Pedro Fleury começa a separar a roupa para a balada de sexta. Em seu apartamento no Centro de Goiânia, o jovem de 19 anos vai abrindo espaço no banheiro e separando o aparato da noite. Mas, com uma pequena diferença de um rapaz comum. Em vez de calça jeans, uma calcinha preta. No lugar da camisa, sutiã. Ah! E maquiagem. Muita maquiagem.

Em algumas horas, o bailarino se transformará em Jane Jungle, a personagem que dá vida como drag queen. Ao lado da amiga e sócia, Carlah Yuvallac, ele atua como DJ e serve shots de tequila na boate Music!. O que começou como uma “zoação” virou profissão.

No início do ano passado, Pedro conta que foi “montado” — gíria gay que significa se vestir de mulher — para uma festa chamada D0n’t_t4p3, com tema Batalha de Looks. “Aconteceu naturalmente… Achei legal e fui repetindo”, relata.

De fato, já há algum tempo a arte drag vem invadindo festas na capital goiana. Seja às quintas da Bapho, no The Pub, ou às sextas da Bubblegum, na Music!, é muito comum ver alguma dessas personalidades inusitadas batendo cabelo nas pistas de dança. Inclusive, existem baladas dedicadas a elas, como a bimestral “Troca-Troca”, do El Club.

Se antes as drags eram marginalizadas, tidas como seres caricatos e ameaçadores, hoje ganham espaço entre os jovens. Os direitos conquistados nos últimos anos, a liberdade de expressão e a quebra de tabus sociais, como a própria homossexualidade, deram fôlego à arte por todo o mundo.

1h30 de produção: Pedro se arruma para dar vida a Jane Jungle  | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

1h30 de produção: Pedro se arruma para dar vida a Jane Jungle | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Pedro garante que, em casa, não há problema algum. “Minha mãe é de boa até demais. Ela tem um acervo muito bacana de roupas, daí eu sempre pego coisas dela. Inclusive, mando fotos dos meus looks e ela adora”, explica e completa: “Ela gosta quando eu fico loira, pois acha que ficamos parecidas”. Já o pai, segundo ele, encara como um “negócio”: “Ele me admira muito”.

Entre uma pincelada e outra, Pedro vai virando Jane. Uma concentração ímpar. Uma infinidade de produtos de beleza — e outros nem tanto, como cola bastão e tinta Nanquim — são manuseados com maestria de quem tem longa experiência no ofício. “Um longo ano de aprendizado. Vejo as fotos do começo e minhas sobrancelhas ficavam horrorosas”, reconhece ele (que agora está mais para “ela”).

Ao seu lado, está Carlah Yuvallac, também quase pronta. Aos 23 anos, ela prefere não se identificar. Na verdade, a família não aceita nem sequer a homossexualidade. Contudo, isso não a impede de declarar seu amor pelo trabalho: “Eu vivo, respiro a arte drag”.

Carlah explica que nunca “sonhou” em ser drag. Na verdade, como a amiga, foi uma oportunidade que surgiu: “Comecei indo com uma peruca, uma roupa qualquer e meus óculos, que são minha marca registrada. Tive uma boa aceitação do público e então me agarrei com todas as forças”.

Hoje, anima as noites da Music! com sua personalidade extravagante e looks inspirados na alta costura. Para a sessão de fotos do Jornal Opção Online, Carlah levou um conjunto preto cravejado de pérolas, feitos pela própria. Pergunto se elas sabem costurar. Resposta negativa… Mas, de pronto, emendam: “nada que cola quente não resolva”. Risadas.

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A dupla investe mensalmente mais de R$150 só em maquiagem | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Sócio da boate em que a dupla discoteca e serve shots, Maurício Almeida elogia a qualidade do trabalho de Jane e Carlah. “Sinto que elas são voltadas para uma montação mais hype, moderna e bem menos caricata. Elas realmente investem nas maquiagens e roupas. Têm referência de moda e cultura”, afirma o empresário, que também comemora a boa repercussão das festas: “O sucesso é tanto que nas sextas-feiras elas são figuras queridas da noite. O público quer ver, tocar, tirar fotos. Ficamos satisfeitos, pois percebemos respeito total do público, tanto hetero quanto gay”.

