Para especialista, problemas do Plano Diretor começaram na versão de 2007 e se intensificam em novo projeto

Anamaria Diniz avalia que prefeitura se preocupa com empréstimos exorbitantes para abranger lista de obras e o planejamento urbano é deixado de lado

Foto; Fábio Costa/Jornal Opção

A Coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas e Estudos da Cidade (Nipec), Anamaria Diniz, falou ao Jornal Opção sobre o projeto de revisão do Plano Diretor que chegou recentemente à Câmara Municipal de Goiânia. Estudiosa da história da Capital há 15 anos, Anamaria, que também é doutora em Arquitetura e Urbanismo e Phd e pós-doutora em história urbana pela UnB, afirma que, infelizmente, vê um futuro muito ruim para Goiânia, “e isso já está em andamento”.

Para ela, o plano em vigência, de 2007, trouxe muitos retrocessos, que estão sendo consolidados com a nova proposta. “Tivemos uma alteração drástica na paisagem da cidade. Qualquer pessoa com mais de 30 anos percebe facilmente essa transformação, do que era Goiânia antes de 2007, e agora, em relação a adensamento e verticalização”, explica.

“Acaba que a concentração de pessoas aumenta 100 vezes do que foi projetado e isso gera um impacto enorme naquele local”

A pesquisadora diz que não é contra a verticalização da cidade, desde que planejada, e aponta para o grande número de edifícios extremamente altos, com até 45 pavimentos, que existem em regiões que não foram projetadas para esse tipo de construção. Diniz relembra que, em alguns bairros como Setor Bueno, existem ruas com 7,5m, que foram pensadas para unidades unifamiliares, mas que passaram a abrigar inúmeras torres sem qualquer limitação ao número de pavimentos. “Acaba que a concentração de pessoas aumenta 100 vezes do que foi projetado e isso gera um impacto enorme naquele local”, explica.

Foto: Lívia Barbosa | Jornal Opção

Pensar na população

“Essa é a primeira aula do urbanismo. Eu vou projetar um bairro e cidade, então é preciso pensar em qual será a população daquele bairro, da quadra. Qual será a largura das ruas e vias, tudo isso será observado. Quando o plano modifica esse uso, é preciso observar se a estrutura desse local abarca essa mudança. Atualmente em Goiânia, isso é ignorado pelas grandes incorporadoras”, observa Anamaria.

Um dos grandes erros, de acordo com a especialista foi a retirada da escala proporcional que mantinha um limite para a relação entre o tamanho do lote com a ocupação. “Quando isso foi retirado, em 2007, o céu virou o limite. Antes, no uso do solo, o arquiteto tinha que observar que para mil metros de terreno poderia construir 2 mil metros, respeitando os afastamentos. Com a mudança, a partir de 6 metros, é só pagar a outorga onerosa. Esse texto acentua isso, vem para consolidar esse pensamento”, explica.

Ela cita as cidades medievais, que eram escuras e estreitas e fez um paralelo com locais que deixam de receber a incidência de luz, por conta do adensamento verticalizado. Um exemplo disso é a Praça do WR, que foi projetada para ser uma área de lazer com casas em volta, mas que hoje está rodeada por altos prédios. “Não existe mais uma relação entre a praça e as casas, ali não bate sol por conta dos prédios, por fim o local funciona como uma rotatória”, explica.

Bancada das incorporadoras

Segundo a pesquisadora, com a bancada das incorporadoras na Câmara de Goiânia, a tendência é que aumente, cada vez mais, essa ocupação contraditória. “Por isso, usei a tribuna livre [da Câmara], fui lá relembrar a origem da nossa cidade, com cinturões verdes, e que respeitava a escala urbana e humana. Mas, sinceramente, vejo o atual momento com muito pessimismo. Hoje, levamos até cinco vezes mais tempo para fazer um percurso curto, no entanto essas questões não parecem preocupar nossos legisladores”, alerta.

Curiosamente, a visita de Anamaria à Casa Legislativa coincidiu com a aprovação do empréstimo de R$ 780 milhões para a Prefeitura de Goiânia. “Os vereadores aprovaram o maior empréstimos de todos os tempos que vai abranger uma lista de obras e que reforça esse grande equívoco que é o não planejamento urbano”, destaca Diniz, ao citar que, enquanto cidades do mundo inteiro implodem viadutos, a Capital realiza este tipo de obra. “Vendem essa ideia como a grande solução para melhorias no trânsito. Erguem mais terminais, mas cadê o sistema de transporte urbano? Também não vi nada sobre sustentabilidade, ou sequer uma discussão sobre essas grandes obras com a sociedade”, aponta.

“Os vereadores aprovaram o maior empréstimos de todos os tempos que vai abranger uma lista de obras e que reforça esse grande equívoco que é o não planejamento urbano”

A solenidade de entrega do Plano Diretor aos vereadores, feita pelo prefeito Iris Rezende (MDB) no Paço, na avaliação de Anamaria, foi uma espécie de provocação a todos que se importam verdadeiramente com a cidade e com o planejamento urbano. Ela questiona como os legisladores e responsáveis pelo Plano Diretor não sabem quem foi Atílio Correia Lima. “Como alguém que legisla sobre espaço urbano desconhece a história?”, indaga Diniz, ao afirmar que esse documento foi entregue por ela ao presidente da Câmara. “O primeiro plano foi destruído, ele não é reconhecido, o que buscamos hoje é dar uma certidão de nascimento a esse documento histórico”, assinala.

Para Anamaria, o mais importante é esclarecer que essas torres que se espalham desordenadamente pela cidade não significam progresso. “Lógico que não é isso. Temos um espelho de querer parecer com os Estados Unidos e aqueles valores megalomaníacos, mas se olharmos para países mais consolidados democraticamente vamos perceber que as cidades tem uma responsabilidade com a escala humana, com áreas específicas para verticalização e adensamento. “Expansão sem planejamento, de forma desordenada, não pode ser algo visto como progresso inevitável”.

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