Ex-ministro da Cultura acusa Secretário de Governo de Temer de pressioná-lo em benefício próprio

Marcelo Calero afirmou que Geddel Vieira Lima pediu sua interferência em projeto imobiliário em Salvador (BA), no qual ele possuiria apartamento

Segundo Calero, Geddel chegou a ameaçar pedir demissão da presidente do Iphan Nacional, caso não conseguisse a aprovação do empreendimento | Fotos: Marcelo Camargo/ Agência Brasil e Acácio Pinheiro/Minc

Segundo Calero, Geddel chegou a ameaçar pedir demissão da presidente do Iphan Nacional, caso não conseguisse a aprovação do empreendimento | Fotos: Marcelo Camargo/ Agência Brasil e Acácio Pinheiro/Minc

O agora ex-Ministro da Cultura, Marcelo Calero, que pediu demissão nesta sexta-feira (18/11), atribuiu à pressão do também ministro Geddel Vieira Lima (Governo) sua saída do governo. Segundo informações da Folha de São Paulo, Calero acusou Geddel de tê-lo procurado por pelo menos cinco vezes para que ele interferisse na aprovação de um projeto de seu interesse no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Calero explicou que o projeto em questão era do ramo imobiliário, em Salvador (BA), chamado La Vue Ladeira da Barra, que fica próximo a uma área tombada da cidade. O Iphan da Bahia chegou a autorizar a obra, mas a licença acabou cassada no Iphan nacional. De acordo com ele, Geddel teria pelo menos um apartamento no local e achava a decisão da instância superior “absurda”, porque não teria dado ao empreendedor a chance de se defender.

Geddel teria começado a pressioná-lo menos de um mês depois da posse de Caleiro, em maio deste ano. Meses depois, em outubro, o ministro reclamou com ele que o Iphan estava demorando para rever a decisão e pediu que ele interviesse. Ele conta que ficou atônito de um ministro fazer um pedido tão direto em benefício próprio e afirmou ter ficado com medo de Geddel estar sendo gravado e acabar envolvido em irregularidades.

Depois disso, ele procurou a presidente do Iphan, Kária Borgea, e a orientou a emitir parecer técnico, mesmo que isso custasse seu cargo. Um tempo depois, Geddel voltou a entrar em contato dizendo que corriam “rumores” de que seu pedido seria negado e ameaçou pedir ao próprio presidente, Michel Temer (PMDB), que demitisse Kátia.

A pressão teria, então, tomado outra forma: Outros funcionários que, segundo Calero, estavam sendo tão intimidadas contra ele, começaram a pedir que ele mandasse o caso para a Advocacia Geral da União (AGU) que daria um jeito de suspender a decisão do Iphan Nacional. Por fim, Calero manteve a orientação dada à Kátia e o empreendimento foi embargado, com a condição de que o projeto tivesse apenas 13 andares.

Questionado sobre sua decisão de deixar o governo, Calero disse que sua opção foi por não fazer “maracutaia”. “Estou fora da lógica desses caras, não sou político profissional. Não tenho rabo preso. Não estou aqui para fazer maracutaia”, afirmou. Agora, o ex-ministro pretende voltar à carreira de diplomata.

Antes de deixar o governo, Calero contou que recebeu uma ligação de Temer pedindo que ele voltasse atrás, mas recusou. “Entendi que tinha contrariado de maneira muito contundente um interesse máximo de um dos homens fortes do governo e que ninguém iria me apoiar”, lamentou ele.

Outro lado

Em resposta, Geddel admitiu ter conversado com o ex-ministro sobre o projeto, mas negou que tenha tentado influenciar em seu parecer. “Eu tratei com ele do tema, com a transparência que o tema exigia, fazendo ponderações de um assunto que está judicializado. Em nenhum momento houve pressão”, defendeu-se ele.

Sobre a acusação de que ele próprio teria um apartamento na unidade, Geddel afirmou que, na verdade, havia feito uma promessa de compra e venda e que seu interesse era como o de qualquer cidadão. “O que não me tira, me dá legitimidade para levar a ele um problema por conhecer o que estava ocorrendo, estar preocupado, como todo cidadão fica preocupado em uma situação dela. O ministro também negou que tenha ameaçado demitir Kátia.

Repercussão

Com a demissão de Calero, o deputado federal Roberto Freire (PPS-SP) assume o Ministério da Cultura. Agora, a suposta intervenção de Geddel será investigada pela Comissão de Ética Pública da Presidência.

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