Além dele, Lucas Manga — sócio do El Club — elenca Carlah Yuvallac e Jane Jungle como referências do movimento “new-drag” em Goiânia. “A pesquisa, engajamento e talento impressionam. No mesmo bonde, vem Jolene Parton e Daiene Matarazzo. Pelo que percebo, essas quatro meninas carregam hoje uma responsabilidade de imprimir ideias, conceitos e de estar, sempre, impressionantemente muito bem vestidas”, relata.

Uma olhada na quantidade de perucas, roupas e saltos e não há dúvidas que aquilo não é uma brincadeira. “Investimos muito nisso aqui e não é barato não, viu?”, comenta Carlah. A dupla estima que, por mês, investem, só em maquiagem, cerca de 150 reais. “Cada peruca é em torno de 100, 150 reais; sapatos mais de 300… Só as roupas que a gente gosta de comprar em brechó e costumizar”, completa Jane.

À certa altura da entrevista, este repórter questiona sobre o uso do pronome. “Ele ou ela? Como funciona? Quando incorporam a personagem?”. Carlah responde que, para ela, quando coloca a peruca: “mudam-se os trejeitos, a voz, a personalidade. Bate cabelo!”. Já Pedro conta que os saltos afloram a Jane: “aí o negócio arrebenta”.

A estudante Jolene Parton, que não pode estar presente na entrevista, explica que não vê no mundo drag uma profissão, mas uma maneira de se libertar. “Faço pela diversão que isso me proporciona. É muito legal ir a um lugar e não te reconhecerem. O fugir da rotina, o poder ser seu ‘alter ego’ e passar uma mensagem positiva pras pessoas”, garante ela.

Amiga de Jane e de Carlah, Jolene explica que as três são uma grande família, a “JanCarLen”. “Fazemos quase tudo em conjunto, quando uma não tem a outra apoia”, finaliza.

Trio JanCarLen: Jane Jungle, Carlah Yuvallac e Jolene Parton | Foto: reprodução / festa D0n't_t4p3

Trio JanCarLen: Jane Jungle, Carlah Yuvallac e Jolene Parton | Foto: reprodução / festa D0n’t_t4p3

Relações sociais

Talvez o maior preconceito não venha exatamente da sociedade em geral e, sim, do próprio ambiente gay. Por desafiarem os conceitos de masculinidade, as drag queens acabam sendo malvistas e não é de se surpreender que elas escutem comentários do tipo “é tão bonito para fazer isso” ou “aquele menino é lindo, mas se veste de mulher”. Herança do tradicional machismo goiano.

Assim corroboram Carlah e Jane que, embora nunca tenham sofrido agressão, confirmam que o preconceito persiste: “É meio que cultural. Eles recebem muito ódio desde pequenos, então, o que elas vão reproduzir? Ódio”.

“O que eu faço é meio que ignorar tudo isso… Nos próprios aplicativos de relacionamento, alguns saradões vêm falar comigo e eu já mando foto de drag logo”, brinca Carlah e Jane complementa: “E tem uns que ainda querem”.

Joana Rogue (que também prefere manter sua identidade masculina oculta) conta que se montou apenas três vezes e que sofreu retaliações. “Tive uma amiga que me deletou de tudo e disse que não era obrigada a me ver assim. E outras duas da última vez que falaram que quando eu estiver de drag, não olhar na cara delas muito menos cumprimentá-las”, explica. “Eu não ligo, assumi esse personagem para mim, e tenho que carregar o peso junto comigo”, finaliza ela.

