Rui Martins

Hoje, quando qualquer um pode editar, publicar e vender seu livro pela Amazon, alguém pode perguntar se as editoras são ainda importantes. Sim, são importantes porque sem elas, sem a seleção dos originais, sem a impressão desses originais para serem vendidos nas livrarias, muitos autores de valor ficariam desconhecidos.

Por coincidência, relembra-se nesta semana (23 de abril) a morte de dois monumentos da literatura mundial,há 410 anos, William Shakespeare e Miguel Cervantes. Ambos se tornaram lidos e conhecidos por terem seus originais publicados depois da criação da imprensa por Gutenberg.

Os primeiros livros impressos, surgidos na segunda metade do século XV, marcaram o fim do monopólio da cópia manual de livros em pergaminhos feita nos mosteiros, pela qual a Igreja controlava a escassa produção de livros.

O surgimento das primeiras gráficas de Gutenberg, de custo bem mais barato, permitiu a produção em série de livros, tornou a Bíblia acessível a todos, criando a livre interpretação de seus textos e provocando uma fratura no cristianismo com a Reforma de Lutero. Ao mesmo tempo, abriu caminho para a literatura com o surgimento da indústria editorial e permitiu a livre expressão das idéias.

Mas, logo depois, como contrapeso, surgiram a censura e a proibição da leitura dos livros proibidos. Resumindo, a edição de livros abriu o caminho para a modernidade e foi o germe das revoluções sociais com o acesso facilitado ao mundo das idéias. Outras invenções vieram e depois do livro se chegou aos jornais, ao rádio, à tevê e agora à internet com suas redes sociais e à expansão das mídias.

E chegamos aqui ao tema desta semana – quem detém a produção de livros, pode controlar o pensamento dos intelectuais e do público melhor informado, assim como a TV e as redes sociais podem controlar o pensamento e o comportamento do povo, bem como dirigir suas opções políticas.

Toda imprensa francesa tem noticiado com destaque, nestes dias, a decisão de mais de 300 autores de romperem com a Editora Grasset, pela qual seus livros são editados. Grasset vinha sendo desde 1907, ano de sua criação, uma prestigiosa editora de literatura francesa e estrangeira, ensaios, romances, ciências humanas, etc.

Agora, importantes jornais franceses prevêem mesmo o risco de Grasset fechar pela recusa dos bons autores a ela entregarem seus originais para publicação. Nem sempre autores militantes de extrema-direita têm o talento de Louis-Ferdinand Céline, notório militante pró-nazistas durante a Ocupação francesa. Isso limita o acesso da editora aos bons e inovadores originais.
Até agora, o prestígio da Grasset provinha de sua independência na seleção e publicação de bons originais, sem procurar favorecer este ou aquele conteúdo político.

O responsável pela crise é o milionário Vincent Bolloré, proprietário de Editions Grasset, mas igualmente do Canal+, Europe1, CNews, Le Journal du Dimanche, hoje transformados em órgãos de propaganda política.

Diante da proximidade das eleições francesas, com o fim do mandato de Emmanuel Macron, o milionário Bolloré deseja utilizar a penetração do seu aparelho midiático para a eleição do candidato Jordan Bardella, da extrema direita francesa, Rassemblement National, caso a atual presidenta do partido seja declarada inelegível em julho, pela Justiça francesa.

Sua intervenção na Grasset, da qual é proprietário, consistiu em demitir Olivier Nora, o respeitado responsável pela seleção dos originais e pela publicação dos livros Grasset há 26 anos.

Antes de demitir Olivier Nora para intervir na seleção de autores e originais da Grasset, Vincent Bolloré já havia provocado a mobilização dos estudantes de jornalismo ao liderar um grupo de investidores na compra da Escola Superior de Jornalismo de Paris.

Rui Martins

Jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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