Lucas Manga, do El Club | Foto: reprodução / Facebook

Lucas Manga, do El Club | Foto: reprodução / Facebook

Contudo, Lucas Manga conta que, apesar de pensamentos retrógrados ainda persistirem, há, cada vez mais, uma maior interação. “A Troca-Troca começou como uma festa tipo os blocos de carnaval, onde homens se vestem de mulher e vice-versa. O que não esperávamos era essa imensa invasão das ‘new-drags’ e de uma geração de meninos que, de tão despreocupados com o que outros vão pensar, vem atingindo um nível estético invejável, e claro, para a casa, fazendo as festas cada vez mais divertidas”, sustenta.

O empresário cita, ainda, outra curiosa tendência que tem acontecido na noite: “As transformações não se restringem ao público gay. Cada vez mais vemos homens heterossexuais entrando na onda. Como proprietário acho simplesmente demais”.

Um hétero (que prefere não se identificar) relata que a experiência do “troca-troca” foi muito divertida. “Minha namorada foi vestida de homem e eu de mulher e nós nos divertimos muito. Dei muita risada a noite toda. O difícil foi aguentar o calor da peruca e o estranhamento da roupa”, brinca ele.

Sobre o preconceito dos amigos, ele afirma que eles “curtem um pouco”, mas que não “sente preconceito vindo de forma forte e escancarada”. Já os amigos gays: “Adoram e se divertem junto”.

À esquerda, Pedro Fleury; à direita, Jane Jungle | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

À esquerda, Pedro Fleury; à direita, Jane Jungle | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Sucesso mundial

Muito dessa febre de drag queens em Goiânia advém do sucesso mundial do seriado norte-americano RuPaul’s Drag Race. Em uma mistura de concurso de talentos com reality show, o programa — comandado pela drag queen mais famosa do mundo da atualidade, RuPaul — reúne competidoras para disputarem o título de “A próxima superestrela drag da América”.

Lançado em 2009, com um orçamento tímido e formato amador, o programa só ganhou repercussão no Brasil em sua quarta temporada (em 2012). Chegou até a ser exibido pelo canal de TV por assinatura VH1 sob o título de “Corrida das Loucas”, mas foi cancelado.

Nas redes sociais, memes, imagens e vídeos das personagens e desafios — além claro de todo o drama — que compõem a RuPaul’s Drag Race logo viralizaram. A alta popularidade na internet transformou o reality no mais bem sucedido da grade do canal de TV gringo Logo.

São 1,2 milhão de curtidas no Facebook e mais 300 mil seguidores no Twitter.

Atualmente, todas as seis temporadas estão disponíveis na Netflix (serviço de vídeo sob demanda) brasileira.

A drag queen RuPaul: apresentadora do RuPaul's Drag Race | Foto: divulgação

A drag queen RuPaul: apresentadora do RuPaul’s Drag Race | Foto: divulgação

 

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Corá

Matéria maravilhosa! Amo drag e a oportunidade que te dá de ser outra pessoa por um tempo. No salto 15 não tem erro huehue

Lúcio Kummer

É disso que a nossa socidade precisa: jornalismo que dá visibilidade a diversidade, que promove a cultura LGBT. Parabéns ao Jornal Opção! Que matéria espetacular, ganharam ainda mais o meu respeito.

Lucas Rigonato

Tudo lindo!

Ingrid Mariano

Arrasou! Amo esse movimento sendo formado em Goiânia e adoro e acompanho o trabalho das “new drags”! Sucesso

Déborah Gouthier

Opção arrasando mais uma vez. Matéria linda e respeitosa!

Leevir

Uau !!
Cultura que promove alegria entre as pessoas”

anne cardon

Muito boa a matéria! Sou fã de todos que se montam.

Frederico

Parabéns ao jornal pela matéria, ficou muito bacana!

Eduardo de Souza

Parabéns pela excelente matéria. Direta ao assunto!

Elias Scobhar

uau gostei muito da matéria ….precisamos de mais foco no assunto para desmistificar e dilacerar tabus existente entre o mundo gay…em especial as Drag´ Queens …nada mais é do que artistas…muito massa , parabéns

flaviadurante

Sou de São Paulo, fã do Drag Race e adorei a matéria. Muita sensibilidade! <3